Wednesday, March 19, 2008

Me, Myself & I

Escrever sobre si mesmo não é um problema - quando se é um Montaigne...Sei que deve ser difícil manter uma coluna semanal em um jornal de grande circulação, sobretudo quando o material é algo tão pouco positivista quanto a literatura.  Mas os cronistas brasileiros - com suas boas, mas raras, exceções - parecem ter embarcado em uma triste egotrip sem volta na qual suas crônicas exercem o papel de diário de bordo.

Aqui no Rio Grande do Sul, estado que ainda se ressente de não ter jornais diários com o peso jornalístico das grandes metrópoles mundiais, um grupo pequeno de cronistas mantém-se no domínio dos espaços de publicação desse tipo de texto que é tão brasileiro, tão nosso, e que desde os áureos tempos de João do Rio e Stanislau Ponte Preta serviu-nos como registro paralelo dos acontecimentos do cotidiano, uma espécie de termômetro bem-humorado do zeitgeist tupiniquim.  Infelizmente, esses cronistas parecem não conseguir mais se desconectar de sua própria realidade.  Seus textos são quase invariavelmente narrativas desinteressantes de seus problemas existenciais ou das pequenas agruras pelas quais passam entre o quarto de dormir e a cadeira da redação do jornal. 

Há poucos dias, uma das mais famosas cronistas do estado contava no jornal de domingo sobre suas dificuldades cotidianas causadas por sua mente esquecida das coisas… Outro, ainda menos inspirado, falou de como se sentiu incomodado em um engarrafamento em Porto Alegre. Tudo sem diferenças de olhar para o que qualquer um escreveria se convocado a expor sua vida em um jornal. Decerto a experiência de um ser humano pode ser de interesse universal - e o termo crônica surgiu para se referir aos relatos de viajantes europeus mundo afora, ou fora do mundo que eles conheciam e imaginavam terminar em um abismo alí nas águas do Atlântico.  Mas mesmo esses relatos pessoais eram de importância crucial para um mundo ocidental que descobria não ser o único cadinho de vida no planeta.  O esquecimento da autora - que ela levianamente chamou de Alzheimer, uma doença muito mais terrível que sua mera desatenção das coisas ao redor - não se encaixava nisso, era apenas um olhar para o próprio umbigo.  E uma mirada boba, sem nenhuma grande sacada criativa. Nem todos são Montaigne e conseguem fazer de suas percepções cotidianas algo de real valor universal.

Resta a saudade dos tempos em que o cronista era, antes de tudo, um literato, um escritor que direcionava seus esforços criativos para o cotidiano ao invés de escrever sobre atemporalidades.  E era justamente isso que o tornava atemporal.  Os cronistas da atualidade - e há exceções louváveis, por sorte, mas que ainda estão distantes de nossos jornais - parecem espelhar, no fundo, os nossos tempos cada vez mais hedonistas e ególatras.  Mas não custa nada torcer para que eles erguessem um pouco a cabeça e olhassem para o mundo ao redor.  Talvez isso fizesse com que eles descobrissem que há coisas mais interessantes para os leitores que a vida exposta do cronista em praça pública. 

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Wednesday, July 18, 2007

Milhões de vítimas

Parentes das vítimas choram no saguão do Aeroporto Salgado FilhoO controle remoto facilitou nossas vidas mas também tornou mais fácil nossa alienação. No mesmo instante em que as primeiras notícias sobre o acidente envolvendo o vôo JJ 3054 da TAM Linhas Aéreas do dia 17 de julho de 2007, no qual mais de cento e oitenta perderam suas vidas, os canais de televisão exibiam música, entrega de medalhas no PAN do Rio de Janeiro, programas de auto-ajuda, televendas, novelas. Contudo, ainda que seja fácil mudar de canal para evitar o nó na garganta ao conhecer mais e mais detalhes sobre o episódio, a repercussão de tragédias como essa nunca se estancam com nossas tentativas de ignorar os fatos para não sofrer em demasia.

Somos todos vítimas. Residindo em Porto Alegre, tendo parentes aqui ou em São Paulo, sendo passageiro freqüente ou esporádico do transporte aéreo no Brasil, todos nós fomos de alguma forma afetados pelas conseqüências funestas do que, à primeira vista, parece ser mais um ato de negligência do longo carrossel de fracassos e erros ao qual se reduziu em pouco mais de dez meses o sistema aéreo brasileiro.

Uma pergunta ainda permanece no ar: quais serão as ações tomadas pelas autoridades brasileiras a partir de mais este terrível acidente aéreo?  Em 2006, uma centena e meia de pessoas perderam suas vidas em um choque de aeronaves sobre o Mato Grosso e pouco ou nada se fez desde então.  O que se viu a partir da tragédia do vôo da Gol foi uma sucessão de incidentes que mostraram o quão frágeis são nosso sistema de controle aéreo, nosso órgão regulador, nossas empresas aéreas.  Qual será a conseqüência das cento e oitenta mortes do acidente com o vôo JJ 3054 da TAM, Porto Alegre-São Paulo, funestamente terminado ao fim da pista principal do Aeroporto de Congonhas - a qual havia sido reaberta há poucos dias, sob a autorização da INFRAERO, que reafirma haver condições de uso para pousos e decolagens mesmo depois da tragédia anunciada.

