Narcisismo-leninismo
A mesma lógica não agrada aos ditadores. Eles usam sua imagem como símbolo desde o início, como forma de marcar uma onipresença que, em suas mentes tortuosas, são sinônimo de permanência no poder. Não raro, forçam o uso de sua efígie nas repartições públicas, nas representações do poder, em estátuas e painéis grandiloqüentes e, quando avançam em sua dominação, na moeda corrente e na religiosidade sem Deus que cultivam em torno de seu regime.
Invariavelmente, o que se vê é uma reedição das idéias judaicas mais elementares na releitura tacanha desses salvadores da pátria: os revolucionários são o povo eleito, o ditador é o messias aguardado e o país que se formará a partir de sua megalomania, a Canaã prometida. Assim foi com Mao Tsé Tung, que queimou todo o saber - e pisoteou nos que o sabiam - por acreditar que suas palavras reunidas no livro vermelho condensavam tudo o que o povo precisava saber; assim enxergava Adolph Hitler, que via em uma pretensa raça ariana a salvação não só da Alemanha, mas de toda a humanidade - um conceito que no nazismo não abrangia judeus, negros, ciganos e homossexuais; assim pensam os ditadores latino-americanos que alçaram o poder nos últimos anos pelas vias do voto - que agora parecem desprezar.
A democracia, este mal necessário, é nas mãos desses tiranos apenas uma máscara sob a qual se defendem dos questionamentos do mundo. E máscaras caem com o tempo. A de Hugo Chávez caiu há tempos, mas ontem a Venezuela teve mais uma prova do desprezo de Chávez pela democracia: se há três dias ele havia humildemente admitido sua derrota no plebiscito em que pretendia a reeleição eterna, ontem chamou a vitória da oposição de una victória de mierda, desprezando a opinião dos que não aceitaram suas razões falaciosas e afirmando que reenviará suas propostas de mudança da constituição até o final de seu longo mandato. A máscara de Evo Moráles caiu há alguns dias, quando se aquartelou com os parlamentares de seu partido para promover reformas constitucionais sem a interferência e a participação da oposição - uma atitude muito democrática.
Por que líderes políticos que crêem firmemente serem os messias de um novo tempo irão se importar com a opinião do povo, com o jogo político de opisições e debates, com a mensagem das urnas? Se a ditadura do proletariado é o único caminho para o bem, que importância haverá os meios para atingí-la? E, cabe questionar, que importância há na opinião do povo, se eles acreditam que o povo não se reconhece como oprimido? Democracia e narcisismo-leninismo são incompatíveis. Não há quem pense na coletividade quando está tão centrado em si mesmo e em suas manias de grandeza. Hugo Chávez, por exemplo, disse que é soldado e pegará em armas se preciso for, para implementar na Venezuela seu socialismo bolivariano. Dentro de tão estreita visão de mundo, a urna deve ser um objeto obsoleto e incômodo para esses pobres órfãos latino-americanos da fracassada União Soviética.
A esperança é que o “não” venezuelano seja o indício de esperanças novas no continente, que precisa de renovação, e não de caudilhismo requentado de socialismo.
As democracias parecem se governar cada uma à sua maneira local. As ditaduras, ao contrário, são todas iguais.
