Thursday, December 6, 2007

Narcisismo-leninismo

Chávez e Morales - salvadores da pátria?

Talvez a primeira notável diferença entre os grandes estadistas e os ditadores de ocasião resida na transformação de suas fisionomias em ícones de um regime.  Os grandes estadistas costumam ter seus rostos transformados em camisetas, canecas, bonecos articulados e referências simbólicas depois de sua passagem pelo poder, por conta de seus méritos a frente de governos bem sucedidos ou de relevância histórica.

A mesma lógica não agrada aos ditadores.  Eles usam sua imagem como símbolo desde o início, como forma de marcar uma onipresença que, em suas mentes tortuosas, são sinônimo de permanência no poder.  Não raro, forçam o uso de sua efígie nas repartições públicas, nas representações do poder, em estátuas e painéis grandiloqüentes e, quando avançam em sua dominação, na moeda corrente e na religiosidade sem Deus que cultivam em torno de seu regime.

Invariavelmente, o que se vê é uma reedição das idéias judaicas mais elementares na releitura tacanha desses salvadores da pátria: os revolucionários são o povo eleito, o ditador é o messias aguardado e o país que se formará a partir de sua megalomania, a Canaã prometida.  Assim foi com Mao Tsé Tung, que queimou todo o saber - e pisoteou nos que o sabiam - por acreditar que suas palavras reunidas no livro vermelho condensavam tudo o que o povo precisava saber; assim enxergava Adolph Hitler, que via em uma pretensa raça ariana a salvação não só da Alemanha, mas de toda a humanidade - um conceito que no nazismo não abrangia judeus, negros, ciganos e homossexuais; assim pensam os ditadores latino-americanos que alçaram o poder nos últimos anos pelas vias do voto - que agora parecem desprezar.

A democracia, este mal necessário, é nas mãos desses tiranos apenas uma máscara sob a qual se defendem dos questionamentos do mundo.  E máscaras caem com o tempo.  A de Hugo Chávez caiu há tempos, mas ontem a Venezuela teve mais uma prova do desprezo de Chávez pela democracia: se há três dias ele havia humildemente admitido sua derrota no plebiscito em que pretendia a reeleição eterna, ontem chamou a vitória da oposição de una victória de mierda, desprezando a opinião dos que não aceitaram suas razões falaciosas e afirmando que reenviará suas propostas de mudança da constituição até o final de seu longo mandato.  A máscara de Evo Moráles caiu há alguns dias, quando se aquartelou com os parlamentares de seu partido para promover reformas constitucionais sem a interferência e a participação da oposição - uma atitude muito democrática.

Por que líderes políticos que crêem firmemente serem os messias de um novo tempo irão se importar com a opinião do povo, com o jogo político de opisições e debates, com a mensagem das urnas?  Se a ditadura do proletariado é o único caminho para o bem, que importância haverá os meios para atingí-la?  E, cabe questionar, que importância há na opinião do povo, se eles acreditam que o povo não se reconhece como oprimido?  Democracia e narcisismo-leninismo são incompatíveis.  Não há quem pense na coletividade quando está tão centrado em si mesmo e em suas manias de grandeza.  Hugo Chávez, por exemplo, disse que é soldado e pegará em armas se preciso for, para implementar na Venezuela seu socialismo bolivariano.  Dentro de tão estreita visão de mundo, a urna deve ser um objeto obsoleto e incômodo para esses pobres órfãos latino-americanos da fracassada União Soviética.

A esperança é que o “não” venezuelano seja o indício de esperanças novas no continente, que precisa de renovação, e não de caudilhismo requentado de socialismo.

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Tuesday, September 18, 2007

Pedagogia do opressor

Chávez, o 'pai dos pobres' - eles sempre se intitulam assim...As democracias parecem se governar cada uma à sua maneira local.  As ditaduras, ao contrário, são todas iguais.

A paráfrase da frase lapidar de Leo Tolstoi na abertura de Anna Karenina surge diante da mais nova medida anunciada por Hugo Chávez, presidente que se pereniza no poder em seu país, a Venezuela, por conta de uma dominação dos meios políticos e sociais que já não pode ser vista de outro modo a não ser como uma ditadura: Chávez afirmou que todas as escolas venezuelanas, incluindo as da rede privada de ensino, deverão adotar ainda em 2007 o novo currículo por ele desenhado. A idéia do presidente venezuelano é que a “nova Educação bolivariana” ajude a “desenvolver valores de cooperação e solidariedade”.

A reforma na Constituição proposta por Chávez e ainda em fase de aprovação pela Assembléia Nacional da Venezuela - composta exclusivamente por seus partidários - reconhece a existência de instituições de ensino particulares. Contudo, Chávez disse que as escolas que não adotarem o novo sistema educacional socialista serão fechadas. Para ele, o sistema de educação privado na Venezuela é baseado em valores capitalistas e “organizado de maneira a negar Educação para o povo”.

Como auto-intitulado “pai dos pobres”, Chávez declarou que a reforma educacional visa a atender a população mais carente, já que a Educação foi ignorada pelos governos anteriores. Por trás das boas intenções do ditador venezuelano, está um novo currículo que servirá como base de doutrinação dos estudantes.