Será que os nossos governantes irão esperar outras mortes, outros acidentes, outras perdas irreparáveis para, enfim, tomar atitudes concretas para solucionar o problema ao invés de se esconder por trás das desculpas ensaiadas de seus porta-vozes?

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Wednesday, June 6, 2007

O futuro e os protestos

Patrick DixonPatrick Dixon é o que os norte-americanos chamam de business thinker, ou seja, um pensador de negócios, um estudioso das tendências de mercado.  Em outras palavras, Dixon é uma espécie de visionário profissional cuja empresa de consultoria, a Global Change, presta serviços a corporações do porte de uma IBM, Tetrapack, Google, Fedex, BBC e Roche, entre as mais de quinhentas empresas de sua cartela de clientes.  Formado em medicina pelo conceituado King’s College de Londres, ele é o fundador da ACET - Aids Care, Education and Training Agency - uma das principais entidades internacionais no combate à AIDS.   

Em 05 de junho de 2007, Patrick Dixon veio à Porto Alegre apresentar “A Sabedoria do Futuro: as seis faces da mudança global” (Futurewise: the six faces of global change), palestra baseada no livro homônimo lançado em 1998 pela Harper Collins.  Na obra, Dixon faz uma analogia da situação global com um cubo, cujas seis faces não podem ser enxergadas ao mesmo tempo - por isso, segundo o autor, é preciso que “continuemos girando o cubo”, sob o risco de perdermos para o que há de vir.  “Ou tomamos as rédeas do futuro ou o futuro tomará as nossas rédeas”, diz o autor na introdução de seu livro.

A palestra, realizada no Salão de Atos da UFRGS, ocorreu no mesmo dia em que alunos daquela universidade federal ocuparam o prédio da Reitoria em um ato de protesto.  O local da invasão fica em frente ao prédio onde é realizado o ciclo de palestras “Fronteiras do Pensamento”, patrocinado pela COPESUL, um fórum de altos estudos de cuja programação a palestra de Dixon fazia parte.  Sob o risco de os estudantes impedirem a entrada dos participantes do evento, o próprio palestrante foi falar com os líderes do movimento, em busca de um acordo.  Dixon ofereceu aos estudantes a oportunidade de usar a tribuna do “Fronteiras do Pensamento” nos minutos finais de sua palestra para explicar aos presentes os objetivos do protesto e suas reivindicações.  Para tal, perguntou aos estudantes qual era a razão do protesto, o que queriam com a ocupação ao prédio da Reitoria.  Nenhum dos líderes do protesto souberam responder; reuniram-se e, trinta minutos depois, comunicaram a Dixon que agradeciam a oportunidade mas declinavam o convite, pois não sabiam ao certo definir em poucas palavras a pauta de reivindicações que os levaram a iniciar o protesto que ameaçava impedir a realização da palestra do pensador britânico.

É curioso analisar o ocorrido - narrado pelo próprio palestrante - pelo prisma das “seis faces do cubo” de Dixon.  O mundo atual, em sua visão, segue em direção ao futuro apresentando seis aspectos inegáveis: o rápido - uma sensação de hiper-aceleração emprestada pelos avanços tecnológicos e pelo contínuo surgimento de novos meios (e objetos) de consumo -; o urbano - as variações demográficas e sociais, cujo exemplo maior é o envelhecimento das populações urbanas -; o tribal - paradoxalmente, a globalização fez exacerbar-se o sentimento de tribo, que pode girar em torno de uma nacionalidade, de um hobby ou mesmo de um produto -; o universal - não só as corporações tornaram-se globais, mas também o consumo e as relações humanas -; o radical - com o fim da dicotomia esquerda versus direita, houve o enfraquecimento dos governos e a política passou a ser mais guiada por interesses corporativos e de grupos de pressão -; e o ético -  as corporações passaram a usar os valores pessoais, a motivação e a espiritualidade para “exercer o fascínio” sobre o consumidor.  No evento dos estudantes revoltados que não conseguiram expressar seus motivos para a ação radical, notam-se os sinais desse futuro que está a se construir: os mecanismos de pressão pelas vias do radicalismo, que não sabe trabalhar quando convocado à negociação e ao debate; o tribalismo da decisão de invadir o prédio da Reitoria - us estudantes declararam em entrevista a um canal de televisão local que o movimento era um ato de solidariedade aos alunos da USP -; o universalismo desenhado na decisão de reproduzir no Rio Grande do Sul, em uma universidade federal, as mesmas ações desencadeadas em São Paulo, em uma universidade estadual, as quais teriam sido motivadas por uma questão regional, de um decreto do governador daquele estado; as distorções éticas que levam estudantes universitários a invadir a reitoria de sua universidade motivados por uma pauta de reivindicações a qual sequer conseguem nominar quando solicitados.

