Sunday, March 23, 2008

Em defesa da honra

'Unheard expression', do pintor norte-americano Mark Stock

Não se falaram o dia inteiro. A briga tola da noite anterior, em pleno restaurante e na frente de seus melhores amigos azedara qualquer possível reconciliação, ao menos por alguns dias. Mas a geladeira estava vazia e a véspera de feriado forçou-lhes uma aproximação para que fossem juntos ao supermercado. Ainda assim, não trocaram palavra. Com a lista de compras nas mãos, o diálogo pareceu-lhes desnecessário.

Subiam as escadas, embora o dia estivesse magnífico. Em outras ocasiões como aquela, talvez aproveitassem para fazer um lanche no caminho de volta ou mesmo estenderiam a tarde de compras com uma sessão de cinema. Mas não conseguiram encontrar espaço para combinar nada além de trancar-se em casa e guardar silêncio até os ânimos se acalmarem.

Mas havia o trabalho. Ambos eram professores e tinham um pequeno negócio em conjunto. Na segunda-feira mesmo iam iniciar uma nova turma do seu curso de História da Arte e ainda não tinham sequer combinado o que fazer. Depois de guardar as compras, já que ela chegou à casa e trancou-se no banheiro, ele resolveu começar sozinho a tarefa monótona de preparar aulas e tomar as providências iniciais para a nova turma de alunos. No escritório, escolheu alguns livros na estante e começou a folheá-los distraidamente. Ao fundo, ouvia o som do chuveiro e os ruídos distantes da rua.

De um livro sobre heráldica caiu o bilhete. Era um pedaço de papel delicado, escrita com letra caprichada de homem culto. Ele leu algumas palavras carinhosas que bastaram para despertar sua raiva armazenada desde o jantar de aniversário de casamento. Ele fechou o livro e com ele golpeou a porta do banheiro. Ela abriu assustada, uma toalha nas mãos a secar os cabelos longos, um roupão a cobrir o corpo esguio. Ele olhou sua sensualidade displicente e encheu-se ainda mais de ódio. Ela continuou olhando-o, aturdida e furiosa pela interrupção. Ele mostrou para ela o livro. A mulher corou.

Aflita, ela correu para o quarto. No parapeito da janela, um vaso austríaco. Era uma peça abominável, com uns passarinhos mal desenhados, presente da sogra que odiava com sinceridade. Quando ganhou o vaso, riu-se tanto que a mãe do esposo quase quebrou a porcelana na sua cabeça. Agora era o filho, que lhe gritava palavras de morte. Ela correu até a janela e ergueu o vaso, ameaçando-o. Ele desejou sua morte e ela fez menção de arremessar o pesado objeto. Desequilibrou-se, caiu.

Da rua, os transeuntes cercaram o corpo inerte da mulher e apontaram para ele, que olhava do alto a adúltera que seu desejo assassinara em pensamento alguns minutos antes. Mas não fora ele, enfim.


Os hílares pássaros a mataram. Ninguém acreditaria em sua inocência. Em seu coração, ele não se importava e preferia, secretamente, que assim o mundo pensasse – melhor assassino que desonrado.

Robertson Frizero Barros
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Monday, August 20, 2007

Nesta data querida

Hoje faço dezoito anos. Esta noite vou comemorar sozinha meus dezoito anos. Vou pingar lirismo para realizar aquele feitiço que eterniza o momento. Às vezes parece que Deus deu um tapa no meu destino e o mudou. Ou será que tinha sido eu que tinha tomado um rumo muito contrário? Ora, não importa. Importa que hoje faço dezoito anos e o meu aniversário do ano passado foi muito triste … nossa, como foi triste. Mas não quero mais lamentar o que passou, porque, como no versinho que li, lamentar uma dor passada é sofrer tudo novamente, e eu já sofri tanto das tristezas do sentir que agora só quero é saber das alegrias do sentir, por que é a alegria e, não me diga que é a tristeza, quem melhor cuida da vida. O meu aniversário do ano passado foi um dos dias mais angustiantes da minha vida. Foi o meu pior aniversário. Graças a Deus que passou. No ano passado meu mundo era outro, se era….

Não, não quero pensar no passado. Quero que esse ano meu aniversário seja muito alegre, e vai ser, sim, porque eu vou ficar alegre. Vou ficar alegre aqui dentro. E para ficar bem, eu não posso lembrar de nada, nada. É só pingar lirismo nas alegrias do sentir. É isso. Um pouco de poesia e essas paredes ganham cor, essa janela se abre e eu consigo até ver uma paisagem bonita, diferente desse pátio sem graça. Hoje eu faço dezoito anos e não vão poder me deixar aqui por muito mais tempo. Mas eu posso sair hoje mesmo, é só usar a imaginação e me alegrar, porque hoje eu faço dezoito anos.

