Thursday, July 5, 2007

O lado obscuro do multiculturalismo

“Pedófilos podem bravamente, corajosamente dizer que eles escolhem… Sou também um teólogo e como teólogo, creio que é vontade de Deus que haja proximidade e intimidade, unidade da carne, entre as pessoas… Pedófilos podem declarar que adquirir intimidade e amor é o que eles escolhem.  Com coragem, eles podem dizer, ‘Eu acredito que isto é, em verdade, parte da vontade divina.” (Ralph Underwager, defensor comumente convocado em casos de pedofilia na Europa, em entrevista a uma publicação pro-pedofilia) 

O tema era palpitante e de grande importância: tratar, dentro da sala de aula de língua inglesa, da reeducação do olhar do aluno perante o mundo por meio do que se denominou critical literacy (algo como “letramento crítico”).  A idéia é extender sobre o livro-didático e outros tantos textos autênticos trabalhados no ensino de idiomas questionamentos que possam ir além do mero conteúdo gramatical ou semântico dos textos - indagar as intenções, a autoria, as implicações e a forma como o texto é recebido pelos alunos.  Em outras palavras, usar a aula de língua estrangeira para criar leitores críticos do mundo.

A primeira palestra propunha um questionamento sobre as diferenças entre uma visão de mundo a partir de totalidades ou de múltiplas perspectivas.  As totalidades a que se referia o palestrante, um doutor em ensino de língua inglesa como língua estrangeira por uma conceituada universidade britânica, professor da Universidade de São Paulo, dizem respeito às concepções de Cultura, Gramática, Linguagem, Identidade e Conhecimento como entidades singulares.  Vistos como homogeneidades, eles pressuporiam representações de uma realidade pré-existente e externa e, na visão do palestrante, excluem per se todas as diferenças.  No caso das línguas, as concepções homogêneas reduziriam o texto a um processo de decodificação no qual caberiam, como respostas, apenas o certo e o errado.

Tais conceitos são inegáveis em um mundo no qual as mais distintas culturas e visões de mundo afloram com força, em que a capacidade de comunicação e expressão humanas parecem multiplicadas a cada dia.  Não cabe mais no homem contemporâneo a ingenuidade que antes lhe permitia ignorar a autoria, a agenda política, a intenção e a ideologia por trás dos textos orais ou escritos aos quais somos expostos diariamente.  E é nesse sentido que a critical literacy surge como uma importante contribuição à formação de cidadãos conscientes e autônomos em suas escolhas.

Contudo, o discurso entorta ao propor que o caminho do letramento crítico é a relativização dos conceitos.  A proposta do palestrante, ao final de sua fala, foi a de que aquela abordagem focada na heterogeneidade visava ao convencimento de que não há valores absolutos, já que tudo o que rege a vida humana seria, em verdade, um construto social, vinculado a uma certa ideologia, momento histórico e sociedade.  Em outras palavras, o letramento crítico seria a negação da existência de universais.

Esta foi justamente a minha pergunta ao palestrante, depois de outras tantas que vangloriavam a panacéia da compreensão da diversidade como o único caminho possível para a paz.  Tendo minhas crenças muito sólidas de que o entendimento mútuo é, de fato, uma seara interessante e possível para um mundo menos belicoso, indaguei do professor da USP se o que ele entendia como “compreensão” não levaria à completa negação dos valores universais do ser humano.  Para meu espanto, ele disse que não há valores universais.  Lancei-lhe então uma réplica, questionando se aquele não seria um caminho perigoso, se não seria temerário transformar a compreensão das razões do outro como uma mera aceitação passiva de que tudo é possível e aceitável.  E acrescentei um pequeno desafio - como funcionaria essa mecânica da “compreensão da diversidade” em situações como a recente tentativa, ocorrida na Holanda, de criação de um Partido em Defesa do Sexo Transgeracional - em outras palavras, a faceta política dos pedófilos daquele país europeu.

A princípio, o palestrante queixou-se de que o tópico que eu escolhi era “passional” demais.  Depois, reforçando as idéias de sua cartilha de acolhimento incondicional da diversidade, afirmou que o conceito de infância era uma criação social!  Confesso que fiquei confuso e perguntei se tal fato - o de a infância ser um conceito construído socialmente - fazia com que devêssemos então desconsiderar tal barreira, a da infância, como impedimento legal para as práticas delituosas de que eu falava.  Com um estranho sorriso nos lábios, ele repetiu que a infância é um construto social, que varia de país para país e de povo para povo - seja lá o que ele queria defender ao retomar a tal idéia. 

Talvez nisso resida a grande diferença entre os que defendem o multiculturalismo e os que se debatem contra o seu discurso - a crença em que há valores que são universais, comuns a todos os seres humanos.  Este, aliás, foi um outro ponto em que o palestrante me assombrou em nosso pequeno debate, no qual, aliás, toda a platéia aderiu ao seu ponto de vista: negando a existência dos universais, ele afirmou que a Declaração dos Direitos do Homem era um  construto social que defendia os interesses de certo grupo dominante e que por isso deviam ser questionados.  O próprio conceito de ser humano, na visão do professor da USP, é fruto de uma concepção social - disse ele, sem citar dados, que o conceito de ser humano pode ser extendido a animais ou mesmo a seres imaginários em determinadas culturas, e disso derivava sua desconfiança em relação à existência de direitos humanos universais.

Não creio ser exagerado imaginar os caminhos que tal defesa incondicional da eqüidade de valores pode nos levar.  Ao aceitarmos qualquer postura como fruto de determinada sociedade, de seu modo de pensar e se constituir como grupo, descartando qualquer limite do que seria aceitável ou não em comparação a valores universais de toda a humanidade, estamos a um passo de considerar apropriadas as mais abjetas práticas, desde a pedofilia crescente na Europa à mutilação genital de mulheres africanas, da opressão feminina nos países do Oriente Médio ao trabalho infantil nas fazendas brasileiras.  Basta acomodar os conceitos, ou melhor, questioná-los: a escravidão é relativa, a opressão é relativa, o que é humilhante para um povo pode ser orgulho para outro, e por esse caminho tudo se torna válido e insuportavelmente aceitável, porque somos contemporâneos e nossas culpas ancestrais - em relação ao que os países mais ricos fizeram com povos e países subjulgados por séculos de exploração e barbarismos - lançam-nos para o multiculturalismo.

