O lado obscuro do multiculturalismo
“Pedófilos podem bravamente, corajosamente dizer que eles escolhem… Sou também um teólogo e como teólogo, creio que é vontade de Deus que haja proximidade e intimidade, unidade da carne, entre as pessoas… Pedófilos podem declarar que adquirir intimidade e amor é o que eles escolhem. Com coragem, eles podem dizer, ‘Eu acredito que isto é, em verdade, parte da vontade divina.” (Ralph Underwager, defensor comumente convocado em casos de pedofilia na Europa, em entrevista a uma publicação pro-pedofilia)
O tema era palpitante e de grande importância: tratar, dentro da sala de aula de língua inglesa, da reeducação do olhar do aluno perante o mundo por meio do que se denominou critical literacy (algo como “letramento crítico”). A idéia é extender sobre o livro-didático e outros tantos textos autênticos trabalhados no ensino de idiomas questionamentos que possam ir além do mero conteúdo gramatical ou semântico dos textos - indagar as intenções, a autoria, as implicações e a forma como o texto é recebido pelos alunos. Em outras palavras, usar a aula de língua estrangeira para criar leitores críticos do mundo.
A primeira palestra propunha um questionamento sobre as diferenças entre uma visão de mundo a partir de totalidades ou de múltiplas perspectivas. As totalidades a que se referia o palestrante, um doutor em ensino de língua inglesa como língua estrangeira por uma conceituada universidade britânica, professor da Universidade de São Paulo, dizem respeito às concepções de Cultura, Gramática, Linguagem, Identidade e Conhecimento como entidades singulares. Vistos como homogeneidades, eles pressuporiam representações de uma realidade pré-existente e externa e, na visão do palestrante, excluem per se todas as diferenças. No caso das línguas, as concepções homogêneas reduziriam o texto a um processo de decodificação no qual caberiam, como respostas, apenas o certo e o errado.
Tais conceitos são inegáveis em um mundo no qual as mais distintas culturas e visões de mundo afloram com força, em que a capacidade de comunicação e expressão humanas parecem multiplicadas a cada dia. Não cabe mais no homem contemporâneo a ingenuidade que antes lhe permitia ignorar a autoria, a agenda política, a intenção e a ideologia por trás dos textos orais ou escritos aos quais somos expostos diariamente. E é nesse sentido que a critical literacy surge como uma importante contribuição à formação de cidadãos conscientes e autônomos em suas escolhas.
Contudo, o discurso entorta ao propor que o caminho do letramento crítico é a relativização dos conceitos. A proposta do palestrante, ao final de sua fala, foi a de que aquela abordagem focada na heterogeneidade visava ao convencimento de que não há valores absolutos, já que tudo o que rege a vida humana seria, em verdade, um construto social, vinculado a uma certa ideologia, momento histórico e sociedade. Em outras palavras, o letramento crítico seria a negação da existência de universais.
Esta foi justamente a minha pergunta ao palestrante, depois de outras tantas que vangloriavam a panacéia da compreensão da diversidade como o único caminho possível para a paz. Tendo minhas crenças muito sólidas de que o entendimento mútuo é, de fato, uma seara interessante e possível para um mundo menos belicoso, indaguei do professor da USP se o que ele entendia como “compreensão” não levaria à completa negação dos valores universais do ser humano. Para meu espanto, ele disse que não há valores universais. Lancei-lhe então uma réplica, questionando se aquele não seria um caminho perigoso, se não seria temerário transformar a compreensão das razões do outro como uma mera aceitação passiva de que tudo é possível e aceitável. E acrescentei um pequeno desafio - como funcionaria essa mecânica da “compreensão da diversidade” em situações como a recente tentativa, ocorrida na Holanda, de criação de um Partido em Defesa do Sexo Transgeracional - em outras palavras, a faceta política dos pedófilos daquele país europeu.
A princípio, o palestrante queixou-se de que o tópico que eu escolhi era “passional” demais. Depois, reforçando as idéias de sua cartilha de acolhimento incondicional da diversidade, afirmou que o conceito de infância era uma criação social! Confesso que fiquei confuso e perguntei se tal fato - o de a infância ser um conceito construído socialmente - fazia com que devêssemos então desconsiderar tal barreira, a da infância, como impedimento legal para as práticas delituosas de que eu falava. Com um estranho sorriso nos lábios, ele repetiu que a infância é um construto social, que varia de país para país e de povo para povo - seja lá o que ele queria defender ao retomar a tal idéia.
