Thursday, May 3, 2007

Perspectivas

'O Balcão - Edóuard ManetO Balcão de Manet - Perspectiva II', de René Magritte

Os antigos já diziam que a beleza está nos olhos de quem vê.  Arrisco-me a dizer que a visão começa bem antes do olhar.  Há uma predisposição interior - que uns situarão no âmago das células do corpo, outros, nos recônditos ambientes da alma -, um prisma metafísico qualquer, responsável por transformar o que é apenas luz refletida na matéria em significações as mais doces ou mais funestas.

Se aqui uns vislumbram uma saída, outros temerão o que acreditam ser a beira de um precipício.  Onde uns vêem uma razão para a vida, outros enxergarão não mais que a inexorável morte.

Talvez esteja nesse sentido mais oculto dentro de nós - essa indecifrável percepção do mundo que não sabemos onde reside - a chave do que alguns denominam felicidade.  Mas como regular em nós essa lente etérea, inefável, que faz o olhar enxergar trevas mesmo em meio ao mais claro alvorecer? 

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Wednesday, April 11, 2007

I wanna be MADE!

I wanna be MADE! A televisão aberta, com seu caráter eminentemente comercial, visa ao lucro e, para elas, isso é impulsionado pelo aumento da audiência, que valoriza sua programação e, por consegüinte, faz crescer o valor de seus intervalos comerciais, vendidos a peso de ouro para os anunciantes que já estão mais que convencidos do poder de penetração dessa mídia. Essa busca pelo interesse dos telespectadores faz com que as emissoras de televisão - e isso estende-se para os canais por assinatura - espelhem, muitas vezes, as tendências do pensamento da atualidade.

Não falo daquele pensar que povoa o meio acadêmico que, por vezes, tem sido lento para perceber os fenômenos de massa, mas o pensamento que permeia as relações humanas e o comportamento da atualidade. É certo, também, que muitas vezes os hábitos e atitudes são fortemente influenciados pela mídia, mas colocar em suas mãos virtuais toda a responsabilidade pelas mudanças no pensamento do homem contemporâneo seria uma forma simplista de eximir-nos da responsabilidade por nossos próprios atos e lançar na sarjeta séculos de crença na liberdade e no livre-arbítrio humanos.

Um exemplo curioso de como a televisão consegue captar as alterações do pensamento das massas é o programa MADE, exibido pela MTV brasileira. Importado da sede estadunidense da emissora, MADE (em inglês, “feito”) atende aos pedidos de telespectadores que desejam realizar algum sonho - de tornar-se uma lutadora de boxe, desejo de uma adolescente supreprotegida pela mãe e que sempre desistira de todas as atividades nas quais se engajara; de ganhar o título de “rei do baile de formatura”, desafio proposto por um obeso mórbido -, dando-lhes a assistência de um expert por seis semanas para que eles possam atingir seus - algo absurdos - objetivos. O programa é curiosíssimo e prende a atenção justamente por apostar nas situações mais bizarras - um jogador de futebol americano que quer se tornar bailarino clássico, uma menina masculinizada que quer se tornar miss, uma tímida incorrigível que quer se tornar atriz dramática, uma típica patricinha que quer se tornar jogadora de rúgbi… Olhando-se além das agruras naturais de sonhos tão difíceis - acompanhados minuto a minuto pelas câmeras de televisão, ao melhor estilo dos reality shows -, porém, o que se vê é um retrato triste do que se torna cada vez mais comum no comportamento dos jovens de hoje.

MADE, programa da MTVVivemos já uma época na qual boa parte dos adolescentes cresceram em um ambiente no qual todas as suas frustrações eram minimizadas, todas as suas vontades cumpridas sem questionamento por parte de seus pais e familiares adultos; o medo de traumatizar os filhos ou a necessidade de compensá-los pela ausência - não raro esses pais e mães passaram a empregar mais e mais tempo no trabalho para prover o lar com mais conforto e a família com mais status - fizeram com que os adolescentes não precisassem mais lutar para conquistar o que querem: eles vêm, na maioria das vezes, prontos e customizados. Essas mesmas pessoas, que acreditam ser a vida um jardim de delícias e o mundo uma paisagem humana que deve se adequar aos seus caprichos e direitos sem fim, cada vez menos se esforçam para conseguir seus objetivos. Quer-se muito; faz-se pouco. Não raro se observam hoje pessoas que, por exemplo, se matriculam em cursos, engajam-se em atividades diversas com os sonhos mais elevados e, por vezes, quase impossíveis – ser uma modelo de sucesso, conquistar a fama como músico, transformar-se em um escritor de renome, emagrecer e ter um corpo perfeito –, mas em nada se esforçam para construí-los. É como se o mero ato de matricular-se em um curso, em comprometer-se em uma atividade qualquer, fosse gerar neles a transformação necessária. Há uma espécie de preguiça intelectual que descambou em uma total desvalorização do estudo e da aplicação, do esforço e do aperfeiçoamento. As pessoas desejam ser descobertas, como em um passe de mágica, e sem que isso envolva maiores esforços pessoais - não por acaso a frase-símbolo do programa da MTV é “I wanna be MADE!” - em portugês, algo como “eu quero que alguém me faça me tornar” isso ou aquilo. Não se quer mais construir nada; o desejo maior é habitar um sonho que tenha sido construído para nós, sem esforço de nossa parte.

Cena de 'MADE' Essa sensação de virada do destino, obtida meramente pelo acaso, é alimentada pela mídia, a quem interessa vender esse tipo de sonho. Há uma pletora de exemplos nos jornais, nas revistas e na televisão de pessoas que “surgiram do nada” e hoje são “ricas e famosas”, alimentando a idéia errônea de que esse fenômeno seja o mais natural da vida humana e de que histórias como essas ocorrem diariamente. As falsas esperanças que essa idéia cria nas pessoas em geral é muito útil para os que tiram seus lucros da cultura de massa: quantos são os cursos de modelo e manequim, os programas de televisão, as igrejas neo-pentecostais, as editoras de fundo de quintal e as revistas eróticas que se alimentam dessa falsa sensação de que o sucesso, a riqueza, a satisfação amorosa e a fama estão à espera, na próxima esquina, para saltar sobre nós de surpresa? Isso sem falar em todos os falsos ídolos e os famosos de quinze minutos dos quais se alimentam os programas de auditório na televisão e as revistas de fofoca…

Olha-se para os verdadeiramente famosos e bem-sucedidos e, em muitos casos, sua história de superação, seus reais esforços para obter aquela posição de destaque, são simplesmente ignorados. Parece ser mais fácil esperar que um expert - alguém que certamente não chegou àquela posição em um passe de mágica - bata à nossa porta e faça com que nos tornemos o que não conseguimos ser por nossa pouca vontade de enfrentar as frustrações, o cansaço e o sofrimento de aprender com os próprios erros. Afinal, quem de nós não prefere ser “feito” a efetivamente “fazer acontecer”?