No fundo, é a velha disputa entre a crença de que todos os homens são iguais - tão afeita à esquerda em seu desprezo pelo caráter individual e único de cada ser humano em favor de um pretenso bem comum - e aquela de que todos os homens são diferentes - mais próxima às idéias de justiça, propriedade e competitividade da direita em favor de um dito bem de todos.  Acreditando-se em um ou outro lado da contenda, há que se questionar quais valores se está abrindo mão ao fazer tal escolha.  Do contrário, o louvável discurso dos multiculturalistas em favor de um mundo no qual “todos tenham voz e vez” pode ser manipulado de modo a que essa voz permitida a todos seja manipulada de modo a aprovar as maiores abjeções, lançando-nos aos tempos nada saudosos anteriores ao perdão como um valor da humanidade.

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Wednesday, June 20, 2007

A ‘Escolha de Sofia’ do jornalismo investigativo

Duas meninas vietnamitas, de oito e dez anos, encontradas em um bordel na EspanhaNa Espanha, uma das mais promissores economias da Europa, compram-se meia dúzia de meninas virgens de tribos indígenas mexicana por € 25.000. Uma moça romena sai por meros € 8.000, mas por um pouco mais, € 14.000, pode-se ter uma noite de amor com uma jovem nigeriana e seu filho de apenas quatro anos de idade, juntos. Torpezas como esta estão descritas em um livro-denúncia escrito por António Salas em 2004 e que agora é lançado no mercado brasileiro sob o título O Ano em que Trafiquei Mulheres.

António Salas é o pseudônimo de um jornalista espanhol especializado no chamado jornalismo investigativo ou neo-jornalismo, como querem alguns, o qual leva às últimas conseqüências. Seu livro mais famoso, Diário de um Skinhead, surgiu de uma longa temporada em que Salas tornou-se membro ativo de um grupo neonazista na Espanha, tomando parte de ações violentas e crimes, todos relatados em minúcias no livro que foi um sucesso editorial em seu país. Em seu novo livro-denúncia, o método investigativo não foi distinto: Salas travestiu-se de empresário interessado em comprar meninas virgens e travou, assim, contato com uma nigeriana e seu cafetão na sede da Associação Nacional de Bordéis da Espanha - ah, a capacidade de organização européia! -, os quais abriram para o jornalista disfarçado as portas do submundo da prostituição e do tráfico de mulheres naquele país.

O jornalista investigativo descobriu coisas ainda mais funestas.  Seu trabalho anterior sobre os skinheads deu-lhe o conhecimento necessário para identificar uma estreita e insuspeitada ligação entre o mercado da prostituição na Europa e os grupos ultra-direitistas.  Salas descobriu que o presidente da tal Associação Nacional de Bordéis da Espanha é, curiosamente, o líder do grupo España 2000, de orientação xenófoba e racista, que já organizou diversas manifestações públicas contrárias aos imigrantes.  Ironicamente, a entrada de ilegais no país é a principal porta de entrada para a prostituição na Espanha.  Salas revelou também a existência de diversas celebridades - de esportistas a políticos, de apresentadores de televisão a artistas conhecidos - que não só se utilizam dos serviços especializados - entenda-se como a contratação de prostitutas que fogem ao padrão das profissionais em geral, por serem famosas ou por serem menores de idade: eles também são proprietários de bordéis e empresários desse mesmo submundo da prostituição na Espanha.  E escravizam, sim, suas contratadas, por meio do velho esquema de seduzi-las com promessas de emprego e riqueza, pas depois envolucrá-las em dívidas que jamais podem ser pagas, em ameaças de morte e em situações desumanas de vida.

Capa do livroSalas, no processo de elaboração de O Ano em que Trafiquei Mulheres, não se limitou à observação experiencial, digamos assim, em que se baseiam seus trabalhos jornaliísticos - ele ofereceu à polícia informações que levaram à prisão do cafetão nigeriano que lhe vendera uma jovem e seu filho, e de mais duas dezenas de pessoas que compunham uma rede de prostituição em Murcia, Espanha.  Arriscando a própria vida e o processo de elaboração de seu livro, ele optou por não se calar diante da iminência de outros crimes semelhantes ao que, disfarçado, presenciara.

O livro de Salas mostra a dubiedade do trabalho investigativo - não só do jornalismo, mas da própria polícia.  Até que ponto a infiltração é aceitável, e qual o limite no qual o investigador ou jornalista deve recuar?  Uma vez imerso no submundo, sob disfarce, é possível recuar diante da iminência de um crime que está por acontecer?  Ou se deveria pensar no bem maior que a investigação poderá trazer caso não seja interrompida naquele momento, por conta daquele crime?  Como no romance de William Styron, em que a protagonista Sophie Zawistowski foi obrigada a escolher entre um de seus filhos que iriam soberviver ao Holocausto nazista, a tarefa do jornalista investigativo é envolta em decisões inimagináveis para os que não estamos diretamente envolvidos nessas situações-limite.  São escolhas difíceis que pessoas como Antonio Salas devem enfrentar ao longo de seu trabalho - e que, talvez, nem venham a revelar quando de seu relato em forma de livro.  Que pensar, então, da tênue linha que separa o jornalismo investigativo do mero sensacionalismo em busca do dinheiro fácil dos grandes sucessos editoriais.

Infelizmente, a desgraça alheia ainda vende mais que comove.  Oxalá um dia livros como esse motivem a sociedade a tomar ações mais positivas que meramente comprar o livro e chocar-se com seu conteúdo.

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Wednesday, June 6, 2007

O futuro e os protestos

Patrick DixonPatrick Dixon é o que os norte-americanos chamam de business thinker, ou seja, um pensador de negócios, um estudioso das tendências de mercado.  Em outras palavras, Dixon é uma espécie de visionário profissional cuja empresa de consultoria, a Global Change, presta serviços a corporações do porte de uma IBM, Tetrapack, Google, Fedex, BBC e Roche, entre as mais de quinhentas empresas de sua cartela de clientes.  Formado em medicina pelo conceituado King’s College de Londres, ele é o fundador da ACET - Aids Care, Education and Training Agency - uma das principais entidades internacionais no combate à AIDS.   

Em 05 de junho de 2007, Patrick Dixon veio à Porto Alegre apresentar “A Sabedoria do Futuro: as seis faces da mudança global” (Futurewise: the six faces of global change), palestra baseada no livro homônimo lançado em 1998 pela Harper Collins.  Na obra, Dixon faz uma analogia da situação global com um cubo, cujas seis faces não podem ser enxergadas ao mesmo tempo - por isso, segundo o autor, é preciso que “continuemos girando o cubo”, sob o risco de perdermos para o que há de vir.  “Ou tomamos as rédeas do futuro ou o futuro tomará as nossas rédeas”, diz o autor na introdução de seu livro.

