
(Vê-se a sala de uma casa abandonada. Ao fundo, uma porta ao centro. Ladeando-a, janelas fechadas e com venezianas de madeira em mau estado de conservação. Pelas venezianas quebradas, vê-se um matagal. Na esquerda alta do palco, há dois colchões, um sobre o outro. No centro do palco, uma velha cadeira com manchas de tinta. Na direita central, uma caixa de papelão e, ao lado, um fogareiro de acampamento com uma panela velha sobre ele. Na lateral direita, há uma porta que dá para um pequeno banheiro, que não fica visível para a platéia.)
(MÃE e FILHA estão sentadas sobre os colchões, imóveis, uma ao lado da outra; a MÃE tem quarenta e cinco anos, cabelos loiros um pouco desgrenhados, um vestido de festa amarrotado e roto, sapatos de salto alto; a FILHA tem não mais que vinte anos, cabelos loiros longos presos atrás da cabeça, uma calça jeans suja de poeira e uma blusa colorida, tamancos de salto alto sujos de barro. Elas olham atentas para o HOMEM sentado na cadeira, o qual está com os cotovelos apoiados nas coxas e o rosto afundado nas mãos, entediado – ele tem vinte e cinco anos, barba por fazer, vestindo uma bermuda, chinelos de borracha e uma camiseta branca promocional de alguma loja ou evento popular bem antigo.)
HOMEM
(erguendo o dorso e olhando para as duas)(secamente) ‘Tão com fome?
(A MÃE balança a cabeça negativamente. O HOMEM olha a FILHA; ela abaixa a cabeça ao cruzar o olhar com o dele. Ele dá de ombros, levanta-se e vai até a caixa de papelão, de onde retira um pacote de bolachas. O HOMEM vai até as duas mulheres)
(A MÃE instintivamente puxa a filha para mais próximo de si, assustada)
HOMEM
(olhando fixamente para a FILHA)(oferecendo o pacote de biscoitos) Vai, pega. (A FILHA olha para a MÃE, que abraça a jovem ainda mais forte. O HOMEM sorri para a FILHA) Vai, pega, na boa.
(A FILHA pega uma bolacha e morde-a, sem tirar os olhos do HOMEM)
(O HOMEM que retorna para a cadeira.)
MÃE
Moço, eu preciso ir ao banheiro…
(O HOMEM levanta-se da cadeira e faz um sinal com a cabeça.)
(A MÃE olha para a filha, vacila por um instante e permanece sentada.)
HOMEM
(rude) Como é, dona? Vai ou não vai?
(A MÃE olha para a FILHA)
(A FILHA faz um sinal afirmativo e acaricia a mão da MÃE.)
(A MÃE levanta-se e caminha até a porta do banheiro, acompanhada pelo HOMEM. Ela olha para a FILHA, entra no banheiro e fecha a porta.)
(O HOMEM abre a porta com um violento chute.)
(A FILHA assusta-se.)
HOMEM
(ríspido) Deixa essa merda aberta! (Ele encosta-se no portal e olha fixamente para a MÃE)
MÃE
(em off)(apreensiva, mas em tom dissimuladamente calmo) Moço, o senhor pode, pelo menos, olhar para o outro lado enquanto eu…?
(O HOMEM vira-se de costas para a MÃE, contrariado. Seu olhar encontra o olhar da FILHA, que não tirara os olhos dele. Eles observam-se. Ouve-se a descarga da privada.)
MÃE
(saindo do banheiro)(secamente) Obrigada.
(A MÃE percebe que a troca de olhares entre a FILHA e o HOMEM. Atemorizada, a MÃE caminha rapidamente para os colchões e senta-se ao lado da FILHA, abraçando-a de modo protetor)
FILHA
(para o HOMEM) Escuta, você não vai libertar a gente não?
MÃE
(assustada) Filha!
HOMEM
Não recebi ordem pra isso.
FILHA
Cara, faz pelo menos cinco dias que a gente está na mesma… Teus comparsas te deixaram aqui e levaram a grana, será que você não percebe?
HOMEM
(seco) Cala a boca.
