Friday, September 28, 2007

Longo prazo

Lula e Mangabeira Unger - nunca na história desse país houve tanto ministério

Uma votação no Senado Federal derrubou, esta semana, a intenção do governo Lula de criar mais um ministério, mal escondido sob o nome questionável de Secretaria Especial de Ações de Longo Prazo - ou algo que o valha.  Por trás do veto, que representou a extirpação de um ministro ligado ao partido do vice-presidente José Alencar. Roberto Mangabeira Unger, que teve cerimônia de posse no cargo antes mesmo da aprovação do novo ministério no Congresso Nacional, precisaria, segundo a estrutura planejada pelo governo Lula, da assombrosa quantia de oitenta e três servidores em cargos de comissão, devidamente criados na mesma leva do decreto de junho de 2007 que estabeleceu um total de seiscentos e vinte e seis novos cargos comissionados na administração pública.

O mais curioso, contudo, é que a recusa dos senadores em aprovar a criação de tal grandiosa estrutura não tem nenhuma relação com questões éticas, com um desejo sincero de enxugar a máquina pública ou de impedir o governo de estabelecer um ente no Governo Federal cuja função poderia ser muito bem exercida pelo já existente Ministério do Planejamento.  Ao que tudo indica, o veto dos senadores foi uma manobra do partido político do presidente do Senado Federal em represália pela recusa do governo Lula em conceder àquele grupo certos cargos de importância em empresas estatais como Eletrobrás, Petrobrás e outras de igual relevância.

Nossos políticos funcionam assim, à base de trocas as mais escabrosas.  Em todas as democracias do mundo o governo é construído por meio de negociações, isso é fato. Mas onde em outros países há o interesse comum, e os debates permanecem no campo das idéias, aqui o fisiologismo impera e sufoca.  Os mesmos parlamentares que vetam o novo ministério estão encaminhando a aprovação da CPMF - o imposto sobre movimentações financeiras com apelido de “contribuição provisória”.  O governo Lula, que reclama constantemente dos custos de manutenção da máquina estatal - justificativa maior para a manutenção do imposto sobre o cheque -, gerou um acréscimo mensal de  R$23.200.000,00 por ano com a criação dos tais novos seiscentos e vinte e seis cargos em comissão. 

Tudo é tão descarado que os partidos políticos não escondem suas pretensões nem mesmo quando reclamam para si posições na diretoria ou na presidência de empresas públicas.  Grandes corporações como a Petrobrás e Eletrobrás, construídas com o dinheiro do contribuinte, merecem diretores e presidentes de profundo conhecimento técnico, mas estão sendo loteadas pelos políticos com o claro interesse de obtenção de vantagens pessoais.  Que outro interesse teria um político em indicar o diretor de uma Petrobrás, ou o presidente de uma Eletronorte?  Afinal, assim funcionava o Valerioduto, que se aproveitava de verbas de publicidade das empresas estatais - as quais dificilmente são questionadas, por serem de difícil mensuração em comparação aos serviços prestados - para encher os cofres dos partidos e de seus representantes do povo. Curiosamente, um dos primeiros ministérios extras criados por Lula, ainda em seu primeiro mandato, foi uma secretaria especial cuja função era a de gerenciar as verbas federais de publicidade, a cargo de Luís Gushiken…

Em entrevista a uma emissora de televisão, Lula afirmou que a tal Secretaria Especial de Ações de Longo Prazo é essencial para o governo, pois é através dela que o presidente pretende preparar o Brasil para o bicentenário da independência em 2022.  Em um país como este, no qual ninguém consegue trabalhar com planejamentos futuros, é até plausível que sejam necessários oitenta e quatro servidores públicos pagos a peso de ouro para construir algum projeto de país que ainda funcione daqui a quinze anos.  Infelizmente, a descrença que se instala no país, em relação às instituições políticas, faz-nos crer que as ações de longo prazo às quais Lula se refere sejam outras, bem mais pragmáticas, repletas desse fisiologismo que o Partido dos Trabalhadores dizia tanto desprezar.

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Monday, September 10, 2007

Cangurus em Buenos Aires

Será este o mapa da Áustria que deram para o Bush?Há poucos dias, George W. Bush, o atual presidente dos Estados Unidos da América, confundiu Austrália com Áustria. Ele discursava no Fórum de Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico, realizado em Sidney, e falou da importante presença dos soldados austríacos no Iraque. Mas a Áustria não mandou soldados, e sim a anfitriã do evento, a Austrália.

A divertida confusão não parece ser um erro momentâneo do presidente. Lembrou-me da minha visita a Salzburgo, terra de Mozart e da família Von Trapp das telas de cinema, quando tentei a todo custo comprar uma bela camiseta da Áustria para mim e só encontrava umas estranhíssimas estampas que diziam “Não há cangurus na Áustria”. Perguntei a uma vendedora, em inglês, o porquê daquela camiseta tão óbvia e estranha, e ela respondeu-me com uma pergunta:

- Are you American?

Respondi que era brasileiro e ela, em um sorriso bem austríaco, disse que, nesse caso, eu não precisava da camiseta mesmo: era uma piada com os tantos norte-americanos que visitavam a Áustria e questionavam sobre onde poderiam ver os cangurus… Bush, pelo jeito, apenas reforçou em cadeia mundial de televisão o que é uma gafe típica de seus compatriotas.

No kangaroos in Austria Fala-se sempre, e muito, desse desconhecimento dos norte-americanos em relação aos demais países do mundo. Na década de 1980, Ronald Reagan, em visita ao Brasil, propôs um “brinde ao povo da Bolívia”. Alguns dias depois, uma distribuidora de petróleo lançava uma propaganda de revista na qual, ironicamente, “o povo da Bolívia agradecia a visita do presidente do Canadá”. Mas será que apenas os norte-americanos desconhecem os demais povos e países?