A palestra, realizada no Salão de Atos da UFRGS, ocorreu no mesmo dia em que alunos daquela universidade federal ocuparam o prédio da Reitoria em um ato de protesto.  O local da invasão fica em frente ao prédio onde é realizado o ciclo de palestras “Fronteiras do Pensamento”, patrocinado pela COPESUL, um fórum de altos estudos de cuja programação a palestra de Dixon fazia parte.  Sob o risco de os estudantes impedirem a entrada dos participantes do evento, o próprio palestrante foi falar com os líderes do movimento, em busca de um acordo.  Dixon ofereceu aos estudantes a oportunidade de usar a tribuna do “Fronteiras do Pensamento” nos minutos finais de sua palestra para explicar aos presentes os objetivos do protesto e suas reivindicações.  Para tal, perguntou aos estudantes qual era a razão do protesto, o que queriam com a ocupação ao prédio da Reitoria.  Nenhum dos líderes do protesto souberam responder; reuniram-se e, trinta minutos depois, comunicaram a Dixon que agradeciam a oportunidade mas declinavam o convite, pois não sabiam ao certo definir em poucas palavras a pauta de reivindicações que os levaram a iniciar o protesto que ameaçava impedir a realização da palestra do pensador britânico.

É curioso analisar o ocorrido - narrado pelo próprio palestrante - pelo prisma das “seis faces do cubo” de Dixon.  O mundo atual, em sua visão, segue em direção ao futuro apresentando seis aspectos inegáveis: o rápido - uma sensação de hiper-aceleração emprestada pelos avanços tecnológicos e pelo contínuo surgimento de novos meios (e objetos) de consumo -; o urbano - as variações demográficas e sociais, cujo exemplo maior é o envelhecimento das populações urbanas -; o tribal - paradoxalmente, a globalização fez exacerbar-se o sentimento de tribo, que pode girar em torno de uma nacionalidade, de um hobby ou mesmo de um produto -; o universal - não só as corporações tornaram-se globais, mas também o consumo e as relações humanas -; o radical - com o fim da dicotomia esquerda versus direita, houve o enfraquecimento dos governos e a política passou a ser mais guiada por interesses corporativos e de grupos de pressão -; e o ético -  as corporações passaram a usar os valores pessoais, a motivação e a espiritualidade para “exercer o fascínio” sobre o consumidor.  No evento dos estudantes revoltados que não conseguiram expressar seus motivos para a ação radical, notam-se os sinais desse futuro que está a se construir: os mecanismos de pressão pelas vias do radicalismo, que não sabe trabalhar quando convocado à negociação e ao debate; o tribalismo da decisão de invadir o prédio da Reitoria - us estudantes declararam em entrevista a um canal de televisão local que o movimento era um ato de solidariedade aos alunos da USP -; o universalismo desenhado na decisão de reproduzir no Rio Grande do Sul, em uma universidade federal, as mesmas ações desencadeadas em São Paulo, em uma universidade estadual, as quais teriam sido motivadas por uma questão regional, de um decreto do governador daquele estado; as distorções éticas que levam estudantes universitários a invadir a reitoria de sua universidade motivados por uma pauta de reivindicações a qual sequer conseguem nominar quando solicitados.

Universitários improvisaram acampamento e cozinharam na reitoria - em repúdio a quê? A metáfora do cubo de Dixon mostra-se perfeita, pois ao homem atual parece-lhe impossível ver os diversos lados da realidade em uma única mirada.  Ao ser tribal e pensar tão-somente em seus interesses de grupo, de categoria, de corporação, nega-se os valores éticos de universalidade de direitos.  Ao assumir o radicalismo como única forma de solução dos problemas sociais, lança-se por terra as ferramentas da democracia como o único caminho viável de convivência construído pelo Ocidente ao longo de tantos séculos.  Ao universalizar um problema que é local e compreensível apenas em determinado contexto, corre-se o risco de gritar no vazio, de lutar pelo ar que se respira, sem nenhuma consistência lógica entre ação e desejo.  Na USP, os alunos protestam contra uma lei estadual que prevê a fiscalização do governo sobre as verbas gastas por aquela universidade; em outras palavras, os mesmos universitários que gritam contra os escândalos de corrupção e desvio de dinheiro público em nível federal, defendem que a universidade pública não tenha qualquer tipo de verificação em relação aos gastos da verba pública nela investida.  No Rio Grande do Sul, os estudantes da UFRGS fazem, em conjunto com os universitários da UFPel, invasões nas reitorias, em cujos prédios armaram barracas e cozinhas improvisadas, reclamando, entre outras coisas, que a Reforma Universitária do Governo Federal condicionaria “a pesquisa aos interesses do empresariado” - ou seja, temem que as pesquisas sejam direcionadas a uma aplicação prática de mercado, que gere empregos e tecnologia para o país.  Universalizam seus protestos, por um lado, e por outro tribalizam sua pauta de reivindicações; as contradições tornam-se, assim, inevitáveis. 

Ou será que a impossibilidade de revelar as razões ocultas de tais protestos é o que impede os estudantes de usar um fórum privilegiado como o do “Fronteiras do Pensamento” para expor suas reivindicações?  Como sói acontecer, é uma face do cubo que dificilmente se vê, mas que se percebe ao compreender a lógica perversa de nosso tempo.

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Monday, May 21, 2007

A desumanização do sexo

No mesmo dia em que se anunciava a abertura de uma academia-museu do sexo em Londres, o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em seu caderno dedicado aos adolescentes publicava uma matéria sobre a primeira experiência sexual dos rapazes.  Na capa do caderno Kzuka do dia 18 de maio de 2007, um jovem ator que faz o papel de um garoto de programa em uma telenovela atual, Sérgio Marone, corrobora os argumentos machistas que muitos acreditavam estar desaparecendo no Brasil:

- Ao contrário do que alguns dizem, tu achas que pode ser legal perder a virgindade com uma garota de programa?

- Pode ser muito legal, sim, você pode ser bem instruído.  É óbvio que ela pegou preservativo, me ensinou e tudo o mais.  Influenciou para que eu tivesse minha sexualidade bem resolvida.

Sérgio MArone

Mais adiante, entrevista-se um grupo de amigos, quatro jovens universitários entre dezoito e vinte anos.  Eles falam da pressão que sentiam de seus colegas no Segundo Grau para que perdessem a virgindade, situação que resolveram de diversas formas: um deles relata que arrumou “uma namorada só para isso” e completa, rindo cinicamente, que “uma semana depois, o namoro acabou” e ele “não sabe por quê”; outro, relata que, com quatorze anos, ele e mais quatro amigos foram levados até uma prostituta pelas mãos do amigo do pai de um deles e que, quando contou ao seu pai, este considerou aquilo “normal”; um terceiro diz que a própria irmã “arranjou tudo” para ele viajar com uma amiga dela, a quem encarregou de iniciar sexualmente o irmão. 