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Wednesday, February 21, 2007

A euforia da modernidade

O século XXI vive uma nova euforia tecnológica, a exemplo do cientificismo do século XIX, que traz consigo efeitos deletérios que o mundo então europeizante de cem anos atrás ainda não possuía condições de produzir, auferir ou, muitas vezes, perceber.

A sensação de modernidade parece estar intimamente vinculada à rapidez com que os conceitos e o ferramental tecnológicos evoluem.  Em uma breve viagem mental aos nossos conhecimentos mais genéricos de História, certamente iremos recordar que a idéia de modernidade esteve mais presente em períodos nos quais novas tecnologias e máquinas fantásticas surgiram em maior profusão – quer seja na Revolução Industrial, no boom dos eletrodomésticos da década de 1950, nos anos primeiros da era espacial ou na atual explosão da Rede Mundial de Computadores.  Uma análise mais profunda dessa mesma História mostrará que os períodos outros, que não associamos diretamente com essa sensação de progresso, viram também surgir diversos avanços tecnológicos importantíssimos para a humanidade.  Mas falamos de uma sensação generalizada, vulgarizada pelos meios de comunicação e pelo pensamento reinante em toda uma época – uma idéia que nem sempre está calcada em dados concretos e mensuráveis.

Talvez o efeito mais prejudicial dessa modernidade quase impositiva dos meios de comunicação e do pensamento atual seja a nossa incapacidade de lidar com o passado.  A suíça Jeanne Marie Gagnebin, professora de Filosofia da PUCSP e uma das maiores estudiosas no país da obra do pensador alemão Walter Benjamin, diz que um dos maiores problemas da modernidade é justamente a aceleração do tempo – uma sensação humana cuja mensurabilidade e precisão já era questionada por cientistas como Albert Einstein –, em grande parte oriunda da rapidez com que a técnica evolui e substitui-se a si mesma.  “Quando pensamos no século XV”, diz Gagnebin, “as pessoas viviam quase as mesmas coisas de geração em geração, o que não acontece hoje”.  Hoje, torna-se difícil para as novas gerações compreender coisas que eram corriqueiras há poucos anos.  Experimente-se, para melhor perceber isso, conversar com um adolescente sobre objetos de uso comum há poucas décadas, como a máquina de escrever, a ficha telefônica ou a prática de se levar ao supermercado os cascos de vidro dos refrigerantes para poder comprar o produto; propositalmente se citaram aqui exemplos de hábitos urbanos e bastante comuns, nada exóticos para quem viveu a década de 1980, por exemplo, em um grande centro urbano.  Avance-se sobre os hábitos do meio rural e o diálogo tornar-se-á completamente ininteligível para ambas as partes.

A conseqüência maior dessa aceleração do tempo a que se refere a autora de Os Cacos da História seria o desprezo contemporâneo à tradição.  Ao mesmo tempo que se busca a confiança freqüentemente associada ao tempo de experiência na aplicação de determinada técnica ou prática, há uma busca pela novidade que faz com que, consciente ou inconscientemente, se abandone o tradicional como ultrapassado.  O imediatismo a que nos leva a busca pelo atualíssimo faz com que se aceite, quase que cegamente, tudo aquilo que advém da ciência e tecnologia e que se menospreze, por conseguinte, o que surgiu dos longos anos de prática e aplicação.  Não se exige do conhecimento científico ou da tecnologia nenhum tempo de maturação das idéias ou de comprovação empírica de resultados – há, no imaginário contemporâneo, a sensação falseada de que aquilo que é lançado hoje é, forçosamente, melhor do que foi feito ontem, e com isso cria-se um caleidoscópio de informações, notícias, novidades tecnológicas e conceitos diversos aos quais nenhum ser humano é capaz de assimilar devidamente, tampouco de avaliar criticamente.   

Há que se perguntar quais serão, no futuro, as conseqüências desse encontro nada positivo – o da euforia pela modernidade com a psique dominante – e profundamente norte-americana – do individualismo, do self-made man, da meta de vida calcada no sucesso material a qualquer custo.  Talvez resida nessa conjunção de idéias alguns dos tantos efeitos já percebidos na atualidade – do crescimento da violência, fruto de uma cultura que exacerba o indivíduo e sua busca pelo prazer em detrimento dos direitos do outro, à incapacidade de reação da população diante dos acontecimentos sociais mais escabrosos.

O desprezo pelo passado – que inclui a relativização de instituições e conceitos seculares como a família, o casamento, a honradez e a honestidade, por exemplo – e a incapacidade de lidar com o futuro – estariam aí a frenética busca pela juventude a qualquer custo? – parecem confundir o homem contemporâneo e levá-lo a uma renovação inquietante de sua moral na mesma medida em que ele é incentivado a substituir seu aparato eletrônico por uma nova engenhoca apenas alguns meses mais nova.  O mundo modernizante do século XIX, imerso no pensamento de uma Europa construída sobre a tradição de séculos, parecia ainda guardar valores morais e culturais que colocavam o interesse do grupo – ainda que em alguns casos de forma torta – sobre a individualidade; o mundo contemporâneo, totalmente construído a partir da juventude de um país de tradições recentes e, em geral, falsamente forjadas, como os Estados Unidos da América, é um ambiente globalizante no qual a regra parece ser o não cumprimento das regras, porque essas representam uma tradição a ser desrespeitada na busca pela satisfação pessoal – e personalíssima – de um pretenso sucesso individual.  A questão é saber se a sociedade dos próximos tempos conseguirá funcionar em harmonia a partir de tão instáveis bases filosóficas.

