A casa da memória
- onde convivem em silêncio
o passado que ocultamos
e o que em nós nos assombra -,
é ampla e alta
e espalha-se
em multitudes vastíssimas
de aposentos escuros,
quase sempre impenetráveis.
Seus corredores de assombro
- estreitos como uma culpa,
odiosos como um remorso -
não levam a lugar nenhum
aos quais desejemos chegar.
Suas portas
jamais nos guiam
para onde dizem levar.
(Pobres dos que tateiam
suas paredes arredias
em busca de companhia
ou de um lume qualquer,
uma guia,
um corrimão,
um fio de Ariadne…
Os passos pisam sempre em falso
nessa mansão de lembranças:
abre-se uma porta em vórtice
e o tempo escoa pelas alas
sombrias da estranha morada
até que
a casa dos avós que desprezávamos
e a primeira paixão despedaçada
e o pequeno furto da bala de goma
na rua da igreja de nossa primeira comunhão
e o decote em volúpia da prima distante
e a mentira que feriu o melhor dos amigos
e o verso saqueado de um Camões obscuro
e o crime inconfessável cometido em pensamento
saúdam-nos com um sonoro tapa na face
e partem céleres antes mesmo que se possa oferecer
a outra face descarnada…)
O que sequer suspeitamos
é que em cada sala deixamos
um pedaço que se esvai
de nosso instante presente
a cada nesga de tempo
que ali se queira guardar.
Dizem que há os que ali deixam
lembranças de felicidade -
mas como afastar o espasmo
da dor que lhes é vizinha
ou do pranto que se seguiu
àquela alegria que um dia
vestiu-se de eternidade?
A morada da memória
é feita da nostalgia
à qual chamamos História.
Felizes os que se esquecem
- canhestramente felizes -,
os que vivem nos umbrais
dessa casa amarga de ausências!
Da obra

(2007)
(Robertson Frizero Barros)