Como outras ditaduras, sejam elas de esquerda ou de direita, Hugo Chávez trabalha com a idéia de formação de seguidores a partir da juventude. Assim funcionava no Uzbequistão, na Alemanha hitlerista, no Brasil dos governos militares, na China maoísta. As reformas educacionais sempre fizeram parte do pacote de medidas dos ditadores, junto com a perseguição aos opositores, ao fechamento da imprensa livre, à sustentação de uma rede de apoio internacional com o uso do dinheiro público - generosamente cedido aos países aliados, mas distribuído à população de forma minguada e recheada de discursos solidários que, no fim das contas, eram materializados em cupons de racionamento e em muita privação. Na Educação, contudo, os efeitos dessa dominação dos ditadores é difícil de mensurar. No Brasil, por exemplo, o uso pelos militares de disciplinas como Educação Moral e Cívica (EMC), Estudos dos Problemas Brasileiros (EPB) ou Organização Social e Política do Brasil (OSPB) para o controle da juventude teve um efeito devastador: hoje, em nosso país, patriotismo virou motivo de galhofa, e só existe durante as competições desportivas de maior expressão, ou quando uma brasileira fica em segundo lugar no Miss Universo…
Fala-se sempre, e muito, desse desconhecimento dos norte-americanos em relação aos demais países do mundo. Na década de 1980, Ronald Reagan, em visita ao Brasil, propôs um “brinde ao povo da Bolívia”. Alguns dias depois, uma distribuidora de petróleo lançava uma propaganda de revista na qual, ironicamente, “o povo da Bolívia agradecia a visita do presidente do Canadá”. Mas será que apenas os norte-americanos desconhecem os demais povos e países?
As semelhanças entre os dois presidentes norte-americanos não passa, infelizmente, pela habilidade em contornar crises. JFK entrou para a história como o presidente que deu início à retirada das tropas norte-americanas do Vietnã. Em declaração registrada por seu assessor Kennedy O’Donell, o presidente Kennedy demonstrou estar consciente das conseqüências de sua decisão, ao dizer que se tornaria “o presidente mais impopular da história” e condenado “por toda parte como um apoiador dos comunistas”, mas via na sua reeleição a única possibilidade de fazer os EUA recuar de uma guerra que saíra do controle e em nada dizia respeito ao povo norte-americano (“I’ll become one of the most unpopular Presidents in history. I’ll be damned everywhere as a communist appeaser. But I don’t care. If I tried to pull out completely now from Vietnam, we would have Joe McCarthy red scare on our hands, but I can do it after I’m re-elected. So we had better make damned sure that I am reelected.”).
Às vésperas do aniversário de oito anos da tragédia ocorrida na Columbine High School, em Jefferson, Colorado, ocorrido em um 20 de abril - em que dois alunos armados causaram a morte de dez estudantes -, e apenas dois dias depois das mortes ocorridas na universidade Virginia Tech, a rede de televisão norte-americana NBC divulgou as imagens de um vídeo e de fotografias enviadas para aquela emissora de televisão por Cho Seung-Hui, o desequilibrado estudante de Letras que protagonizou o massacre de seus colegas de universidade e de dois professores. 


Mais interessante que o documentário em si, contudo, foi a entrevista coletiva que Paulo Zero e Sônia Bridi concederam aos internautas que acessaram a página na Internet do Globo Repórter logo depois da exibição do programa. Vários dos visitantes, que funcionaram como entrevistadores dos repórteres, perguntaram como é, de fato, essa nova China anunciada como a futura potência mundial - e sobre as lições que a China contemporânea poderia ensinar ao Brasil. Sônia Bridi ressaltou que o grande problema da China atual é não saber “o que fazer com a velha”. Para ela, “muito do que existia de cultura foi substituído por arremedos – tentativa de resgate controlado pelo estado, de práticas e tradições que o mesmo estado destruiu durante a loucura coletiva da Revolução Cultural”. Com isso, ”antigas tradições que ainda provocam feridas emocionais no país – [a pressão social para se] ter filho homem, mulheres com pés mutilados [em uma região na qual a mulher, para se casar, precisava ter pés pequenos, como sinal de beleza], mulheres que não tinham direito à educação – e com conhecimentos milenares que estão desaparecendo em prejuízo de toda a Humanidade, como o domínio das ervas medicinais que o Doutor Ho [um médico tradicional, por ela entrevistado, cujos conhecimentos incluiriam até mesmo a cura do câncer por meio de ervas medicinais, atestado por cientistas norte-americanos], mais de 80 anos, desesperadamente tenta passar para novas gerações”.