Universitários improvisaram acampamento e cozinharam na reitoria - em repúdio a quê? A metáfora do cubo de Dixon mostra-se perfeita, pois ao homem atual parece-lhe impossível ver os diversos lados da realidade em uma única mirada.  Ao ser tribal e pensar tão-somente em seus interesses de grupo, de categoria, de corporação, nega-se os valores éticos de universalidade de direitos.  Ao assumir o radicalismo como única forma de solução dos problemas sociais, lança-se por terra as ferramentas da democracia como o único caminho viável de convivência construído pelo Ocidente ao longo de tantos séculos.  Ao universalizar um problema que é local e compreensível apenas em determinado contexto, corre-se o risco de gritar no vazio, de lutar pelo ar que se respira, sem nenhuma consistência lógica entre ação e desejo.  Na USP, os alunos protestam contra uma lei estadual que prevê a fiscalização do governo sobre as verbas gastas por aquela universidade; em outras palavras, os mesmos universitários que gritam contra os escândalos de corrupção e desvio de dinheiro público em nível federal, defendem que a universidade pública não tenha qualquer tipo de verificação em relação aos gastos da verba pública nela investida.  No Rio Grande do Sul, os estudantes da UFRGS fazem, em conjunto com os universitários da UFPel, invasões nas reitorias, em cujos prédios armaram barracas e cozinhas improvisadas, reclamando, entre outras coisas, que a Reforma Universitária do Governo Federal condicionaria “a pesquisa aos interesses do empresariado” - ou seja, temem que as pesquisas sejam direcionadas a uma aplicação prática de mercado, que gere empregos e tecnologia para o país.  Universalizam seus protestos, por um lado, e por outro tribalizam sua pauta de reivindicações; as contradições tornam-se, assim, inevitáveis. 

Ou será que a impossibilidade de revelar as razões ocultas de tais protestos é o que impede os estudantes de usar um fórum privilegiado como o do “Fronteiras do Pensamento” para expor suas reivindicações?  Como sói acontecer, é uma face do cubo que dificilmente se vê, mas que se percebe ao compreender a lógica perversa de nosso tempo.

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Saturday, November 25, 2006

Simulacro

Fala-se tanto em impunidade, muito se discute (e se discursa) sobre a violência e a falta de segurança, exageradamente se escrevem leis nesse nosso país, mas a sensação que se tem ao acompanhar com mais vagar o noticiário é que o Brasil é um país que desistiu de si mesmo e decidiu apenas fingir que é um país para não passar vergonha na comunidade internacional.  De certo modo, o país em que vivemos - tomando-se esse todo imaginário chamado Brasil e buscando uma generalização que nos permita vê-lo como uma unidade nacional possível - é um simulacro de país que faz lembrar aquelas caricatas famílias aristocráticas decadentes da ficção, que passam fome mas mantém as cortinas de brocado na parede e gastam o pouco que tem na pintura da fachada da casa apenas para garantir seu espaço na vizinhança e, quem sabe, uns bons convites para as festas da comunidade.

Um exemplo?  Há uma semana comenta-se, em Porto Alegre, sobre um crime que chocou a sociedade local - a dupla morte de uma menina de treze anos e seu professor de piano, de trinta e sete anos, em um quarto de motel localizado em uma das principais vias de acesso à capital.  De início, sugeriu-se a existência de um pacto de morte, boato baseado na existência de supostas cartas de despedida do casal aos pais da menina.  Pelas últimas declarações da polícia, configura-se mais forte a possibilidade de um assassinato seguido de suicídio, ainda que tenham sido encontradas duas armas de fogo no quarto e as primeiras impressões tenham sido a de um duplo suicídio.

A partir do doloroso fato, sobre o qual sempre recairão os questionamentos sobre as razões e a possibilidade de que ele pudesse ter sido evitado, seria interessante ver de que formas os sinais de que vivemos em um país-simulacro transparecem dessa tragédia irreversível.  A primeira informação que surpreeende é a presença de uma adolescente de treze anos de idade acompanhada de um homem adulto de trinta e sete anos em um quarto de motel - tipo de estabelecimento que no Brasil é sinônimo de lugar de encontros sexuais.  Pela legislação brasileira, a entrada de menores em tais locais é vedada, cabendo ao próprio estabelecimento coibir qualquer tentativa de adultos que queiram levar menores para um de seus quartos.  Desnecessário dizer que, em uma criança de treze anos, a questão de a menor estar ali por livre e espontânea vontade é irrelevante e não cabe ao motel fazer julgamentos de valor - presume-se que uma menor de idade não tenha discernimento para saber se é correto estar em um motel com um adulto e, além disso, há que se perguntar se a menor que declare concordância com o fato não estará sendo coibida a isso, ou se não se trata até mesmo de uma situação de prostituição infantil ou de violência sexual pura e simples.  Objeções a essa regra simples - e prevista em lei - devem ser vistas não como omissão, mas como cumplicidade a crimes como pedofilia, exploração sexual de menores e outros a estes correlatos.  Mas não há, por parte desse e de outros tantos motéis pelo Brasil, preocupação alguma com a vida alheia - sendo o preço estipulado pelo quarto pago corretamente, e não havendo nenhum prejuízo material ou de imagem para o estabelecimento, o que ocorre entre suas paredes parece não lhes interessar.

O que revolta, contudo, é que o Estado não se importe.  Por mais de sete dias, o motel no qual ocorreram as fatídicas mortes continuou funcionando normalmente, inclusive mantendo em canais abertos de televisão sua propaganda na qual oferece “suítes com espaço para festas com até quarenta pessoas”.  Nenhuma providência foi tomada pela polícia, pelas autoridades do Judiciário ou mesmo pelas emissoras de televisão que veiculam tal publicidade para punir o motel por ter permitido a entrada de uma menor acompanhada por um homem adulto.  Em 24 de novembro de 2006 os jornais noticiaram que o tal motel será interditado; mas, que nos pasmemos todos, a razão da interdição é que a Prefeitura de Porto Alegre descobriu que o motel em questão não tinha alvará de funcionamento nem o habite-se!  Onde estava a fiscalização da prefeitura que apenas agora, depois de configurada uma tragédia que destruiu pelo menos duas famílias - o professor de piano, recém-separado, deixou um filho; a menina, no início da vida, deixou uma família e um futuro inteiro que sequer começara a ser construído -, descobriu que estava em situação irregular um estabelecimento de fácil acesso, de grande visibilidade, que existe há anos em uma das principais avenidas da cidade, acesso à Universidade Federal do Rio Grande do Sul e ao município de Viamão, caminho diário de milhares de pessoas?