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Friday, January 26, 2007

O peso do preconceito

Há um tipo de preconceito que tem afastado pessoas capacitadas das melhores posições em diversas companhias, impedido bons alunos de ingressar nas melhores universidades, determinado a percepção de menores salários por parte das mulheres e levado suas vítimas a acumularem menos bens ao longo da vida.  Ao contrário de outras formas de discriminação, que gozam até mesmo de legislação que pune com prisão seus infratores, essa forma de preconceito não é combatida pela sociedade que, muito pelo contrário, alimenta-o diariamente e parece concordar com aqueles que o detém.  Aliás, esse é um tipo de preconceito que, inversamente ao que acontece com a discriminação racial, social ou étnica, não gera nenhum tipo de constrangimento ao ser assumido publicamente.

Em tempos nos quais a beleza parece ser obrigatoriamente vinculada à magreza, a obesidade assume o lugar das características pessoais mais suscetíveis a despertar o preconceito.  Desde 1966 há estudos em países como os Estados Unidos da América - onde o índice de pessoas obesas cresce a cada ano - que mostram aquilo que muitos obesos já conhecem na prática: as pessoas com sobrepeso são vítimas de preconceito, têm maior dificuldade em conseguir empregos - sendo geralmente eliminadas, no processo de admissão, durante a etapa das entrevistas -, ganham salários menores em comparação aos seus pares não-obesos, pagam mais caro os planos de saúde e os contratos de seguro pessoal e têm maior dificuldade em organizar sua vida amorosa e afetiva.  Um estudo recente, realizado pelo professor de psicologia Brian A. Nosek, da Universidade de Virginia (divulgado pelo jornal The New York Times de 02 de dezembro de 2006), apontou a discriminação contra os obesos como o mais intenso tipo de preconceito na sociedade estadunidense, superando até mesmo os de fundo racial, social e de orientação sexual. 

Ainda que tais dados sejam referentes à realidade norte-americana, há fortes razões para se acreditar que o fenômeno da discriminação contra obesos é um fenômeno que afeta a maioria dos países ocidentais.  O preconceito contra obesos é facilmente observável em nossa sociedade, seja na forma como a obesidade é retratada na ficção, seja na quantidade absurda de informações que são veiculadas - e vendidas, é sempre bom recordar - em revistas, jornais e programas de rádio e televisão, na forma de dicas para combater o excesso de peso à propaganda de soluções cirúrgicas a panacéias medicamentosas para um emagrecimento rápido e milagroso.  Nos comerciais televisivos residem, talvez, as formas mais claras de como o obeso é visto por nossa sociedade: em geral, os gordinhos e gordinhas são usados sempre como o contraponto aos bem-sucedidos magros e magras, fortes e esbeltas; em geral, os primeiros sempre aparecem tomando atitudes idiotas perante as câmeras, ou em situações de frustração por não poderem ser tão bonitos e sortudos como aqueles que não sofrem com o excesso de peso.  O mais curioso é que tais situações não estão restritas às propagandas de produtos dietéticos ou light, roupas ou produtos afins cuja relação direta com o sobrepeso é compreensível.  Recentemente uma famosa fabricante de televisores colocou no ar uma campanha publicitária na qual dois vendedores apanhavam de suas freguesas ao convidá-las a ir até o fundo da loja para ver o novo lançamento em televisores de plasma - claro que o comercial tratava isso com uma frase de duplo sentido e conotação erótica… Curiosamente, ambos os vendedores eram obesos, e a cliente era uma alta e belíssima loira.  Qual será a mensagem contida na peça publicitária, cuja intenção era humorística?  A idéia que reinava subliminarmente é que a mulher, tão bonita e elegante, jamais aceitaria uma cantada de um homem com sobrepeso, muito menos de dois obesos como aqueles, e que estaria em pleno direito de esbofeteá-los em público por conta disso.

Talvez soe como um exagero, mas basta tentar recordar uma situação em que na ficção - seja na programação normal das emissoras de televisão, nos filmes de qualquer gênero ou mesmo nos intervalos comerciais - um personagem obeso ou com sobrepeso tenha sido retratado de forma positiva (excluindo-se Papai Noel, por razões óbvias).  Uma mulher indesejável em termos sexuais, nos filmes e comerciais televisivos, será quase que invariavelmente obesa.  Um homem repugnante, com raríssimas exceções, apresentará um abdômen avantajado e vestirá roupas que parecerão prestes a explodir de seu corpo - como se não existissem, hoje bem mais que no passado, lojas e lojas a vender roupas de tamanhos especiais…  A esse respeito, há um interessantíssimo estudo de três psicólogas - Naumi A. de Vasconcelos, Iana Sudo e Nara Sudo - da UFRJ. intitulado Um peso na alma: o corpo gordo e a mídia,  março de 2004, no qual as pesquisadoras estudaram a forma como foram retratados os obesos em matérias veiculadas nos jornais e revistas brasileiros entre 1995 e 2003.  Elas alertam que a nossa sociedade desenvolveu uma espécie de ”lipofobia”, um trauma em torno do excesso de peso, causado em grande parte pela falsa associação entre obesidade e falência moral.  O preconceito, que engloba todas as atividades sociais - e por isso afeta os obesos em situações como a procura por um emprego ou a escolha para um cargo de maior relevo dentro de uma empresa -, estabeleceu no imaginário de nossa sociedade a idéia de que o obeso é preguiçoso, moralmente fraco, descuidado, indisciplinado e desleixado, de que alguém com sobrepeso jamais pode ser visto como uma pessoa elegante e bem-sucedida, sexualmente atraente e ativa, realizada no amor e na profissão.  Em outras palavras, o corpo gordo é um sinal visível de violação das normas estabelecidas por nossa sociedade atual, presa à imagem corporal como símbolo maior de ostentação e status - o que, em parte, explica o deslocamento que parece ter ocorrido dos sonhos de sucesso profissional das camadas mais pobres da população, que hoje não mais almejam uma formação profissional adquirida pela educação formal mas, sim, uma vitória social que é associada às conquistas que o corpo pode proporcionar, seja como esportistas, modelos, dançarinos ou outras atividades ligadas à aparência exterior.  Nesse mundo em que ser magro é a meta almejada por tantos, ser gordo é ser, com as devidas proporções, um outsider. Mesmo diante dos exageros que essa cultura da magreza tem gerado - a sucessão de casos de anorexia e bulimia, com vítimas fatais, é um importante sinal -, o corpo gordo é ainda sinal de fracasso e motivo de repulsa. 