Eu queria que a Rô estivesse aqui comigo. Só ela, pelo menos. Sei lá, a mãe talvez venha. A mãe vem, sim, e deve trazer um bolo. Mas a Rô era a única amiga que eu queria ver hoje. O resto nem deve lembrar que eu existo, não entenderam nada do que aconteceu, não sabem que eu não tive culpa de nada. Sabem, mas não querem ver. O pior cego é o que não quer ver. Alegria, droga, alegria… A Rô bem que podia vir hoje com a mãe. Assim eu esquecia que um dia fiz dezessete anos e começava tudo de novo, aos dezoito. Hoje é meu aniversário e eu não quero mais ter dezessete anos.

A Rô sabe que eu não tive culpa, que eu não queria. Ela sabe, e me dá apoio. Era meu aniversário e, mesmo assim, todos contra mim. Claro, eles só viram o que eu fiz com o Gabriel, ninguém viu o que ele fez comigo, em minha própria casa, ninguém. Ele era o valente da escola, ele era o mais esperto, eu era só a namorada, a da vez, aquelazinha que as outras todas invejavam. A culpa foi toda minha, só a Rô sabe que não. Eles só repararam no sangue dele nas minhas mãos, ninguém parou para olhar o sangue que eu perdia no meio das pernas, nem no disparo que ele deu na minha alma. Só tinham olhos para o coitadinho, o canalha. Canalhas. Eu não quero lembrar disso, não quero, quero lirismo e quero dezoito anos hoje, só isso. Vou sentir alegria, vou sim. O ano passado passou e o Gabriel também vai passar. Eles todos, menos a Rô. Tomara que ela venha.

Hoje faço dezoito anos e vou comemorar sozinha. Já é quase noite e a mãe não veio. Acho que não deixaram ela entrar. Nem ela, nem a Rô, minha melhor amiga. Será que eu vou ter que esperar muito tempo ainda aqui, ou tem uma lei que manda eles abrirem o portão assim que der meia-noite? A mãe diz que eu nasci às nove da noite, bem no meio da novela. A mãe diz que eu sou meio dramática por causa disso. Mas eles não devem saber do horário, ou então já tinham me liberado. Acho que já tenho dezoito anos agora. Se abrirem o portão, saio para o mundo e levo só a minha alegria. Deus deu um tapa no meu destino, sim, mas foi para me mostrar que a minha vida estava toda errada. A Rô me avisou que o Gabriel mexia com coisa pesada, que ele era um cara bonito mas não era nada legal. Mas eu queria chocar a minha mãe, então eu fiquei com ele. Mas não queria fazer nada, só ficar. Ele não era só de ficar, sempre conseguia o que queria das mulheres e deu no que deu. Ele rasgou minha vontade sem lirismo nenhum, disparou bem no meio da minha alma sem perguntar se eu queria ou não, daí eu tive que disparar também. No dia do meu aniversário, o dia mais angustiante da minha vida. Mas passou.

Apagaram as luzes, silêncio geral. Será que a Rô e a mãe vão me fazer uma surpresa, entrar aqui no dormitório com um bolo legal e dezoito velinhas acesas? Aniversário é uma coisa meio triste. Lembra morte, polícia, choro de mãe, os amigos olhando com cara de condenação. Mas eu não quero mais o passado, só quero alegria, lirismo e presente. Parabéns para mim, nesta data querida.

Do volume de contos

 

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

(Este conto foi escrito a partir de um mote[todo o primeiro parágrafo] oferecido por Fernanda Garcia)

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Thursday, July 12, 2007

Socorro e a queda

Figura Feminina - Di Cavalcanti Era uma voz repleta dessa raiva estudada que antecipa o uso da força bruta, a do tal Furtado. As palavras eram dispostas em um cantochão roufenho de ameaças, em um tom forçosamente másculo que fazia com que a voz de Dona Amparo ganhasse notas mais altas que a garganta destruída pelo fumo poderia suportar. Eles gritavam mais e mais, talvez para tornar pública uma disputa que a ninguém mais interessava.

Os pensionistas eram atraídos pela gritaria como as crianças raptadas pelo flautista. Ou como os ratos. A estridente defesa de Dona Amparo e os trovões insolentes de Furtado eram uma música hipnótica para aquela gente de vida tão monótona. Como em Hamelin, um serviço que não foi pago devidamente estava prestes a motivar uma tragédia.

– Está tudo certo? – as palavras tremeram enquanto Socorro apontava para o jaleco que eu apertava contra o peito, sem perceber. Ao longo do guarda-corpo da escada, os demais hóspedes debruçavam-se para ouvir melhor sobre as roupas de Furtado que Dona Amparo trancara no antigo quarto do rapaz, os quatro meses de pensão que o marinheiro devia, as insinuações sobre o Furtado tentando fazer mal à Abigailzinha.

– Sem essa mancha, tudo volta ao normal.

Socorro olhava para os primeiros degraus da escada, onde Dona Amparo sacudia o dedo arroxeado no rosto de Furtado. Que o marinheiro não era flor que se cheire. Que não prestava era aquela pensão caindo aos pedaços. Que para quem era, bacalhau bastava. Que já tinha visto porões de navio mais limpos que aquilo. Que fosse então dormir nos porões de navio, que era lugar de rato como ele.

– Custa muito para passar? – a pergunta saiu sem qualquer maldade, mas Socorro mirou-me com olhos marejados de horror. Do terceiro degrau, Furtado agarrou a mão pesada de Dona Amparo no ar, a caminho de um sopapo.