O presidente Lula já teve seu dia de Ronald Reagan ao saudar os “homens e mulheres da Bolívia” durante uma visita à Venezuela, em 2006. Mas falo de todos nós, brasileiros, e do nosso escasso conhecimento dos próprios países com os quais mantemos fronteiras, ou do continente de onde grande parte de nossa população foi tradiza à força, a África. Visitei quatro países africanos em 1993 e voltei com a convicção de que não há como ver aquele continente como um emaranhado único de pobreza e subdesenvolvimento sob o nome de África: cada país tem seus graves problemas, é bem verdade, mas ao mesmo tempo uma cultura e um povo, um modo de vida e uma verve que os fazem únicos. Mas para nós, que criticamos o desconhecimento dos países mais ricos em relação ao Brasil, a África em nossa mente segue sendo um território de clichês que dificilmente será desfeito. Confundimos Uruguai com Argentina, colocamos no mesmo balaio a Bolívia e o Peru, e exigimos que os estrangeiros saibam que o Brasil não se limita a Copacabana, Amazônia e Pelourinho.

Não sei se, em tempos de mensalão, Calheiros e ameaças de censura à imprensa, melhor não seria torcer para que nossa capital fosse mesmo Buenos Aires.

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Wednesday, August 1, 2007

Concordâncias

Lula continua preocupado demais com o próprio umbigoConcordo com o presidente Lula: todos nós temos dois ouvidos. Os dele têm distintas funções: um para ouvir aplausos, outro para as vaias. Infelizmente, o das vaias parece ser um ouvido de mercador. Prefiro a sabedoria popular, que diz termos dois ouvidos e apenas uma boca para escutar mais e falar menos. Ou aquele outro provérbio, em boca fechada, não entra mosca.

Concordo com o presidente Lula: os que mais ganharam dinheiro em sua gestão, duplicada pela decisão majoritária do voto popular, foram os banqueiros e os empresários, beneficiados pela política de juros praticada por sua equipe e pela falta de pulso o bastante para solucionar problemas que parecem eternos no Brasil, como a taxação abusiva do governo sobre o povo. Infelizmente, o que vemos por parte do governo são as manobras para tornar impostos como a CPMF - que ironicamente é sigla para Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira -, cuja função primeira era beneficiar a Saúde no Brasil, em algo permanente e já de há muito desvinculado de sua intenção primeira.

Concordo com o presidente Lula: as vaias que ele recebeu no Maracanã lotado para a abertura dos Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro, bem como as vaias que recebeu posteriormente em manifestações dos servidores públicos federais em outros estados da federação, não são vaias da camada mais pobre da população - que não trabalha no serviço público, nem tem dinheiro para comprar um ingresso para ver a festa do esporte panamericano em noite de gala. Tampouco é a vaia dos empresários e banqueiros, pois estes certamente não foram ao Maracanã. Considerar que cinqüenta mil pessoas a vaiar espontaneamente a mera menção ao nome de um governante seja uma orquestração da oposição é mesmo idéia de quem acredita mais nos institutos de pesquisa que na voz do povo que o elegeu. Chegaram a dizer que a reação era de uma minoria de simpatizantes do prefeito do Rio de Janeiro, César Maia. Mas, então, porque este foi também vaiado na cerimônia de encerramento?

Concordo com o presidente Lula: o povo, a camada mais pobre da população é que deveria estar vaiando o seu governo. Infelizmente, temo que essa parte mais sofrida de nossa gente, que não tem acesso à educação nem às condições mais básicas do que consideraríamos uma vida digna, não tenha força para mudar o modo de pensar de nosso presidente, mesmo que vaiassem, em uníssono, dos quatro cantos do país. O governante que se recusou a abrir os Jogos Panamericanos, com medo da vaia, e que fugiu do compromisso de comparecer à cerimônia de encerramento do mesmo evento, com medo da vaia, parece raciocinar da mesma forma que sua equipe de governo: fazer tudo o que for possível para não sujar a imagem, não se importando com a qualidade do trabalho apresentado, ou com o resultado das omissões e escolhas infelizes feitas em sua gestão.

Lula - apuro na imagemConcordo com o presidente Lula: estamos nos acostumando com qualquer coisa. É o país do jeitinho, do relaxa e goza, do ajeitar hoje para solucionar apenas hoje. Somos governados por um bando de Scarlet O’Haras - na hora do aperto, viramos as costas para o problema e declaramos: “Amanhã eu penso nisso”, “Amanhã será um outro dia”. A pista de Congonhas está com problemas? Façamos uma operação tapa-buraco e liberemos logo, pois o caos aéreo está pegando mal para a imagem do governo. Um acidente em Congonhas? Transfiramos os vôos para Guarulhos. A pista de Guarulhos está com os dias contados, repleta de rachaduras? Operação tapa-buraco nela. Mas, e se isso não for solução? Basta prometer a construção de um novo aeroporto em São Paulo, cidade pequena e pacata, repleta de amplos terrenos para uma obra como essa, como todos sabem. E nem precisa dizer onde será o aeroporto, com que verbas será construído, quando ficará pronto. A promessa é o suficiente quando o efeito desejado é apenas diminuir a fervura dos acontecimentos que podem macular a imagem do governo.

Mas que esperar de um governante que está mais preocupado com o próprio umbigo que com os destinos da Nação?

