“A convite da redação, escrevi no Jornal do Comércio, um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna…
- Como, se tu nada sabias? - interrompeu-me o atento Castro.
- Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografia, e depois citei a mais não poder.
- E nunca duvidaram? - perguntou-me ainda o meu amigo.
- Nunca.”
(Lima Barreto [1881-1922] in O Homem que Sabia Javanês, do livro ‘Clara dos Anjos e Outras Histórias’)
Parece-me que a crise que observamos em algumas redações de jornais aqui do Rio Grande do Sul é antiga no Brasil, coisa que Lima Barreto já mencionava em tom de opereta antes ainda de nosso primeiro centenário como país (razoavelmente) independente.
Não são poucas as vezes que encontramos, hoje, ao ler as páginas dos diários matinais - foi-se o tempo em que havia jonais impressos nas diferentes frações do dia, coisas da modernidade e da velocidade das informações -, desde informações inverídicas ou erroneamente reportadas até erros crassos de uso da língua portuguesa, sem falar no expediente fácil das citações sem fim, do costurar de clichês e do desfiar de idéias filosóficas de livro de auto-ajuda que repousam entre os nossos cronistas - um meio no qual ainda se pode encontrar bons redatores, ou o qual ao menos se esperava não ser atingido pelo FEBEAPÁ (Festival de Besteira que Assola o País) imaginado por Stanislaw Ponte Preta… (…) (LEIA TEXTO COMPLETO ABAIXO)
“A convite da redação, escrevi no Jornal do Comércio, um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna…
- Como, se tu nada sabias? - interrompeu-me o atento Castro.
- Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografia, e depois citei a mais não poder.
- E nunca duvidaram? - perguntou-me ainda o meu amigo.
- Nunca.”
(Lima Barreto [1881-1922] in O Homem que Sabia Javanês, do livro ‘Clara dos Anjos e Outras Histórias’)
Parece-me que a crise que observamos em algumas redações de jornais aqui do Rio Grande do Sul é antiga no Brasil, coisa que Lima Barreto já mencionava em tom de opereta antes ainda de nosso primeiro centenário como país (razoavelmente) independente.
Não são poucas as vezes que encontramos, hoje, ao ler as páginas dos diários matinais - foi-se o tempo em que havia jonais impressos nas diferentes frações do dia, coisas da modernidade e da velocidade das informações -, desde informações inverídicas ou erroneamente reportadas até erros crassos de uso da língua portuguesa, sem falar no expediente fácil das citações sem fim, do costurar de clichês e do desfiar de idéias filosóficas de livro de auto-ajuda que repousam entre os nossos cronistas - um meio no qual ainda se pode encontrar bons redatores, ou o qual ao menos se esperava não ser atingido pelo FEBEAPÁ (Festival de Besteira que Assola o País) imaginado por Stanislaw Ponte Preta…
Não quero ser injusto, tampouco desejo que estas palavras soem com um tom de revolta que não quero, em verdade, aqui imprimir. Meu tom é mais de lamento, ou de um muxoxo triste, de quem atesta diariamente a falta que está fazendo a leitura aos nossos estudantes de Comunicação Social.