Talvez nisso resida a grande diferença entre os que defendem o multiculturalismo e os que se debatem contra o seu discurso - a crença em que há valores que são universais, comuns a todos os seres humanos. Este, aliás, foi um outro ponto em que o palestrante me assombrou em nosso pequeno debate, no qual, aliás, toda a platéia aderiu ao seu ponto de vista: negando a existência dos universais, ele afirmou que a Declaração dos Direitos do Homem era um construto social que defendia os interesses de certo grupo dominante e que por isso deviam ser questionados. O próprio conceito de ser humano, na visão do professor da USP, é fruto de uma concepção social - disse ele, sem citar dados, que o conceito de ser humano pode ser extendido a animais ou mesmo a seres imaginários em determinadas culturas, e disso derivava sua desconfiança em relação à existência de direitos humanos universais.
Não creio ser exagerado imaginar os caminhos que tal defesa incondicional da eqüidade de valores pode nos levar. Ao aceitarmos qualquer postura como fruto de determinada sociedade, de seu modo de pensar e se constituir como grupo, descartando qualquer limite do que seria aceitável ou não em comparação a valores universais de toda a humanidade, estamos a um passo de considerar apropriadas as mais abjetas práticas, desde a pedofilia crescente na Europa à mutilação genital de mulheres africanas, da opressão feminina nos países do Oriente Médio ao trabalho infantil nas fazendas brasileiras. Basta acomodar os conceitos, ou melhor, questioná-los: a escravidão é relativa, a opressão é relativa, o que é humilhante para um povo pode ser orgulho para outro, e por esse caminho tudo se torna válido e insuportavelmente aceitável, porque somos contemporâneos e nossas culpas ancestrais - em relação ao que os países mais ricos fizeram com povos e países subjulgados por séculos de exploração e barbarismos - lançam-nos para o multiculturalismo.
No fundo, é a velha disputa entre a crença de que todos os homens são iguais - tão afeita à esquerda em seu desprezo pelo caráter individual e único de cada ser humano em favor de um pretenso bem comum - e aquela de que todos os homens são diferentes - mais próxima às idéias de justiça, propriedade e competitividade da direita em favor de um dito bem de todos. Acreditando-se em um ou outro lado da contenda, há que se questionar quais valores se está abrindo mão ao fazer tal escolha. Do contrário, o louvável discurso dos multiculturalistas em favor de um mundo no qual “todos tenham voz e vez” pode ser manipulado de modo a que essa voz permitida a todos seja manipulada de modo a aprovar as maiores abjeções, lançando-nos aos tempos nada saudosos anteriores ao perdão como um valor da humanidade.
Na Espanha, uma das mais promissores economias da Europa, compram-se meia dúzia de meninas virgens de tribos indígenas mexicana por € 25.000. Uma moça romena sai por meros € 8.000, mas por um pouco mais, € 14.000, pode-se ter uma noite de amor com uma jovem nigeriana e seu filho de apenas quatro anos de idade, juntos. Torpezas como esta estão descritas em um livro-denúncia escrito por António Salas em 2004 e que agora é lançado no mercado brasileiro sob o título O Ano em que Trafiquei Mulheres.
Salas, no processo de elaboração de O Ano em que Trafiquei Mulheres, não se limitou à observação experiencial, digamos assim, em que se baseiam seus trabalhos jornaliísticos - ele ofereceu à polícia informações que levaram à prisão do cafetão nigeriano que lhe vendera uma jovem e seu filho, e de mais duas dezenas de pessoas que compunham uma rede de prostituição em Murcia, Espanha. Arriscando a própria vida e o processo de elaboração de seu livro, ele optou por não se calar diante da iminência de outros crimes semelhantes ao que, disfarçado, presenciara.
Patrick Dixon é o que os norte-americanos chamam de business thinker, ou seja, um pensador de negócios, um estudioso das tendências de mercado. Em outras palavras, Dixon é uma espécie de visionário profissional cuja empresa de consultoria, a Global Change, presta serviços a corporações do porte de uma IBM, Tetrapack, Google, Fedex, BBC e Roche, entre as mais de quinhentas empresas de sua cartela de clientes. Formado em medicina pelo conceituado King’s College de Londres, ele é o fundador da ACET - Aids Care, Education and Training Agency - uma das principais entidades internacionais no combate à AIDS.