– Eu não entendo.

– Queria que passasse… – falei despreocupadamente, estendendo-lhe o jaleco. – Não sei se a senhorita faria isso.

Dona Amparo gemeu um falsete de dor e olhou para o alto, furiosa. Os pensionistas trancaram-se em suas tocas.

– O senhor acha que eu devo? – Socorro já não olhava para mim. Furtado e Dona Amparo subiam as escadas em sinfonia de ofensas. Ele iria arrombar a porta, ela mandava prendê-lo se ele não saísse imediatamente. Ela tinha amigos importantes na polícia, ele conhecia uns estivadores que matavam por dez vinténs.

– Se a senhora puder, é claro. Não sei se a senhora faz esse tipo de serviço. Mas seria bom.

– Sim, passado, seria bom… – suas mãos de costureira habilidosa crisparam-se. – Eu faço, sim, sou capaz de fazer, para ficar passado…

Agradeci e coloquei o jaleco de volta em suas mãos. Queria sair dali, entrar no meu quarto e evitar o constrangimento de ser envolvido no desagradável espetáculo de Dona Amparo e Furtado digladiando-se com infâmias. Socorro pegou de volta a peça de roupa.

Furtado avisou que a velha imprestável ia morrer, ordinária. Todos ouviram por detrás de suas portas fechadas. Mas eu ainda olhava Socorro por uma fresta entreaberta, extasiado com sua palidez. E vi tudo o que os demais pensionistas apenas contariam à polícia de ouvirem falar: Dona Amparo despencando escada abaixo, em um grasnar horrendo, fazendo ranger os degraus e tremer as paredes. E então cumpriu-se, ao pé da escada, a ameaçadora premonição do infeliz do Furtado.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

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Thursday, June 21, 2007

Os dias passam para Socorro

'Menina do Circo' - Di Cavalcanti O mês de maio resolveu ser inverno naquele ano. O frio era incomum e a umidade escorria pelas paredes e os hóspedes da pensão viviam em um eterno limiar da gripe. Era odioso. Não raro vinham bater na minha porta à procura de recomendações, remédios, consolo. Nada ofereciam em troca.

Tudo o que eu queria era o meu jaleco de volta, limpo e passado. Não, não me importava com ele. Sua ausência fez com que eu cabulasse algumas aulas práticas naqueles dias por ordem do próprio professor, que me abonou as faltas depois da história triste que lhe narrei para justificar a falta do uniforme de estudante. Eu carecia de Socorro. Queria que ela me devolvesse o jaleco. Precisava examinar de perto aquelas mãos pequeninas, de uma beleza insuspeitada, que me roubaram o sono nas noites todas que se sucederam depois do trivial incidente entre nós.

Cruzei com a costureira algumas vezes, e seu incômodo era constrangedor. Olhava-me como quem vê seu algoz morando no quarto em frente. Sua boca tinha sempre desculpas murmuradas, ditas com olhar baixo e mãos trêmulas enfiadas nos bolsos do vestido reto. Era o inverno inesperado, eu compreendia. Compreendia e não me preocupava, nenhuma pressa. Mas minhas palavras pareciam chegar nela como uma reprimenda, não sei, uma condenação, pois ela se encolhia nos ombros estreitos e descia correndo as escadas em direção ao café com roscas detestáveis.

A mancha no peito saiu por milagre. Estava alvíssimo o jaleco, como se nada houvesse acontecido. Sei que levou compressas de vinho branco, banhos de água morna e três dias de molho no alvejante, além das carícias continuadas das mãos de Socorro à beira do tanque, em plena friagem, por minha causa. Invejei-lhe a sorte. Cada vez que me via no sopé da escada, Socorro narrava-me a trajetória da mancha a meia-voz. Seu constrangimento enchia de detalhes a explicação irrelevante, mas eu pouco captava de tantas escusas. Meus olhos divertiam-se, decorando-lhe o desenho dos lábios, a miudeza dos olhos, o pouco das mãos que se podia vislumbrar no escuro dos bolsos.

Mas estava pronto o jaleco, e alvo como nunca estivera. Quando dei por mim, sentia o perfume do sabão de coco invadindo-me as narinas, a brandura do tecido visitado por aquelas mãos perfeitas, o branco de cegueira do jaleco recomposto que me permitiria regressar às tediosas aulas de anatomia. Ouvia, sem separar as palavras, a cantilena pacificadora de Socorro e suas desculpas infinitas pela demora, pelo frio, pelo tempo. Não havia o que perdoar além de sua deferência excessiva, que me colocava nessa prisão em forma de pedestal, esse nome de doutor que só me distanciava dela.