A discriminação contra os obesos, que não é nada sutil, parece passar despercebida para a maioria das pessoas - sinal de que o preconceito é, de fato, generalizado e aceito como algo natural.  Gordo, no Brasil, tornou-se palavra ofensiva - quem duvidar, que se recorde do episódio envolvendo o jogador Ronaldo Lazário e o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva - e aqueles que trabalham na mídia e fogem ao padrão estético da magreza estabelecido nos últimos anos parecem ter que aceitar tal denominação e fazer dela razão para uma auto-chacota inexplicável - uma forma de auto-defesa que justificaria, em parte, as piadas de mau gosto e as cenas lamentáveis de discriminação que apresentadores de televisão como Jô Soares, Gilberto Barros, João Gordo e Fausto Silva - este último uma espécie de patrocinador da discriminação contra os obesos no Brasil - promovem com seus convidados que, como eles próprios, também apresentam sobrepeso.  Eles reproduzem, infelizmente, um padrão que existe em toda a sociedade brasileira, que criou para os obesos um esteriótipo de fanfarrão, bom amigo, engraçado e algo boboca.  Espera-se, aliás, do gordinho e da gordinha que eles aceitem de bom grado toda e qualquer referência ou apelido menos elogiosos ao seu excesso de peso corporal.  Quando isso não ocorre, o obeso é taxado de rancoroso, e certamente as conversas sobre sua atitude estarão repletas da palavra gordo acrescida de outros adjetivos nada nobres - afinal, estamos em um país no qual é elogioso dizer a um amigo que ele parece mais magro… 

Tudo o que os obesos desejam é respeito.  Nenhum deles desconhece os perigos da doença chamada obesidade - em verdade, uma situação corporal que pode gerar enfermidades diversas, e não uma doença em si.  As pessoas com sobrepeso, aliás, são talvez as que melhor conheçam o número de calorias dos alimentos, os tipos de dieta que funcionam ou não, as contra-indicações deste ou daquele medicamento milagroso para emagrecer - ao contrário do que parecem pensar as pessoas em geral, que sempre têm uma dica especial para fornecer ao amigo obeso, isso quando não se prestam simplesmente ao ridículo papel de comunicar à pessoa com sobrepeso que ela está precisando perder uns quilinhos, como se o obeso sofresse de algum tipo de retardamento mental que o impedisse de reconhecer isso ao olhar-se no espelho ou ao experimentar uma roupa que já não serve mais… 

Ofender o obeso parece ser a forma encontrada pelos não-obesos (ou não-tão-obesos) de compensar a constatação de que mesmo eles, que não têm um sobrepeso considerável, jamais chegarão ao padrão de beleza apregoado pela mídia, pelos profissionais de beleza, pela indústria da moda e pelos médicos menos éticos - um padrão de beleza que, afinal de contas, hoje reside em adolescentes cada vez mais novas, com um índice de massa corporal preocupante para qualquer profissional de saúde, e em jovens rapazes cuja agenda permite gastar horas e horas de seu dia dentro de uma academia de musculação, não raro recorrendo aos anabolizantes mais destrutivos para ganhar uma massa muscular irreal para a maioria dos seres humanos.  A grande incongruência, aliás, é que essas pessoas associam a obesidade à idéia de doença e, mesmo assim, sentem-se à vontade para discriminar um obeso em público.  Será que eles agem assim também diante de outros tipos de doentes, digamos, uma pessoa com o rosto coberto de ataduras ou alguém com uma perna engessada que mostre uma grande dificuldade de locomoção em plena praça pública?  Mantidas as devidas proporções, obviamente, o tratamento diferenciado mostra que o problema da discriminação contra os obesos é bem mais profundo e infinitamente mais difícil de ser resolvido.  Afinal de contas, as duas últimas situações relatadas são passíveis de ocorrer a qualquer um, mas a obesidade ainda é tratada como uma escolha pessoal do doente, algo de fácil solução, uma mera questão de força de vontade

Ao invés de se questionar o porquê de o obeso mais próximo ser daquela forma - o que, aliás, deveria ser um problema que preocupasse apenas ao próprio gordinho ou gordinha -, esses pretensos magros deveriam se perguntar até quando pretendem sustentar essa ilusão de que um corpo esbelto é a chave da felicidade.

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Friday, June 2, 2006

Ah, a Vida no Campo!

I think I could turn and live awhile with the animals… they are so placid and self-contained,
I sat and look at them sometimes half the day long.
They do not sweat and whine about their condition,
They do not lie awake in the dark and weep for their sins,
They do not make me sick discussing their duty to God,
Not one is dissatisfied… not one is demented with the mania of owing things,
Not one kneels to another nor to his kind that lived thousands of years ago,
Not one is respectable or industrious over the whole earth.

(Walt Whitman, Song of Myself [32])

Entendo, oh, como entento os poetas do arcadismo, aqueles que pregavam em seus versos cheirando a paganismo um retorno ao campo, à vida contemplativa, ao convívio com a natureza em sua forma mais bruta!  Neste momento particular da história do homem, em que vivemos cercados de pequenos aparelhos e dispositivos que chamo carinhosamente de coleiras eletrônicas - os telefones celulares, as inúmeras contas de e-mail na Internet, os perfis em comunidades virtuais e as secretárias eletrônicas, enfim, que nos governam a vida mesmo quando queremos ser esquecidos pelo resto do mundo, parece-me que o ideal da arcadia faria ainda mais sentido.  O problema de entregar-se à idéia idílica de uma vida no campo, para mim, sempre foram os insetos - ainda que alguns dos problemas que vivo atualmente, em minha existência neurotizada de homem da cidade, pareçam-se muito com algumas das mais incômodas dessas criaturinhas com quem me relaciono tão mal…