As falhas de nosso país-simulacro não terminam nesse imbroglio tragicômico: dois dias depois do sepultamento da menina, a Polícia Civil do RS teve que solicitar a Justiça autorização para exumar o corpo da jovem - a perícia não havia feito exames simples, como a constataçõa se existia ou não pólvora nas mãos da vítima, o que impediu o prosseguimento das investigações e a confirmação ou não da hipótese de duplo suicídio ou mesmo da autoria dos disparos. 

Em meio a tudo isso, famílias que sofrem por conta de um país que finge ter leis, que finge cumprí-las, que finge punir culpados - e nós todos, que fingimos nos importar mas ficamos à espera de que alguém resolva isso por nós.

 

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Monday, April 17, 2006

Caingangues, não

Há um costume dessa época de Páscoa que acabamos de viver e que, como carioca, eu vim a conhecer mais de perto aqui no Rio Grande do Sul: o de montar cestas de Páscoa para as crianças, esconder ovos de Páscoa pela casa ou pelo jardim, montar ninhos para o mítico Coelhinho da Páscoa. Alguns devem conhecer tais costumes de outras partes do país mas, por ser eu urbano e de uma família de moderadas posses, jamais tive essa experiência das cestinhas de Páscoa em minha infância.

Tal costume gerou, no Rio Grande do Sul, todo um comércio peculiar relacionado a essa festa em particular, com a venda de cestas de palha e vime, ovos de chocolate e doces diversos, palha para forrar as cestas e papéis especiais para embrulhá-la, enfim, toda uma gama de itens que são bastante procurados pela população. E no afã de ganhar algum dinheiro com essa procura tão sazonal por cestas, os índios caingangues, cujo artesanato tradicional envolve a confecção de cestas artesanais, deixam suas reservas localizadas em cidades como Nonoai e Ronda Alta e vêm para a capital do estado, instalando-se em lugares públicos de grande afluência de pessoas, como os parques Farroupilha e Moinhos de Vento e, com maior presença, a Praça da Alfândega, tradicional ponto de afluência de transeuntes no centro de Porto Alegre, a qual é cortada pela mais movimentada das ruas do bairro, a Rua dos Andradas.

A presença dos índios caingangues na Praça da Alfândega às vésperas da Páscoa já se tornou algo comum e que pouco transtorno causa aos transeuntes - até porque é pequeno seu período de permanência por alí. Contudo, este ano, a Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio (SMIC) de Porto Alegre resolveu coibir sua permanência naquele ponto turístico da cidade porque os índios, “como não requisitaram autorização”, passaram a ser considerados como irregulares e a partir de quarta-feira começaram a ser pressionados a suspender suas vendas. Uma autoridade da SMIC, o diretor de fiscalização cujo sugestivo nome é Léo Bulling, chegou a declarar que a fiscalização seria “intensificada para coibir a permanência deles na praça” e que a SMIC não permitiria “que os produtos [cestas] sejam espalhados pelo chão”.

Em uma primeira vista d’olhos, sobretudo aos que não conhecem Porto Alegre, a Rua dos Andradas e a Praça da Alfândega, parece justo que a SMIC exerça seu poder de fiscalização para impedir qualquer comércio ilegal, doa a quem doer, seja o infrator índio ou homem branco. Contudo, o que causa espanto é que aquele órgão municipal venha a público declarar guerra a um grupo de índios de notória carência social enquanto dezenas e dezenas de outros ambulantes, vendendo produtos bem menos inocentes que as cestas de palha dos caingangues, invadem todos os dias, após as seis da tarde, e todos os fins-de-semana, depois do meio-dia de sábado, o calçadão da mesma Rua dos Andradas a ponto de impedirem o trânsito tranqüilo dos transeuntes. Seus produtos - que vão dos CDs e DVDs piratas (incluindo filmes pornográficos cujas capas ficam expostas a quem quer que por ali passe) às roupas de grifes pirateadas, de produtos eletrônicos contrabandeados a livros novos de origem questionável - ficam expostos em todo e qualquer lugar - na frente das lojas ainda abertas, no chão, na entrada e saída das ruas laterais ao calçadão, no meio e nos cantos da Rua dos Andradas - sem que haja qualquer ação coercitiva da fiscalização da SMIC ou da própria Brigada Militar. E isso ocorre durante todo o ano, intensificando-se horrivelmente em épocas festivas - posso até imaginar o que será aquilo às vésperas da Copa do Mundo de Futebol, um período que é o paraíso para os camelôs de todo o país.