Seus lábios cessaram as desculpas e despertei assustado de meu sonho de limpeza. Socorro ouvira um homem que invadia a pensão como o tal vento encanado dos antigos: era Furtado e sua voz repleta de nauseante maresia.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

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Socorro oferece-me seu lenço

'Mulher Italiana' - Henrique Bernardelli (1880) Bateram uma porta com violência no início do corredor e Socorro despertou. Era dia. Eu ouvi a moça levantando, no silêncio costumeiro, uma avezinha assustada. Uma noite inteira de sono abandonado depois da gritaria da tarde anterior, da notícia funesta, da cena toda que presenciei contra a vontade, ao chegar à pensão depois de um dia de aulas insípidas. Mas quando encontrei Socorro na porta do meu quarto, percebi que para ela sua noite havia mesmo começado uma semana antes, no momento invisível da partida de Furtado. Era não mais que uma viúva apaixonada ainda por seu cadáver.

Ia descer as escadas carregando os restos da sopa de ervilha e da garrafa de vinho ralo que Mercedes havia levado para mim na noite anterior, com o consentimento de Dona Amparo. Socorro saiu porta afora e o acidente foi inevitável: ela assustou-se em um gemido seco, meu jaleco branco tornou-se mancha pegajosa e o rosto da costureira perdeu a cor. Foi quando vi suas mãos.

A mão direita crispou-se sobre a bolsa que levava no ombro, e a tensão do momento fazia com que seus leves músculos retesassem, mostrando uma profusão de veias quase esbranquiçadas. Que fácil deve ser coletar seu sangue, pensei. Os dedos bailaram nervosos, até que a pele esticou-se levemente no esforço de unir o dedo indicador e o polegar em torno da argola que permitiria abrir o fecho éclair. A mão que tapava a boca desceu, então, para explorar os domínios do interior da bolsa. As unhas, de um rosa docemente esmaecido, emocionaram-me, não sei por que, naquele contraste com o couro gasto, com o metal das alças. Era a cor que minha irmã usava antes de se tornar uma insuportável mãe de família, o tom de doçura de sua juventude, dos tempos em que ainda não conhecia o dono da loja de ferragens com quem viria a se casar, rosa de minha infância em seu colo generoso. Pareceu-me, não sei bem, que a mão esquerda de Socorro continha todo esse carinho perdido em meu passado. Ela vasculhava o fundo da bolsa, fazia soar os poucos objetos que carregava.  Tudo era suave, silencioso. Pude ver a construção do metacarpo, a perfeita articulação com as falanges, e poderia jurar que os músculos intrínsecos exibiam seu poder para mim, em um aprendizado que me valeu por mil aulas no lúgubre anatômico da faculdade. Era o bailar delicado de uma mão que agia com rapidez e graça em busca de algo para mim ainda oculto.

Foi quando o vi surgir, imaculado. Um clarão de alvura em meio ao negrume do couro e da transparência da pele. Os dedos puxavam-no das profundezas da bolsa, com efeito de revelação: a tessitura de algodão que há um mês ainda era flor, o monograma bordado com esmero de devota, a retidão imposta pelo ferro de passar. A mão de Socorro revelou aos poucos a perfeição, a candura, a graça secreta de seu lenço branco. Socorro. Socorro Oliveira. As duas letras do monograma estavam guardadas entre os dedos que estendiam para mim aquela ajuda que pouco poderia desfazer o mal já causado. Mal, que mal, era apenas um jaleco, e para que me serve essa vestimenta tola, afinal, se não para proteger minhas roupas de janota de qualquer mácula? Ela entregou-me seu lenço e eu sentia que a vida se renovava.

Só então ouvi o som estridente de um prato, um copo e uma garrafa vazia, uma colher e uma sopeira de louça espatifando-se aos meus pés.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

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Saturday, June 16, 2007

Roda gigante

Era uma edícula que um dia servira para as festas do dono da casa em frente. E foram muitas ao longo de trinta e dois anos.  Mas os motivos de celebração foram cessando, os três filhos do casal foram embora, os amigos dos tempos de mocidade escassearam.  O marido resolveu, então, encher a casa de juventude com namoricos furtivos com a sobrinha da esposa, uma moreninha que veio do interior para tentar dar início aos estudos.  Dona Sônia desfez-se em escândalo, os pais da menina não fizeram gosto.  O dono da casa foi corrido para algum lugar do norte levando apenas o que a mulher reunira em uma mala velha jogada portão afora.  Fugiu sem a moça, que depois de uns meses pegou com um torneiro mecânico amigo de seu pai.  Sobrou a casa enorme, mas a esposa traída perdeu o gosto pela edícula e precisava de dinheiro. Juvenal aceitou de bom grado a oferta e foi morando por lá enquanto o parque não se mudava de cidade.

Ficariam naquela cidadezinha turística para sempre, apesar dos planos do dono do parque de rodar o interior em busca de riquezas.  Mas o dinheiro foi sumindo nos bolsos de seus filhos, que odiavam o ofício do pai, ainda que prezassem seus resultados.  O bom homem morreu e o parque foi vendido.  Juvenal não tinha como prever isso e não teve outro recurso senão se mudar de vez para o quarto alugado.  Tinha quinze anos e nenhum dinheiro de reserva, o parque estava parado, à espera de comprador e não tinha garantia de que iria receber seus atrasados do antigo dono do parque.  Mas Dona Sônia não deu muita atenção a isso.  O menino parecia direito e lembrava, quando visto de costas, seu primeiro filho perdido no mundo, coitadinho.  Mulher comove-se fácil e a edícula, então, foi mobiliada com uns móveis emprestados pela dona da casa, coisas que o marido fujão adorava e ela deu, por vingança, para Juvenal.  Talvez por isso jamais visitasse a pequena peça nos fundos do terreno, para evitar lembranças amargas.

