Wednesday, June 4, 2008

E Teresa sambou…

alt : http://www.youtube.com/v/3daavB5Vxbw&hl=en

 

O dia mostrou-se dos mais ingratos para um espetáculo como aquele: noite de terça-feira fria e úmida como costumava ser os outonos porto-alegrenses de antigamente. O teatro escolhido, talvez o melhor da cidade, tem a desvantagem de ser distante do Centro e de difícil acesso por transporte coletivo. E o resultado foi visto na platéia: o Teatro do SESI não alcançou sequer a lotação total da platéia baixa. Mas nada disso tem relação alguma com o que se viu no palco.

Teresa Salgueiro, a voz dos Madredeus por mais de vinte anos, trouxe ao Brasil novamente este que é o seu primeiro espetáculo solo, Você e Eu. O projeto nasceu durante a última turnê dos Madredeus no país, quando Teresa travou os primeiros contatos com o maestro João Cristal. Ainda como vocalista do grupo, o álbum foi gravado no Brasil em três viagens de Teresa Salgueiro a São Paulo - em janeiro, maio e outubro de 2006 -, com produção de Pedro Ayres Magalhães, fundador do Madredeus e um dos descobridores da cantora quando ela tinha apenas dezessete anos.

Vinte e dois anos depois, a Teresa Salgueiro que se apresentou na noite de 3 de junho de 2008 no palco do Teatro do SESI, em Porto Alegre, é não mais a voz do Madredeus - ainda que tal imagem jamais será de todo apagada -, mas uma voz portuguesa a firmar-se como uma das maiores cantoras do cenário internacional. Não por acaso Você e Eu é um álbum bem sucedido dentro de sua proposta - música brasileira com um delicioso acento jazzístico - e seus espetáculos têm lotado casas de espetáculo mesmo nos países em que não se fala o português. Sua apresentação para uma platéia pouco expressiva diante do tamanho do teatro, com capacidade para quase mil e quinhentas pessoas, não foi menor em entusiasmo ou qualidade: Teresa desfilou todo o repertório do projeto seguinto quase à risca o alinhamento do álbum. Sua voz singular, sempre afinada, imprimiu emoções novas - de arrepiar - em temas mais tristes como Risque (Ary Barroso) e Insensatez (Vicinius de Moraes e Antônio Carlos Jobim). Mas não se pode negar seu talento em escolher os músicos que a conduzem nessa viagem às canções brasileiras dos anos 1930 a 1970: o Septeto João Cristal, graças ao talento de seu maestro e dos arranjos compostos especialmente para esse álbum, mostrou sua qualidade musical não apenas acompanhando Teresa, mas também em números instrumentais generosamente inseridos no espetáculo pela cantora. Um deles, uma longa jam session sobre o tema de Corcovado (Tom Jobim), arrancou aplausos entusiasmados da platéia.

Mas o palco era de Teresa Salgueiro. Sua presença, que já impressionava quando à frente dos Madredeus, ganhou mais graça e leveza em um repertório que parece calar fundo ao coração da intérprete. Criticada por alguns fãs do grupo português quando lançou esse Você e Eu, Teresa sentiu-se na obrigação de explicar em cena as razões afetivas que a levaram a escolher aquelas canções brasileiríssimas para seu primeiro álbum solo. Não precisava - ouví-la entoar Valsinha (Vinicius de Moraes e Chico Buarque) ou Estrada de Sol (Dolores Duran e Tom Jobim), vê-la ensaiar passos de samba na arrebatadora interpretação de Você e Eu (Vinicius de Moraes e Carlos Lyra) - canção, aliás, que ela cantou em público pela primeira vez nos palcos brasileiros durante a turnê de 1995 dos Madredeus - era prova suficiente de que estávamos a ver uma cantora feliz consigo mesma.

No bis, para uma platéia que a aplaudia de pé, Teresa Salgueiro apresentou as “jóias da coroa” - as belíssimas Modinha (Vinicius de Moraes e Tom Jobim), talvez sua mais tocante interpretação da noite, e Se todos fossem iguais a você (Vinicius de Moraes e Tom Jobim), canção cuja letra certamente ecoava os sentimentos daqueles poucos portoalegrenses que presenciaram um espetáculo digno de encher qualquer teatro. Pérolas aos poucos. Sorte dos que enfrentamos o frio e o cansaço de um dia de trabalho para ouvir uma das melhores vozes femininas portuguesas da atualidade.