Mas a SMIC estava preocupada com a cestaria caingangue. E por que? A concorrência para aquele produto só era encontrada nas barracas de artesanato legalizadas pela SMIC, que as conta em número de treze apenas; mas quem por ali transita ou, como eu, reside nas proximidades da Praça da Alfândega sabe que é bem mais que este o número de expositores regulares por ali, e bem mais que simples artesanato o que eles expõem - com destaque negativo para os objetos e as camisetas com estampas de apologia às drogas ilícitas -, já estando bastante desvirtuada a proposta original daquelas barracas. Mas como os índios não têm quem os defenda, enfim…

Oxalá seja exagero de minha parte na crítica à atuação do órgão fiscalizatório da Prefeitura de Porto Alegre… quem sabe essa ação descabida contra os índios caingangues seja o prenúncio de uma ação mais enérgica que eles irão aplicar a partir de agora em todos os ambulantes irregulares, limpando de uma vez por todas a Rua dos Andradas para os transeuntes? Cabe-nos esperar para ver o que acontecerá nos próximos dias. Ao lembrar que estamos em ano eleitoral e que em quase dois anos de nova gestão a Prefeitura nada fez de efetivo para dirimir o problema, não espero por grandes surpresas de minha parte: tudo permanecerá como antes - apenas sem os índios fazedores de cestas.

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Wednesday, November 30, 2005

Como nascem os preconceitos?

Ontem, 29 de novembro de 2005, estive em uma loja de roupas de um conjunto comercial na cidade-satélite de Taguatinga, Distrito Federal, e ouvi um discurso no mínimo insólito, mas que me fez refletir sobre os perigos de um país que não lê e não se educa. A atendente, ao perceber meu sotaque diferente da mistura insólita que forma o falar brasiliense, perguntou se eu era “do Sul” - uma espécie de lugar imaginário no Brasil que, em termos geográficos, pode tanto abranger os três estados da Região Sul como também São Paulo, Minas Gerais ou o que mais estiver abaixo das fronteiras do conhecimento do interlocutor.  Respondi que era de Porto Alegre e perguntei, para ser cortês, se ela já conhecia o estado em que vivo, Rio Grande do Sul.  A reação dela foi espantosa:

- Cruzes, Deus me livre!

Perguntei, surpreso, por que de sua reação, já que no imaginário brasileiro o Sul do país é sempre visto como destino dos sonhos para uma visita turística, por sua forte influência de imigração européia.

Ah, o meu sonho é conhecer o Sul, mas tenho medo de ir para lá e ser morta - disse a moça, uma bela morena de traços indígenas e tez não muito mais escura que a minha - o senhor sabe como é, com essa minha cor, eles vão querer me matar lá no Sul!

Por alguma razão, a moça de Taguatinga associa o Sul do Brasil à violência racial. (…) Oxalá a impressão da moça de Taguatinga tenha sido diminuida por minha tentativa de convencê-la de que no Rio Grande do Sul não exterminamos negros e mestiços. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Ontem, 29 de novembro de 2005, estive em uma loja de roupas de um conjunto comercial na cidade-satélite de Taguatinga, Distrito Federal, e ouvi um discurso no mínimo insólito, mas que me fez refletir sobre os perigos de um país que não lê e não se educa.

A atendente, ao perceber meu sotaque diferente da mistura insólita que forma o falar brasiliense, perguntou se eu era “do Sul” - uma espécie de lugar imaginário no Brasil que, em termos geográficos, pode tanto abranger os três estados da Região Sul como também São Paulo, Minas Gerais ou o que mais estiver abaixo das fronteiras do conhecimento do interlocutor.  Respondi que era de Porto Alegre e perguntei, para ser cortês, se ela já conhecia o estado em que vivo, Rio Grande do Sul.  A reação dela foi espantosa:

- Cruzes, Deus me livre!

Perguntei, surpreso, por que de sua reação, já que no imaginário brasileiro o Sul do país é sempre visto como destino dos sonhos para uma visita turística, por sua forte influência de imigração européia.

Ah, o meu sonho é conhecer o Sul, mas tenho medo de ir para lá e ser morta - disse a moça, uma bela morena de traços indígenas e tez não muito mais escura que a minha - o senhor sabe como é, com essa minha cor, eles vão querer me matar lá no Sul!

Por alguma razão, a moça de Taguatinga associa o Sul do Brasil à violência racial.  Dos anos todos que vivo por lá, não me lembro de nenhum caso mais marcante de ataques a negros que pudesse justificar tal medo sincero - houve situações recentes de agressão a jovens judeus e punks por parte de outros jovens, estes identificados a retrógrados movimentos neonazistas, mas infelizmente tais fatos não são exclusividade do Rio Grande do Sul, e tem raízes mais profundas que apenas o preconceito de cor.    Mas entendo a associação viciosa que a lojista brasiliense faz entre o Sul do país, a imigração alemã e italiana e o preconceito racial. 

Em verdade, a falta de educação e leitura em um país continental como o nosso, no qual as regiões sabem de sua co-existência mas pouco conhecem umas das outras, faz com que se criem esses mitos grotescos de que “o Sul é racista e violento”, o “Rio de Janeiro é um campo de guerra”, “a Bahia é terra de preguiçosos” ou de que “o Nordestino é que destrói o crescimento brasileiro” - idéias que pouco ou nada contém de verdade, mas que impregnam nosso imaginário de país continental

Não será assim que nascem os preconceitos?  Quando tratamos desta ou daquela origem com desdém ou chacota, não estaremos colaborando com a construção de idéias tão estapafúrdias quanto estas?  Oxalá a impressão da moça de Taguatinga tenha sido diminuida por minha tentativa de convencê-la de que no Rio Grande do Sul não exterminamos negros e mestiços.

