O Y da questão

A pedido do Locutório, Rubem Penz falou um pouco sobre o ofício de escritor e sobre o gênero ao qual dedicou seu primeiro livro, a crônica.
Locutório: Carlos Heitor Cony, um apaixonado pela crônica, declarou que ela ainda é vista, na literatura, como “um gênero tipicamente marginal (…) pois não pertence ao jornalismo, por não conter informação e também fica à margem da literatura, por ser vista como um texto menor”. Para ele, a crônica, mais que em outros gêneros literários, é “o eu se expondo, (…) mesmo que o eu não esteja explícito no texto”. Como você vê a crônica?
Rubem Penz: Bom, em primeiro lugar, marginal é um termo muito libertador, e isso é ótimo. Talvez aí comece a minha escolha pessoal por ser cronista. Fui apresentado para este estilo literário por um pequeno grande livro: O Gigolô das Palavras, de Luis Fernando Verissimo (LFV). Nele, um ensaio teórico da Professora Maria da Glória Bordini explica a liberdade de criação e composição que LFV experimenta, justamente por ser cronista. Outra maravilha nos textos do filho do Erico é o humor: sonhei, um dia, também ser capaz de desfilar ironia e acidez com tanta suavidade que, ao invés de gerar desconforto no leitor, provocasse risos. Então, ainda lá nos anos oitenta, é com Verissimo que a crônica se torna um best seller. Ao somarmos a liberdade de criação, o exercício da ironia e o sucesso, o resultado é: quando eu crescer, quero ser cronista! Comigo foi assim… Com relação à minha visão da crônica na cena das letras, a considero a dona de casa da literatura. O espaço da trivialidade, do cotidiano, dos afazeres básicos e, por isso, comum a todos. Tanto mais competente será o cronista, quanto melhor retratar o prosaico. É então que o leitor se espanta e se rende: o dia-a-dia, aquilo que ele viu, experimentou ou sentiu, transforma-se em literatura. O prazer de escutar alguém me dizer: “ali na tua crônica sou eu”, ou “parece ter falado para mim”, não tem preço.
Vários escritores brasileiros - entre eles o próprio Cony - afirmam que a crônica é um gênero literário tipicamente brasileiro - um substituto nosso ao que em outros países se faz através do artigo ou do ensaio. Você concorda com essa idéia? O que faz com que a crônica seja tão presente no panorama literário do Brasil?
Ser a crônica um produto nacional ou não é uma discussão irrelevante. O que importa é a qualidade que o gênero alcançou em páginas brasileiras. E aí chegamos no axioma do Tostines: vende mais por que é fresquinho ou é fresquinho por que vende mais? Isto é: a crônica brasileira é muito lida por que tem bons escritores, ou tem bons escritores por que é muito lida? Este círculo virtuoso oferece ao leitor uma quantidade de crônicas que não se vê em jornais estrangeiros. E, agora com a internet, de blogs. Só está faltando virar futebol e sermos comprados a peso de ouro pela Itália e Espanha. Nada mal, hein? Mas, em tempo: temos bons ensaístas e articulistas também, que se diferenciam dos cronistas pela especificidade dos temas que abordam.
A crônica é um gênero que floresceu nas mãos de jornalistas como João do Rio, Stanislau Ponte Preta (Sérgio Porto) e Paulo Mendes Campos, entre outros. Você é da área de Publicidade e Propaganda. Em que sentido sua formação afeta seu trabalho como cronista e diferencia-o de seus colegas cronistas que vêm do jornalismo?