Infelizmente, o povo brasileiro está mais próximo ao passageiro que leva um colchonete para o aeroporto, prevendo a possibilidade de atrasos sem fim nos vôos, que àquele outro passageiro que vai ao balcão da companhia e exige satisfações. Enquanto não mudarmos nossa postura de eleitores, o melhor é reservar um colchonete macio e esperar, deitados, que o Brasil chegue a alguma solução.

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Friday, July 20, 2007

Incompleto

Jamile e o filho de um ano e oito meses não puderam viajar com Ilderley, o esposo e pai dedicado.  Havia um overbooking no vôo e o marido decidiu dar prioridade aos dois, sendo remanejado para outro vôo, de outra companhia aérea, que por ironia do destino partiu uma hora antes.  Ilderley foi na frente e ficou aguardando a chegada da família em São Paulo.

Lin, 28 anos, aguardava ansiosa sua viagem para os Estados Unidos.  Em 2006, recebera um prêmio internacional que a qualificou como uma das vinte oncologistas do mundo que mais contribuíram para a ciência e o tratamento do câncer.  Jovem, sim, mas mestre em Oncologia e doutoranda destacada.

Maria Elizabeth voltava de uma viagem de férias no sul com as netas Maria Isabel, de quatorze anos, e Júlia Elisabete, de dez.  Muitas histórias divertidas na bagagem para contar para o pessoal de São José do Rio Preto.

Mário Gomes viajava a trabalho para São Paulo. Fotógrafo talentoso, proprietário de uma renomada empresa na área de publicidade, feliz com a vida.

Rebeca e Thais, quatorze anos, amigas do colégio, viajavam pela primeira vez sozinhas.  Uma aventura.

Carmem Luisa atendia crianças carentes em uma organização governamental sediada em Porto Alegre, Álvaro tinha apenas vinte e cinco anos e já era proprietário de seu próprio curso de idiomas, Fernando e Silvia tinham acabado de comprar uma casa, Márcio Rogério visitara Porto Alegre para tratar de negócios com representantes de Ronaldinho Gaúcho, Valdemarina era vice-diretora de um instituto de pesquisa, Peter estava casado há apenas quatro meses.  Ricardo, Nelson, Nadja, Vinicius.  Bruno, três anos de idade.  Clove, Júlia.  Levi, um ano e oito meses.  Marcelo.  Mery, que tricotava com um grupo de pensionistas.  Fabíola, que se casara em dezembro de 2006.  Júlio César Redecker.

Todos eles embarcaram no vôo JJ 3054 da TAM, na terça-feira, dia 17 de julho de 2007, e infelizmente não completaram sua viagem.  Incompletos, ficaram seus sonhos, seus familiares, seus amigos, seu lugar no mundo.

Na noite de 19 de julho de 2007, o ministro Marco Aurélio Garcia é flagrado por uma câmera de televisão comemorando a notícia do Jornal Nacional, que no momento reportava a declaração da TAM de que o avião acidentado apresentava um problema em um dos reversores.  Marco Aurélio Garcia celebrou a notícia com um gesto obsceno: uma mão em copo, a outra, aberta, dando tapas sobre ela.

Talvez o símbolo obsceno diga muito de como o governo tem tratado a questão do caos aéreo que assola o Brasil desde 2006, quando de outro trágico acidente nos céus do Mato Grosso.  Para Lula e seus asseclas, o que importa mesmo é a imagem do governo e não as vidas que se perderam nessas tragédias, ou as que se perderão se eles continuarem a agir como agora - fazendo de tudo para limpar a imagem do presidente.

No peito, fica um vazio incômodo que nos diz que nada mudará, que tudo permanecerá como está - incompleto.

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Wednesday, July 18, 2007

Milhões de vítimas

Parentes das vítimas choram no saguão do Aeroporto Salgado FilhoO controle remoto facilitou nossas vidas mas também tornou mais fácil nossa alienação. No mesmo instante em que as primeiras notícias sobre o acidente envolvendo o vôo JJ 3054 da TAM Linhas Aéreas do dia 17 de julho de 2007, no qual mais de cento e oitenta perderam suas vidas, os canais de televisão exibiam música, entrega de medalhas no PAN do Rio de Janeiro, programas de auto-ajuda, televendas, novelas. Contudo, ainda que seja fácil mudar de canal para evitar o nó na garganta ao conhecer mais e mais detalhes sobre o episódio, a repercussão de tragédias como essa nunca se estancam com nossas tentativas de ignorar os fatos para não sofrer em demasia.

Somos todos vítimas. Residindo em Porto Alegre, tendo parentes aqui ou em São Paulo, sendo passageiro freqüente ou esporádico do transporte aéreo no Brasil, todos nós fomos de alguma forma afetados pelas conseqüências funestas do que, à primeira vista, parece ser mais um ato de negligência do longo carrossel de fracassos e erros ao qual se reduziu em pouco mais de dez meses o sistema aéreo brasileiro.

Uma pergunta ainda permanece no ar: quais serão as ações tomadas pelas autoridades brasileiras a partir de mais este terrível acidente aéreo?  Em 2006, uma centena e meia de pessoas perderam suas vidas em um choque de aeronaves sobre o Mato Grosso e pouco ou nada se fez desde então.  O que se viu a partir da tragédia do vôo da Gol foi uma sucessão de incidentes que mostraram o quão frágeis são nosso sistema de controle aéreo, nosso órgão regulador, nossas empresas aéreas.  Qual será a conseqüência das cento e oitenta mortes do acidente com o vôo JJ 3054 da TAM, Porto Alegre-São Paulo, funestamente terminado ao fim da pista principal do Aeroporto de Congonhas - a qual havia sido reaberta há poucos dias, sob a autorização da INFRAERO, que reafirma haver condições de uso para pousos e decolagens mesmo depois da tragédia anunciada.