Como o ator global, eles confessam, sem qualquer pudor, que freqüentam bordéis, onde vão para “tomar cerveja” e “conversar com os amigos”.  Dizem que não escondem o fato de suas amigas e namoradas por considerar que não há motivos para não contar que usam os serviços de prostitutas.  Um deles relata sem cerimônias que teve uma namorada que era virgem e que por três meses não mantiveram relações sexuais; ele então “ia em um bordel, porque homem tem suas necessidades”.  A namorada, segundo ele, “achava melhor [ele] ir lá do que se [ele] fizesse sexo com outra guria”, pois ela “não achava que aquilo era traição, porque [ele] não tava ficando com ninguém, só estava satisfazendo [suas] necessidades”.  Apoiando as palavras do colega, outro rapaz do grupo encerra a entrevista afirmando que “com homem não tem muito problema”, pois “uma prostituta não é tua namorada; é um trabalho”. 

O jornal preocupou-se em coletar outras opiniões - de psicólogos a meninas da mesma idade dos entrevistado e até mesmo rapazes que não concordam com as declarações dos rapazes acima citados.   Na suposta sutileza da entrevista e no estudado estudado tom jovial de toda a matéria, contudo, estão visíveis as falácias de sempre - a iniciação com prostitutas reafirmando a masculinidade, a necessidade sexual masculina que não aceita qualquer tipo de controle, a traição masculina vista como condição natural da espécie humana.  Mas o que mais revolta em toda a matéria é que em nenhum momento se pensa no outro lado da questão: a prostituição feminina.

A mitologia existente sobre a dita profissão mais antiga do mundo é desmentida por todos os estudos sobre o tema; as mulheres são levadas à prostituição por necessidade, por vitimação em situações de abuso sexual, vendidas pelos próprios pais, forçadas pela vida.  Ser prostituta não é uma atividade com a qual se sonhe tornar na infância; não é aceita pela sociedade, tampouco é meio de vida que se almeje.  As prostitutas não escolhem os homens a quem irão servir, não trabalham por conta própria e não entram nesse tipo de atividade por vontade própria. 

Aqueles que tratam com tamanha frivolidade uma atividade que se baseia na perda absoluta da dignidade fazem isso para aliviar suas próprias culpas.  Afinal, ao criar para si mesmos o mito de que a prostituta é uma prestadora de serviços - algo como uma podóloga ou um eletricista -, também costróem uma auto-imagem de alguém que não está a fazer nada demais.  Não raro o mito da prostituta feliz com o que faz é corroborado por fantasias que misturam a figura da universitária gananciosa que vende o corpo por altas quantias com a garota de programa glamourizada de Uma Linda Mulher - bela, espirituosa e a serviço de milionários charmosos e disponíveis - e a idéia de que muitas das mulheres da vida exercem o ofício por serem ninfimaníacas que unem o prazer ao sustento… Se há, entre as prostitutas, mulheres que se dizem felizes com o que fazem, essas são uma minoria, e pode-se facilmente questionar se, declarando-se satisfeitas com essa vida de miséria moral, não estarão apenas tentando salvar para si um pouco da alma que vão perdendo a cada noite de exploração vivida nas mãos de desconhecidos.

Quem duvida disso - em especial, os homens -, que se imaginem sendo obrigados a manter relações sexuais com qualquer pessoa que se disponha a pagar por seus serviços.  As prostitutas merecem o mesmo respeito que qualquer ser humano; não se trata de criminalizar as que vivem nesse submundo de crueldades.  Mas banalizar a prostituição é colaborar na perpetuação dessa forma moderna de escravidão feminina. 

Os que usam os serviços dessas mulheres merecem o mesmo tratamento dos que cuidam da questão de maneira tão frívola na imprensa, como o tal caderno adolescente de Zero Hora, em matéria infeliz publicada na mesma data estabelecida como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes:  são, esses sim, dignos de toda a reprovação do mundo.  A liberação sexual dos anos 1960, que via no sexo uma força política de libertação, deixou-nos de herança a possibilidade de se falar abertamente do assunto, de ver com outros olhos a diversidade sexual, de conversar sobre o tema dentro dos lares e em família.  Mas trouxe também efeitos deletérios, que vão da exacerbação da promiscuidade, da aceitação passiva de todo e qualquer comportamento sexual e da desumanização do sexo, força poderosa que está intimamente ligada à alma humana e que hoje passou a ser uma mera questão de performance que beira à competição, uma disputa que leva os jovens a buscar as prostitutas como se isso fosse uma situação inocente e normal.  Vê-se o sexo casual com estranhos como um avanço da modernidade e a prostituta como alguém que se contrata, e o dinheiro extrai dos usuários qualquer culpa. 

Se a prostituição fosse uma mera prestação de serviços, o mesmo pai que considerou “normal” que seu filho perdesse a virgindade com uma profissional do sexo não se importaria se a filha seguisse o mesmo exemplo, contratando os serviços de um garoto de programa ou, quem sabe, tornanddo-se ela também uma prestadora de serviços.  Há os que verão nessas palavras um forte moralismo, uma fala reacionária ou o que quer que digam para denegrir os que não vêem nas relações sexuais uma atividade humana sem maiores conseqüências.  Mas quando as coisas têm dois pesos e duas medidas, é porque um dos lados da balança ética está nitidamente descompensado.

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Thursday, April 26, 2007

Aqui jaz o Limbo

Dante e Virgílio encontram os poetas clássicos no Limbo - Ilustração da 'Divina Comédia', de Dante Alighieri, feita por Gustave Doré

Na Divina Comédia, a obra-prima fundadora da Língua Italiana, o poeta Dante Alighieri situou pagãos virtuosos e grandes escritores e filósofos da Antiguidade, como Sócrates e Platão, no limbo - uma região do mundo de além-túmulo que em séculos de tradição religiosa era apontado como o lugar para onde eram encaminhadas as almas virtuosas que morreram ser receber o sacramento do batismo, incluindo nesse número as crianças recém-nascidas. Pois Bento XVI (Joseph Ratzinger), apontado como reacionário e radical por muitos, desde antes de sua eleição como papa, corroborou a decisão da Comissão Teológica Internacional da Igreja Católica de extirpar do imaginário católico as dúvidas que pairavam sobre a existência de tal lugar espiritual onde não havia sofrimento nem deleites para as almas não batizadas.

O catecismo católico já havia omitido as menções ao limbo desde a edição de 1992, mas o tema da salvação das crianças recém-nascidas que vinham a falecer antes de serem batizadas era ainda tema de discussão entre os teólogos. Em verdade, o limbo jamais fez parte da doutrina da Igreja, embora fosse amplamente divulgado e ensinado nos meios católicos, ao menos até as primeiras décadas do século XX. A decisão, aprovada por Bento XVI, é uma afirmação de que a Igreja Católica acredita haver indícios de que “Deus salvará as crianças que não foram batizadas”, ainda que as escrituras não tragam nenhuma referência explícita ao tema.