Hitler: tudo pelas criançasComo outras ditaduras, sejam elas de esquerda ou de direita, Hugo Chávez trabalha com a idéia de formação de seguidores a partir da juventude. Assim funcionava no Uzbequistão, na Alemanha hitlerista, no Brasil dos governos militares, na China maoísta. As reformas educacionais sempre fizeram parte do pacote de medidas dos ditadores, junto com a perseguição aos opositores, ao fechamento da imprensa livre, à sustentação de uma rede de apoio internacional com o uso do dinheiro público - generosamente cedido aos países aliados, mas distribuído à população de forma minguada e recheada de discursos solidários que, no fim das contas, eram materializados em cupons de racionamento e em muita privação. Na Educação, contudo, os efeitos dessa dominação dos ditadores é difícil de mensurar. No Brasil, por exemplo, o uso pelos militares de disciplinas como Educação Moral e Cívica (EMC), Estudos dos Problemas Brasileiros (EPB) ou Organização Social e Política do Brasil (OSPB) para o controle da juventude teve um efeito devastador: hoje, em nosso país, patriotismo virou motivo de galhofa, e só existe durante as competições desportivas de maior expressão, ou quando uma brasileira fica em segundo lugar no Miss Universo

Diz-se muito, hoje em dia, nas falácias do sistema democrático. Afinal, nossas opções de candidatos são oferecidas pelos próprios partidos políticos que, em países como o nosso, parecem contaminados de cabo a rabo. Mas temos uma possibilidade de escolha, e uma imprensa que assume funções de fiscalização diante de um quadro de notória impunidade. Em tudo isso, há o lado bom e o ruim. Contudo, não se pode negar que temos liberdade de discutir nossos problemas abertamente, seja nos jornais, nas ruas ou mesmo nas escolas.

Infelizmente, para os venezuelanos, tais oportunidades estão cada vez mais escassas. E a Educação, atividade basilar na construção de qualquer grande nação, é mais uma vez usada como mero instrumento de perpetuação no poder de um ditador que, como todos os demais de sua estirpe, crê-se o salvador da Pátria.  Depois de construir sua Educação bolivariana, a seguir a cartilha dos ditadores, virão os bustos de Hugo Chávez em bronze, sua estampa nas cédulas de dinheiro e os desfiles cívicos em comemoração ao seu natalício… 

Como todo bom déspota, Chávez construiu para si uma ética muito particular, na qual seu fim - a perenização no poder - justifica os meios.  Para a tristeza dos ditadores, o futuro sempre os desmentiu. 

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Monday, September 10, 2007

Cangurus em Buenos Aires

Será este o mapa da Áustria que deram para o Bush?Há poucos dias, George W. Bush, o atual presidente dos Estados Unidos da América, confundiu Austrália com Áustria. Ele discursava no Fórum de Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico, realizado em Sidney, e falou da importante presença dos soldados austríacos no Iraque. Mas a Áustria não mandou soldados, e sim a anfitriã do evento, a Austrália.

A divertida confusão não parece ser um erro momentâneo do presidente. Lembrou-me da minha visita a Salzburgo, terra de Mozart e da família Von Trapp das telas de cinema, quando tentei a todo custo comprar uma bela camiseta da Áustria para mim e só encontrava umas estranhíssimas estampas que diziam “Não há cangurus na Áustria”. Perguntei a uma vendedora, em inglês, o porquê daquela camiseta tão óbvia e estranha, e ela respondeu-me com uma pergunta:

- Are you American?

Respondi que era brasileiro e ela, em um sorriso bem austríaco, disse que, nesse caso, eu não precisava da camiseta mesmo: era uma piada com os tantos norte-americanos que visitavam a Áustria e questionavam sobre onde poderiam ver os cangurus… Bush, pelo jeito, apenas reforçou em cadeia mundial de televisão o que é uma gafe típica de seus compatriotas.

No kangaroos in Austria Fala-se sempre, e muito, desse desconhecimento dos norte-americanos em relação aos demais países do mundo. Na década de 1980, Ronald Reagan, em visita ao Brasil, propôs um “brinde ao povo da Bolívia”. Alguns dias depois, uma distribuidora de petróleo lançava uma propaganda de revista na qual, ironicamente, “o povo da Bolívia agradecia a visita do presidente do Canadá”. Mas será que apenas os norte-americanos desconhecem os demais povos e países?

O presidente Lula já teve seu dia de Ronald Reagan ao saudar os “homens e mulheres da Bolívia” durante uma visita à Venezuela, em 2006. Mas falo de todos nós, brasileiros, e do nosso escasso conhecimento dos próprios países com os quais mantemos fronteiras, ou do continente de onde grande parte de nossa população foi tradiza à força, a África. Visitei quatro países africanos em 1993 e voltei com a convicção de que não há como ver aquele continente como um emaranhado único de pobreza e subdesenvolvimento sob o nome de África: cada país tem seus graves problemas, é bem verdade, mas ao mesmo tempo uma cultura e um povo, um modo de vida e uma verve que os fazem únicos. Mas para nós, que criticamos o desconhecimento dos países mais ricos em relação ao Brasil, a África em nossa mente segue sendo um território de clichês que dificilmente será desfeito. Confundimos Uruguai com Argentina, colocamos no mesmo balaio a Bolívia e o Peru, e exigimos que os estrangeiros saibam que o Brasil não se limita a Copacabana, Amazônia e Pelourinho.

Não sei se, em tempos de mensalão, Calheiros e ameaças de censura à imprensa, melhor não seria torcer para que nossa capital fosse mesmo Buenos Aires.

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Monday, June 25, 2007

His own private Vietnam

Purple Heart MedalNo mês de junho de 2007, mais sete mil soldados norte-americanos receberão sua Purple Heart Medal ao regressarem aos Estados Unidos da América depois de uma temporada de serviços prestados à nação em território iraquiano. Mais que uma honra militar, o coração púrpura carrega em si uma mensagem funesta: é a condecoração oferecida aos militares que pereceram em combate ou foram lesionados permanentemente, com impedimentos para prosseguir nos campos de batalha. No total de sete mil soldados estadunidenses condecorados com a Purple Heart recentemente, não estão contabilizados os que perderam suas vidas na chamada Guerra do Iraque.