Será que os nossos governantes irão esperar outras mortes, outros acidentes, outras perdas irreparáveis para, enfim, tomar atitudes concretas para solucionar o problema ao invés de se esconder por trás das desculpas ensaiadas de seus porta-vozes?

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Monday, June 11, 2007

O paradoxo das cotas

Condoleeza Rice e Daiane dos Santos - nos EUA, a mulher mais poderosa da política americana é indubitavelmente negra; no Brasil, exames genéticos classificaram Daiane dos Santos como 65% européiaUm dos recursos dramáticos mais usados no melodrama do século XIX, nos Estados Unidos da América, era a descoberta de que um dos apaixonados era octor una.  O termo significava que aquele personagem tinha uma gota de sangue negro em oito de sangue branco, ou seja, um de seus ancestrais mais próximos - um bisavô ou bisavó, materno ou paterno - era descendente de africanos.  Ser octor una era, então, um empecilho para o amor, sobretudo para a aceitação em sociedade.  Mas, se os amantes invariavelmente aceitavam, ao final dos espetáculos, que o amor é maior que a raça, e as platéias aplaudiam o triunfo do sentimento sobre a convenção social, na vida real os Estados Unidos da América ainda teriam décadas e décadas por vir até que os afro-descendentes conquistassem, por lá, os mesmos direitos civis que seus compatriotas de origem européia, não sem muita luta e sacrifício.  Até hoje, contudo, o substrato racista permanece na cultura estadunidense e, vez por outra, submerge nas relações sociais, por mais indesejável que tenha se tornado assumir em público a condição de país no qual as questões raciais quase sempre permeiam os acontecimentos da vida cotidiana.

O Brasil, país no qual as políticas públicas parecem ser construídas de maneira apressada e sem planejamento a longo prazo, importou o modelo norte-americano de cotas para ingresso nas universidades, mesmo sendo nossa realidade social bastante distinta daquela que fez tal sistema surgir nos Estados Unidos da América.  Ainda que o problema brasileiro em relação ao ingresso de candidatos no meio universitário esteja mais ligado a questões sociais que propriamente raciais - no Brasil, por razões históricas, a cor da pele esteja intimamente ligada à ascenção econômica -, há aqueles que defendem a existência de cotas nas universidades e no serviço público para afro-descendentes mesmo antes que a sociedade brasileira consiga definir qual o critério a ser usado para tal distinção.

 A questão das cotas é delicadamente perigosa.  Estabelecer um critério para separar negros e brancos é, praticamente, estabelecer parâmetros oficiais de distinção que vão contra os artigos basilares de nossa constituição, sob o risco de criar um regramento oficial para a própria discriminação que se quer combater.  O exemplo mais claro dessa situação contraditória ocorreu há poucos dias, quando a Universidade de Brasília negou a possibilidade de ingresso pela cota de afro-descendentes a Alex Teixeira da Cunha.  O descompasso entre a realidade brasileira e a fantasiosa solução oferecida pelas cotas raciais é que Alex é irmão gêmeo idêntico, univitelino, de Alan Teixeira da Cunha, que foi aprovado para concorrer a uma vaga da UnB pela mesma seleção.

O caso foi revelado à imprensa na mesma semana que uma revista de grande circulação trazia como matéria de capa uma pesquisa científica feita com a constituição genética de grandes expoentes do esporte e da cultura nacionais, negros cuja cor da pele não oferece quaisquer dúvidas sobre sua ascendência.  Os resultados mostraram que boa parte deles é, biologicamente, mais europeus que africanos - o que não é surpresa alguma em um país como o Brasil, onde a miscigenação ocorreu de forma mais ampla e menos traumática que nos Estados Unidos da América, país de onde emana a tal política de cotas.

Alex ou Alan: qual deles é negro? - para a UnB, apenas AlanO critério da UnB para a admissão de candidatos ao vestibular pelas cotas de afro-descendentes é, acreditem, visual: olha-se a fotografia do candidato, decide-se se ele é negro ou não.  O caso de Alan e Alex é uma prova de que esse parâmetro nada científico desaba à primeira análise.  Contudo, aquela universidade federal não admitiu que o sistema é falho e racista - preferiu declarar publicamente que o sistema funciona bem, que não haverá qualquer mudança de critérios e simplesmente reviu sua análise no caso Alex-Alan, aceitando o gêmeo renegado anteriormente, revisando a primeira decisão.

O tal sistema de cotas é que ele abrange outras etnias, como os indígenas brasileiros, em uma tentativa questionável de reparar os erros do passado.  Curiosamente, o critério para admissão de indígenas candidatos a uma vaga pelas cotas é bem mais exigente: o futuro universitário precisa apresentar um documento da Fundação Nacional do Índio - FUNAI - que comprove sua origem.  Nesse caso, o critério “visual” da UnB não serve - talvez por medo da universidade de ter que admitir metade da população da Região Norte do país em seus bancos escolares…

O problema do ingresso de afro-descendentes, indígenas e outras minorias étnicas nas universidades brasileiras tem origens outras, que estão distantes da questão racial - aliás, o conceito de raças diferenciadas entre os homens é algo tão descabido cientificamente que nossos legisladores deveriam se envergonhar por ainda divulgá-lo.  No Brasil, tudo isso está imbricado com questões sociais, reflexo de um país que libertou os escravos sem ter como absorvê-los no mercado de trabalho, e que oprimiu os indígenas a quinhões cada vez menores de dignidade.  Mas o melhor caminho para solucionar as diferenças ainda é o desenvolvimento de políticas educacionais maciças na educação básica e no ensino médio, que transformem a ascenção às vagas universitárias um caminho possível para os que se formam pelas vias da educação pública.  Um planejamento sério, a longo prazo, com compromissos assumidos por grupos de trabalho pan-partidários, que buscasse repensar a educação no Brasil além das vantagens eleitoreiras imediatas seria uma solução possível, honesta e anti-racista para a questão das minorias étnicas no Brasil.  As cotas somente perpetuam o problema, pois elevam ao ensino universitário candidatos que talvez não estejam preparados para os estudos superiores - não que o vestibular seja uma garantia disso - e cujo eventual insucesso nos bancos escolares universitários podem ainda arrefecer sentimentos revanchistas que praticamente inexistem em nosso arcabouço cultural.