Bridi enfatizou também que o grande salto que a China está a promover, transformando-se da massa de miseráveis e analfabetos de vinte e cinco anos atrás em um pólo tecnológico que, segundo ela, surpreenderá o mundo com sua tecnologia nas próximas Olimpíadas, em 2008, está quase todo ele calcado na educação. A repórter impressionou-se com ”a qualidade das escolas públicas, inclusive no interior”. Descrevendo imagens que remetem ao famoso filme Ninguém a Menos - de escolas sem “vidros nas janelas e de chão batido” -, Sônia Bridi lembrou que, ainda assim, nenhuma escola que ela visitou estava sem professores, “e ensinando”. “Lá [na China] as crianças conversam com você em inglês, pois aprendem na escola pública”, coisa que no Brasil parece impensável, disse a repórter. A China, que já tem uma universidade entre as vinte melhores do mundo, “está formando uma elite de pesquisadores”, relata Bridi, “e investiram em educação e pesquisa; começaram [sua vantagem competitiva] pela mão-de-obra barata e a exportação, mas agora estão crescendo [em tecnologia] e de forma bastante acelerada”. 
É certo que Hugo Chávez assumiu o poder pelas vias democráticas - mas assim também o fizeram Adolf Hitler e Getúlio Vargas, entre outros. Contudo, tendo em suas mãos o poder, é comum aos ditadores cercarem-se de meios legais ou de força para garantir sua perpetuação no poder, para tal ignorando quaisquer dos preceitos consagrados pelas democracias ocidentais. E Chávez segue perfeitamente essa tendência: do presidente da Venezuela dos primeiros tempos, vitorioso na tentativa de deposição que sofreu e que o levou, triunfante, de volta ao poder dois dias depois, ele revela-se a cada gesto mais um tirano latino-americano, da estirpe dos grandes déspotas que nosso sofrido continente ostentou em um passado não muito distante, e menos o salvador socialista que os admiradores da esquerda imaginaram vislumbrar quando de sua ascenção ao poder em uma Venezuela destruída pelos desmandos de uma oligarquia das mais gananciosas e perversas. Não é essa a mesma trilha calcada por Evo Morales e Fidel Castro, dois grandes compadres políticos de Chávez - que os tem acenado com agrados em forma de petrodólares venezuelanos -, e não por acaso admiradores declarados do mesmo ícone, Simon Bolívar? Seria interessante perguntar-se qual seria o olhar de Simon Bolívar, o libertador das Américas - que alguns dizem ter ele mesmo tomado atitudes despóticas ao final de sua vida política -, diante das tendências tirânicas e nada democráticas desses novos líderes latino-americanos…
Não importa quão sangrento seja seu longo governo, quão descaradamente contrário às liberdades individuais sejam suas leis, quão frágeis sejam as conquistas obtidas por suas gestões para a maioria das populações - os ditadores sempre terão seus defensores ardorosos, seus fãs incondicionais, seus cegos seguidores que verão em qualquer crítica a seu líder não mais que uma intriga oposicionista, a qual sempre associarão com o mal.
Os ditadores sabem que não há sobrevivência no poder apenas pela força bruta, e por isso eles sempre trabalham no sentido de conquistar o apoio daqueles que se vendem por pouco, muito pouco. Cargos e vantagens para os poderosos, avanços sociais para os mais carentes, rigor de leis arbitrárias e o garrote das prisões e assassínios aos que contra eles tentam lutar: esses parecem ser, sem exceção, os procedimentos dos ditadores para perenizarem-se no poder. Experimente escolher um ditador da História e aplicar-lhe a fórmula - lá encontrarás, nos registros de seu governo, um grupo que o apoiava por interesses particulares, outro que o seguia como a um Messias, e um grupo que lhe serviu como bode expiatório, símbolo do mal que os ditadores adoram usar como fator de união das forças que o apóiam.