Para um presidente como George W. Bush, que ganhou sua primeira eleição ao sugerir uma comparação com seu mítico antecessor John Fitzgerald Kennedy, os números corroboram as associações: Kennedy teve seu momento de caos mundial com a crise da Baía dos Porcos, que quase deflagrou o mais sério conflito aberto da chamada Guerra Fria; George W. Bush enfrentou o ataque às Torres Gêmeas no fatídico 11 de setembro de 2001, que desencadearia uma invasão ao Afeganistão e, consequentemente, a ocupação ao Iraque de Saddam Hussein.

George W. Bush, John F. Kennedy: como lidar com uma guerra sem sentido? As semelhanças entre os dois presidentes norte-americanos não passa, infelizmente, pela habilidade em contornar crises.  JFK entrou para a história como o presidente que deu início à retirada das tropas norte-americanas do Vietnã.  Em declaração registrada por seu assessor Kennedy O’Donell, o presidente Kennedy demonstrou estar consciente das conseqüências de sua decisão, ao dizer que se tornaria “o presidente mais impopular da história” e condenado “por toda parte como um apoiador dos comunistas”, mas via na sua reeleição a única possibilidade de fazer os EUA recuar de uma guerra que saíra do controle e em nada dizia respeito ao povo norte-americano (“I’ll become one of the most unpopular Presidents in history. I’ll be damned everywhere as a communist appeaser. But I don’t care. If I tried to pull out completely now from Vietnam, we would have Joe McCarthy red scare on our hands, but I can do it after I’m re-elected. So we had better make damned sure that I am reelected.”). 

George W. Bush, por sua vez, não aparenta qualquer disposição em retroceder de sua decisão de iniciar uma guerra de ocupação no Iraque.  Não há como ver apenas o lado ruim de sua guerra particular no Oriente Médio - o fim da era Saddam Hussein no Iraque tem um lado positivo incontestável.  Mas a maneira como o novo arranjo político da região foi alcançada lançou aquele país em uma guerra civil que estava latente, entre xiitas e sunitas.  A repetição diária de atentados e mortes de civis e militares faz com que o final desse conflito pareça cada vez mais distante.

Suspeita-se que a retirada das tropas estadunidenses do Vietnã tenha sido a causa secreta do assassinato de John F. Kennedy.  Mas não se pode associar a resistência de George W. Bush em retirar suas tropas do Iraque a um temor do destino que teve aquele outro presidente norte-americano.  No caso atual, tudo leva a crer que o presidente ainda acredite em uma saída honrosa da crise lançada sobre o Oriente Médio em uma guerra contra o inimigo invisível que é o Terrorismo internacional.  Contudo, as levas e levas de soldados mutilados e incapacitados de regresso ao território estadunidense, como aconteceu na Guerra do Vietnã, começam a perturbar a sociedade norte-americana e, em breve, será um fardo pesado demais para ser carregado pela atual gestão presidencial.  George W. Bush, que queria tanto ser John F. Kennedy, está conseguindo criar sua própria Guerra do Vietnã, com todas as conseqüências funestas de suas decisões precipitadas.

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Friday, April 20, 2007

‘What good will it do?’

Oito anos do massacre na Columbine High SchoolÀs vésperas do aniversário de oito anos da tragédia ocorrida na Columbine High School, em Jefferson, Colorado, ocorrido em um 20 de abril - em que dois alunos armados causaram a morte de dez estudantes -, e apenas dois dias depois das mortes ocorridas na universidade Virginia Tech, a rede de televisão norte-americana NBC divulgou as imagens de um vídeo e de fotografias enviadas para aquela emissora de televisão por Cho Seung-Hui, o desequilibrado estudante de Letras que protagonizou o massacre de seus colegas de universidade e de dois professores. 

As imagens chocaram o país e, mais ainda, os parentes e amigos das vítimas.  Seung-Hui declara, na gravação enviada para a televisão poucos minutos depois dos dois primeiros assassinatos cometidos por ele naquele dia, que iria “morrer como um mártir, como Jesus Cristo” e outros dois mártires, Eric Harris e Dylan Klebold - os dois jovens do massacre de Columbine.  Contudo, mais que as imagens de Seung-Hui portando as armas do massacre ou as palavras desconexas que pronuncia em sua “carta suicida” gravada em vídeo, a divulgação revoltou a sociedade americana e os policiais que investigam o caso.  Eles temem que a divulgação do material produzido pelo assassino possa motivar outras pessoas com semelhante desequilíbrio a cometerem crimes inspirados pela ação doentia de Cho.

Um dia apenas depois de divulgadas as imagens, cinco escolas secundárias e universidades estadunidenses receberam ameaças.  Em uma delas, o suposto agressor afirmava que iria promover “um massacre maior que o de Virginia Tech”, dando a entender que seu objetivo era superar o odioso recorde de mortes de Cho Seung-Hui.  Como o jovem sul-coreano, que aparentemente promoveu a matança incentivado pelas histórias de Columbine - cujos assassinos também produziam vídeos em que falavam de seus instintos violentos e de seus planos de cometer um massacre em sua escola -, outros tantos jovens alimentados por uma cultura de violência cada vez mais forte em nossos dias receberam, via satélite, mais material para a construção de suas sociopatias.