Como expressa tão bem o libertário poeta estadunidense Walt Whitman, a natureza dá-nos a impressão de placidez, de auto-controle de que o homem contemporâneo tanto carece.  Ambos a natureza e nós seguimos um curso de vida que não se interrompe - apesar da aparente imobilidade das paisagens mais bucólicas, tudo no mundo está em constante mudança.  Mas a diferença maior entre nós, humanos contemporâneos, e a natureza bruta é justamente o fato de que nossas mudanças parecem se dar mais por um processo de ebulição como o dos vulcões e não de lento crescimento como o da mais simples planta.  Não nos contentamos em conduzir um único processo, isoladamente: nossa vida parece estar sempre envolta em uma teia de compromissos e preocupações sobre cuja real necessidade muitas vezes sequer questionamos; mas seguimos criando novos envolvimentos, na tentativa de compensar as frustrações e perdas que os anteriores nos causam - tentamos equilibrar o desequilíbrio com mais razões para a perda de controle…

Por isso, o mito da vida bucólica é algo que persegue o homem contemporâneo e já está, em verdade, presente em nós há muito e muito tempo.  Lembremos que Maria Antonieta, a rainha francesa que entrou para a história por sua notória alienação dos problemas do povo - e também por ter perdido a cabeça, literalmente, por conta disso - distraía-se nos jardins do Palácio de Versalhes brincando de camponesa em uma pequena fazendinha que ela mandou ali construirem, em um canto isolado dos vastos prados que cercam o suntuoso palácio.  Os homens hodiernos não mudaram muito desde então: ao acumular alguma riqueza, tratamos logo de adquirir nossa pequena propriedade rural, para descansar da agitação das grandes cidades, seja nas serras ou nas praias…

A vida no campo até me apetece um pouco, nesses momentos da vida em que a loucura ao redor parece crescer em níveis insuportáveis.  Mas sou citadino demais para me adaptar aos insetos e às ausências que a tecnologia me faria, creio.  O bucolismo dos poemas me encanta, contudo, ainda que a visão cristalina das neuroses modernas que nos dá Whitman - no trecho de seu Song of Myself em que exalta a vida animal em comparação aos homens - me pareça bem mais palatável que aqueles devaneios quase infantis de que a vida no campo seria algo mais próximo de uma sonhada perfeição.  Ainda assim, sempre haverá os insetos.   

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Thursday, March 23, 2006

O Segredo do Futuro

Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo
como se estivesse por vir com toda a certeza,
nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.
(Epicuro, em sua “Carta sobre a Felicidade”,
tradução de Álvaro Lorencini e Enzo del Carratone)

 

Não há porque tentar encontrar uma resposta, tampouco há porque desistir de compreender este enigma dos enigmas na vida de todos os homens do mundo: o sentido da vida.  Por decifrá-lo, conduzimos nossa existência entre inúmeros percalços, erramos os erros mais pueris e lutamos pelas causas menos nobres, mas quase tudo o que malfazemos em nome dessa busca parece-me, ao final da jornada, ser válido e educativo, tanto o mal quanto o bem, o amor - mesmo o mais leviano - e o ódio - sempre insensato e inexplicável pela razão mais pura. 

Também sofro, erro e luto por causas passageiras nessa procura por respostas que, enfim, talvez sejam as que satisfariam a outros, mas que não me servem a mim.

Pergunto-me se não estaríamos cometendo o mesmo deslize que nos leva à incompreensão da palavra futuro.  Como tão bem expressou o filósofo grego Epicuro de Samos, cujo desterro de seus pais daquela ilha faria com que o jovem deixasse a Atenas dos filósofos mais renomados e conhecesse seu mentor Nausífanes, de quem herdaria o prazer das coisas simples, o futuro precisa ser visto com os olhos de quem nele não deposita esperanças ou temores.  O tempo futuro é, enfim, uma conseqüência natural do que vivemos no presente, este momento na linha dos acontecimentos que jamais, de fato, conseguiremos definir, volátil e instantâneo, a fugir de qualquer explanação metafísica.  Que são, então, passado, presente e futuro senão pequenas ficções que criamos na tentativa vã de mensurar nossas existências?

Epicuro, que repelia com veemência qualquer pensamento fatalista ou determinista, pregador que era da soberania da vontade humana e da liberdade individual sobre as ocorrências do mundo material.  E para o filósofo que influenciaria nomes como Sêneca e Cícero, a crença no valor da consciência moral dos homens a sobrepujar o destino é que faz com que vejamos a morte, “o mais terrível de todos os males, [como] um nada”, já que “quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos”.  Reconhecer a morte como este nada que nos amedronta e, por vezes e para alguns, fascina, é tirar de nossos ombros metafísicos o peso de males que não existem. 

Talvez nisto resida o grande mistério da existência: buscar uma aceitação da vida como a vitória sobre a morte, da qual alguns fogem “como se fosse o maior dos males” e outros “desejam como descanso dos males da vida”.  E a vida vence a morte justamente quando conseguimos conduzir nossos atos sem que as ações remetam a um momento futuro no qual nada mais existirá, onde somente as impossibilidades existam - enquanto deixamos passar por nós todo um mundo de múltiplas, infinitas possibilidades. 

E o que é o futuro senão o portal dessas possibilidades todas que ainda hemos de construir?

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Sunday, January 8, 2006

Reacionário até provar o contrário

(…)Muitas vezes fui chamado de reacionário por conta de minhas idéias, tantas delas expressas neste registro quase diário que aqui tenho feito.  Mas não me sinto uma pessoa “aferrada à autoridade constituída”, tampouco oposicionista “às idéias de liberdade, individual ou coletiva”.  Em verdade, muitas das pessoas que um dia denominaram-me reacionário defendiam escolas de pensamento e ideologias político-partidárias que, a meu ver, depunham contra as liberdades individuais e coletivas, defendendo um arraigado controle do Estado sobre a vida dos cidadãos.  Mas, enfim, sou visto como reacionário e gostaria de listar algumas de minhas idéias para coletar a opinião de meus leitores sobre se reacionário é, afinal, o melhor rótulo a mim aplicável (…) Mas diante de todas estas idéias, questiono-me o quanto de mim é reacionário - e o quão mal é pensar como penso e afirmo a quem quiser ouvir.  E não tenho medo de ser chamado de reacionário - dentro de qualquer definição que quiserem usar - se isto significar que seguirei vivendo da forma que hoje vivo, cá com os meus botões. (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Segundo a definição lançada no verbete da enciclopédia virtual Wikipedia, aquela que permite a qualquer um editar e publicar informações sobre todo e qualquer assunto (mesmo que conheça pouco ou nada sobre o que escreve), Reacionário é “aquele que se opõe às idéias políticas de liberdade, tanto individual quanto coletiva”.  Outra definição, também citada no mesmo verbete, refere-se ao dicionário Michaelis, que por sua vez define o termo como “adjetivo, pertencente ou relativo ao partido da reação ou ao seu sistema”.  O autor do verbete da Wikipedia complementou sua questionável definição dizendo que “reacionário é aquele aferrado à autoridade constituída”.