FILHA
(com raiva) Meu, é óbvio que meu pai já pagou o resgate que vocês pediram e teus companheiros fugiram com o dinheiro. E deixaram você pra trás, otário!
HOMEM
(caminhando em direção à FILHA, com raiva) Cala a porra da tua boca!
MÃE
(desesperada, agarrando o braço da FILHA) Filha, pelo amor de Deus!
(Ele agarra a FILHA pelo queixo e ergue-a. Eles ficam cara a cara, olhando-se por alguns segundos, mas ele fica incomodado com a situação e solta-a.)
FILHA
(firme, mas menos agressivamente) Cara, no fundo você sabe que eu tenho razão… Deixa a gente ir embora e você se livra da cadeia também…
HOMEM
(caminhando em direção à cadeira) Não recebi a ordem ainda pra…
FILHA
(interrompendo-o) Meu, que ordem? Eles te deixaram para trás, fugiram com a grana!… Será que tu não enxerga isso? Se bobear, eles ainda vão ligar pra polícia e te denunciar… Daqui a pouco a polícia chega aqui, liberta a gente e tu fica sem o dinheiro e cumprindo uns anos de cadeia.
HOMEM
(furioso, virando-se para ela) Cala a boca!
MÃE
Moço, desculpa a minha filha… (para a FILHA) Filha, fica calma, senta aqui do meu lado.
FILHA
(para a MÃE, em tom mais baixo) Me deixa, mãe… (para o HOMEM) Vamos entrar num acordo… (ela caminha até o HOMEM, que está em frente a cadeira, imóvel, tenso) Então, o que você acha da minha proposta? Você liberta a gente e eu prometo que a gente não vai te entregar para a polícia. Você sai dessa limpo, a gente sai daqui numa boa e esquece tudo isso…
(O HOMEM olha para ela com desconfiança.)
(A MÃE mergulha o rosto nas mãos e começa a chorar baixinho.)
FILHA
Pensa bem… (A FILHA repousa a mão no ombro do HOMEM; ele fica incomodado com o gesto.) A gente está aqui já faz cinco dias… Cinco dias comendo essa porcaria de comida, sem dormir direito, bebendo essa água com gosto de barro… E eu sei que você também está sofrendo, que aqui também não é legal pra você… (Ela acaricia o braço do HOMEM, que acompanha a mão dela com os olhos) E eu sinto que você não nasceu pra essa vida, cara…
HOMEM
(sacode a cabeça, despertando) Ah, você fala demais, mulher!… (agarra a mão da FILHA com força e puxa-a de encontro ao seu corpo. Eles ficam cara a cara, quase com os lábios colados)
(A FILHA encara-o francamente.)
(A MÃE ergue-se dos colchões e faz menção de ir até eles.)
FILHA
(sensual) As coisas podiam ser tão diferentes entre nós… (Ela acaricia o rosto do HOMEM e ele lentamente solta o braço dela. Eles continuam próximos, na iminência de um beijo.) Pensa nisso… Você solta a gente e daí… cara, uma vida nova… lá fora, tudo pode ser bem diferente…
(O HOMEM coloca a mão na cintura dela, puxando-a para mais perto.)
HOMEM
(sorrindo maliciosamente) Você não tem macho, lôra, é isso?…
(ela sorri, nervosa e excitada)
HOMEM
Ou nunca teve um macho de verdade… assim…(O HOMEM pega a mão da FILHA e coloca-a sobre a calça, na região genital)…assim tipo eu?…
(A FILHA fecha os olhos e suspira.)
HOMEM
Você é muito gostosa… Comigo ‘cê ia curtir cada minuto, lôra…
(A FILHA beija o HOMEM.)
(A MÃE, chocada, vai até eles e tira a FILHA dos braços do HOMEM.)
MÃE
Filha, meu Deus, você enlouqueceu!…
(A FILHA sorri para ele, insinuante.)