“O que de bom pode vir disso?”, foi a pergunta do policial que chefia as investigações dos assassinatos em Virginia Tech.  A sede da NBC em gerar um furo de reportagem - que certamente rendeu um lucro imenso para a empresa, a partir de sua divulgação em nível mundial - lançou nas emissoras de televisão e na rede mundial de computadores as palavras repletas de fúria e insanidade de um jovem cuja motivação maior pode ter sido justamente a idéia torta de se tornar uma celebridade póstuma.  Colocar no ar as frases ditas por um louco, cuja última ação no mundo foi a de matar inocentes em nome de uma dita “vingança contra a sociedade”, é não só inconseqüente, mas temerária.  E não é sem razão que os norte-americanos vivem em neurastenia perpétua: a violência tornou-se um negócio muito rentável para aquele país tão invejado e competitivo.  Oxalá a irresponsabilidade dos jornalistas da NBC não seja o ponto de partida de mais uma competição: a de quem mata mais estudantes em uma terra onde munição e armamento são comprados no mercado mais próximo de sua casa.

Homenagem aos mortos na tragédia da universidade Virginia Tech
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Tuesday, April 17, 2007

A lição de Virgínia

Quase oito anos depois do terrível incidente ocorrido na escola secundária de Columbine, em Littleton, no estado norte-americano do Colorado, no qual dois alunos assassinaram a tiros doze colegas e um professor, além de ferir vinte e quatro outros estudantes, outra tragédia, de proporções ainda piores, deixa alarmados os pais, professores e alunos das escolas dos Estados Unidos da América.  Na universidade Virginia Tech, uma das mais conceituadas universidades tecnológicas do país, um atirador matou mais de trinta pessoas, entre alunos e professores da instituição, e feriu outros tantos estudantes naquela que já é considerada a maior tragédia desse tipo na história dos Estados Unidos.

Apenas na manhã seguinte ao crime, ocorrido em 17 de abril de 2007, a polícia do estado da Virgínia conseguiu identificar o assassino serial que, após o crime cometido em dois ataques ocorridos em diferentes períodos do dia, suicidou-se em uma das salas de aula: Cho Seung-Hui era estudante de Língua Inglesa na Virginia Tech e estava às vésperas de se graduar na universidade; de cidadania sul-coreana, vivia legalmente nos Estados Unidos da América e é descrito pelos colegas como um “solitário”.  Ao que indicam as investigações preliminares sobre o caso, o jovem estudante de vinte e três anos foi o responsável pelas duas ocorrências - pela manhã, assassinou dois estudantes em um dormitório e, na parte da tarde, enquanto a polícia ainda investigava o primeiro incidente, invadiu diversas salas de aula e matou a esmo outros vinte e oito estudantes e dois professores.

Como ocorreu à época do chamado massacre de Columbine, especialistas e pensadores buscam as causas de tamanha fúria.  No caso de Seung-Hui, as suspeitas recaem em uma possível reação à recusa de sua ex-namorada, que pode estar entre as vítimas fatais, em reatar o namoro.  Em momentos de dor e de espanto como este, é sempre algo questionável buscar as razões ou, mais que isso, as lições que podemos tirar de um episódio que, neste exato momento, é fonte de tristeza e agonia para tantas famílias que nãos serão consoladas por essas respostas.  Mas a pergunta é inevitável: que força será essa que impele jovens como Cho Seung-Hui,  Eric Harris e Dylan Klebold - os dois últimos, de dezoito e dezessete anos, respectivamente, os autores da tragédia de Columbine - a atacar seus pares de forma tão violenta e covarde?

Tenho pouco conhecimento de psicologia e nenhuma intenção de sobrepor minhas idéias às tantas análises de especialistas sobre ambos os episódios.  Mas me permito levantar certas suspeitas.  Estamos em uma época na qual os jovens são, desde a mais tenra idade, criados em um ambiente de absoluta proteção: todas as suas vontades são cumpridas pelos pais e adultos que os cercam, já que as negativas passaram a representar a construção de traumas futuros para as crianças… Em um mundo que só lhes diz sim, as crianças simplesmente não conseguem construir estratégias para lidar com a frustração, com a pressão de seus pares e com os revezes da vida.  Em uma sociedade que impõe valores e exigências cada vez maiores e mais inumanas - seja de aparência exterior, de comportamento, de inclusão neste ou naquele grupo, de competição extrema e permanente -, não é difícil imaginar as razões pelas quais os jovens possam desenvolver o sentimento de inadequação, de exclusão, de ausência absoluta. 

Diante da frustração - seja da perda de uma namorada ou da popularidade - e sem as ferramentas morais para suportá-la, como reagir em um mundo que parece louvar a violência de seus heróis e entender como valorosas as reações mais extremadas?  Nunca os versos de Fernando Pessoa pareceram mais atuais: em seu Poema em Linha Reta, ele dizia que nunca conhecera “quem tivesse levado porrada”, e que todos os seus conhecidos tinham sido “campeões em tudo”.  Em tempos nos quais os argumentos valem menos que os murros, que as armas sobrepõem a honra ou o valor pessoal, temo que massacres como os de Columbine e de Virginia Tech se repitam mais e mais.

Não há como negar a existência de uma situação de sociopatia ou psicopatia dentro de um jovem que meticulosamente prepara um ataque como esses a gente inocente.  Quem atira a esmo em gente desconhecida, dizem alguns estudiosos, pode estar, em sua mente, perpetrando uma vingança contra a sociedade, essa entidade abstrata que o oprime e impede de experimentar todas as suas vontades.  Mas ouso afirmar que nunca fez tanta falta na educação dos jovens a arte de levar desaforos para casa… Estar em sociedade é ter que engolir sapos.  Ensinar aos nossos filhos a suportar a dor ao invés de esmurrar a parede é, ao longo da vida, prepará-lo para a vida.