A morte do limbo - uma palavra latina que significa “fronteira” ou “limite” - não significa, contudo, o fim da crença no pecado original e na importância do batismo como sinal de aliança dos fiéis com Deus.

A idéia do limbo teria surgido na Idade Média. Na visão de alguns teólogos da Idade Média, seria um “estado ou lugar reservado aos bons e justos que não receberam o sagrado sacramento do batismo”, incluindo aqueles que viveram antes da vinda de Jesus à Terra. Sua existência teológica, contudo, foi sempre questionada. O próprio papa Bento XVI, antes ainda de ser escolhido líder da Igreja Católica, já havia declarado sua concepção de que o limbo seria “apenas uma hipótese teológica” e não “uma verdade definitiva no campo da fé” católica.

Um sinal dos tempos, ou mais ainda, da modernização da Igreja Católica?  As questões teológicas e a visão do Vaticano sobre os problemas contemporâneos sempre tiveram uma grande visibilidade e foram alvo de inúmeras discussões.  Muitos pensadores, boa parte deles não-católicos, discutem e criticam as posições teológicas de uma religião que permaneceu sempre no imaginário de todos os ocidentais, papistas ou não.  Sem dúvida, a Igreja é detentora de uma grande influência sobre um grande número de fiéis e mesmo de pessoas que não professam a fé católica, dado o papel do Cristianismo na cultura ocidental.  Em verdade, a Igreja Católica nunca esteve estagnada nas mesmas idéias.  Mesmo na era medieval, que os Iluministas franceses nos fizeram ver como um “Tempo de Trevas”, as questões teológicas do catolicismo sempre estiveram sob discussão; se as mudanças não foram mais rápidas que uma certa fatia da intelectualidade esperava, é porque a matéria em debate não pode, de fato, render-se à urgência dos homens.  Afinal, quem de nós pode ter certezas sobre a divindade e sua natureza? 

Melhor preocuparmo-nos com nosso deus interior, aquele que nos rege em nossas decisões morais e que reflete a nossa relação com essa divindade de tantos nomes e imagens, mas cuja essência ainda seguirá oculta aos olhos humanos por muitos e muitos séculos.  Que se ocupem com a teologia católica os próprios católicos e ninguém mais. 

Pena não podermos mais deixar nossas questões teológicas no limbo…

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Monday, March 19, 2007

Matar por uma causa

Cesare BattistiA prisão, em 18 de março de 2007, do italiano Cesare Battisti em um hotel na praia de Copacabana, Rio de Janeiro, parece exemplificar as distorções que os conceitos morais podem sofrer aos olhos dos que abraçam uma causa.

Battisti, de cinqüenta e dois anos de idade, foi integrante de um grupo terrorista de esquerda na Itália, na década de 1970, ligado às célebres Brigadas Vermelhas, as quais, entre outros tantos atentados e mortes, foram responsáveis pelo seqüestro e assassinato do ex-primeiro-ministro italiano Aldo Moro na década de 1970.  Condenado por quatro assassinatos e outros tantos roubos e seqëstros, Battisti conseguiu fugir da Itália em 1981, refugiando-se no México por dez anos até obter junto ao governo francês, então socialista, asilo político em território europeu.  Adotado por intelectuais franceses de esquerda, Cesare Battisti saltou da modesta posição de porteiro de um edifício residencial em Paris para escritor de novelas policiais publicado e badalado em toda a França.  Em 2005, seu asilo político foi cassado e Battisti novamente desapareceu sob a ameaça de ser extraditado para a Itália, onde pesa sobre ele a condenação de prisão perpétua por seus crimes.  Agora, dois anos depois de sua fuga da França, Cesare Battisti foi detido no Rio de Janeiro por uma operação conjunta das polícias brasileira, italiana e francesa, em uma ação elogiada pelo ministro da Justiça italiano, Clemente Mantella, que já solicitou às autoridades brasileiras a extradição do preso.

O caso Battisti chama a atenção pelas reações da imprensa francesa.  Diversos órgãos de imprensa naquele país começam a associar a prisão do terrorista de esquerda com as próximas eleições francesas, como se a ação conjunta das polícias de três países fosse uma mera manobra política para desestabilizar as possibilidades dos candidatos de esquerda daquele país às vésperas do pleito.  Como os intelectuais franceses que acolheram efusivamente Cesare Battisti na década de 1990 como herói, os jornais franceses parecem também querer ignorar os atos por ele cometidos em nome de uma causa que, certa ou errada, não justifica as mortes, os seqüestros ou os atentados perpetrados por ele e seus companheiros de ideologia.  Já surgem, da voz de diversos desses intelectuais franceses, pedidos de clemência ao governo brasileiro para que Battisti não seja extraditado para a Itália.  O caso faz-nos recordar da prisão dos seqüestradores do empresário paulistano Abílio Diniz, em São Paulo, quando certos grupos de direitos humanos brasileiros tentaram defender os seqüestradores, chilenos em sua maioria, classificando suas ações como “atos políticos”, já que o dinheiro do resgate seria usado para alimentar movimentos políticos de esquerda no Chile, o que faria com que os seqüestradores fossem tratados como “presos políticos”.

Então haverá uma “guerra justa”?  Matar, destruir, roubar e seqüestrar em nome de uma causa é plenamente justificável?  Ainda que tal lógica perversa não seja muitas vezes abertamente declarada, essa é uma idéia que parece pairar nos pensamentos de boa parte de nossa intelectualidade brasileira também, que faz ouvidos moucos e olhos vendados às destruições de patrimônio público, de pesquisas científicas e de propriedades privadas em tantas ações efetuadas pelo país afora por grupos de manifestantes sobre os quais parece reinar uma aura de impunidade cuja única justificativa parece ser a de estarem lutando por uma causa que nossos pensadores vêem como justa e acima de quaisquer suspeitas.  Mas a morte, a destruição, a agonia das famílias dos seqüestrados e o trauma das vítimas envolvidas nos roubos e ações violentas dos que lutam por uma causa, qualquer que seja ela, são sempre deletérios, não importa a cor da ideologia que os motive, ou mesmo a ausência de uma “razão maior” que tortamente os justifique.