 

Robertson Frizero Barros

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Wednesday, March 19, 2008

Me, Myself & I

Escrever sobre si mesmo não é um problema - quando se é um Montaigne...Sei que deve ser difícil manter uma coluna semanal em um jornal de grande circulação, sobretudo quando o material é algo tão pouco positivista quanto a literatura.  Mas os cronistas brasileiros - com suas boas, mas raras, exceções - parecem ter embarcado em uma triste egotrip sem volta na qual suas crônicas exercem o papel de diário de bordo.

Aqui no Rio Grande do Sul, estado que ainda se ressente de não ter jornais diários com o peso jornalístico das grandes metrópoles mundiais, um grupo pequeno de cronistas mantém-se no domínio dos espaços de publicação desse tipo de texto que é tão brasileiro, tão nosso, e que desde os áureos tempos de João do Rio e Stanislau Ponte Preta serviu-nos como registro paralelo dos acontecimentos do cotidiano, uma espécie de termômetro bem-humorado do zeitgeist tupiniquim.  Infelizmente, esses cronistas parecem não conseguir mais se desconectar de sua própria realidade.  Seus textos são quase invariavelmente narrativas desinteressantes de seus problemas existenciais ou das pequenas agruras pelas quais passam entre o quarto de dormir e a cadeira da redação do jornal. 

Há poucos dias, uma das mais famosas cronistas do estado contava no jornal de domingo sobre suas dificuldades cotidianas causadas por sua mente esquecida das coisas… Outro, ainda menos inspirado, falou de como se sentiu incomodado em um engarrafamento em Porto Alegre. Tudo sem diferenças de olhar para o que qualquer um escreveria se convocado a expor sua vida em um jornal. Decerto a experiência de um ser humano pode ser de interesse universal - e o termo crônica surgiu para se referir aos relatos de viajantes europeus mundo afora, ou fora do mundo que eles conheciam e imaginavam terminar em um abismo alí nas águas do Atlântico.  Mas mesmo esses relatos pessoais eram de importância crucial para um mundo ocidental que descobria não ser o único cadinho de vida no planeta.  O esquecimento da autora - que ela levianamente chamou de Alzheimer, uma doença muito mais terrível que sua mera desatenção das coisas ao redor - não se encaixava nisso, era apenas um olhar para o próprio umbigo.  E uma mirada boba, sem nenhuma grande sacada criativa. Nem todos são Montaigne e conseguem fazer de suas percepções cotidianas algo de real valor universal.

Resta a saudade dos tempos em que o cronista era, antes de tudo, um literato, um escritor que direcionava seus esforços criativos para o cotidiano ao invés de escrever sobre atemporalidades.  E era justamente isso que o tornava atemporal.  Os cronistas da atualidade - e há exceções louváveis, por sorte, mas que ainda estão distantes de nossos jornais - parecem espelhar, no fundo, os nossos tempos cada vez mais hedonistas e ególatras.  Mas não custa nada torcer para que eles erguessem um pouco a cabeça e olhassem para o mundo ao redor.  Talvez isso fizesse com que eles descobrissem que há coisas mais interessantes para os leitores que a vida exposta do cronista em praça pública. 

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Thursday, December 20, 2007

O caçador de acertos

Cena do filme 'O Caçador de Pipas'Há uma maneira de ser bom novamente. O leitmotif do bem-sucedido romance de estréia de Khaled Hosseini, O Caçador de Pipas (2003), bem poderia resumir os caminhos escolhidos pelos produtores de sua adaptação cinematográfica, que estréia nesses dias que antecedem o Natal nos cinemas dos Estados Unidos. 