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Thursday, October 27, 2005

Javanês

“A convite da redação, escrevi no Jornal do Comércio, um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna…
- Como, se tu nada sabias? - interrompeu-me o atento Castro.
- Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografia, e depois citei a mais não poder.
- E nunca duvidaram? - perguntou-me ainda o meu amigo.
- Nunca.”
(Lima Barreto [1881-1922] in O Homem que Sabia Javanês, do livro ‘Clara dos Anjos e Outras Histórias’)

Parece-me que a crise que observamos em algumas redações de jornais aqui do Rio Grande do Sul é antiga no Brasil, coisa que Lima Barreto já mencionava em tom de opereta antes ainda de nosso primeiro centenário como país (razoavelmente) independente.

Não são poucas as vezes que encontramos, hoje, ao ler as páginas dos diários matinais - foi-se o tempo em que havia jonais impressos nas diferentes frações do dia, coisas da modernidade e da velocidade das informações -, desde informações inverídicas ou erroneamente reportadas até erros crassos de uso da língua portuguesa, sem falar no expediente fácil das citações sem fim, do costurar de clichês e do desfiar de idéias filosóficas de livro de auto-ajuda que repousam entre os nossos cronistas - um meio no qual ainda se pode encontrar bons redatores, ou o qual ao menos se esperava não ser atingido pelo FEBEAPÁ (Festival de Besteira que Assola o País) imaginado por Stanislaw Ponte Preta… (…) (LEIA TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“A convite da redação, escrevi no Jornal do Comércio, um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna…
- Como, se tu nada sabias? - interrompeu-me o atento Castro.
- Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografia, e depois citei a mais não poder.
- E nunca duvidaram? - perguntou-me ainda o meu amigo.
- Nunca.”
(Lima Barreto [1881-1922] in O Homem que Sabia Javanês, do livro ‘Clara dos Anjos e Outras Histórias’)

Parece-me que a crise que observamos em algumas redações de jornais aqui do Rio Grande do Sul é antiga no Brasil, coisa que Lima Barreto já mencionava em tom de opereta antes ainda de nosso primeiro centenário como país (razoavelmente) independente.

Não são poucas as vezes que encontramos, hoje, ao ler as páginas dos diários matinais - foi-se o tempo em que havia jonais impressos nas diferentes frações do dia, coisas da modernidade e da velocidade das informações -, desde informações inverídicas ou erroneamente reportadas até erros crassos de uso da língua portuguesa, sem falar no expediente fácil das citações sem fim, do costurar de clichês e do desfiar de idéias filosóficas de livro de auto-ajuda que repousam entre os nossos cronistas - um meio no qual ainda se pode encontrar bons redatores, ou o qual ao menos se esperava não ser atingido pelo FEBEAPÁ (Festival de Besteira que Assola o País) imaginado por Stanislaw Ponte Preta…

Não quero ser injusto, tampouco desejo que estas palavras soem com um tom de revolta que não quero, em verdade, aqui imprimir. Meu tom é mais de lamento, ou de um muxoxo triste, de quem atesta diariamente a falta que está fazendo a leitura aos nossos estudantes de Comunicação Social.

E falo na condição humilde de quem lê, diariamente, todos os jornais de publicação diária em Porto Alegre, por força de ofício. Não tenho conhecimento técnico do Jornalismo e talvez minha situação de leigo faça com que eu cometa injustiça, mas coloco aqui minhas idéias em busca de pensarmos juntos onde está o cerne do problema

Como escrevi há pouco, atualmente os jornais estão à disposição sempre pelas manhãs, e por uma razão simples há esta diferença do passado: hoje, a informação chega à população por dezenas de outras formas mais rápidas (e vívidas) que o jornal - falo dos endereços mais sérios da rede mundial de computadores, das rádios que evoluiram com o tempo e da televisão que ainda se preocupa em informar. Esperava-se que com tal situação o jornal se tornasse - por ser palavra escrita e impressa, e por isso difícil de consertar depois do estrago feito (diferentemente da Internet) - uma espécie de resumo contextualizado e repensado das notícias do dia anterior. O jornal impresso oferece ao jornalista a bênção do relativo prazo para a reflexão antes da publicação, enquanto o mundo cibernético pede urgência e oportunidade de divulgação. Mas o que vemos é um certo empobrecimento dos jornais e, o que é pior, uma aproximação perigosa com o tipo de redação que a era do e-mail insiste em implementar em nossas cabeças…

Há jornais no Rio Grande do Sul que trabalham, quase que exclusivamente, com o material que lhes enviam as agências de notícia das quais são assinantes - e isso não é nenhuma informação confidencial extraída dos lábios de algum funcionário: basta observar os rodapés dos textos, as referências a outras fontes… Mas não há mal absoluto nisso, ou melhor, não haveria se ao menos o editor-chefe ou alguém por ele incumbido lesse antes o jornal e verificasse as possíveis anomalias. Não é raro nesses jornais encontrar notícias repetidas, ou seja, a mesma notícia é publicada mais de uma vez no mesmo jornal, em seções distintas. Também é algo comum encontrar a mesma notícia impressa em dois jornais e escrita com a mesmíssima redação, o que nos leva a crer que não há qualquer trabalho de depuração da notícia que chega de tais fontes, as agências de notícias, que são consideradas pelos jornais como emanadores da verdade dignos de que suas informações sejam estampadas nos jornais sem nenhuma reflexão, sem nenhum conceito editorial a ela incluído. E não falo de deturpar as notícias com seu viés ideológico, mas depurá-la com o cruzamento com outras informações, de outras fontes. Escrever notícia não é só construir um infográfico vistoso, colocar uns dados de enciclopédia em uma caixa de texto e sair citando e citando e citando…há que pensar no que se escreve, e trazer ao leitor o novo em meio ao que ele já sabe e acompanha no cotidiano.