A metáfora do cubo de Dixon mostra-se perfeita, pois ao homem atual parece-lhe impossível ver os diversos lados da realidade em uma única mirada. Ao ser tribal e pensar tão-somente em seus interesses de grupo, de categoria, de corporação, nega-se os valores éticos de universalidade de direitos. Ao assumir o radicalismo como única forma de solução dos problemas sociais, lança-se por terra as ferramentas da democracia como o único caminho viável de convivência construído pelo Ocidente ao longo de tantos séculos. Ao universalizar um problema que é local e compreensível apenas em determinado contexto, corre-se o risco de gritar no vazio, de lutar pelo ar que se respira, sem nenhuma consistência lógica entre ação e desejo. Na USP, os alunos protestam contra uma lei estadual que prevê a fiscalização do governo sobre as verbas gastas por aquela universidade; em outras palavras, os mesmos universitários que gritam contra os escândalos de corrupção e desvio de dinheiro público em nível federal, defendem que a universidade pública não tenha qualquer tipo de verificação em relação aos gastos da verba pública nela investida. No Rio Grande do Sul, os estudantes da UFRGS fazem, em conjunto com os universitários da UFPel, invasões nas reitorias, em cujos prédios armaram barracas e cozinhas improvisadas, reclamando, entre outras coisas, que a Reforma Universitária do Governo Federal condicionaria “a pesquisa aos interesses do empresariado” - ou seja, temem que as pesquisas sejam direcionadas a uma aplicação prática de mercado, que gere empregos e tecnologia para o país. Universalizam seus protestos, por um lado, e por outro tribalizam sua pauta de reivindicações; as contradições tornam-se, assim, inevitáveis. 
Como o ator global, eles confessam, sem qualquer pudor, que freqüentam bordéis, onde vão para “tomar cerveja” e “conversar com os amigos”. Dizem que não escondem o fato de suas amigas e namoradas por considerar que não há motivos para não contar que usam os serviços de prostitutas. Um deles relata sem cerimônias que teve uma namorada que era virgem e que por três meses não mantiveram relações sexuais; ele então “ia em um bordel, porque homem tem suas necessidades”. A namorada, segundo ele, “achava melhor [ele] ir lá do que se [ele] fizesse sexo com outra guria”, pois ela “não achava que aquilo era traição, porque [ele] não tava ficando com ninguém, só estava satisfazendo [suas] necessidades”. Apoiando as palavras do colega, outro rapaz do grupo encerra a entrevista afirmando que “com homem não tem muito problema”, pois “uma prostituta não é tua namorada; é um trabalho”.
Os que usam os serviços dessas mulheres merecem o mesmo tratamento dos que cuidam da questão de maneira tão frívola na imprensa, como o tal caderno adolescente de Zero Hora, em matéria infeliz publicada na mesma data estabelecida como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes: são, esses sim, dignos de toda a reprovação do mundo. A liberação sexual dos anos 1960, que via no sexo uma força política de libertação, deixou-nos de herança a possibilidade de se falar abertamente do assunto, de ver com outros olhos a diversidade sexual, de conversar sobre o tema dentro dos lares e em família. Mas trouxe também efeitos deletérios, que vão da exacerbação da promiscuidade, da aceitação passiva de todo e qualquer comportamento sexual e da desumanização do sexo, força poderosa que está intimamente ligada à alma humana e que hoje passou a ser uma mera questão de performance que beira à competição, uma disputa que leva os jovens a buscar as prostitutas como se isso fosse uma situação inocente e normal. Vê-se o sexo casual com estranhos como um avanço da modernidade e a prostituta como alguém que se contrata, e o dinheiro extrai dos usuários qualquer culpa.
Esqueçam a menina que, com seu melhor vestido bordado, acabava sujando-o com um pedaço do bolo de chocolate e desatava a chorar. Esqueçam a parada silenciosa dos pacotes abertos de presentes sobre a cama. Esqueçam aquele primo traquinas que acabava sempre destruindo aquele brinquedo que você havia acabado de ganhar do seu padrinho. Ah, e esqueçam também os balões, as línguas-de-sogra, o “Felicidades” escrito em letras maiúsculas de papel e unidos por um barbante estendido sobre o salão de festas, o disquinho de canções infantis tocando eternamente ao fundo, a briga saudável para ver quem chegava primeiro no prato de brigadeiros que só era liberado depois do “Parabéns a Você”. Aliás, esqueça até mesmo o “Parabéns a Você”, pois no meio infantil dos dias correntes até mesmo a cançãozinha tola, que em língua portuguesa ganhou tradução tão simpática, tornou-se obsoleta, coisa de gente velha mesmo - velhos como eu e você, leitor.
Entre os meninos, os gostos são naturalmente diferentes: em grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo os pais têm optado por fechar LAN HOUSES - as famigeradas “casas de jogos eletrônicos”, onde os adolescentes podem jogar diversos games em rede por horas e horas e horas - apenas para os convidados do aniversariante, e o que seria uma festa de aniversário acaba por tornar-se uma silenciosa disputa entre os jovens, cada um no seu computador. Sim, ainda há a torta de aniversário, os doces e salgadinhos, típicos de qualquer festa desse tipo - mas tudo controlado para não danificar os teclados e consoles, tampouco para atrapalhar a concentração dos competidores… O custo do aluguel de uma LAN HOUSE para um grupo fechado de convidados não difere muito daquele do salão de beleza para as meninas, pois a versão masculina dessa nova moda em aniversários costuma se extender por muitas horas de competição entre um tiro - virtual - e outro.