O livro, que vendeu mais de oito milhões de cópias em todo o mundo, conta de maneira magistral a história de dois meninos no Afeganistão pré-invasão russa e de como um erro cometido por um deles refletirá por toda a sua vida adulta. Amir, que ainda adolescente imigrará para os Estados Unidos com o pai, fugindo da repressão instalada em seu país em 1979, é filho de uma abastada família Pashtun, sunitas que governavam o Afeganistão antes do regime Talibã.  Seu melhor amigo, filho de um serviçal de seu pai, é Hassan, um Hazara - povo xiita de origem mongol, subjugados na estrutura social afegã.  Uma traição de Amir encherá sua vida do remorso que o fará retornar ao Afeganistão, já adulto, durante o regime Talibã, na esperança de refazer os erros cometidos no passado.  A adaptação cinematográfica respeita o caráter sobejamente humanista do livro e, como Amir, reveste-se de cuidados para não repetir os erros de produções hollywoodianas anteriores, que tratam o estrangeiro com o olhar simplista e esteriotipado que tanto desagrada os povos neles retratados.

O diretor de The Kite Runner, o suíço Marc Forster, já demonstrou seu talento em produções inteligentes como De Volta à Terra do Nunca e Mais Estranho que a Ficção.  Para a aguardada versão cinematográfica de O Caçador de Pipas, ele recusou as pressões dos diretores da Paramount que pretendia transformar o filme em um grande blockbuster: escalou o escocês de origem egípcia Khalid Abdalla para viver o Amir adulto, um papel que o estúdio queria entregar para nomes famosos como Tom Cruise ou Ben Afflect; para os papéis infantis, encontrou nas escolas secundárias afegãs os dois meninos, que efetivamente pertencem às etnias das personagens e agora encantam os críticos norte-americanos como Amir e Hassan.  Impossibilitado de rodar o filme no Afeganistão destruído pelas guerras, ele optou por encontrar locações nas proximidades, no intuito de manter a mesma ambientação original - escolheu a China, em localidades que, na película, confundem os próprios afegãos que trabalharam na produção.

Outro mérito do filme é seu caráter multicultural autêntico.  Os produtores contaram com consultores diversos, que trabalharam em conjunto para tornar as referências culturais as mais fiéis possíveis.  Mais que isso: a grande vitória do diretor foi rodar o filme quase inteiramente em darsi, língua falada no Afeganistão - o próprio autor, Khaled Hosseini, escreveu os diálogos em sua língua natal -, o que é algo arriscado para um filme norte-americano, destinado a um público desacostumado a assistir filmes legendados.  O purismo dos produtores levou o ator principal, Khalid Abdalla, a aprender darsi em um mês de cursos de imersão em Kabul até que pudesse falar a língua como um nativo.  

Cena de 'O Caçador de Pipas'O filme - bem como o romance - tem como principal atrativo seu retrato de um Afeganistão que não se resume aos horrores da guerra televisionada pelos canais de notícias.  Saltam aos olhos do expectador, como do leitor do livro, o cotidiano dos afegãos, as relações interpessoais, os sonhos e os problemas que tornaram aquele povo, sobretudo aos olhos do público norte-americano, mais que a imagem distorcida de vilões da guerra contra o terrorismo.  Trata-se de uma aproximação com a cultura daquela parte do mundo que não se limita ao esperado: vê-se ali o muçulmano fiel, o fanático, o que usa a religião apenas como fachada para exercer o poder - como, via de regra, em todas as religiões e recantos do mundo costuma acontecer.  No caso de O Caçador de Pipas, mostra-se como o povo afegão foi vítima de uma sucessão perversa de lideranças políticas que lvou à destruição do país, que ora tenta se reerguer da catástrofe.  A história do filme e do romance não é omissa em relação à guerra ou à política - mostra, isso sim, como essas dimensões mais amplas da vida humana afetam o homem comum.  São problemas que estão longe de uma solução: o lançamento do filme, programado para agosto nos Estados Unidos, teve que ser adiado para dezembro para que as crianças pudessem terminar o ano letivo em Kabul e ser retiradas do Afeganistão antes de o filme chegar às telas; uma cena em particular, crucial para o filme, poderia acender a ira dos afegãos contra os meninos e a produção decidiu transferir as famílias para os Emirados Árabes Unidos, onde hoje vivem (ainda que não haja no Afeganistão uma sala de cinema sequer, o filme certamente chegará ao país pelas mãos do comércio clandestino - mesmo caminho pelo qual o livro, proibido no Irã e no Afeganistão, tornou-se um best-seller naqueles países a partir de uma tradução pirata para o farsi).