Duro mesmo é constatar os erros terríveis de tradução, frutos da pressa mesma em fechar a edição do jornal ou do descuido das redações em entregar a tarefa de transpor o texto para o português nas mãos de quem não tem formação específica para isso. Um exemplo? Há alguns meses um jornal de Porto Alegre noticiou isto, em letras graúdas: Enxame de crocodilos invade cidade da Flórida (sic!). Confesso que pesquisei antes de reproduzir esta manchete, pois fiquei receoso de estar cometendo uma injustiça. Mas não, não estava - enxame é mesmo coisa de abelhas e vespas, jamais de crocodilos… Pasmem: cerca de uma semana depois, um outro grande jornal da cidade publicou um ataque de um enxame de caranguejos em uma praia do Nordeste… Será que isso é fruto da tal competição predatória, fruto da globalização, de que tanto reclamam uns revolucionários tardios aqui de Porto Alegre? Se os jornais insistirem nessa disputa de erros crassos, quem sairá perdendo mesmo somos nós, leitores. Oxalá isso não se torne de praxe…

Justiça seja feita: há ainda no Rio Grande do Sul algumas tentativas de jornalismo investigativo sérias, artigos de autoridades competentes em sua área de atuação, idéias originais de colunistas preocupados com a informação, gente cujos textos eu espero, algo ansioso, todas as semanas - mas são poucos, e estes bons exemplos correm o risco de estar a se perder no panorama das notícias mal redigidas e mal pesquisadas, dos textos de entretenimento que nada acrescentam à vida do leitor, das críticas tendenciosas e modernosas dos críticos que tudo crêem saber e nada sabem, das colunas de auto-ajuda que mais desserviço prestam ao imbroglio geral. Mas tudo isso vem agora emoldurado por belas e enormes fotografias coloridas, e nossa geração de brasileiros que não lêem, cada vez mais acostumados a voltar seus olhos para as imagens e não para o sentido das coisas, acha tudo normal, talvez até melhor que antes, às vezes até bonito - olhando o desfile de notícias sem conclusão e fotos sem razão de ser com a mesma admiração silenciosa que o Barão de Jacuecanga ouvia as aulas de javanês forjado, mas retumbante, do professor Castelo, o homem que sabia javanês…

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Wednesday, October 26, 2005

Jogo duro

“Enquanto Martinha falava, Vô Chico apanhou um livro na estante e abriu-o numa página onde se viam fotografias de vários tipos de macaco. Tinha macaco de pêlo cinza, vermelho, preto, amarelo, branco, marrom. Tinha macaco de nariz comprido, de nariz achatado, de rabo comprido, sem rabo…
- Olhem aqui estes macacos. A maioria não tem os lábios fininhos? Que eu saiba, a maioria dos negros tem lábios grossos, não tem? E o que vocês me dizem do pêlo? Eu nunca vi preto peludo; agora, branco, tem uns que parece que estão com casaco, de tanto pêlo que eles têm!
- Eu tenho um tio que é assim - exclamou Laura. - Quando ele tira a camisa, a gente brinca com ele, diz que parece macaco. Ele sai correndo atrás da gente, andando que nem macaco. É um barato! - Ficou pensativa um momento e continuou: - Mas acho que quando chamam um negro de macaco é pra ofender, não para brincar.

(trecho de Jogo Duro, livro infanto-juvenil de Lia Zatz
- Belo Horizonte: Editora Dimensão, 1996)

Parece significativo que, em uma mesma semana, dois fatos noticiados por nossos jornais remetam a uma reflexão que todo brasileiro deveria fazer sem medo de se surpreender com suas próprias convicções. Falo, primeiramente, do ocorrido em um jogo de futebol no Rio Grande do Sul, onde um juiz de futebol anotou na súmula da partida entre o Juventude, de Caxias do Sul, e Internacional, de Porto Alegre, o fato de a torcida do time caxiense ter tratado de forma racista um dos jogadores mais importantes do time adversário. (…) Suas ofensas colocam-nos no mesmo patamar daqueles que vêem o negro, ainda que lá nos recônditos caminhos de seus inconscientes, como incapazes, desonestos ou indolentes, reproduzindo idéias infundadas e preconcebidas oriundas lá do tempo de seus tataravós. Será que essas pessoas ignoram o que foi a escravidão no Brasil? (…) E este fato lamentável, que corrobora com a visão que o brasileiro médio tem do povo gaúcho como um povo racista, aconteceu na mesma semana em que nos Estados Unidos da América faleceu Rosa Parks. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

“Enquanto Martinha falava, Vô Chico apanhou um livro na estante e abriu-o numa página onde se viam fotografias de vários tipos de macaco. Tinha macaco de pêlo cinza, vermelho, preto, amarelo, branco, marrom. Tinha macaco de nariz comprido, de nariz achatado, de rabo comprido, sem rabo…
- Olhem aqui estes macacos. A maioria não tem os lábios fininhos? Que eu saiba, a maioria dos negros tem lábios grossos, não tem? E o que vocês me dizem do pêlo? Eu nunca vi preto peludo; agora, branco, tem uns que parece que estão com casaco, de tanto pêlo que eles têm!
- Eu tenho um tio que é assim - exclamou Laura. - Quando ele tira a camisa, a gente brinca com ele, diz que parece macaco. Ele sai correndo atrás da gente, andando que nem macaco. É um barato! - Ficou pensativa um momento e continuou: - Mas acho que quando chamam um negro de macaco é pra ofender, não para brincar.