Muitas vezes fui chamado de reacionário por conta de minhas idéias, tantas delas expressas neste registro quase diário que aqui tenho feito.  Mas não me sinto uma pessoa “aferrada à autoridade constituída”, tampouco oposicionista “às idéias de liberdade, individual ou coletiva”.  Em verdade, muitas das pessoas que um dia denominaram-me reacionário defendiam escolas de pensamento e ideologias político-partidárias que, a meu ver, depunham contra as liberdades individuais e coletivas, defendendo um arraigado controle do Estado sobre a vida dos cidadãos.  Mas, enfim, sou visto como reacionário e gostaria de listar algumas de minhas idéias para coletar a opinião de meus leitores sobre se reacionário é, afinal, o melhor rótulo a mim aplicável:

¤   Creio que a igualdade de oportunidades é a única forma de igualdade desejável e possível na construção de um futuro de equilíbrio e paz social.

¤   Defendo a idéia de que minha liberdade termina onde a de meu próximo se inicia.

¤   Não concebo direitos sem deveres em contrapartida.

¤   Prego que a liberdade de culto deve ser ampla e basilar em nossa sociedade - exceto para os escroques que abusam da fé de nosso povo.

¤   Acredito que as crianças precisam e que os adolescentes querem ter limites.  E defendo que tais limites devem ser estabelecidos precipuamente pela família, não pela escola, pelo professor ou por quem quer que seja fora do círculo familiar. 

¤   Tenho a certeza de que faz parte do crescimento errar, decepcionar-se, magoar-se e, a partir da queda, erguer-se e seguir vivendo.  E não creio que os pais fazem qualquer bem aos filhos privando-os de passar por estas experiências desde cedo.

¤   Não consigo achar beleza na antecipação da liberdade sexual de crianças e adolescentes - por não conseguir fechar os olhos para o crescimento do número de adolescentes grávidas, de famílias desestruturadas por conta deste fenômeno contemporâneo e pelos reflexos desta desestabilidade familiar em nossa sociedade.  Também não consigo achar razões para a liberação do consumo de drogas - por não conseguir fechar os olhos para os efeitos deletérios que elas causam às pessoas, às relações sociais e ao equilíbrio da sociedade a partir de sua profunda vinculação com o crime e a violência.

¤   Admiro a arte que encontra beleza nas coisas simples da vida, ou que traz aos sentidos as mensagens que, por outros meios, levaríamos tempo demais para absorver.  E abomino a arte que se fecha em si mesma, alimenta-se de si própria, requer longas explicações e memoriais para ser compreendida ou serve apenas de veículo para a egolatria de poucos.

¤   Não creio que a verdade, por completo, esteja em qualquer escola do pensamento, em qualquer religião estabelecida ou nas palavras de qualquer pessoa de nosso tempo.  Vejo as verdades de cada um e procuro unir à minha verdade aquelas que a ela melhor se coadunam.  E por isso não me creio senhor de nenhuma verdade absoluta.

¤   Acredito no poder redentor do perdão e na reconstrução após o caos.

¤   Lamento pelas pessoas que magoei no passado e busco não fazer mais aos outros o que não gostei que me fizessem e o que não quero que me façam no futuro.  E ainda me perturbo, e muito, com a idéia de que eu esteja a fazer mal a alguém, seja quem for.

¤   Não vejo na violência um mal necessário, nem um meio justificável, nem um fim em si próprio.  A violência sempre foi, para mim, a ausência de razão - e por isso preferi sempre a pena à espada.

¤   Não consigo jogar lixo no chão, explorar serviçais e subalternos ou assumir como minha a coisa pública.  Consigo bem dividir em minha mente governo de Estado e patrimônio privado de bem comum.

¤   Não aplaudo o sucesso apenas por estar a dominar a mídia, tampouco a moda apenas por estar estampando os corpos da maioria das pessoas nas ruas.  Não ouço o que não gosto e não assisto ao que não quero apenas por ser o que todos estão a ouvir ou o que todos estão a ver.

¤   Quero acreditar ainda no amor sem interesse e na amizade sem atração física.  Quero acreditar sempre na eternidade da amizade e no desprendimento do amor.

¤   Ainda luto pelo que creio ser certo e admiro profundamente os que têm mais caridade no coração e desprendimento na alma para ir mais à fundo em sua ação em auxílio ao próximo do que eu.

¤   Reciclo o lixo e tenho dificuldade de compreender a posutra de quem ainda não o faz.

¤   Tenho certa ojeriza ao excesso de exercícios físicos e, no fundo, um medo (que admito ser inexplicável, ainda que seja uma crença baseada em casos observados na natureza humana) de que uma grande insistência de trabalhos musculares, em detrimento da produção intelectual,  possa transferir a irrigação sangüínea do cérebro para os bíceps, prejudicando o funcionamento do primeiro.

¤   Não concebo a vida sem humor - e sem bom humor.

¤   Não creio que a livre iniciativa seja a causa primeira da pobreza, tampouco que a pobreza seja a causa primeira da criminalidade.  As dificuldades dos que tentam empreender e dos que lutam para fugir da pobreza em países como o nosso são ambas oriundas das ausências ou sobre-exigências de um Estado incapaz de decidir, inerte para mudar, medroso demais para tomar iniciativas e preso demais aos interesses de poucos para abranger o que é melhor para todos.

¤   E sou radicalmente contra, sim, qualquer tipo de tirania, de qualquer coloração ou tendência, em qualquer lugar onde eu viva e ativamente exerça algum papel como cidadão.

Mas diante de todas estas idéias, questiono-me o quanto de mim é reacionário - e o quão mal é pensar como penso e afirmo a quem quiser ouvir.  E não tenho medo de ser chamado de reacionário - dentro de qualquer definição que quiserem usar - se isto significar que seguirei vivendo da forma que hoje vivo, cá com os meus botões.

