Monday, May 12, 2008

Passatempos

Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora

(O Relógio - Vinicius de Moraes)










Para a maioria de nós, que vive em função das subidas e descidas do sol em torno da terra, o tempo é algo tão natural quanto a escravidão que vivemos em torno dos ponteiros do relógio.  E não nos damos conta de que quase tudo o que fazemos nesta vida é mero passatempo.

Ainda bebês, deram-nos um chocalho - para os de minha geração - ou uma televisão colorida para a nossa distração, ou seja, um passatempo para aquela criaturinha ainda sem quaisquer interesses na vida além do naná e do leite materno.  De colo em colo fomos conduzidos até a hora do sono e sacudidos de todas as formas para que ela chegasse mais rápido.  Quando, por fim, alçamos à condição de bípedes, as atendentes de creche, as avós ou as babás assumiram a tarefa inglória de fazer-nos passar o tempo enquanto nossos pais ganhavam o pão, o leite e o achocolatado de cada dia.

E a escola?  A raiz quadrada, os afluentes da margem esquerda do Rio Amazonas, o coletivo de borboletas e a geometria molecular são conteúdos pedagógicos criados pelo homem com a clara intenção de ganhar tempo e entreter as crianças enquanto não chega a idade de emergí-las no mercado de trabalho.  Some-se a isso as aulas de inglês, balé, natação, piano e judô, as feiras de ciência e as festas do folclore, as apresentações artísticas de fim de ano e as gincanas escolares e o complô dos adultos em favor de ocupar as crianças torna-se inegável.

Para os anos em que os humanos têm a propensão hormonal à revolta, inventou-se o vestibular, vendido aos quatro cantos como a mais importante conquista de uma vida inteira - ao menos para os que estão passando o tempo no Ensino Médio.  Que haveria de melhor para conter os impulsos revolucionários da juventude que uma grande prova única e sem segunda chamada, cujo conteúdo - ao menos em tese - é todo o conhecimento escolar adquirido ao longo de onze anos de escolaridade?  A crueldade sem limites dos criadores do vestibular é incontestável, mas não há como negar sua eficácia: os que se dedicam para essa prova passam horas e horas a estudar, os que não se preparam devidamente têm o remorso e a culpa de não estarem fazendo o bastante para ajudá-los a passar o tempo.  Há os que não dão a mínima para o vestibular - mas isso não deixa de ser, também, uma forma alternativa de passatempo.

Pegação, namoro, rompimento, flerte, namoro, noivado, traição, rompimento, paquera, namoro, noivado e casamento são elos de uma corrente que vamos arrastando por força da tradição humana do crescei e multiplicai-vos sem que, necessariamente, a força motriz de tudo isso seja o amor ou outro sentimento igualmente nobre: há os que se unem por interesse, por comodidade ou por covardia - e, em todos os casos, o que se quer, em verdade, é uma boa forma de passar o tempo que resta na vida.  O dinheiro do cônjuge garante a folga para as compras e futilidades, a televisão a cabo com quinhentos canais igualmente tediosos.  A presença de um parceiro que não se ama, apenas se tolera, é a cômoda garantia de ter alguém com quem conversar durante os intervalos do programa de televisão.  E os que se juntam por covardia querem apenas dar um tempo nos preconceitos do mundo contra os solteirões incorrigíveis.

E como inventamos soluções para passar o tempo!  Videogames, máquinas caça-níqueis, cigarro, chiclete, Internet, drenagem linfática, aula de cerâmica, cervejinha com os amigos, cinema-pipoca, oficina de empostação de voz,  guerras, downloads de MP3, churrasco de fim-de-semana, chá-de-panela, bicicleta ergométrica, coffee break, palestra motivacional, apresentações em pps, revistas de fofoca!  Quando nos damos conta, o dia foi-se embora e fica em nós a sensação de que o tempo voa e nada de útil fazemos. 

Como a humanidade se pacificaria se assumisse o fato de que a grande missão do homem na face da Terra é passar o tempo!  Comecemos agora essa campanha de conscientização, já que estamos aqui perdendo - ou ganhando? - tempo nesta postagem de blog que não quer ser mais que um passatempo, uma contribuição para que a humanidade atinja seu objetivo.  Ao menos por alguns segundos, até o próximo movimento de teu mouse.

(Robertson Frizero Barros)
Posted by Frizero at 15:24:42 | Permalink | Comments (4)

Monday, November 5, 2007

Ajuda




Meiga diz: oi…tudu bem??!?!

CO diz: Em que posso ajudar?

Meiga diz: vc vem sempre por aki??!?!

CO diz: Estou sempre por aqui. Em que posso ajudar?

Meiga diz: nossa…ke legau…… i vc frequenta este siti faz mtu tempu??!?!

CO diz: Data de instalação - Ago 15 2003.

Meiga diz: faz mtu tempu…hein…gatu……………… 2003!!!!!  i u ke vc faz da vida??!?!

CO diz: Posso fazer sugestões para melhorar seu desempenho por aqui.

Meiga diz: eu to loca p melhorah meu disempenhu……………… vc me ajuda msm??!?!

CO diz: Em que posso ajudar?

Meiga diz:nossa…komu vc eh educadeenhu!!!!! faz tempu ke eu naum teclu kom 1 kara taum legau!!!!!

CO diz: Obrigado.  Em que posso ajudar?

Meiga diz: eu to ficanu kom 1 karinha mas axu ke ele tah ficanu kom otra……………… ele vai p balada sozinhu i naum ke + ke eu vah kom ele……  ele diz ke me ama……  u ke vc axa??!?!