(trecho de Jogo Duro, livro infanto-juvenil de Lia Zatz
- Belo Horizonte: Editora Dimensão, 1996)

Parece significativo que, em uma mesma semana, dois fatos noticiados por nossos jornais remetam a uma reflexão que todo brasileiro deveria fazer sem medo de se surpreender com suas próprias convicções. Falo, primeiramente, do ocorrido em um jogo de futebol no Rio Grande do Sul, onde um juiz de futebol anotou na súmula da partida entre o Juventude, de Caxias do Sul, e Internacional, de Porto Alegre, o fato de a torcida do time caxiense ter tratado de forma racista um dos jogadores mais importantes do time adversário. Cada vez que o jogador Tinga, negro, tocava na bola, os torcedores de Caxias do Sul, cidade famosa por ser um dos berços da colonização italiana no estado, enchiam os estádios aos gritos, chamando o atacante de “macaco”.

Parece-me que os torcedores daquela cidade tão progressista estancaram no tempo - ou quiseram ser modernos ao imitar o ato de racismo já sofrido por outros brasileiros em estádios europeus. Suas ofensas colocam-nos no mesmo patamar daqueles que vêem o negro, ainda que lá nos recônditos caminhos de seus inconscientes, como incapazes, desonestos ou indolentes, reproduzindo idéias infundadas e preconcebidas oriundas lá do tempo de seus tataravós. Será que essas pessoas ignoram o que foi a escravidão no Brasil? É possível que alguém no Brasil dos dias de hoje não consiga associar o fato de a maioria de nossa população mais carente ser descendente de africanos com o descaso com que foi promulgada a abolição da escravatura - sem nenhuma preocupação com a inclusão dos recém-libertos à sociedade brasileira da época? Alguém não consegue ainda ver que não há mais espaço em um Brasil que se pretende país do futuro para posições tão ignóbeis como as idéias racistas?

Parece que parte da torcida do Juventude é capaz de ignorar tudo isso. Eles devem se sentir alheios à realidade nacional, porque talvez entre eles haja mesmo quem não tenha antepassados negros, índios ou portugueses - como descendentes de italianos, talvez eles se sintam superiores demais, europeus demais para aceitar um negro que leve o time adversário à vitória. Esquecem-se, porém, da origem humilde dos primeiros colonos italianos, da situação difícil que os fez sair da Europa e vir para o Brasil - e aqui vale lembrar que não houve imigração negra para o Brasil, mas sim um transporte forçado de seres humanos tratados como reles animais para o trabalho mais pesado do campo e das cidades.  Será que aqueles italianos que aqui chegaram teriam construído cidades progressistas como Caxias do Sul se aqui tivessem chegado sob os grilhões da escravidão, sob o estigma de pertencer a um continente tão sofrido como o africano?

E este fato lamentável, que corrobora com a visão que o brasileiro médio tem do povo gaúcho como um povo racista, aconteceu na mesma semana em que nos Estados Unidos da América faleceu Rosa Parks. Talvez o nome desta mulher negra não seja familiar a muitos, mas o que ela desencadeou com seu gesto de indignação teve reflexos na sociedade como um todo: ela foi a mulher que, em 1955, recusou-se a ceder seu lugar em um ônibus para um passageiro branco na cidade de Montgomery, Alabama, como era de praxe ser exigido dos negros naquela região. Por sua recusa, Rosa Parks foi presa e obrigada a pagar uma multa - e a reação da comunidade negra local foi o estopim para o surgimento do movimento dos direitos civis naquele país. Por se negar a ceder seu espaço por conta da cor de sua pele, Parks mudou a vida de milhares de pessoas que viviam como cidadãos de segunda classe em sua própria terra - e pelo critério único da quantidade de melanina em suas epidermes…

Os macacos são seres irracionais, que agridem quando se sentem ameaçados e gritam quando precisam defender seu espaço. Pensando um pouco nisso, quem serão os verdadeiros macacos nessa história de Juventude versus Internacional?

Fazer humor com o preconceito racial já não tem mais graça alguma.

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Thursday, September 29, 2005

No começo, era o verbo…

                                 Não há nestes registros pretensão maior que a de dialogar com os eventuais visitantes sobre os mais diversos temas aos quais temos acesso por intermédio dos livros, da imprensa porto-alegrense e, eventualmente, por outros meios de acesso ao mundo… E se dedico algum espaço em minha conflitada agenda para escrever aqui sob essa perspectiva, é porque acredito que a cidade de Porto Alegre (e o Brasil em geral) merecia uma imprensa com o olhar mais voltado para o mundo, menos engajada nesta ou naquela ideologia, mais aberta ao que de melhor há nesta cidade que tem tudo para ser ainda mais maravilhosa. De algum modo, estes registros também pretendem ser a visão de um “estrangeiro”, de um carioca que adotou o Rio Grande do Sul como seu rincão no mundo, sobre o que há de melhor e pior nesta “nossa” terra, em nosso país e em nosso mundo.

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