Para Juvenal, que ainda tinha fantasias, tudo era admirável e com ares de palacete. Entrava-se pelo portão da frente e caminhava-se ao longo do muro até chegar no pequeno quarto, ladeado por uma área de serviço maior que o cômodo e que servia de cozinha para o rapaz. Da churrasqueira, ele fez um fogãozinho que alimentava com lenha, e do tanque, sua pia. A dona não se importava.  O quarto tinha uma cama de solteiro, pequena para o corpanzil do Juvenal. Era de um dos filhos de Dona Sônia, mas do tempo em que era apenas um menino. Nas estantes, que antes ostentavam a coleção de canecos do antigo dono da casa, alguns livros que a dona da casa havia jogado no lixo e Juvenal recolhera.  O rapazote gostava de ver as gravuras - mesmo sem saber ler admirava as letras alinhadas, as gravuras, a aspereza perfumada do papel nos dedos. As cores sempre foram um encantamento para ele, por isso fugira com o parque de diversões, onde trabalhava duro mas não se lembrava mais do cheiro doloroso da cinta do pai. Em uma das prateleiras, os livros dividiam espaço com um crânio de madeira pintada, meia dúzia de ursos de pelúcia embrulhados em papel celofane, um chapéu de cowboy, quatro garrafas fechadas de licor de frutas. As paredes eram adornadas com duas figuras de papelão: sobre a cabeceira da cama pequena, um vampiro desbotado, braços estendidos em pose de crucifixo, velava pelo sono de Juvenal; na parede em frente, exibindo-se para o rapaz quando ele se deitava, Conga, a mulher-gorila, insinuava-se em um biquíni de pele de onça para seu único e solitário admirador.

Dona Sônia era de poucas palavras, mas parecia gostar do Juvenal.  Vez por outra, batia à porta do quarto aos fundos da casa com um prato cuidadosamente envolvido em um pano de prato, para repartir com o menino o pão de cada dia.  Jamais entrava, sequer conversava com o rapaz, mas Juvenal não se importava muito com o silêncio, pois às vezes o pão era feijão rico e escuro, outras uma massa com colorido de carnes ou um ensopadinho de um avermelhado cheiroso, acalentador.  Ele nunca comera tão bem na vida, nem no parque de diversões, em que tudo tinha um preço.  Ele sempre lavava o prato com cuidado e devolvia à porta da cozinha.  Com o tempo, o que era gentileza tornou-se hábito, e Juvenal já aguardava, ansioso, a hora do almoço para descobrir que novas cores Dona Sônia havia inventado naquele dia.  O moço era grato à sua maneira, e começou a retornar a louça com pequenos regalos: uma maçã-do-amor, um pé-de-moleque, uns beijinhos envoltos em caramelo da cor de seus cabelos cacheados.  Não se falavam muito, e a gentileza dos doces dixava Dona Sônia ainda mais sem palavras.

Juvenal foi crescendo com os cuidados distantes da dona da casa.  O corpo ganhou forma, os músculos apareceram e o rapaz, que era franzino e espantadiço.  Ganhou rubor na face e uma promoção inesperada: saiu do carrossel e foi colocado na montanha-russa, ofício de responsabilidade, tarefa que exige destreza e força nos braços.  Dona Sônia notou as mudanças pela fresta da janela: gostava de ver Juvenal varrendo a edícula, olhando os livros de cabeça para baixo, cochilando perto da churrasqueira, escondido do sol.  Alegrava-se com o assovio do rapaz,  preocupava-se com seus silêncios, esperava-o chegar tarde da noite para poder dormir despreocupada.  E sabia que Juvenal crescia, pois o corpo de menino já conseguia preencher as roupas do esposo canalha que ela dera, piedosa, para que o rapaz pudesse suportar a friagem das margens do rio onde ficava o parque.

No dia de seu primeiro pagamento na nova função, o rapaz comprou para Dona Sônia cinco balões em forma de coração e o maior urso de pelúcia que havia na barraca da Roleta.  Estava orgulhoso de seu progresso, sentia que a vida estava prestes a girar e queria dividir isso com aquela que era uma mãe para ele.  Quando ele chegou, as luzes estavam todas apagadas, como de costume.  Dona Sônia dormitava no calor infernal da sala de estar e acordou apenas quando Juvenal, adiando seu momento de gratidão, abriu o portão da frente  e caminhou em silêncio até a edícula sem chamá-la.  Ela viu pelo traço de luz que invadia o quarto dos fundos o rapaz depositar na mesa de churrasco os corações e o urso.  Ele estendeu no espaldar da cadeira a camisa de botões que usava, a preferida do adúltero, e colocou a cabeça sob a refrescante torneira aberta.  A visão aqueceu Dona Sônia de forma insuportável.  Cada gota gelada de água que via correr pelo torso do rapaz era um rio de lava dentro de seu peito seco de mulher abandonada.  Juvenal não se comovia com o resto do mundo, pois sua sede era bem outra.  A mulher revolvia-se internamente em vontades e pensamentos que espiralavam, aturdiam como um trem fantasma.  O rapaz entrou em seu quarto e despiu-se para dormir o sono dos contentes.  Dona Sônia não mais conseguiu fechar os olhos.  Foi até a edícula.  À porta do cômodo estreito, desceu as alças da camisola pelos ombros e deixou que sua nudez despertasse o corpo do menino.  Conga reprovava-a de seu biquíni zebrado, Drácula oferecia-lhe os braços de papelão, mas nada mais importava.  Juvenal viu nela cores e perfumes que nunca antes havia sentido, nem mesmo no Túnel do Amor.