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Saturday, February 24, 2007

O verdadeiro tesouro da China

Gostaria de dizer que nesses dois anos de China, eles estão conseguindo se desenvolver com muitas práticas que a gente condena, mas eles defedem muito os interesses da China e dos chineses. Eles cuidam primeiro disso, para depois ver os interesses estrangeiros. Temos que perceber que isso é importante, focar no que é interessante para o Brasil e para os brasileiros. Lá existe um senso de coletividade muito forte. um contraponto muito forte com a nossa cultura individualista. O interesse coletivo sobre o indiviual é eficiente para se fazer com que a sociedade inteira se desenvolva. Estamos em uma situação melhor, nós deveríamos estar muito melhor.
Sônia Bridi

Em 23 de fevereiro de 2007, a Rede Globo de Televisão exibiu o documentário Tesouros da China, uma coletânea de matérias realizadas por sua correspondente internacional naquele país, Sônia Bridi, e pelo repórter cinematográfico Paulo Zero.  Em verdade, a matéria divulgada pelo programa Globo Repórter é uma espécie de despedida dos repórteres do posto de correspondentes internacionais da emissora na China, função que exerceram eficientemente por dois anos, tendo sido a primeira equipe de jornalistas da América Latina credenciada para atuar naquele país após o início da abertura do gigante comunista asiático ao mundo.

Tesouros da China mostrou-se uma admirável colcha de retalhos cultural sobre o país milenar; por meio de matérias gravadas em diversas viagens feitas por cinco diferentes províncias chinesas, dos dois repórteres pelo interior da China - sempre dificultadas pelo governo de Pequim e seus excessos, tanto de burocracia quanto de controle sobre a liberdade de opinião e a livre atuação da imprensa estrangeira -, Bridi e Zero conseguiram traçar um interessante panorama da cultura chinesa, tanto do passado sofrido de seu povo, marcado pelos desmandos da dita Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung, quanto das contradições atuais de uma China que desponta como grande potência mundial mas que ainda está arraigada em tradições construídas sobre a desigualdade entre homens e mulheres. 

Imagem: Paulo ZeroMais interessante que o documentário em si, contudo, foi a entrevista coletiva que Paulo Zero e Sônia Bridi concederam aos internautas que acessaram a página na Internet do Globo Repórter logo depois da exibição do programa.  Vários dos visitantes, que funcionaram como entrevistadores dos repórteres, perguntaram como é, de fato, essa nova China anunciada como a futura potência mundial - e sobre as lições que a China contemporânea poderia ensinar ao Brasil.  Sônia Bridi ressaltou que o grande problema da China atual é não saber “o que fazer com a velha”.  Para ela, “muito do que existia de cultura foi substituído por arremedos – tentativa de resgate controlado pelo estado, de práticas e tradições que o mesmo estado destruiu durante a loucura coletiva da Revolução Cultural”.  Com isso, ”antigas tradições que ainda provocam feridas emocionais no país – [a pressão social para se] ter filho homem, mulheres com pés mutilados [em uma região na qual a mulher, para se casar, precisava ter pés pequenos, como sinal de beleza], mulheres que não tinham direito à educação – e com conhecimentos milenares que estão desaparecendo em prejuízo de toda a Humanidade, como o domínio das ervas medicinais que o Doutor Ho [um médico tradicional, por ela entrevistado, cujos conhecimentos incluiriam até mesmo a cura do câncer por meio de ervas medicinais, atestado por cientistas norte-americanos], mais de 80 anos, desesperadamente tenta passar para novas gerações”.

Imagem: Paulo ZeroBridi enfatizou também que o grande salto que a China está a promover, transformando-se da massa de miseráveis e analfabetos de vinte e cinco anos atrás em um pólo tecnológico que, segundo ela, surpreenderá o mundo com sua tecnologia nas próximas Olimpíadas, em 2008, está quase todo ele calcado na educação.  A repórter impressionou-se com ”a qualidade das escolas públicas, inclusive no interior”.  Descrevendo imagens que remetem ao famoso filme Ninguém a Menos - de escolas sem “vidros nas janelas e de chão batido” -, Sônia Bridi lembrou que, ainda assim, nenhuma escola que ela visitou estava sem professores, “e ensinando”.  “Lá [na China] as crianças conversam com você em inglês, pois aprendem na escola pública”, coisa que no Brasil parece impensável, disse a repórter.  A China, que já tem uma universidade entre as vinte melhores do mundo, “está formando uma elite de pesquisadores”, relata Bridi, “e investiram em educação e pesquisa; começaram [sua vantagem competitiva] pela mão-de-obra barata e a exportação, mas agora estão crescendo [em tecnologia] e de forma bastante acelerada”. 

Muita coisa poderia ser aprendida pelo Brasil a partir do exemplo chinês, em verdade.  O Brasil, paradoxalmente, tem um panorama político e econômico muito mais promissor que o da China para começar uma escalada de crescimento semelhante à da nação mais populosa do mundo, já que vivemos em um regime democrático, com ampla liberdade de expressão e livre-iniciativa, com um povo que lida muito mais facilmente com as relações interpessoais e é, talvez, mais criativo e inovador que o chinês.  Mas falhamos, por outro lado, nas lições mais básicas que a China pode nos ensinar: para Sônia Bridi, que por lá viveu dois anos com o olhar aguçado de uma correspondente internacional, “poderíamos aprender deles a capacidade de planejamento financeiro, da economia do país e também das famílias”, pois “lá é inaceitável essa mania brasileira de se endividar”; diz ela que, sobretudo, “poderíamos aprender a investir em educação” e trata-se, aqui, não apenas de investimentos governamentais, mas da própria população em sua auto-formação e crescimento - um dos maiores diferenciais da China em relação ao Brasil, assinala a repórter, é que com todas as restrições à liberdade de imprensa e ao livre-pensamento, “o povo chinês gosta muito de ler, as livrarias são numerosas e enormes” e tem uma grande sede de saber.