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Saturday, August 12, 2006

O Poder (Macabro) do Anonimato

Em um desses filmes da década de 1970, exibido dia desses em um canal de televisão universitário de Porto Alegre, havia uma cena na qual um respeitável juiz de uma pequena cidade, conhecido por sua ferrenha defesa da moral e dos bons costumes, é visto dando dinheiro para a cafetina do lugar que o permite, à contragosto, entrar em sua casa de tolerância pela porta dos fundos. Encaminhado por ela através de corredores estreitos e escuros, vê-se em seguida que o juiz é levado para uma sala oculta na penumbra e é sentado de frente para uma parede vazia. A sala ilumina-se, de repente, parcialmente, e nota-se que em verdade a parede é a parte de trás de um espelho: através desta muralha translúcida de vidro, há a visão completa de um dos quartos do lupanar, onde um homem de seus trinta anos irá, em seguida, proceder a violação de uma menina cuja virgindade havia sido leiloada, minutos depois, em uma sala oculta do lupanar. O juiz, naturalmente, nada faz para contornar a situação: ele está ali justamente para, como voyeur, apreciar de perto o crime que está a ser cometido.

A tela do computador passou a ser, na atualidade, esse espelho de fundo falso do filme de ficção. Ocultos pelo anonimado aparentemente garantido pela Internet, que permite ao usuário interagir à distância com outras pessoas e, desta forma, influenciar de uma forma ou outra a vida de seus interlocutores, muitos internautas assumem a postura de voyeurs inertes diante das mais terríveis situações que lhes chegam pela Rede Mundial de Computadores.

Há poucos dias, a história macabra do suicídio assistido de um jovem de Porto Alegre, a maior cidade da Região Sul do Brasil, tomou de assalto os noticiários locais. O adolescente de dezesseis anos - visto como um rapaz inteligente e talentoso - mantinha na Internet uma vasta rede de contatos, mantidos por mensagens eletrônicas, salas de bate-papo e fóruns de discussão sobre os mais diversos assuntos. O rapaz portoalegrense, fluente na língua inglesa, era conhecido em sites norte-americanos e canadenses - e foi justamente por meio de uma jovem adolescente canadense é que as características bizarras da morte do rapaz vieram à tona.

A menina canadense freqüentava fóruns de discussão sobre música nos quais o brasileiro divulgava suas composições musicais. Conversando com outros colegas internautas, ela descobriu que o portoalegrense estava a divulgar que iria cometer suicídio em dia e hora marcados, e pedia a colaboração de todos para que o acompanhassem em seu intento. Desesperada, a jovem procurou a sala de bate-papo indicada e constatou que, de fato, o jovem estava a publicar mensagens nas quais informava os passos que estaria seguindo para cometer suicídio e pedia orientações sobre como fazê-lo de forma efetiva e indolor. A canadense entrou em contato com a polícia local e um inspetor de polícia de seu país entrou em contato direto com o oficial de ligação da Interpol em Porto Alegre. O policial brasileiro acreditou na história contada pela menina e acionou as forças policiais locais, que chegaram ao endereço do rapaz - a canadense obtivera esta informação a partir de um outro internauta que dias antes havia enviado um CD para o brasileiro - mas, infelizmente, já o encontraram sem vida.

O lado mais sombrio e assustador dessa história é que, durante todo o período entre a preparação e a consumação do suicídio, o rapaz portoalegrense recebeu o incentivo e as orientações de outros internautas que, conectados na mesma sala de bate-papo que o brasileiros indicara, assistiram sem maiores problemas à morte do jovem. Durante o processo, o rapaz chegou a publicar fotografias digitais do ambiente no qual cometeria o ato de desespero, e recebeu como retorno frases de apoio para que se matasse e dicas técnicas de como fazê-lo.

Como no espelho de fundo falso, esses internautas colocaram-se em frente aos seus monitores naquele dia e hora para apreciar a morte de outro ser humano que, por estar distante, em outro país, por não lhe serem próximos consangüineamente ou por não serem seus conterrâneos, enfim, por alguma razão a distância aparente fornecida pelo mundo virtual fez com que essas pessoas deixassem de lado sua humanidade e encarassem o suicídio do rapaz como “mais um espetáculo bizarro na Internet”.

A história, por si só abjeta, torna-se ainda mais cruel diante das novas revelações oriundas da investigação policial - que, através do número de identificação dos computadores na Internet, localizou os participantes desse suicídio assistido à distância. Um dos usuários mais ativos na sessão rastreada pela polícia internacional, um dos que mais ajudaram o rapaz a cometer o ato extremo, seria um ex-bombeiro norte-americano. O rapaz brasileiro, que sofria de depressão e era assistido por psicólogos e psiquiatras há pelo menos dois anos, levou a cabo sua decisão de dar fim à própria vida incentivado por contatos que tivera com internautas como o ex-bombeiro e outros, os quais o indicaram para grupos de discussão sobre suicídio, nos quais os usuários costumam trocar informações sobre as diversas formas de cometer tal ato e até mesmo combinam dia, hora e local para realizarem o suicídio em conjunto.

Falharam os pais, que deixaram livre o acesso do filho a todos os conteúdos da Internet? Falharam os psicólogos e psiquiatras, que não foram capazes de identificar a gravidade do estado do adolescente? Falharam os policiais, que não conseguiram chegar à tempo de evitar o pior? Creio que não há que buscar culpados em um caso como este; a culpa maior talvez resida mesmo no ato de omissão - mais ainda no de incentivo - diante de um tema de tamanha gravidade. As palavras ferem, constróem e destróem, interrompem e motivam - para o bem e para o mal. Que dizer então da palavra dita levianamente, e por um meio frio e distante como uma sala de bate-papo na Internet, onde ninguém sabe da vida de ninguém com a profundidade necessária para qualquer tipo de aconselhamento - ainda mais um conselho como este, o de que a morte é a única saída? Os internautas que acompanharam a morte desse rapaz - sobretudo o ex-bombeiro, treinado justamente para salvar vidas - agiram com o mesmo hediondo comportamento de uma turba que se posicionasse no meio da rua a gritar para que um desesperado no terraço do prédio para que salte - pelo simples prazer de ver algo dramático e diferente acontecendo em suas vidas monótonas.

Como o juiz que assiste o estupro sem culpa, por saber-se oculto pela luz espelhada pelo lado cego do vidro escuro, muitos internautas assumem o ilusório anonimato da Rede Mundial de Computadores para viver seu lado mais sórdido e ignóbil. Por trás dessa ilusória máscara, eles dão golpes financeiros, humilham outros internautas, denigrem a imagem alheia, espalham boatos ou alimentam as fraquezas e neuroses de seu próximo. Mas os espelhos se quebram e, por sorte, também se desfaz o esconderijo desses verdadeiros criminosos virtuais que precisam ter seus dias contados.

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Wednesday, July 5, 2006

Está na hora de apagar a velinha?