Vejo uma linhagem de cronistas nascida do desejo (e da capacidade) de bons jornalistas se libertarem das amarras impostas pela profissão – olha a liberdade aí de novo… Aqui em Porto Alegre, dou como bom exemplo o Nilson Souza, que considero um Paulo Mendes Campos entre nós. A entrada do Nelson Rodrigues, com sua bagagem de cinema e de teatro, começou a abrir o leque de opções na crônica, cujo herdeiro pode-se considerar o Arnaldo Jabor. Quando o multimídia LFV entrou na cena, sendo ele publicitário, jornalista (até astrologia escreveu), cartunista, músico, roteirista etc, liberou geral. Nos anos oitenta, redatores publicitários começaram a trilhar o caminho da crônica. Destaco Martha Medeiros, Ricardo Silvestrin e Cláudia Tajes. Algumas características dos publicitários são o texto ágil, o inusitado na abordagem e a concisão. O pessoal da propaganda costuma ser bem sedutor ao escrever – isso é quase uma imposição de ofício. Aí, mais do que tudo, se diferenciam bastante dos jornalistas. No meu caso, além da redação publicitária, ainda tem o lado músico: nenhuma frase deixa de passar pelo crivo de quem lida com as harmonias e os ritmos. A escola que tive na propaganda e a influência da música me ajudam muito, com toda certeza.
Como é o seu processo criativo? De onde parte sua inspiração para as crônicas?
Existe sempre um catalisador, um gatilho que faz o cronista começar a escrever. Pode ser algo que acabou de ler, que assistiu, que ouviu falar. Pode ser uma emoção nova, um vexame, uma piada. Uma frase solta pode criar verdadeiras teses quando sensibilizam o cronista. Sensibilidade, aliás, é a palavra chave para qualquer manifestação artística. É por isso que não raros artistas sofrem: sentem mais intensamente do que os seus pares. Agora, e aqui tem o lado bem publicitário, a inspiração pode vir do desafio. Funciono muito assim: quando me provoco para escrever sobre determinado tema, me faço capaz. Quem já precisou escrever cartão de Natal temático para empresas de Geometria & Balanceamento, não se acovarda fácil! Hoje em dia, depois de começar a estudar com o escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, tenho me preocupado muito com a forma de escrever. Este é um desafio por vezes maior do que o tema.

Sua produção é bastante intensa, tanto na publicação periódica em seu site Rufar dos Tambores quanto nos diversos jornais nos quais suas crônicas são publicadas, aqui e no exterior. Como é o seu contato com o público? Há diferenças entre os textos que você publica na Internet e os que saem nos jornais? E os leitores, reagem de forma distinta?
Minha produção é resultado de uma rotina de trabalho auto-imposta em abril de 2002: no mínimo, uma crônica por semana. Proposta tão séria como um emprego na redação de jornal. Germânica. Afinal, eu precisava saber se o poço das idéias secaria. A internet foi o veículo. Num instante, centenas de pessoas já estavam me lendo e espalhando as crônicas em suas listas pessoais. Em 2004, cursei uma oficina com a escritora Valesca de Assis. Além do grande aprimoramento laboral, ela me apresentou para outros cronistas. Meus textos passaram a ser publicados na sessão de artigos do jornal Zero Hora, de modo esporádico. Quando uma leitora virou repórter do Jornal Comunidade News (EUA), ela levou consigo o Rufar dos Tambores. Agora, outros dois veículos também publicam. Mas nem sempre o texto é adequado a públicos tão diferentes. Nestes casos, escrevo mais de um. O leitor da internet é mais comentarista, mais reativo. Nos jornais, o retorno é pouco.
Você é também um contista de valor, e muitas de suas crônicas publicadas no seu site Rufar dos Tambores namoram com o conto. Há, para você, uma diferença essencial entre os dois gêneros?
Antes de mais nada, eu divido os cronistas em dois grandes grupos: os monocrônicos e os policrônicos (isso é o tema de uma crônica ainda inédita). Os primeiros escrevem sempre da mesma maneira. Os outros, se apropriam do maior número de estilos e formas. Daí, temos a crônica-carta, crônica-anúncio, crônica-conto, crônica-ensaio (que é quase crônica-crônica), crônica-poesia, crônica-paródia, crônica-resenha e tantas outras combinações a se imaginar. A crônica-conto é um dos mais deliciosos casamentos. A diferença entre um conto puro e um conto crônico é, justamente, o tempo (chronos): neste último, o sub-texto estará a serviço de um tema premente, pulsante, crônico. Faço uso desta combinação e de todas as outras. Se já não ficou explícito, reitero: meu objetivo é ser um escritor policrônico. Ou mais: devasso!