Quando será que voltaremos os nossos olhos para as (boas) lições do Oriente?

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Thursday, February 8, 2007

Socialismo e morte

“¡Socialismo…o muerte!”

(Hugo Chávez, em seu discurso de posse realizado em janeiro de 2007)

“… el que manda debe oír aunque sean las más duras verdades y, después de oídas, debe aprovecharse de ellas para corregir los males que produzcan los errores.”

(Simon Bolívar)

Pintura mural com a imagem de Hugo Chávez

A aprovação no Congresso Nacional Venezuelano, em 31 de janeiro de 2007, da dita “Ley que autoriza al presidente de la República a dictar decretos con rango, valor y fuerza de ley” - na prática, uma concesão de poderes legislativos especiais para que o presidente daquele país, Hugo Chávez, possa “profundizar la revolución bolivariana” y avanzar hacia “la construcción del socialismo”, nas palavras da presidente daquela casa legislativa, Cilia Flores - torna ainda mais difícil a tarefa dos que, no Brasil, defendiam a idéia de que o governante venezuelano era o grande democrata sul-americano para o século XXI.  A medida, outorgada por um congresso que tem todas as cadeiras ocupadas por membros do partido político de Chávez, é uma carta branca que dá ao presidente poderes ditatoriais, praticamente uma renúncia pública do povo venezuelano ao direito de controlar e avaliar as decisões de seu mandatário a respeito do próprio destino da nação.

O caráter tirânico de Chávez, em verdade, não é nada novo para quem acompanhou os últimos movimentos desse candidato a líder político dos povos latino-americanos, cujo carisma parece angariar adeptos em todas as partes - vide as manifestações histéricas que recebeu em sua participação na última edição do Fórum Social Mundial que foi realizada em Porto Alegre.  Antes desse aval cego oferecido por um congresso totalmente dominado pelo próprio Chávez - uma situação, a bem da verdade, criada pela própria oposição, que se recusou a participar da última eleição legislativa -, o presidente venezuelano já havia anunciado a quebra de contratos com as empresas de exploração de petróleo - dentre as quais a Petrobrás, carro-chefe do prestígio de seu dito colega Luiz Inácio Lula da Silva - e acenado com o fim das concessões de rádio e televisão para os órgãos de imprensa que considera inimigos do povo, ou seja, aqueles que assumiram, desde o início, uma postura de oposição ao seu governo.  Somem-se a isso o culto à imagem e à persona de Hugo Chávez, os arroubos verbais de defensor dos oprimidos do mundo e suas pretensões ditas bolivarianas - ou seja, sua apropriação da imagem mítica do líder político Simon Bolívar - e sua postura arrogante em termos de política internacional e tem-se praticamente a receita dos mais renomados ditadores da humanidade.

Qual seria o olhar de Bolívar sobre esses novos líderes latino-americanos?É certo que Hugo Chávez assumiu o poder pelas vias democráticas - mas assim também o fizeram Adolf Hitler e Getúlio Vargas, entre outros.  Contudo, tendo em suas mãos o poder, é comum aos ditadores cercarem-se de meios legais ou de força para garantir sua perpetuação no poder, para tal ignorando quaisquer dos preceitos consagrados pelas democracias ocidentais.  E Chávez segue perfeitamente essa tendência: do presidente da Venezuela dos primeiros tempos, vitorioso na tentativa de deposição que sofreu e que o levou, triunfante, de volta ao poder dois dias depois, ele revela-se a cada gesto mais um tirano latino-americano, da estirpe dos grandes déspotas que nosso sofrido continente ostentou em um passado não muito distante, e menos o salvador socialista que os admiradores da esquerda imaginaram vislumbrar quando de sua ascenção ao poder em uma Venezuela destruída pelos desmandos de uma oligarquia das mais gananciosas e perversas.  Não é essa a mesma trilha calcada por Evo Morales e Fidel Castro, dois grandes compadres políticos de Chávez - que os tem acenado com agrados em forma de petrodólares venezuelanos -, e não por acaso admiradores declarados do mesmo ícone, Simon Bolívar?  Seria interessante perguntar-se qual seria o olhar de Simon Bolívar, o libertador das Américas - que alguns dizem ter ele mesmo tomado atitudes despóticas ao final de sua vida política -, diante das tendências tirânicas e nada democráticas desses novos líderes latino-americanos… 

Como os tiranos que o antecederam, Chávez crê-se o possuidor da verdade absoluta, o único homem na Venezuela com capacidade de decidir o que é melhor para seu país e sua gente.  E seus seguidores, enceguecidos pela perspectiva de ascenderem ao poder junto com seu líder, dão-lhe uma autorização de ditador com um suposto prazo de dezoito meses - tempo suficiente, aliás, para que se destruam as estruturas democráticas de qualquer nação do mundo.  Dentre os planos para a aplicação imediata de sua nova prerrogativa de legislador, Hugo Chávez já anunciou, a intenção de editar uma nova Lei de Segurança Nacional, com a qual pretende defender a Venezuela de seus inimigos, e a edição de uma lei que permitirá a reeleição do Presidente da República por tempo indeterminado. 