Contra o filme, os críticos estadunidenses apontam o mesmo problema do romance que o originou - uma certa falta de sutileza na história, algo direta e previsível, com um fechamento final cuja conveniente coincidência de vilões lembra o Deus Ex Machina dos dramas de Eurípedes.  Mas o recurso usado pelo escritor estreante não abala em nada a riqueza da história e sua mensagem: sempre há tempo para um recomeço.  O sucesso do filme, cujas qualidades de produção nos permitem antever, pode indicar um novo caminho para os produtores de Hollywood, sempre tão ávidos por fórmulas de boa bilheteria.

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Wednesday, November 7, 2007

O Y da questão

Valesca de Assis considera que ele “já nasceu cronista”.  Luís Augusto Fischer, seu ex-professor de colégio, considera-o um “cronista sereno que nunca esconde e pelo contrário faz questão de expor sua tranqüila humanidade”. O fato é que Rubem Penz, portoalegrense que transitou por carreiras tão díspares quanto a Educação Física e a Publicidade, lançou em 2007 seu primeiro trabalho já com o respaldo da crítica especializada e uma indicação para o Prêmio Açorianos de Melhor Livro de Crônicas. Sua experiência como cronista, contudo, não é novidade: Penz mantém um registro quase diário de crônicas no Rufar dos Tambores e tem seus textos publicados em diversos jornais do Brasil e do exterior. Além disso, ele é músico e dedica-se ao grupo de música instrumental Versão Brasileira.

A pedido do Locutório, Rubem Penz falou um pouco sobre o ofício de escritor e sobre o gênero ao qual dedicou seu primeiro livro, a crônica.




Locutório: Carlos Heitor Cony, um apaixonado pela crônica, declarou que ela ainda é vista, na literatura, como “um gênero tipicamente marginal (…) pois não pertence ao jornalismo, por não conter informação e também fica à margem da literatura, por ser vista como um texto menor”. Para ele, a crônica, mais que em outros gêneros literários, é “o eu se expondo, (…) mesmo que o eu não esteja explícito no texto”. Como você vê a crônica?


Rubem Penz: Bom, em primeiro lugar, marginal é um termo muito libertador, e isso é ótimo. Talvez aí comece a minha escolha pessoal por ser cronista. Fui apresentado para este estilo literário por um pequeno grande livro: O Gigolô das Palavras, de Luis Fernando Verissimo (LFV). Nele, um ensaio teórico da Professora Maria da Glória Bordini explica a liberdade de criação e composição que LFV experimenta, justamente por ser cronista. Outra maravilha nos textos do filho do Erico é o humor: sonhei, um dia, também ser capaz de desfilar ironia e acidez com tanta suavidade que, ao invés de gerar desconforto no leitor, provocasse risos. Então, ainda lá nos anos oitenta, é com Verissimo que a crônica se torna um best seller. Ao somarmos a liberdade de criação, o exercício da ironia e o sucesso, o resultado é: quando eu crescer, quero ser cronista! Comigo foi assim… Com relação à minha visão da crônica na cena das letras, a considero a dona de casa da literatura. O espaço da trivialidade, do cotidiano, dos afazeres básicos e, por isso, comum a todos. Tanto mais competente será o cronista, quanto melhor retratar o prosaico. É então que o leitor se espanta e se rende: o dia-a-dia, aquilo que ele viu, experimentou ou sentiu, transforma-se em literatura. O prazer de escutar alguém me dizer: “ali na tua crônica sou eu”, ou “parece ter falado para mim”, não tem preço.


Vários escritores brasileiros - entre eles o próprio Cony - afirmam que a crônica é um gênero literário tipicamente brasileiro - um substituto nosso ao que em outros países se faz através do artigo ou do ensaio. Você concorda com essa idéia? O que faz com que a crônica seja tão presente no panorama literário do Brasil?