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Sunday, January 1, 2006

Resoluções de Ano Novo

(…) Em tudo o que fazemos em nossas vidas, parece ser de extrema importância estabelecer historicamente o início, a gênese, a pedra fundamental a partir da qual tudo principia.  Creio que a celebração de ano novo reúne algo dessas duas curiosas atitudes das pessoas em geral. (…) O mais interessante das celebrações de ano novo é a determinação que alguns têm de estabelecer ali, naquele primeiro dia do ano, um marco inicial de tantas coisas que deseja há muito realizar mas que ainda, por alguma razão, não foram concretizadas.  São as famosas “resoluções de ano novo”, uma lista mental – ou mesmo escrita, já que para alguns o peso da palavra posta no papel tem um maior valor – de coisas que, no novo ano, sairão do limbo das idéias e vontades para o campo fértil das realizações.

Curioso é relembrar algumas resoluções de ano novo que ficaram registradas na vida dos povos nesses últimos séculos. (…) A história deste dia pode servir de espelho para que tomemos nossas próprias resoluções de ano novo. (…) (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

            As pessoas em geral têm certa fascinação por números redondos e isso parece ser incontestável.  Outro enlevo algo tolo dos seres humanos diz respeito aos marcos iniciais que estabelecemos para tudo, e o culto que a eles dedicamos.  Em tudo o que fazemos em nossas vidas, parece ser de extrema importância estabelecer historicamente o início, a gênese, a pedra fundamental a partir da qual tudo principia.  Creio que a celebração de ano novo reúne algo dessas duas curiosas atitudes das pessoas em geral.  Por conta da sensação de que se presencia o início de uma nova era, a cada ano espocam-se os fogos de artifício e renovam-se as esperanças – o que é algo, a meu ver, essencial para que sigamos vivendo em um mundo que é capaz de causar decepções tão amargas quanto doces são as alegrias que nele encontramos, já que é em nós que umas e outras sensações são construídas; poder renovar ano a ano as expectativas de futuro é salutar e as festividades de ano novo precisariam ser inventadas caso nosso fascínio por recomeços e pela magia dos números redondos já não tivesse feito isso por nós.

O mais interessante das celebrações de ano novo é a determinação que alguns têm de estabelecer ali, naquele primeiro dia do ano, um marco inicial de tantas coisas que deseja há muito realizar mas que ainda, por alguma razão, não foram concretizadas.  São as famosas “resoluções de ano novo”, uma lista mental – ou mesmo escrita, já que para alguns o peso da palavra posta no papel tem um maior valor – de coisas que, no novo ano, sairão do limbo das idéias e vontades para o campo fértil das realizações.

Curioso é relembrar algumas resoluções de ano novo que ficaram registradas na vida dos povos nesses últimos séculos.  Em um dia primeiro de janeiro, como este de hoje, Roma realizou a última competição entre escravos, chamados gladiadores, cuja função era a luta até a morte em uma arena para a diversão dos súditos dos césares; Maomé iniciou sua marcha para Meca, cidade que iria dominar sem derramamento de sangue; os Estados Unidos da América baniram o comércio de escravos; Mary Shelley fez publicar seu “Frankenstein”, mostrando-se mais habilidosa como escritora fantástica que os colegas homens que a desafiaram em um duelo literário; Formosa declara-se independente da China continental; a Alemanha nazista aprova uma “lei de prevenção dos nascimentos de crianças geneticamente doentes”, uma das aberrações legais geradas pelas idéias torpes de eugenia pregada por seu líder político maior, democraticamente eleito; a Declaração das Nações Unidas é assinada; o governo de Fulgencio Batista é deposto e Fidel Castro assume o poder em Cuba, iniciando uma ditadura de duração imprevisível; os Estados Unidos da América decretam a proibição da propaganda de cigarros na televisão; a Internet é criada; a Tchecoslováquia decide pacificamente dividir-se em duas repúblicas; o Exército Zapatista Nacional de Libertação inicia doze dias de sangrento conflito armado na província mexicana de Chiapas.

A história deste dia pode servir de espelho para que tomemos nossas próprias resoluções de ano novo.  Como as nações do mundo, podemos escolher pela união e cooperação pacíficas – ou mesmo pela separação sem maiores conflitos, se o entendimento é que ela trará mais progresso para ambos os lados; podemos decidir pelo fim de lutas inócuas, ou pelo estabelecimento, dentro de nós, de regras sem sentido e que só mais destruição irão causar; podemos anular de nossa mente o efeito nocivo de certas mensagens externas, que tentam criar em nós hábitos que nenhum benefício trazem às nossas vidas, ou entregarmos nosso ser aos mais desvairados vícios; podemos revogar escravidões, ou inventar novos grilhões; podemos criar novos canais de comunicação com o outro, ou optar por prejudiciais silêncios; podemos declarar independência, ou estabelecer dentro de nós novas e deletérias tiranias; podemos iniciar guerras, ou promover a paz.

Qual ocorre na história das nações, podemos aprender com os erros e acertos dos que nos antecederam, ou simplesmente escolher o caminho cômodo, mas obtuso, da ignorância eletiva, da falaciosa auto-suficiência, da impetuosidade que destrói e torna velho tudo o que poderia ser renovação e recomeço.  Como o tempo que segue sempre em frente – ao menos aos nossos olhos humanos –, deveríamos também seguir a lição do sábio de Tarso, deixando para trás o homem velho e cuidando dos passos futuros do homem novo dentro de nós.

Também sonho com um ano novo, e novo em todos os sentidos.

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Tuesday, October 25, 2005

Passatempo

Por vezes, tenho a impressão de que não há ninguém no mundo que detenha, verdadeiramente, ainda que em algum rincão escondido da alma, a resposta absoluta sobre o sentido da vida. Meus olhos de poeta extemporâneo - que ainda busca rimas e, inconscientemente, conta sílabas métricas - teimam em ver poesia nas coisas simples da vida, em acreditar que há um sentido maior em tudo o que passamos neste mundo… Mas, e se tudo o que construímos foi um mero passatempo para que se ocupasse a mente enquanto não encontramos o real motivo de nossas existências? (LEIA O TEXTO COMPLETO ABAIXO)

Por vezes, tenho a impressão de que não há ninguém no mundo que detenha, verdadeiramente, ainda que em algum rincão escondido da alma, a resposta absoluta sobre o sentido da vida. Meus olhos de poeta extemporâneo - que ainda busca rimas e, inconscientemente, conta sílabas métricas - teimam em ver poesia nas coisas simples da vida, em acreditar que há um sentido maior em tudo o que passamos neste mundo… Mas, e se tudo o que construímos foi um mero passatempo para que se ocupasse a mente enquanto não encontramos o real motivo de nossas existências? Vejo o homem realizar tanto, construir e destruir, discutir os mais diversos temas (como eu tento fazer nesses meus escritos, ainda que de forma tão empobrecida) com o ardor da paixão e a fúria dos coléricos, amar e desamar, viver e morrer por uma causa, por outras pessoas, por dinheiro e por sucesso…mas e se tudo isso for apenas um enorme, imensurável jogo de palavras?