O cronista Rubem Penz lê outros cronistas? Como avalia a produção atual do gênero?
Leio cronistas todos os dias. Acompanho a ZH e, ali, me sirvo de todos os 3 textos do gênero – quando não são 4. Cardápio variadíssimo em estilos e opiniões. Sempre que posso, leio os cronistas de outros jornais, também. Na Veja, sempre. Na internet que diminuí bastante: lia blogs e, de um tempo para cá, o faço só de vez em quando. Citando alguns, esquecerei de outros… Em Porto Alegre estamos com uma produção farta no gênero. Mas um pouco acomodada. São poucos os textos arrebatadores. Menos ainda os surpreendentes. Parece mentira, mas o LFV ainda é quem mais me agrada. Não vejo a hora de ele voltar a infernizar o governo.
O Y da questão (Editora Literalis) é seu livro de estréia, e começa sua carreira com uma indicação ao Prêmio Açorianos de Literatura, um dos mais importantes do estado do Rio Grande do Sul. Como surgiu a idéia do livro? Qual sua linha norteadora na escolha dos textos que compõem o livro? Como você recebeu a notícia da indicação ao Açorianos?
Faz tempo que eu olhava para o dilema do ovo e da galinha: o escritor só existe depois do primeiro livro, ou o livro só existe depois de alguém, primeiro, ser escritor. Outra dúvida era se, antes do livro, eu precisava ser cronista de um jornal de grande circulação, ou só chegaria a sê-lo depois de um primeiro livro publicado. Tentei com o Y acomodar a questão. O fato de eu ser finalista do Açorianos já no primeiro título indica um bom acerto de tempo: soube esperar meu texto amadurecer para, só então, nascer como escritor. Minha formação autodidata e para lá de heterodoxa me fazia morrer de medo da academia e da crítica literária… Tenho a esperança de que o livro, agora, seja um facilitador no intento de constar nas páginas da imprensa. As crônicas não foram selecionadas por mim. Pensei que seria melhor entregar para alguém menos comprometido fazer o julgamento. E lá estão as competentes Annete Baldi e Márcia Ivana de Lima e Silva. Outro acerto, sem dúvidas. O resultado foi melhor do que eu poderia alcançar.
Que pontos você destacaria no seu livro para o futuro leitor de “O Y da questão”?
Muito bem, é a hora de tentar vender, não é? Então digamos que, com base na definição de cronista como sendo a dona de casa da literatura, o Y da questão é um convite para ir até a minha casa. À mesa, prometo o trivial bem servido. Sofás confortáveis, cerveja gelada (Suco? Vinho?), música de bom gosto e uma conversa daquelas de fazer amigos de uma vida inteira no primeiro encontro. Franqueza acima de tudo, um pouco de ironia, suavidade. A orelha de Valesca de Assis é o perfumado jardim da entrada. A apresentação de Luís Augusto Fischer faz as honras ao chegar. A arte gráfica de Alex Medeiros se encarrega do conforto aos olhos. O leitor pode escolher varar a madrugada batendo papo, ou, em crônicas espaçadas, sorver o livro como quem dá uma passadinha só para tomar um mate, prometendo voltar amanhã. No fim, pequenas revelações a cada crônica. Esta será a melhor parte da visita: o prazer em conhecer!
Bem, Rubem, estamos na torcida pelo Prêmio Açorianos e agradecemos pela entrevista ao Locutório. Boa sorte e sucesso!
Muito, muitíssimo grato ao Robertson pela entrevista, e por sua companhia até o final.