(O HOMEM sorri e olha para a FILHA com olhos de desejo. Pausa. Pelas venezianas, dois clarões de faróis de automóvel se aproximando; ouve-se o som distante dos dois carros. O HOMEM percebe o clarão dos faróis e vai até a janela. Assustado, saca de trás das calças um revólver. )
HOMEM
(exasperado) SUJOU! (apontando a arma para as duas) Nem um pio ou eu queimo as duas no ato!
(A MÃE abraça a FILHA, desesperada.)
(A FILHA desfaz-se do abraço da MÃE e caminha até o HOMEM.)
HOMEM
Senta lá! Acabou a palhaçada! Eu já disse que queimo as duas se fizerem qualquer coisa!
(A FILHA vai até ele, que aponta o revólver para ela.)
HOMEM
Senta lá ou eu atiro! Falo sério!
(A FILHA segura o revólver)
(O HOMEM assusta-se com o gesto.)
(A FILHA aproxima-se dele e beija-o na boca, demoradamente.)
(O HOMEM abaixa a arma e corresponde ao beijo, abraçando-a.)
VOZ MASCULINA
(em off) A casa caiu! Vocês estão cercados! Saiam pela porta da frente com as mãos para o alto!
(O HOMEM assusta-se e vai até a cadeira. Usando a cadeira como defesa, aponta a arma para a porta, desesperado.)
FILHA
(caminhando até ele, calmamente) Calma, não tenha medo… (ergue o HOMEM pelo braço) Liberte a minha mãe e eu prometo que te ajudo a fugir…
MÃE
Filha, não faça isso! (desesperada) Moço, eu fico de refém, deixa a minha filha ir embora, por favor!… É só uma menina, moço, pelo amor de Deus!… (agarrando o HOMEM pelo braço) Meu marido paga o que o senhor quiser!…
HOMEM
(para a MÃE, agressivamente)(em tom baixo de voz) Cala a boca, mulher! (segura a MÃE pelo braço e joga-a sobre os colchões) Fica aí e só levanta se eu mandar ou então, leva chumbo!
(A MÃE cai na cama improvisada e começa a chorar.)
VOZ MASCULINA
(em off) É a polícia! Não tem mais saída! Vocês estão cercados!
(O HOMEM olha para a FILHA.)(A FILHA observa seu gesto, apreensiva.)
HOMEM
(para a FILHA) Tá, qual é o teu plano?
FILHA
(vai até o HOMEM e acaricia o rosto dele) A gente liberta a minha mãe pela porta da frente… A polícia vai toda se mobilizar para isso… daí a gente foge, eu e você, pelos fundos…
HOMEM
Eu e você?!?
FILHA
Isso, eu e você, uma outra vida longe daqui… (ela oferece os lábios e o HOMEM sorri.)
(O HOMEM beija-a novamente, os dois envolvem-se em um longo e libidinoso abraço.)
(A MÃE observa a tudo, chocada.)
FILHA
(A FILHA consegue roubar o revólver da mão do HOMEM e, desfazendo-se do abraço, aponta a arma para ele) Fica calmo senão eu disparo…
HOMEM
(furioso) Sua puta!
FILHA
Mãe, levanta daí. (A MÃE levanta-se, assustada)
HOMEM
(nervoso) Vai me matar agora, sua vaca?
(A FILHA aproxima-se dele.)
FILHA
Mãe, você vai abrir a porta e sair calmamente com as mãos para o alto… Vai…
(A MÃE obedece a FILHA. Pela porta aberta, vê-se um clarão de faróis direcionados à entrada da casa; a MÃE sai pela porta com as mãos para o alto.)
HOMEM
(agressivo) Se vai me matar, sua puta, me mata logo!
(A FILHA aponta para o HOMEM a porta de entrada.)
(O HOMEM vai até a porta com as mãos para o alto.)
(A FILHA pega o HOMEM por trás, pelo pescoço, e encosta a arma na têmpora direita do rapaz. Depois, dá um beijo em sua nuca. Ela sai com ele porta afora.)
FILHA
(para o rapaz, carinhosa) Não se preocupe, cara, vai dar tudo certo, eu vou te livrar dessa… (firme) Ninguém atira, senão eu mato ele!… Ninguém atira!… (As luzes apagam-se lentamente)
(Robertson Frizero Barros)