Foi quando Sônia ouviu os passos, atrás de si, do arrastar de uma mala de viagem cuja roda sem conserto tinha o rangido irritante que conhecia tão bem há trinta e dois anos. 

Do volume de contos

 

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

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Thursday, May 31, 2007

Era uma vez

Sempre que o relógio carrilhão ressoava as oito horas da noite, os três irmãos eram levados pela avó zelosa para o quarto. Otávio, de apenas dois anos, ocupava o berço que já fora de Rodrigo e de Paulo Temístocles, os dois maiores. Rodrigo, em seus nove anos de idade, já se sentia um rapaz feito e insistia para ficar acordado um pouco mais, mas a avó era taxativa: oito horas da noite, crianças na cama!

Naquela noite, Rodrigo não reclamou. Visitando o sótão da casa, ele e o irmão Temí haviam encontrado um livro antigo e grosso, empoeirado e com cheiro de Tia Rute. Na primeira página, lia-se em letras redondas um comprido nome de homem. Os dois irmãos combinaram que, naquela noite, iam esperar a avó sair do quarto para desvendar os mistérios daquele livro esquisito.

A avó saiu, e Rodrigo mandou Temí ir até a porta. Era tarefa do irmão do meio acompanhar com os ouvidos os passos da senhora a descer as escadas. O irmão, dois anos mais novo que Rodrigo, obedecia-o cegamente. Fez sinal para o mais velho assim que ouviu a avó se escorar na cristaleira lá embaixo. Rodrigo retirou Otávio do berço e os três foram para debaixo do beliche. Lá, o mais velho ligou a lanterna e posicionou-se para iniciar a leitura:

- Era uma vez…

- Lê direito, Rodrigo. Esse livro não é de “era uma vez…”

- Tá bem. “Temístocles Mena Barreto”.

- Esse não é o meu nome!

E não era mesmo – era o nome do bisavô, e se Temí interrompesse uma vez mais ele não lia era nada: guardava o livro no baú e ainda contava para a avó que o irmão de sete anos tinha mexido nas coisas dela. Temí ficou quieto, fechou a cara, mas continuou olhando o livro com interesse. Rodrigo abriu em uma página qualquer.

- Posso ler?

Temí fez um “sim” contrariado com a cabeça. Otávio repetiu o irmão. Balançou a cabeça muitas, muitas vezes, mesmo sem entender direito o porquê.

- Dia trinta e um de maio…

- Hoje? – Temí falou de improviso.

- Não, burro! Dia trinta e um de maio lá do tempo do avô do pai…

Temí não abriu mais a boca até a hora que a porta abriu e a avó acendeu a luz, já com um chinelo na mão.

Do volume de contos

 

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

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Socorro conta uma grande aventura

'Moça de Guaratinguetá' - Di CavalcantiEu vou mover céus e terras.

Ela vai estar na saleta, contando dinheiro com Abigailzinha deitada no sofá, chorando sua vida sem dor. Vou sair do meu quarto e descer até a cozinha. Esperarei por Mercedes. Eu vou baixar as escadas sem estalar um osso sequer. Mercedes não vai me pegar, prometo, meu amor. A mulherzinha vai estar no pátio, estendendo os lençóis no varal dos fundos, cantando um desses boleros que ela tanto gosta. Ela vai esquecer a letra da música e voltar para dentro, para buscar mais inspiração e roupa úmida. Eu vou atravessar o terreiro e arriscar, e suar frio, e rezar sem palavra, mas vou entrar no quarto de Dona Amparo. Vou fazer isso por você.

Vou trancar por dentro a porta do quarto. Abigailzinha fecha-se lá quando desfruta de seu choro das tardes, e Mercedes não vai estranhar nada se não conseguir entrar. Não vou abrir fresta de janela, nem acender abajur. Vejo bem no escuro, tenho olho de cerzideira, enxergo bem o que quero muito. Vou procurar nas gavetas da penteadeira, nas caixas de chapéu, dentro das porcelanas, no fundo falso da caixinha de música de Abigailzinha. Por você. Vou encontrar o motivo. Por você, vou descobrir a razão. Furtado, por você.

Ela expulsou você, mas eu vou conseguir o recibo sem pagamento, a carta que denunciou você, o pedaço de passado que condena, Furtado. Vou resgatar você, e ficarei quieta atrás da porta até que o silêncio do pátio me deixe voltar para dentro da casa.