Ao contrário do que apregoava seu símbolo maior, Simon Bolívar, Hugo Chávez não é nada permeável às críticas, tampouco parece preocupado em analisá-las para dali extrair, quem sabe, algo de útil para retificar seus possíveis erros.  Ditadores, enfim, como seres iluminados que creem ser, jamais erram.  E assim, uma vez mais, o socialismo apregoado por Chávez, Fidel Castro e outros tantos déspotas de esquerda mostra-se não uma alternativa política mas, sim, a morte de todas as conquistas democráticas pelas quais a própria esquerda latino-americana tanto lutou por todos esses anos sob o domínio das sangrentas ditaduras militares de inspiração fascista.  Será esse mesmo o melhor caminho?  Há ainda espaço para se crer que uma ditadura é melhor ou pior que a outra por conta de sua coloração partidária?

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Monday, December 11, 2006

Quem vela os ditadores?

Não importa quão sangrento seja seu longo governo, quão descaradamente contrário às liberdades individuais sejam suas leis, quão frágeis sejam as conquistas obtidas por suas gestões para a maioria das populações - os ditadores sempre terão seus defensores ardorosos, seus fãs incondicionais, seus cegos seguidores que verão em qualquer crítica a seu líder não mais que uma intriga oposicionista, a qual sempre associarão com o mal.

A morte de Augusto Pinochet, general que foi responsável pelo mais cruel dos regimes militares implementados na América Latina nas décadas de 1960 e 1970, é uma prova disso. Enquanto familiares das mais de três mil vítimas das perseguições políticas implementadas pelo ex-ditador chileno reuniam-se à porta do hospital onde o general e senador vitalício do Chile vivia suas últimas horas de vida, amparado pelo conforto da medicina e pela companhia dos parentes mais próximos, outros tantos, seus fãs e seguidores, oravam e gritavam palavras de apoio a Pinochet. O encontro dos dois grupos gerou, inclusive, diversos confrontos na capital chilena após o anúncio da morte do ex-ditador - que, graças à visão acertada da atual presidente do país, Michelle bachelet, não terá honras de chefe de Estado em suas exéquias.

A balbúrdia dos apoiadores de Pinochet - assim como as manifestações de afeto dos cubanos a Fidel Castro, os gritos de satisfação dos seguidores de Hugo Chávez, as milícias terroristas que apóiam Saddan Hussein e tantos outros exemplos que poderíamos listar de apoio popular a líderes que abertamente violam direitos humanos ou cerceiam as liberdades individuais - é um sinal de uma verdade incontestável: os ditadores jamais chegam ao poder sem um grupo que os dê suporte. As ditaduras impõem-se - por vezes sorrateiramente, por vezes à força de sangue e lágrimas - por interesse de um grupo sobre as idéias dos demais. Não foi pelo caminho das urnas que Adolph Hitler governou a Alemanha? Não arregimentou estudantes vigorosos na defesa de suas idéias tortas o temerário Mao Tsé-tung? Parece-nos, por isso, curioso - ainda que justíssimo - que sejam levados aos tribunais apenas esses homens que lideram povos e países a mão de ferro, quando em verdade há todo um extrato da população daqueles países que o apoiou, e por vezes segue apoiando até sua morte e faz de sua memória mesmo objeto de devoção. Quantos deles não mereceriam dividir, com seus ditadores por opção, aquele banco dos réus que raramente, aliás, consegue ser a eles imposto?

Os ditadores sabem que não há sobrevivência no poder apenas pela força bruta, e por isso eles sempre trabalham no sentido de conquistar o apoio daqueles que se vendem por pouco, muito pouco. Cargos e vantagens para os poderosos, avanços sociais para os mais carentes, rigor de leis arbitrárias e o garrote das prisões e assassínios aos que contra eles tentam lutar: esses parecem ser, sem exceção, os procedimentos dos ditadores para perenizarem-se no poder. Experimente escolher um ditador da História e aplicar-lhe a fórmula - lá encontrarás, nos registros de seu governo, um grupo que o apoiava por interesses particulares, outro que o seguia como a um Messias, e um grupo que lhe serviu como bode expiatório, símbolo do mal que os ditadores adoram usar como fator de união das forças que o apóiam.

Pinochet tem até hoje - após sua morte tornada confortável pelos meios da medicina que o ampararam ao fim da vida, em um luxuoso hospital de Santiago do Chile - seus apoiadores, seus fãs e aqueles que por ele foram oprimidos. Deste último grupo, muitos restam apenas na memória dos familiares, já que muitos deles foram torturados e mortos de forma cruel, muitos deles lançados ainda com vida em meio ao Oceano Pacífico, de aviões da Força Aérea Chilena, de modo a que lhe fossem negados até mesmo o direito de serem velados por seus entes queridos. E quem velará Pinochet? Os tantos que acreditam que os avanços econômicos e sociais que seus dezessete anos de ditadura sangrenta levaram ao Chile são uma compensação aceitável para as sevícias e mortes produzidas pelo pensamento torto de sua gestão à frente da presidência daquele país. Resta-nos a esperança de que nosso país fuja a essa conjunção de apoiadores, inocentes úteis e opositores perseguidos e demonizados que parece construir os mais temerários ditadores.