CO diz: “Ele está ficando com outra”.  “Ele vai para a balada sozinho.”

Meiga diz:vc axa ke i p balada sozinhu eh u ke??!?!

CO diz: “Ir para a balada sozinho” = “namorar, flertar, azarar, procurar parceiros para relacionamento sexual fortuito”.

Meiga diz: eu sabia!!!!! akele filha da p……………… eu nunca acreditei nessa historia……………… u ke eh issu??!?!

CO diz: “História” = “Ciência que estudo da ação humana ao longo do tempo através concomitantemente do estudo dos processos e dos eventos ocorridos no passado”.

Meiga diz: eh issu aih!!!!! essi kara eh passadu…naum keru + sabe dele!!!!!

CO diz: Em que posso ajudar?

Meiga diz: imagina…vc jah me ajudo pacas!!!!!  olha…vlw tc kontigu…vc eh mtu gracinha…obrigadu pela ajuda!!!!!

CO diz: Obrigado. Em que posso ajudar?

Meiga diz: pena eu naum te 1 gateenhu educadeenhu feitu vc……………… qm sabe a genti naum c fala nu celulah 1 dia dessis aih…ou c kruza nesta sala……………… eu entru sempre kom u nick d meiga…i vc…CO??!?!

CO diz: CO está sempre às ordens. Em que posso ajudar?

Meiga diz: xau gatu …fui!!!!!

Meiga sai da sala.

CO diz: O Corretor Ortográfico Automático agradece e espera sua próxima visita.

Xanda entra na sala.

Xanda diz: i aih…galera!!!!! alguem afim d tc??!?!

CO diz: Em que posso ajudar?

Posted by Frizero at 18:10:47 | Permalink | Comments (5)

Monday, June 4, 2007

A vaca e o brejo

.  .
















É batata: quando o dinheiro da falcatrua é apreendido nas maletas, ou os números da lavagem de dinheiro não batem, ou a quantia que pagou a pensão da ex-amante vem à tona, a desculpa dos corruptos e corruptores brasileiros é sempre a mesma: essa dinheirama em espécie é fruto da venda de gado, por isso não está declarado no Imposto de Renda, não aparece nos extratos bancários, não é nada importante… Venda de gado, nada mais - e quem no país irá se opor ao pleno desenvolvimento de nossa pecuária?

Por isso, não é difícil imaginar o seguinte diálogo entre aquele político que facilita a aprovação de verbas no Congresso Nacional e o grande empreiteiro cujas obras do governo são seu humilde ganha-pão:

- Alô?

- Boa tarde, meu senador…

- Meu amigo, estava mesmo precisando falar contigo…

- Sou todo ouvidos, autoridade.  O que o amigo manda?

- É que estou em dificuldade, aqui… Já saiu aquele “capim gordo” que você me prometeu?

- Olha, senador, eu estou movendo mundos e fundos para conseguir…

- Beleza.  Quanto será que brota aqui na minha mão?

- Uns cem mil dá?

- Ajuda…  É que aquela vaca disse que se eu não pagar o leitinho da criança eu vou dar com os burros n’água - diz o senador, em tom de confidência. .

- Sei. - responde o empreiteiro, já acostumado com essas lamentações de bezerro desmamado.

- Se arrependimento matasse… por que fui pular a cerca, justo aqui?

- É o que sempre dizem, meu senador: onde se ganha o pão, não se come a carne…

- Mas eu não pude me controlar: uma bezerrinha daquelas, cheirando a leite…  E lá em casa, bem, aquela vaca gorda que só me dá patada…

- Sei como é: a grama é sempre mais verde do outro lado da cerca…

- Olha, o que você pediu, está quase… Só falta convencer outros quatro…

- O senhor acha que demora muito para abrir essa porteira?…

- Fique tranqüilo, são todos do meu curral eleitoral.

- Mesmo aquele touro bravo lá do Nordeste?

- Vaquinha de presépio.  O que eu disser, ele faz. 

- E o rebanho dele?

- Sem problemas.  - disse o senador, tranqüilizando o amigo empreiteiro - Estão conosco.  Aonde a vaca vai, o boi vai atrás.

- Mas tem um lá que pode empacar, aquele da oposição.

- Oposição?  No Brasil não tem isso não, amigo.

- E se ele resolver usar o chifre?

- Entre bois, não há chifradas - disse o tranqüilo senador.

- Ouvi dizer que ele estava soltando fogo pelas ventas…

- Conversa prá boi dormir, amigo!… Deixa comigo: ele tem o rabo preso…

- Ele está mamando em alguma teta por aí que eu não sei? - o empreiteiro dá uma gargalhada.

- Sei umas coisas dele e, se precisar, uso ele como boi de piranha para liberar o nosso mingau sem ninguém perceber…

- Cuidado, meu senador… Olha lá o que aconteceu com aquele outro… Perdi uma mamata federal por que ele ficou ruminando, ruminando e…

- Amigão, não vamos chorar sobre o leite derramado… - disse o senador, com a voz derretida em intimidades.

- Hum - mugiu o empreiteiro - Mas quero pedir, meu senador, que o senhor veja isso pessoalmente.  O gado só engorda sob o olhar do dono, sabe como é. 

- Beleza. Qualquer coisa, é só acenar com algum dinheirinho extra: eles vêm para o teu lado correndo, como se fosse um estouro de boiada…

- Acho melhor paramos essa conversa por aqui, meu senador.

- Tem boi na linha? - pergunta o congressista, assustadiço.

- Nunca se sabe… Vai que gravam a conversa da gente e a vaca vai pro brejo?

 

(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 12:05:37 | Permalink | Comments (6)