Vou entrar pé ante pé na cozinha. Mercedes vai me ver. Sobre os ombros, vestida de flor e decote, com seu sorriso de rameira. Cortando suas batatas, requentando feijão, com seus olhos verdes de bastarda. Eu não ligo, Furtado, eu nunca me importei. Nunca me enxergam mesmo, não me incomoda quando olham. E eu vou ter comigo a carta, o recibo, a condenação. Dona Amparo vai gritar pela Mercedes lá da saleta, talvez fale até meu nome, mas eu não vou ter medo. Já nada mais vai me interessar.

Vou encontrar você, Furtado, lá no navio. Vou falar que sou sua namorada, mas sei ainda é mentira. Os marujos vão fazer pouco caso, os sargentos vão rir, o capitão vai pedir satisfações. Vão duvidar de mim, caçoar de mim. Não, meu amor, eu não me importo. Eu vou lutar por você e enfrentar as Marinhas todas se quiser. Eu vou dizer que você me ama só para despistar os marinheiros. Vou deixar na sua mão o papel para que você volte, Furtado, na sua mão, para que você venha lá para a pensão de onde você não pode sair nunca. Nunca, Furtado. Eu não sei onde ele fica, o seu navio, eu nunca vi o mar, mas eu vou encontrar você, vou mover céus e terras até trazer um mar inteiro e nele o seu barco valente. Até aqui, na pensão, o mar e o seu barco.

E você vai voltar, Furtado, e entrar pela porta da saleta, e rasgar o recibo, e esfregar a carta maledicente, e dizer boas verdades na cara redonda dela. Quero ver Dona Amparo sem chão. Quero ver a soberba dela rolando por terra. Por você, Furtado. Para que nunca mais você me deixe. Para que olhem para mim e me vejam. Perto de você. Não quero mais a distância, a ausência, a calma inqueta. Não mais a vontade seca, a saudade sem passado. Não quero a solidão.

Quero que ela morra.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

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Thursday, May 24, 2007

Socorro sofre um abalo

René Magrette - 'Le Modele Vivant'Voz seca e crua tinha a Mercedes, quando ria da desgraça alheia.

- Dona Amparo quer ver você lá na saleta. Agora.

Socorro calçou os sapatos e desceu as escadas, apressada. Dona Amparo esperava-a na sala de estar do sobrado antigo, que os pensionistas chamavam de “a saleta secreta”, já que eram proibidos de freqüentar o lugar estreito e escuro. A dona da pensão obrigava-os a entrar pelos fundos. A porta da “saleta” era aberta apenas para as suas visitas pessoais, que eram raras e vetadas aos hóspedes.

A sala, com suas paredes cobertas por camélias esmaecidas, era dominada por uma bergère de espaldar alto, como Socorro sempre sonhou ter em seu quarto, para seus longos momentos de costura. Ao lado, um sofá confortável com um antigo xale de Dona Amparo e almofadas brilhosas que Abigail usava para descansar sua fraqueza quando ali se deitava, reclamando da vida para a avó postiça. Uma cristaleira repleta de pequenas figuras de louça tomava a parede próxima ao corredor, e o tamanho exagerado do móvel impedia os olhares alheios de quem subia as escadas. A um canto, um pequeno pufe compunha o único espaço vazio da sala diminuta, dominada por vasos de plantas murchas. Ali, Dona Amparo fez sentar Socorro com um gesto descuidado da mão gorda.

- Abigail viu você mexendo nas cartas. Você sabe que não quero ninguém mexendo nas cartas. E Abigail viu você pegando uma carta que é para o Furtado. Não quero mais saber disso, ainda mais sendo carta de outro pensionista. Mesmo no caso do Furtado, que não mora mais aqui.

Socorro ergueu o rosto, incrédula. Dona Amparo continuou a falar sobre cartas, hóspedes, dinheiro, disciplina e a coitada da Abigail fez um muxoxo do outro lado da saleta, mas a costureira estava em um redemoinho que fazia a sala girar, desgovernada. O sofá virou sobre ela e o rosto pálido da Abigailzinha, coberto pelo luto do xale, veio até seu colo como uma raquítica maldição. Dona Amparo saltou no ar, a bergère cavalgava sem direção e ameaçava lançar sua amazona inesperada sobre as pernas da costureira. As plantas desfalecidas cresciam sobre as paredes escuras e enchiam de um lodo pegajoso o papel de parede, cujas camélias tornavam-se mandíbulas ferozes que ameaçavam Socorro. Na cristaleira, pequenas pastoras degolavam cisnes, gatinhos mimosos de alvura eram pisoteados por menininhas em vestidos de tule, carruagens floridas atropelavam uma bela moleira que tentava quebrar os vidros do móvel com o corpo de um peixe sorridente, roubado de um idoso pescador de porcelana chinesa.