Por via das dúvidas, creio que o melhor é ir vivendo como se tudo fosse, verdadeiramente, um passatempo - uma diversão que não merece a nossa ira, que não merece a nossa entrega total nem o nosso descaso -, um jogo que tem lá suas regras a serem seguidas. Acatá-las é permitir que a diversão prossiga; romper com as regras é ajudar a desmoronar o arranjo das coisas.

Talvez a mais importante das regras seja respeitar a vez dos outros jogadores.

Sim, há lutas valorosas e pelas quais a entrega e o vigor pelo estabelecimento de novos regramentos são também parte do jogo. A mais bela dessas lutas é a de aceitar e promover a entrada de outros jogadores a todos os recursos da partida, em igual medida e em semelhantes possibilidades de jogar. Mas luta nenhuma me parece merecer que se decrete o fim do jogo, o abandono do passatempo ou a expulsão deste ou daquele jogador que não parece compreender as regras. Há sempre o momento certo para que cada folião entenda os passos da ciranda. É aos poucos que se vai formando a roda, peça a peça vai-se montando o quebra-cabeça.

Há tempos a sorte está lançada, nós é que fingimos não perceber. O resto é silêncio - um silêncio de espera pelo próximo mover das peças no tabuleiro.

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Saturday, October 15, 2005

Que não sejam em vão

Já fui questionado - e, por vezes, a mim mesmo me pergunto - qual a valia de escrever estes registros quase diários do que vejo no cotidiano de nossas vidas sob meu pobre prisma de escritor menor, bissexto e amador, com tão pouco a dizer diante de tantas outras pessoas que sabem mais e pensam de forma tão mais translúcida que eu… Consegui consolo nessas palavras de um poeta grego chamado Konstantinos Kaváfis:

“Tenho observado com freqüência a pouca atenção que as pessoas dão às palavras.  Explico-me.  Um homem simples (com simples não quero dizer parvo, e sim não-eminente) tem uma opinião, critica uma instituição ou crença geral; sabendo que a maioria das pessoas não pensa assim, cala-se, na suposição de que não vale a pena falar, pois o que pudesse dizer não mudaria coisa alguma.  Trata-se de um erro grave.  Eu ajo de outro modo.  Por exemplo, sou contra a pena de morte.  Sempre que me aparece uma oportunidade, manifesto-me a respeito, não porque ache que, com isso, o Estado a vá abolir, mas porque estou convencido de que assim contribuo para o triunfo das minhas idéias.  Pouco me importa que ninguém concorde comigo.  O que eu disse não foi em pura perda.  Talvez alguém repita minhas palavras e elas cheguem a ouvidos que as ouçam e as perfilhem.  Quem sabe se futuramente algum daqueles que ora discordam de mim não se vai lembrar, numa ocasião propícia, daquilo que eu disse e convencer-se ou pelo menos sentir abalada sua opinião em contrário.  O mesmo vale para diversas outras questões sociais, das que exigem ação. Reconheço que sou tímido e não sei agir.  Por isso limito-me a falar.  Não acho, porém, que minhas palavras sejam em vão.  Outro agirá, mas essas palavras - de mim, o tímido, - terão facilitado a ação e limpado o terreno”.

(in Reflexões sobre Poesia e Ética, tradução de José Paulo Paes)

Kaváfis (1863-1933) nasceu e morreu em Alexandria, mas em berço grego e tendo esta língua como sua forma mais emotiva de expressão, a ponto de considerar-se grego também.  Para ganhar a vida, foi, como eu sou hoje, funcionário público - no seu caso, do Ministério da Irrigação do então Governo Egípcio, o qual estava à época sob a dominação do Império Britânico - e, como eu, cria ser a literatura seu “pendor natural”… Ele dedicava-se à função burocrática como uma forma que lhe “custava caro (…) para manter os seus pequenos luxos”, uma profissão em que, segundo ele, “gastava em pura perda horas preciosas do seu dia, às quais cumpria acrescentar as horas de desencorajamento e fadiga que se lhes seguiam”.  Posso imaginar o que era a burocracia de uma colônia britânica naqueles anos difíceis de entreguerras,  e a isso atribuo a diferença entre a desesperança que Kaváfis registrou em seus escritos e a nesga de esperança e utilidade que eu procuro manter em meu labor diário (claro que as coisas para mim são bem mais fáceis: ser burocrata com dois computadores à disposição - e um conectado à Internet - é bem mais suave que o que deve ter passado meu antecessor Kaváfis - qualquer um devia ter uma tendência à depressão sendo burocrata naqueles tempos…imagino).  Como eu, o poeta grego quase nada publicou: Kaváfis, em vida, teve editados apenas duas coletâneas pequenas, de quatorze e vinte poemas, além de textos esparsos que no futuro viriam a se tornar uma antologia e dariam a ele o prestígio literário reconhecido pelos gregos, que com ele compartilhavam o idioma e a herança helenística.

Para mim, de sua vida solitária e desencantada, fica mesmo a lição de que a palavra pode e deve servir como um meio de redenção; por isso escrevo aqui essas idéias que vou pensando e tecendo, ao ler algo em um jornal ou a passar pelas ruas de Porto Alegre, ao conversar com amigos ou a ouvir as vozes das pessoas nos lugares por onde passo - na esperança de que a forma com que percebo o mundo possa, de algum modo, colaborar para a mudança de tantas incongruências que criamos e perenizamos com o nosso silêncio tímido e nossa desesperança acomodada.  Talvez eu não tenha muito a dizer - mas, quem sabe, o pouco que digo sirva, mais além, a uma boa causa.  Que não sejam em vão minhas palavras…é o que espero. 

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