Os candidatos às tais cotas de minorias, cujos critérios são tão racistas quanto o preconceito que dizem combater, também prefeririam poder ingressar na universidade sem que houvesse sobre suas cabeças a dúvida cruel de que eles só ascenderam àquela vaga por conta de uma reserva baseada na cor da pele de seus antepassados.  Expandir o sistema de cotas, um modelo estadunidense fortemente calcado no racismo perceptível, explícito daquela sociedade competitiva, é retornar à idéia bizarra e tão norte-americana dos octor una - nesse caso, criando uma categoria de brasileiros que precisaria do amparo governamental para vencer uma limitação que a política torta sugere ser de cunho étnico, racial, biológico, quando tudo o que precisamos é reforçar ações na sociedade brasileira que fortaleçam a plena igualdade entre os homens. 

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Monday, June 4, 2007

A vaca e o brejo

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É batata: quando o dinheiro da falcatrua é apreendido nas maletas, ou os números da lavagem de dinheiro não batem, ou a quantia que pagou a pensão da ex-amante vem à tona, a desculpa dos corruptos e corruptores brasileiros é sempre a mesma: essa dinheirama em espécie é fruto da venda de gado, por isso não está declarado no Imposto de Renda, não aparece nos extratos bancários, não é nada importante… Venda de gado, nada mais - e quem no país irá se opor ao pleno desenvolvimento de nossa pecuária?

Por isso, não é difícil imaginar o seguinte diálogo entre aquele político que facilita a aprovação de verbas no Congresso Nacional e o grande empreiteiro cujas obras do governo são seu humilde ganha-pão:

- Alô?

- Boa tarde, meu senador…

- Meu amigo, estava mesmo precisando falar contigo…

- Sou todo ouvidos, autoridade.  O que o amigo manda?

- É que estou em dificuldade, aqui… Já saiu aquele “capim gordo” que você me prometeu?

- Olha, senador, eu estou movendo mundos e fundos para conseguir…

- Beleza.  Quanto será que brota aqui na minha mão?

- Uns cem mil dá?

- Ajuda…  É que aquela vaca disse que se eu não pagar o leitinho da criança eu vou dar com os burros n’água - diz o senador, em tom de confidência. .

- Sei. - responde o empreiteiro, já acostumado com essas lamentações de bezerro desmamado.

- Se arrependimento matasse… por que fui pular a cerca, justo aqui?

- É o que sempre dizem, meu senador: onde se ganha o pão, não se come a carne…

- Mas eu não pude me controlar: uma bezerrinha daquelas, cheirando a leite…  E lá em casa, bem, aquela vaca gorda que só me dá patada…

- Sei como é: a grama é sempre mais verde do outro lado da cerca…

- Olha, o que você pediu, está quase… Só falta convencer outros quatro…

- O senhor acha que demora muito para abrir essa porteira?…

- Fique tranqüilo, são todos do meu curral eleitoral.

- Mesmo aquele touro bravo lá do Nordeste?

- Vaquinha de presépio.  O que eu disser, ele faz. 

- E o rebanho dele?

- Sem problemas.  - disse o senador, tranqüilizando o amigo empreiteiro - Estão conosco.  Aonde a vaca vai, o boi vai atrás.

- Mas tem um lá que pode empacar, aquele da oposição.

- Oposição?  No Brasil não tem isso não, amigo.

- E se ele resolver usar o chifre?

- Entre bois, não há chifradas - disse o tranqüilo senador.

- Ouvi dizer que ele estava soltando fogo pelas ventas…

- Conversa prá boi dormir, amigo!… Deixa comigo: ele tem o rabo preso…

- Ele está mamando em alguma teta por aí que eu não sei? - o empreiteiro dá uma gargalhada.

- Sei umas coisas dele e, se precisar, uso ele como boi de piranha para liberar o nosso mingau sem ninguém perceber…

- Cuidado, meu senador… Olha lá o que aconteceu com aquele outro… Perdi uma mamata federal por que ele ficou ruminando, ruminando e…

- Amigão, não vamos chorar sobre o leite derramado… - disse o senador, com a voz derretida em intimidades.

- Hum - mugiu o empreiteiro - Mas quero pedir, meu senador, que o senhor veja isso pessoalmente.  O gado só engorda sob o olhar do dono, sabe como é. 

- Beleza. Qualquer coisa, é só acenar com algum dinheirinho extra: eles vêm para o teu lado correndo, como se fosse um estouro de boiada…

- Acho melhor paramos essa conversa por aqui, meu senador.

- Tem boi na linha? - pergunta o congressista, assustadiço.

- Nunca se sabe… Vai que gravam a conversa da gente e a vaca vai pro brejo?