Furtado não morava mais ali. A bergère saltava, o sofá sufocava a pequena Abigail contra o chão lamacento, a porcelana selvagem digladiava-se dentro da cristaleira, o xale atava seus pés ao caule de uma descomunal violeta, mas nada importava. Furtado. Não haveria mais quem lhe sorrisse à mesa deserta do café da manhã, ou que lhe contasse histórias do porto distante, ou encostasse o braço em seu seio ao tentar alcançar as roscas de polvilho vazias. Que as ervas daninhas devorassem suas mãos: Furtado não mais repararia em suas unhas pintadas de rosa decente. Que os cisnes grasnassem até que ela enlouquecesse: Furtado já não sussurraria seus doces comentários sobre o gosto da fiambrada, a obesidade de Dona Amparo ou as anedotas de Marinha. Que um tropel de cadeiras esnobes lhe esmagasse o corpo: Furtado jamais iria elogiar seus vestidos novamente.

- E que isso não se repita, Socorro! Ou você será a próxima que eu irei expulsar desta pensão!

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

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Wednesday, May 16, 2007

O quarto de Socorro conta histórias

'Pessoa à janela' - Salvador Dali Quando voltou ao andar de cima do sobrado, Mercedes não precisou mais ameaçar: a porta de Socorro estava aberta. Pude ouvir a mulata raivosa entrando no quarto ao lado, em silêncio de acusação.

Dona Amparo assentou Socorro no menor dos quartos da pensão. Papel de parede desbotado, sinteco gasto e opaco, um fio grosso que descia do teto e sustentava uma única lâmpada fraca e amarelada. Seria fácil culpar a moça pelo cenário miserável, mas o aposento fora destruído pelo próprio uso anterior do sobrado. Um tapete ornado de camélias vermelhas descoradas disfarçava os estragos do assoalho, mas eram ainda visíveis os arranhões. Os moradores antigos arranjavam o mobiliário ao seu gosto, riscando sem medo o chão da peça. Socorro respeitava as ordens de Dona Amparo. Desde que ali chegou, jamais saiu do lugar qualquer um dos móveis maiores sem o consentimento da amarga senhora. E mantinha o quarto limpo, imaculado.

Só mesmo um torso de manequim deixado em um canto do quarto pertencia à moça. Improvisado sobre um abajur alto, ele suportava um inacabado vestido de noiva que Socorro conservara consigo, sem desassossego. Soube disso pela própria Mercedes: a freguesa, ali da rua mesmo, repudiou a encomenda por conta de uma traição do quase esposo, e a costureira não conseguiu cobrar os gastos. Ficou com o vestido, e o brilho emprestado pelo bordado em pedraria enfeitava o cômodo, alegrava o coração. O resto da mobília era de Dona Amparo, do tempo em que apenas as moças habitavam a casa.

Na parede ao fundo, uma cama de casal, sempre enfeitada com colchas delicadamente bordadas com anagramas alheios – outros pedidos que clientes suas desistiram de buscar. Sob o móvel robusto, um par de chinelas acolchoadas contrastava com a vassoura mal escondida pelas franjas da coberta. Junto à parede, um sóbrio armário de madeira escura dificultava a entrada. Socorro guardava nele as roupas simples que cosia para si, os três pares de sapatos, os moldes, o travesseiro, a caixinha trançada em forma de coração.

Quase oculta pelo guarda-roupa, uma mesa pequena tomada pelo tumulto dos pequenos objetos: a caixa de sapatos que servia de cesta de costura, retalhos de tecido, tesouras, flores de papel recortadas de papéis de embrulho e de revistas que Socorro recolhia na confecção em que trabalhava. A um canto do móvel, uma pastorinha de porcelana, com seu cestinho de azaléias coloridas e seu cão alvíssimo, enchia de graça falseada a desordem da costureira.

Havia algum encanto naquele quarto escuro e úmido. O pequeno basculante nada iluminava – dava para o corredor, ficava bem no alto, escondido na parede da porta de entrada. Mas tudo ali tinha um brilho postiço qualquer, um inverídico ar primaveril. Socorro colara flores de papel pelas paredes, encobrindo as partes que o mofo e o tempo iam destruindo. A peça encheu-se de cores incertas, um estranho emaranhado de recortes. Sobre a cabeceira da cama, chamava a atenção um grande borrão vermelho: a costureira grudara uma folha inteira de papel de presente, rosas encarnadas de um brilho chamativo, onde antes havia apenas uma singela imagem da Imaculada Conceição.

O que mais me intrigava, contudo, era a parede ao lado da cama, na qual Socorro não encostara nenhum móvel. Quando abri uma fresta de minha porta, vi que não era apenas a mim que aquilo impressionava. Mercedes estava atônita, com um rosto de desdém que não se esforçava em esconder. Ela olhava aquela figura: uma grande janela, com um céu azul e cortinas vermelhas a emoldurar uma paisagem incompleta. Não havia sol, nem árvore, nem terra firme. O mar. Sobre a linha do horizonte, um pequeno desfile de barcos em absurda perspectiva. Socorro fizera aquele mosaico tosco com as pequenas rebarbas de papel colorido que fora juntando. De longe, a abertura inventada parecia encher de luz o quarto mal ventilado e o rosto da costureira. Uma brisa marinha quase saia da parede em busca do mundo. Em direção a Furtado, pensei.

Mas Mercedes tinha outros planos e não ficaria ali a ver navios.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 21:30:23 | Permalink | Comments (6)