Esqueçam a menina que, com seu melhor vestido bordado, acabava sujando-o com um pedaço do bolo de chocolate e desatava a chorar.  Esqueçam a parada silenciosa dos pacotes abertos de presentes sobre a cama.  Esqueçam aquele primo traquinas que acabava sempre destruindo aquele brinquedo que você havia acabado de ganhar do seu padrinho.  Ah, e esqueçam também os balões, as línguas-de-sogra, o “Felicidades” escrito em letras maiúsculas de papel e unidos por um barbante estendido sobre o salão de festas, o disquinho de canções infantis tocando eternamente ao fundo, a briga saudável para ver quem chegava primeiro no prato de brigadeiros que só era liberado depois do “Parabéns a Você”.   Aliás, esqueça até mesmo o “Parabéns a Você”, pois no meio infantil dos dias correntes até mesmo a cançãozinha tola, que em língua portuguesa ganhou tradução tão simpática, tornou-se obsoleta, coisa de gente velha mesmo - velhos como eu e você, leitor. 

A nova moda - para as crianças mais abastadas, é claro - em termos de celebrações natalícias para as adolescentes entre nove e treze anos de idade é comemorar o aniversário em um salão de beleza.  A idéia é original: a aniversariante chama as amigas para uma tarde em um beauty parlor e, entre docinhos e salgadinhos, todas são convidadas a desfrutar das ofertas de tratamento de beleza do estabelecimento, que vão de unhas artísticas a lavagem de cabelos e escova, de massagem relaxante a banho com leite, rosas e ervas aromáticas - sem esquecer da maquiagem e dos apliques e acessórios capilares diversos. 

Em entrevista à revista VEJA São Paulo, o proprietário de um dos dois salões de beleza daquela cidade que já oferecem o serviço disse que “hoje em dia a vaidade é despertada cedo nas crianças e nós oferecemos as ferramentas de que elas precisam”.   Este culto à beleza é incentivado pelas mães de adolescentes paulistanas de classe alta , que têm feito os dois salões de beleza manter uma média de duas festas por semana; os custos não são nada modestos, variando entre R$ 80,00 e R$ 110,00 por convidada.  

Entre os meninos, os gostos são naturalmente diferentes: em grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo os pais têm optado por fechar LAN HOUSES - as famigeradas “casas de jogos eletrônicos”, onde os adolescentes podem jogar diversos games em rede por horas e horas e horas - apenas para os convidados do aniversariante, e o que seria uma festa de aniversário acaba por tornar-se uma silenciosa disputa entre os jovens, cada um no seu computador.  Sim, ainda há a torta de aniversário, os doces e salgadinhos, típicos de qualquer festa desse tipo - mas tudo controlado para não danificar os teclados e consoles, tampouco para atrapalhar a concentração dos competidores…  O custo do aluguel de uma LAN HOUSE para um grupo fechado de convidados não difere muito daquele do salão de beleza para as meninas, pois a versão masculina dessa nova moda em aniversários costuma se extender por muitas horas de competição entre um tiro - virtual - e outro.

Por um lado, o consumo e a vaidade - por outro, a alienação dos jogos eletrônicos… Parece que as festas de aniversário começam a refletir um pouco do que se passa na educação das novas gerações - tudo é permitido, tudo é direito adquirido, nada é contestado pelos pais sob a falsa idéia de que crianças e adolescentes não podem passar por frustrações.  As festas infantis, ao menos lá na minha longínqüa infância querida - que os tempos não trazem mais! -, eram um espaço de socialização de nós, pequenos, mas sempre sob a supervisão atenta dos pais.  Lembro-me, por exemplo, da lista enorme de recomendações que minha mãe fazia quando acontecia de eu ir a uma festa de aniversário sem a companhia de um adulto - era um desfiar eterno de um rosário de etiqueta e boas maneiras que parecia ser compartilhado por todas as mães e pais de meu círculo de relações.  Por mais enfadonho que me parecesse à época, foi ali que comecei a ser educado no salutar convívio em sociedade, onde o limite é medido pelo direito do outro.  A regra dessas novidades em termos de festas de aniversário é, ao contrário, que os pais estejam longe do ambiente do encontro - seja a LAN HOUSE ou o salão de beleza - e só apareça por lá para pagar a conta no final do dia… Regras de convivência?  Bem, um dia a vida lhes ensina. 

E pensar que meu mais louco devaneio de aniversário na infância era ter uma infantil e lúdica piscina de bolinhas de plástico! 

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Tuesday, June 27, 2006

Barbárie ou civilização?

Diante do que nossos olhos vêem nos distanciadores noticiários televisivos ou na crueza latente da realidade de nossas ruas e cotidianos, uma pergunta parece se impor a todos nós: estaremos abandonando a civilização ou abraçando de vez a barbárie?

A pergunta soa alarmista e intolerante - afinal, tal contraste entre o que seria a civilização e o que se considera barbárie pode variar até mesmo de uma época para outra, e o que hoje consideramos normal ter sido visto, há eras a fio, como um sinal do fim dos tempos.  Mas é importante buscarmos aquele questionamento dentro dos conceitos mais genéricos - e por isso mais passíveis de um consenso universal - do que seria a barbárie e a civilização, para a partir dessa reflexão mensurarmos o quanto estamos a caminhar em direção a uma coisa ou distanciando-nos da outra.

Quando falamos em barbárie, as idéias que a tal conceito se impõem são a do caos, da imposição do medo e dos sentimentos sobre a razão, do domínio pelo irracional e pelo instintivo, da desmedida e da ação violenta sobre o pensamento e o raciocínio.  Em contraponto, a civilização traz a organização, o domínio dos instintos por meio da razão, a construção da vida em sociedade e de regramentos que a garantam em uma base comum do que aquele grupo aceita como o certo e o errado, o tolerável e o abjeto.  Em outras palavras, a barbárie é o domínio do presente, do imediato, da satisfação primeira dos instintos mais primevos, enquanto a civilização carrega, em seu impulso normatizador, uma proposta de futuro, de construção de um porvir para os que nos sucederão, de preservação da espécie e de um modo de vida que nos parece confiável e perene.

Estará conseguindo a civilização dar conta dos avanços da barbárie?  Não são poucos os que vêem o homem como sendo o lobo do homem e usam tal expressão diante de cada atrocidade cometida pelos outros contra si ou aqueles com quem se identifica e simpatiza.  Em verdade, a civilização é um conceito em si abstrato, que jamais irá se concretizar em sua plenitude.  Ainda assim, por sorte o Ocidente assumiu o que se chama de impulso civilizatório como uma bandeira inquestionável, à qual está unida de forma indissolúvel o conceto de democracia - pois que a civilização prevê o estatuto do voto como a melhor das formas para se buscar um bem comum, um estado de coisas que busque satisfazer a todos em igual medida e que seja o mais perene possível -, ainda que em nome desse regime tantos erros tenham sido cometidos na história da humanidade. 