 

(Robertson Frizero Barros)

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Friday, June 1, 2007

Um país de amadores

Assim o mundo nos vê: colorido, carnaval, beleza - mas sem qualquer profundidadeJá ouvi, de alguns estrangeiros que conheci no Brasil, elogios sobre o país que, não raro, passam por uma certa maleabilidade que os brasileiros têm de resolver as situações sem maiores complicações. O mítico jeitinho brasileiro, no entanto, transformou-nos no que um querido professor de mestrado chamou, há alguns dias, de um país de amadores.

Não questiono o fato de que outros países deveriam ter um pouco mais de “jeitinho” para resolver suas questiúnculas do dia-a-dia: lembro-me sempre de um evento corriqueiro que aconteceu quando eu chegava a Estocolmo de trem, depois de uma gélida viagem no último mês do verão europeu; um casal de suecos que ocupava o banco do outro lado do corredor, felizes com o vinho que tomavam e com o trajeto que chegava ao fim, animou-se demais e o rapaz acabou por derrubar um pouco de vinho em minha jaqueta impermeável; para mim, não havia sido nada, pois limpei rapidamente a mancha com um lenço que umedeci em minha garrafa de água mineral; o rapaz, contudo, ficou totalmente nervoso e constrangido, e por mais que eu dissesse que tudo estava bem, ele seguia dizendo mil perdões - em inglês e em sueco! - e por fim me pediu para que eu não levasse o caso às autoridades! Certamente os suecos precisavam de um pouco do “jeitinho” brasileiro para solucionar coisas pequenas como esta.

Mas o jeitinho fez do Brasil um país de amadores. Não temos planos para quase nada, não conseguimos criar políticas para além de um mandato político, não sabemos seguir as normas sem adaptá-las às nossas idiossincrasias. Leis, temos de sobra - mas como resistir à tentação de contorná-la pela interferência do amigo de nosso amigo, da cervejinha inocente oferecida ao guarda? O jeitinho faz com que os ricos não sejam presos, e se presos, não fiquem lá por muito tempo, e se ficarem por muito tempo, que sejam libertados por bom comportamento, e se tiverem mal comportamento, que escapem na primeira oportunidade de progressão da pena. Também os presos sem recursos aproveitam-se dos mesmos expedientes, mas sem a mesma liberdade de ir-e-vir pelos meandros legais. O jeitinho faz com que tudo no Brasil seja feito no improviso - do restaurante que todas as noites escora aquela mesa bamba com um guardanapo de papel dobrado ao discurso da autoridade máxima que abandona as palavras repensadas no papel para engendrar uma qualquer coisa inventada na hora, com resultados desastrosos. Boa parte dos músicos que aqui fazem sucesso não conhecem os estudos musicais, há gente de sobra a se lançar no mercado editorial que talvez não tenha lido mais que dez livros na vida, temos dezenas de atores que não sabem o que é um curso de interpretação de verdade.  Improvisa-se, e vamos adiante com essa qualquer coisa que nos apresentam, e ainda aplaudimos de pé. No Brasil, até a corrupção é improvisada: os ministros recebem maletas com dinheiro vivo no próprio gabinete, os donos de empreiteira roubam dinheiro de obras que sequer concluíram, os presidentes do Senado pedem a lobistas que paguem a pensão improvisada à ex-amante em dinheiro vivo e não contabilizado por suas contas bancárias e declarações de renda.

Irá mudar isso um dia?  Tenho cá minhas dúvidas.  Já acreditei que sim, até que a Justiça Eleitoral convidou-me para ser mesário nas últimas duas eleições - o que, aliás, fiz de bom grado e com a melhor das intenções de cidadania.  Mas a desilusão é inevitável quando você presencia situações como a do eleitor que chega para você, mesário, na hora de digitar os números na moderníssima urna eletrônica, e grita para você da cabine perguntando em quem deve votar; ou a da eleitora que faz um “uni-duni-tê” básico sobre a lista de candidatos a deputado federal para escolher seu candidato; ou a do eleitor que recolhe uns santinhos jogados no chão do lado de fora da seção eleitoral e decide votar naqueles candidatos para governarem seu destino pelos próximos quatro anos.  Quando se trata de maneira tão leviana o futuro político do país em que se vive, que esperar do resto?  O Brasil é um país de amadores. 

Somos o reino do improviso, e atrevo-me a dizer que o jeitinho nasceu conosco: por décadas e décadas fomos ensinados que Pedro Álvares Cabral chegou aqui sem querer, que D. Pedro I declarou nossa independência de modo impulsivo às margens de um riachinho, que a Princesa Isabel libertou os escravos aproveitando que o pai imperador viajava pela Europa… Decerto todos esses são erros que a História está a consertar nos últimos anos - mas como funciona a cabeça de uma nação que cresceu acreditando que a história de um povo é construída apenas por força do acaso?

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Monday, May 14, 2007

Bento

Fiés aguardam o papa Bento XVI em frente ao Mosteiro de São Bento, em São Paulo

Depois de uma viagem de cinco dias ao Brasil, primeiro país latino-americano visitado por ele em seu pontificiado, o papa Bento XVI regressou a Roma em 13 de maio de 2007. Sua passagem pelo país relegou-nos o primeiro santo brasileiro, Santo Antônio de Sant’anna Galvão - que, rompendo a tradição da Igreja, foi canonizado fora do Vaticano, em cerimônia realizada em missa campal na cidade de São Paulo. Mais que isso, a visita papal gerou um sem-número de debates e pequenas controvérsias multilicados e alimentados por nossa imprensa.

Como ex-católico, considero-me algo alheio a tais debates, por considerar que eles devem ser de interesse para os seguidores da Igreja, e mais para estes que para o público em geral. Contudo, o que se viu na visita de Bento XVI ao Brasil foi a prática exacerbada de uma das mais cultivadas atividades dos brasileiros - o achismo.