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Monday, September 25, 2006

A eficiente (e a ineficiente) diplomacia brasileira

Há uma semana tivemos uma grande desilusão com os britânicos: uma grande amiga, que há dois anos não saía de férias, resolveu ir de viagem para Londres, uma cidade que há muito sonhava conhecer.  Estudante de inglês há pouco tempo, sonhava em aperfeiçoar um pouco seus conhecimentos - ou ao menos ganhar alguma confiança no uso da língua - e como tem amigos por lá, pensou que seria interessante unir o útil ao agradável: conhecer a Inglaterra, aprender um pouco mais do idioma e matar as saudades de pessoas queridas que há muito não via pessoalmente. 

Nossa amiga, que é empresária em Porto Alegre, juntou uma boa quantia em dinheiro para gastar na capital dos ingleses, reservou hotel para duas semanas e comprou passagem de ida e volta por uma das mais conceituadas - ou seja, mais caras - linhas aéreas européias.  Mas nada disso parece ter convencido a imigração britânica: nossa amiga foi retirada da fila de estrangeiros e interrogada por mais de cinco horas sobre seu interesse em viajar para o Reino Unido; durante o interrogatório, no qual teve que vencer a barreira do idioma com a ajuda de um tradutor português que desdenhava de suas respostas, foi chamada de mentirosa pela agente da Imigração que a escolheu para averiguações e teve até mesmo que engolir em seco a insinuação de que era mais uma garota de programa brasileira que tentava ludibriar as autoridades britânicas para se instalar em Londres e ganhar a vida

Para nós, que acompanhamos o caso à distância, do momento em que ela pôde telefonar pela primeira vez para o Brasil até o instante da deportação - depois de uma longa noite na qual ela ficou confinada em um cubículo sem janelas e mobiliado apenas com cadeiras comuns -, tudo não passou de preconceito da oficial britânica: nossa amiga, sendo brasileira, mulher, loira e bonita, elegante e bem vestida, deve ter causado alguma comoção naquela inglesa a ponto de seus próprios colegas de Imigração aparentemente discordarem de sua decisão.

Aqui de Porto Alegre, tudo o que pudemos fazer foi tentar acionar as autoridades brasileiras em Londres para buscar uma saída.  Telefonamos para a embaixada e para o consulado do Brasil em Londres, e o que conseguimos naquela tarde de domingo, depois de muito penar para obter o telefone correto da emergência do serviço diplomático brasileiro na capital britânica, foi deixar recados em uma secretária eletrônica cuja gravação era uma truncada mensagem, que a muitos deve confundir em um momento de desespero como era o nosso.  Aflita com a situação, minha esposa deixou uma mensagem em cada um dos números - um recado algo aflito, algo desaforado (afinal, que emergência era aquela que caía numa gravação?!?) pedindo que retornassem a ligação. 

O consulado brasileiro foi rápido em responder nosso chamado, é bem verdade: ligou-nos de Londres uma servidora, que ouviu nosso relato do caso e pediu-nos alguns minutos para tentar tomar providências.  Pouco tempo depois, a mesma oficial brasileira telefonou-nos para dizer que infelizmente o consulado não tinha muito o que fazer, que a decisão de deportação era soberana e que infelizmente os procedimentos aos quais nossa amiga fora submetida no Aeroporto de Heathrow eram de rotina - e que os investigados ficavam incomunicáveis, restando pouco a ser feito pelo consulado. 

Ainda que nada tivesse resolvido o nosso contato com o consulado brasileiro em Londres, as duas ligações serviram para acalmar e informar melhor a nós e à família de nossa amiga, que tinha em nós dois - professores de inglês - o único elo possível entre Porto Alegre e Londres.  Ao menos sabíamos que havia um serviço brasileiro em Londres pronto para entrar em ação caso necessário - e também estávamos agora cientes de que, apesar da humilhação de ser deportada, nossa amiga tinha seu regresso ao Brasil garantido por leis internacionais.

A surpresa, em verdade, tivemos hoje, dia vinte e cinco de setembro, exatos oito dias após o ocorrido: ao chegar em casa, haviam em nossa secretária eletrônica pelo menos cinco ligações não atendidas e dois recados desaforados gravados - era uma voz feminina, da Embaixada Brasileira em Londres, querendo falar com minha esposa (que havia deixado uma semana antes o tal recado gravado no telefone de emergência da embaixada) com urgência.  A voz, de uma arrogância indisfarçável, dizia para minha esposa (ou melhor, para nossa secretária eletrônica) algo como da mesma maneira que a senhora não conseguiu contato com a embaixada, também não estamos conseguindo contato com a senhora, então ligue para nós com urgência… Na segunda mensagem, a mesma voz de mulher é ainda mais desaforada, dizendo que continuamos esperando seu retorno para nosso número de emergência

Imaginem só se nós estivéssemos realmente dependendo daquela ligação em casos, como dizia a gravação automática dos números de emergência, de morte, crime ou prisão envolvendo brasileiros na Inglaterra!  A embaixada só se dignou a retornar a ligação oito dias depois da mensagem registrada - e seis dias depois do retorno de nossa amiga para Porto Alegre, com um documento no qual é declarada persona non grata para pisar em solo britânico até o ano de 2015.  E, ao fazer contato, depois de todo esse tempo, ainda o fez de modo não muito respeitoso…  Entre a presteza da ação - ainda que sem maiores efeitos - do consulado e a arrogância tardia da embaixada, creio que o melhor é esperar que nunca dependamos das representações diplomáticas do Brasil no exterior: corre-se o risco de ficar-se desamparado ou, quem sabe, até mesmo sofrer dos servidores da diplomacia brasileira o mesmo preconceito que a ignorância dos oficiais da imigração estrangeira por vezes dispensam aos brasileiros.

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