Mas, qual a alternativa?  A barbárie pressupõe o autoritarismo e a tirania, regimes no qual o medo exerce o papel que o livre pensar exerceria em um regime democrático ideal.  E ao falarmos em escolhas, cabe assinalar outro interessante contraponto entre civilização e barbárie: o papel dos homens em ambos os processos.  A civilização pressupõe uma coletividade de indivíduos, de seres pensantes, que como conjunto formam um povo que compartilha de ideais de futuro e de concepções de vida e que também tem em comum um desejo de permanência e de construção de um futuro comum.  A barbárie é formada por um todo indistinto de partículas humanas, uma massa que, em sua condição de coletividade disforme, carrega um pensamento único e limitador.  A civilização constrói, elege, julga, organiza e caminha adiante em busca de objetivos comuns; a barbárie destrói, saqueia, lincha, viola e pisoteia indistintamente em busca da satisfação imediata de seus instintos individuais e vontades que parecem não poder ser frustradas.  Aliás, a civilização pressupõe uma certa dose de renúncia, de abdicar de certos prazeres quando eles trespassam os limites do direito alheio; a barbárie não respeita limite algum.

E em que ponto estamos neste embate eterno entre civilização e barbárie?  Parece-nos que esta é uma resposta difícil de responder em uma época na qual os individualismos estão tão exacerbados e na qual tudo parece se resumir a uma incessante busca pelo prazer mais imediato.  Mas, qualquer que seja a resposta que dermos ao questionamento sobre o qual constantemente estamos a refletir, o que surge com maior importância para todos nós é pensar que papel estaremos a desempenhar perante o mundo: somos nós indivíduos, seres pensantes, partes de um povo que vislumbra um futuro maior ou estaremos apenas compondo, como partículas manipuladas de uma massa disforme, as forças de destruição da barbárie sempre temida e assustadora?

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Monday, June 5, 2006

Número besta

Conseguiu que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, tivessem um sinal na mão direita e na fronte, e que ninguém pudesse comprar ou vender, se não fosse marcado com o nome da fera ou o número de seu nome. Eis aqui a sabedoria! Quem tiver inteligência, calcule o número da fera, porque é o número de um homem, e esse número é seiscentos e sessenta e seis.(Apocalipse de João, 13:16-18)

Os manuscritos gregos do Livro da Revelação de João trazem o número que representaria, para os crentes, o número do Anticristo: 666, o sinal que viria marcado naquele que seria controlado (ou encarnaria, segundo alguns) pelo mal absoluto. Tal conjunção de algarismos gerou um sem-número de interpretações - até os códigos de barras já foram apontados como o 666 da besta apocalíptica - e de livros diversos que se arvoram a listar dos sinais do surgimento do Anticristo às instituições e pessoas do mundo moderno que ostentariam tal número aziago.

A imprensa nossa tem auxiliado a alimentar as superstições em torno disso, a bem da verdade, muitas vezes sem esclarecer as origens de tal número e da mitologia em torno dele. O resultado é, no mínimo, curioso: o dia 6 de junho de 2006 - 6/6/06 - está sendo anunciado como um dia de mau agouro, no qual tragédias inomináveis - dentre as quais o próprio nascimento do tal anticristo - irão acontecer. De concreto, o que há por enquanto é o anúncio mundial do lançamento da refilmagem do clássico filme de terror A Profecia (que fala do justamente do surgimento do filho do Diabo no mundo), o início das vendas do último volume da série de livros evangélicos alarmistas norte-americana Left Behind, o lançamento de uns tantos CDs de bandas de Heavy Metal que querem aproveitar o factóide para repetir a eterna pose de adoradores do demônio e, ao que consta, uma certa corrida de várias grávidas em certos estados dos EUA para que os partos marcados para esse dia fatídico fossem antecipados ou adiados.

O curioso é que não há consenso algum sobre o que significaria o número 666 nos escritos visionários de João. A versão aceita pela Igreja Católica, inclusive, é afinada com boa parte dos historiadores, que crêem ser o número uma referência velada a uma grande autoridade da época, o Imperador Nero, grande perseguidor dos cristãos - e não a algum ser sobrenatural que surgiria no futuro com a missão de destruir o Cristianismo. Além de tal controvérsia nas interpretações do número da besta, hoje discute-se até mesmo se o número 666 é, de fato, o indicado no texto de João. Os manuscritos gregos apresentam-no como “χξϛ´”, que seria 666 na forma numérica do grego (ou, no chamado Codex Alexandrinus, no qual é literalmente apresentado como “seiscentos e sessenta e seis” - “ἑξακόσιοι ἑξήκοντα ἕξ”). Mas cópias recentemente encontradas do livro de João, da mesma época dos originais gregos - os chamados Oxyrhynchus papyri -, trazem o número grafado como “χιϛ´”, o que seria o número 616, e não o temido 666. Em outras palavras, enquanto não se chega a uma definição precisa de qual seria a forma original, corremos até mesmo o risco de estar a temer o número da besta errado… E se o dia fatídico foi, em verdade, 6 de janeiro de 2006 - 6/1/06? Vejam só há quantos dias já estaremos vivendo o Juízo Final sem sentir!

Que necessidade é esta de nós, homens, depositarmos em sinais externos, no outro, no exterior, a fonte de todo o mal que nos atinge e nos aflige? Será uma forma de fugir às responsabilidades? Cada um com suas crenças, mas disso parecem viver muitas e muitas seitas religiosas no mundo, mas também o comércio, a indústria do entretenimento e mesmo a imprensa. É muito mais fácil acreditar que os males de minha vida são devidos a um encosto qualquer - e até creio que eles existam, ainda que não sob esta nomenclatura, nem sob essa mesma idéia - que admitir que mesmo os encostos todos nada podem contra a nossa vontade.

Alimentamo-nos com superstições de que um dia, uma mera coincidência numérica no calendário ocidental gregoriano (será que os muçulmanos e os chineses, que seguem distintos calendários, estarão livres da hecatombe final?), o encontro fortuito de três algarismos 6, irá servir de marca visível do início do fim - e esquecemos que os dias, todos eles, são construídos por nós mesmos.

Ao ler estas linhas, provavelmente já estarás a viver o dia 6/6/06, ou por ele terás passado, incólume ou ferido, e arrisco-me a estar registrando aqui um erro grosseiro de interpretação - vai que o mundo acaba amanhã? -, mas me fio na crença de que o dia de amanhã, com todos os seus possíveis males, cabe apenas a mim decidir.

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