Poucos minutos depois de o papa Bento XVI descer do avião da Alitalia que o trouxe de Roma, todos os brasileiros, como por milagre, passaram a ser teólogos honorários: todos passaram a ter uma opinião formada sobre os rumos da Igreja Católica, sobre o conservadorismo de Joseph Ratzinger e sobre a história das religiões. Não raro, apelou-se para o passado da Igreja, condenando-a pelo massacre dos índios brasileiros, pela escravidão, pelos males da sociedade, por não aplicar o dinheiro gasto na visita papal no socorro dos miseráveis brasileiros… Criticou-se a postura do papa em relação ao pleno exercício da sexualidade, ao envolvimento de sacerdotes católicos em atividades religiosas, à defesa de dogmas católicos como o sacerdócio exclusivo para os homens e a liturgia tradicional. Tudo isso por muitos comentaristas e opinadores que pouca ou nenhuma relação têm com a religião católica ou seus seguidores.

Questiono-me o que era esperado por essa gente do líder máximo de uma religião. Instituições como a Igreja Católica são construídas sobre um corpo doutrinário definido, estabelecido ao longo de séculos de história e milhares de páginas de estudo de seus doutores da lei. Como tal, devem defender seus princípios, sob o risco de sucumbir se tal alicerce é profundamente afetado. Não vejo porque esperar de um papa uma postura distinta àquela de Bento XVI, um conhecido defensor da tradição. E não vejo mal nisso. Certamente que gostaria de ver uma igreja que aceitasse a homossexualidade como uma possibilidade, por exemplo, ao menos que acolhesse seus fiéis que seguem tal orientação sexual sem preconceito ou reprimenda; faria parte, com gosto, de uma comunidade que não visse o divórcio como um mal absoluto; adoraria estar em um grupo religioso que entendesse os métodos contraceptivos como uma possibilidade contemporânea não só para evitar males maiores, como o aborto e o crescimento desordenado da população; mas por isso, e por tantas outras razões, optei há tempos não ser católico. E minha opção não me dá o direito de criticar os que se sentem bem no seio da religião católica - onde, aliás, fui criado e recebi minhas primeiras noções de religiosidade, no que sou eternamente grato aos sacerdotes que me deixaram tal legado.

E estava errado Bento XVI? Que palavras suas podem ser condenadas? Certamente que sua defesa da castidade não estaria entre elas, mas é importante compreender o que prega o papa, que defende a castidade “dentro e fora do casamento” - em um tempo no qual a liberdade sexual é facilmente confundida com libertinagem e descontrole, em que jovens cada vez mais novos entregam-se à vida sexual como se estivessem em uma competição por quantidade e não por qualidade, sua defesa de uma postura mais casta diante do exercício da sexualidade não me parece em nada radical. Não será mais fácil compreender “castidade”, neste caso, como responsabilidade e menos como “abstinência total”, como vi certo jornalista dizer, com um meio sorriso nos lábios?

Que condenação podemos fazer às palavras de Bento XVI sobre o fracasso do capitalismo e do comunismo na solução dos problemas humanos? As viúvas ideológicas de Lênin e Fidel Castro devem sentir formigamentos diante dessas palavras tão francas de Ratzinger, assim como devem se incomodar os donos do capital no mundo. Mas está ele errado? Socialistas e liberais, cada um com suas convicções, são apenas dois lados da mesma moeda: a busca do poder sem se importar com os meios para atingir tal fim. Que o digam George W. Bush e Hugo Chávez, Fidel Castro e Le Pen.

Contrários à visita papal usaram as falácias de sempre. Uns insistiam nos gastos da recepção do papa no Brasil, dizendo que tal dinheiro seria melhor aplicado nos programas sociais do governo. Outros encheram-se de uma autoridade teológica que não detém para falar das idéias e posições que Ratzinger deveria ter, e não tem. Queixaram-se até mesmo da breve crítica que Bento XVI fez às “seitas” que praticam um “proselitismo” violento. Curiosamente, os mesmos críticos não vêem mal nos gastos do governo, por exemplo, na recepção da equipe de futebol que porventura ganhe uma competição internacional, ou na compra de um avião moderníssimo para uso exclusivo do Presidente da República; nada falam dos absurdos das seitas, sim, seitas neopentecostais que invadem os canais de televisão aberta para fazer um proselitismo absurdo que beira as raias do charlatanismo; não se pronunciam sobre as posturas igualmente dogmáticas de outros líderes religiosos em visita ao país - ou será que crêem ser o Dalai Lama a favor do aborto, da liberdade sexual inconseqüente ou da descriminalização das drogas?

De minha parte, sigo em minha postura de ex-católico que se abstém de comentar as escolhas de uma religião que não mais professa. Com todas as idéias tidas como conservadoras pelos não-católicos - ou deveria dizer, anti-católicos? -, preferia viver em um mundo no qual os valores cristãos falassem mais alto que a pseudo-liberdade pregada nas últimas décadas e que tantos males nos têm causado.  Oxalá a visita de Bento XVI tenha feito o país, ao menos por quinze dias, repensar alguns desses falsos valores.

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Wednesday, May 2, 2007

Os jornalistas e os canalhas

Arnaldo Jabor

Todos sabemos que os nosso queridos deputados têm direito de receber de volta o dinheiro gasto com gasolina, seja indo para seus redutos eleitorais ou indo para o hotel com suas amantes ou seus amantes. A Câmara, ou melhor, você e eu, pagamos o custo, desde que eles levem notas fiscais para comprovar os gastos da gasosa. Será que o senhor Arlindo Chinaglia não vê isso ou só continua pensando no bem do PT? Quando é que vão prender esses canalhas? Ah, esqueci, eles têm imunidade, têm foro privilegiado, é isso aí amigos otários, otários como eu.