E falo na condição humilde de quem lê, diariamente, todos os jornais de publicação diária em Porto Alegre, por força de ofício. Não tenho conhecimento técnico do Jornalismo e talvez minha situação de leigo faça com que eu cometa injustiça, mas coloco aqui minhas idéias em busca de pensarmos juntos onde está o cerne do problema
Como escrevi há pouco, atualmente os jornais estão à disposição sempre pelas manhãs, e por uma razão simples há esta diferença do passado: hoje, a informação chega à população por dezenas de outras formas mais rápidas (e vívidas) que o jornal - falo dos endereços mais sérios da rede mundial de computadores, das rádios que evoluiram com o tempo e da televisão que ainda se preocupa em informar. Esperava-se que com tal situação o jornal se tornasse - por ser palavra escrita e impressa, e por isso difícil de consertar depois do estrago feito (diferentemente da Internet) - uma espécie de resumo contextualizado e repensado das notícias do dia anterior. O jornal impresso oferece ao jornalista a bênção do relativo prazo para a reflexão antes da publicação, enquanto o mundo cibernético pede urgência e oportunidade de divulgação. Mas o que vemos é um certo empobrecimento dos jornais e, o que é pior, uma aproximação perigosa com o tipo de redação que a era do e-mail insiste em implementar em nossas cabeças…
Há jornais no Rio Grande do Sul que trabalham, quase que exclusivamente, com o material que lhes enviam as agências de notícia das quais são assinantes - e isso não é nenhuma informação confidencial extraída dos lábios de algum funcionário: basta observar os rodapés dos textos, as referências a outras fontes… Mas não há mal absoluto nisso, ou melhor, não haveria se ao menos o editor-chefe ou alguém por ele incumbido lesse antes o jornal e verificasse as possíveis anomalias. Não é raro nesses jornais encontrar notícias repetidas, ou seja, a mesma notícia é publicada mais de uma vez no mesmo jornal, em seções distintas. Também é algo comum encontrar a mesma notícia impressa em dois jornais e escrita com a mesmíssima redação, o que nos leva a crer que não há qualquer trabalho de depuração da notícia que chega de tais fontes, as agências de notícias, que são consideradas pelos jornais como emanadores da verdade dignos de que suas informações sejam estampadas nos jornais sem nenhuma reflexão, sem nenhum conceito editorial a ela incluído. E não falo de deturpar as notícias com seu viés ideológico, mas depurá-la com o cruzamento com outras informações, de outras fontes. Escrever notícia não é só construir um infográfico vistoso, colocar uns dados de enciclopédia em uma caixa de texto e sair citando e citando e citando…há que pensar no que se escreve, e trazer ao leitor o novo em meio ao que ele já sabe e acompanha no cotidiano.
Duro mesmo é constatar os erros terríveis de tradução, frutos da pressa mesma em fechar a edição do jornal ou do descuido das redações em entregar a tarefa de transpor o texto para o português nas mãos de quem não tem formação específica para isso. Um exemplo? Há alguns meses um jornal de Porto Alegre noticiou isto, em letras graúdas: Enxame de crocodilos invade cidade da Flórida (sic!). Confesso que pesquisei antes de reproduzir esta manchete, pois fiquei receoso de estar cometendo uma injustiça. Mas não, não estava - enxame é mesmo coisa de abelhas e vespas, jamais de crocodilos… Pasmem: cerca de uma semana depois, um outro grande jornal da cidade publicou um ataque de um enxame de caranguejos em uma praia do Nordeste… Será que isso é fruto da tal competição predatória, fruto da globalização, de que tanto reclamam uns revolucionários tardios aqui de Porto Alegre? Se os jornais insistirem nessa disputa de erros crassos, quem sairá perdendo mesmo somos nós, leitores. Oxalá isso não se torne de praxe…
Justiça seja feita: há ainda no Rio Grande do Sul algumas tentativas de jornalismo investigativo sérias, artigos de autoridades competentes em sua área de atuação, idéias originais de colunistas preocupados com a informação, gente cujos textos eu espero, algo ansioso, todas as semanas - mas são poucos, e estes bons exemplos correm o risco de estar a se perder no panorama das notícias mal redigidas e mal pesquisadas, dos textos de entretenimento que nada acrescentam à vida do leitor, das críticas tendenciosas e modernosas dos críticos que tudo crêem saber e nada sabem, das colunas de auto-ajuda que mais desserviço prestam ao imbroglio geral. Mas tudo isso vem agora emoldurado por belas e enormes fotografias coloridas, e nossa geração de brasileiros que não lêem, cada vez mais acostumados a voltar seus olhos para as imagens e não para o sentido das coisas, acha tudo normal, talvez até melhor que antes, às vezes até bonito - olhando o desfile de notícias sem conclusão e fotos sem razão de ser com a mesma admiração silenciosa que o Barão de Jacuecanga ouvia as aulas de javanês forjado, mas retumbante, do professor Castelo, o homem que sabia javanês…