Arnaldo Jabor, em comentário à rádio CBN

A Câmara dos Deputados, na figura de seu presidente Arlindo Chinaglia (PT), deu início a um processo judicial contra Arnaldo Jabor, comentarista do Sistema Globo de Rádio e Televisão, por conta de comentários feitos pelo cineasta a respeito da imunidade parlamentar.  Segundo nota oficial daquela casa parlamentar, a medida partiu do uso do termo canalhas por Jabor para referir-se a parlamentares.

Curiosamente, os comentários de Arnaldo Jabor que deram origem à sua indignação - que o levou a usar a palavra pouco elogiosa em referência aos deputados - não se referiam aos parlamentares em geral, mas àqueles que estariam se locupletando das verbas destinadas aos gastos com combustíveis liberados para os deputados e senadores como forma de aumento indireto de salário.  Dados recentemente divulgados na imprensa dão conta que o valor gasto nos primeiros meses da atual legislatura com tal regalia seriam suficientes para financiar o combustível necessário para quarenta e quatro voltas em torno do globo terrestre.  Até onde se sabe, não há qualquer fiscalização sobre essa benesse, sendo o parlamentar obrigado, apenas, a apresentar notas fiscais dos gastos com combustível; tampouco se ouviu falar de qualquer medida do presidente do Congresso Nacional para coibir tal prática escandalosa.  Mas nada disso é importante quando um jornalista se dispõe a chamar de canalhas os senhores deputados.

Neste nosso país às avessas - cada vez mais nos aproximamos do que criava a imaginação da Idade Moderna, em que alguns criam que no hemisfério sul as pessoas andavam de cabeça para baixo… -, há até mesmo jornalistas que aplaudem e consideram acertada a medida do Congresso Nacional contra Arnaldo Jabor.  Para eles, “o que está em jogo, no caso do processo contra Jabor, não é o mérito de suas críticas ao mais do que reprovável comportamento dos deputados, a lambança que eles fazem com o meu, o seu, o nosso dinheiro. É a brutalidade mainardiana, ou reinaldo-azevediana, do protesto”.  As palavras são de Luiz Weis, um jornalista de vasta experiência profissional mas simpático ao atual governo, em artigo publicado no Observatório da Imprensa e reproduzido, curiosamente, no site do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).  Weis considera que chamar de canalhas os deputados que estão a ganhar milhares de reais com recibos fraudados de gastos com combustível - ou mesmo com comprovações verídicas de gastos que não foram feitos efetivamente em serviço - é uma “transgressão dos padrões elementares de civilidade”.

Reinaldo Azevedo Não por acaso, ele usa como adjetivação da atitude de Jabor as referências a dois outros jornalistas cujas críticas têm incomodado o governo petista desde o início de seu primeiro mandato - Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo.  Este último foi quase calado por um estratagema simples e sobre o qual não podem ser levantadas acusações contra o governo - sua revista Primeira Leitura teve que ser encerrada simplesmente porque, em um mesmo mês, toda a publicidade oriunda de bancos e instituições ligadas ao governo federal foi retirada sem prévio aviso.  Mainardi, por sua vez, respondeua processo por calúnia solicitado por Franklin Martins, hoje Ministro da Comunicação, ontem jornalista do jornal Hora do Povo - do MR-8;  além disso, recebeu uma ameaça de morte nada velada nas páginas desse mesmo jornal, conforme relatado no blog do Reinaldo Azevedo em 02 de maio de 2007.  Para Weis, o jeito Mainardi ou Reinaldo Azevedo de criticar o governo Lula é pouco civilizado - ainda que o mesmo Weis refira-se, em outros artigos, ao jornal Valor Econômico dizendo que “faz tempo que o jornal baba ovo diante de qualquer coisa que FHC diga”, termos não muito civilizados, a bem da verdade. 

Talvez a questão toda da ética e da civilidade no jornalismo brasileiro resida, enfim, nos alvos e não nos “atiradores”.  Não me recordo do Partido dos Trabalhadores em seus longos tempos de oposição como um partido muito preocupado com medir palavras.  Contudo, dentro da enorme culpa que trespassa o imaginário político e social brasileiro em relação aos desmandos dos anos de ditadura militar, o que vêm das esquerdas é perdoável e sempre feito dentro de um “bem comum”, em nome de uma “causa” cujos efeitos só podem ser benéficos.  Por isso a lei de imprensa que o governo Lula tentou implementar ao final de seu primeiro mandato foi defendida pelos mesmos políticos que lutaram contra a censura nos anos de governo militar.  Pela mesma razão é que os ativistas políticos que gritavam no Brasil por uma imprensa livre aplaudem a ameaça de Hugo Chávez de abandonar a Organização dos Estados Americanos caso sua atitude de fechamento da maior rede de televisão da Venezuela - cuja postura de oposição ao governo incomoda o caudilho venezuelano - siga sendo criticada nas reuniões daquela organização.  Em nome disso, relevam-se o mensalão, as denúncias de superfaturamento nas obras da Infraero, as provas do envolvimento do filho do presidente em tráfico de influências no setor de telecomunicações e até mesmo a farra dos gastos de combustível dos parlamentares sob o comando do presidente petista da Câmara dos Deputados. 

Será que é porque no Brasil ser canalha é ser contra a esquerda - seja lá o que ela pregue ou faça?

Posted by Frizero at 14:19:59 | Permalink | Comments (6)