Ser a crônica um produto nacional ou não é uma discussão irrelevante. O que importa é a qualidade que o gênero alcançou em páginas brasileiras. E aí chegamos no axioma do Tostines: vende mais por que é fresquinho ou é fresquinho por que vende mais? Isto é: a crônica brasileira é muito lida por que tem bons escritores, ou tem bons escritores por que é muito lida? Este círculo virtuoso oferece ao leitor uma quantidade de crônicas que não se vê em jornais estrangeiros. E, agora com a internet, de blogs. Só está faltando virar futebol e sermos comprados a peso de ouro pela Itália e Espanha. Nada mal, hein? Mas, em tempo: temos bons ensaístas e articulistas também, que se diferenciam dos cronistas pela especificidade dos temas que abordam.


A crônica é um gênero que floresceu nas mãos de jornalistas como João do Rio, Stanislau Ponte Preta (Sérgio Porto) e Paulo Mendes Campos, entre outros. Você é da área de Publicidade e Propaganda. Em que sentido sua formação afeta seu trabalho como cronista e diferencia-o de seus colegas cronistas que vêm do jornalismo?


Vejo uma linhagem de cronistas nascida do desejo (e da capacidade) de bons jornalistas se libertarem das amarras impostas pela profissão – olha a liberdade aí de novo… Aqui em Porto Alegre, dou como bom exemplo o Nilson Souza, que considero um Paulo Mendes Campos entre nós. A entrada do Nelson Rodrigues, com sua bagagem de cinema e de teatro, começou a abrir o leque de opções na crônica, cujo herdeiro pode-se considerar o Arnaldo Jabor. Quando o multimídia LFV entrou na cena, sendo ele publicitário, jornalista (até astrologia escreveu), cartunista, músico, roteirista etc, liberou geral. Nos anos oitenta, redatores publicitários começaram a trilhar o caminho da crônica. Destaco Martha Medeiros, Ricardo Silvestrin e Cláudia Tajes. Algumas características dos publicitários são o texto ágil, o inusitado na abordagem e a concisão. O pessoal da propaganda costuma ser bem sedutor ao escrever – isso é quase uma imposição de ofício. Aí, mais do que tudo, se diferenciam bastante dos jornalistas. No meu caso, além da redação publicitária, ainda tem o lado músico: nenhuma frase deixa de passar pelo crivo de quem lida com as harmonias e os ritmos. A escola que tive na propaganda e a influência da música me ajudam muito, com toda certeza.


Como é o seu processo criativo? De onde parte sua inspiração para as crônicas?


Existe sempre um catalisador, um gatilho que faz o cronista começar a escrever. Pode ser algo que acabou de ler, que assistiu, que ouviu falar. Pode ser uma emoção nova, um vexame, uma piada. Uma frase solta pode criar verdadeiras teses quando sensibilizam o cronista. Sensibilidade, aliás, é a palavra chave para qualquer manifestação artística. É por isso que não raros artistas sofrem: sentem mais intensamente do que os seus pares. Agora, e aqui tem o lado bem publicitário, a inspiração pode vir do desafio. Funciono muito assim: quando me provoco para escrever sobre determinado tema, me faço capaz. Quem já precisou escrever cartão de Natal temático para empresas de Geometria & Balanceamento, não se acovarda fácil! Hoje em dia, depois de começar a estudar com o escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, tenho me preocupado muito com a forma de escrever. Este é um desafio por vezes maior do que o tema.


Sua produção é bastante intensa, tanto na publicação periódica em seu site Rufar dos Tambores quanto nos diversos jornais nos quais suas crônicas são publicadas, aqui e no exterior. Como é o seu contato com o público? Há diferenças entre os textos que você publica na Internet e os que saem nos jornais? E os leitores, reagem de forma distinta?
 

Minha produção é resultado de uma rotina de trabalho auto-imposta em abril de 2002: no mínimo, uma crônica por semana. Proposta tão séria como um emprego na redação de jornal. Germânica. Afinal, eu precisava saber se o poço das idéias secaria. A internet foi o veículo. Num instante, centenas de pessoas já estavam me lendo e espalhando as crônicas em suas listas pessoais. Em 2004, cursei uma oficina com a escritora Valesca de Assis. Além do grande aprimoramento laboral, ela me apresentou para outros cronistas. Meus textos passaram a ser publicados na sessão de artigos do jornal Zero Hora, de modo esporádico. Quando uma leitora virou repórter do Jornal Comunidade News (EUA), ela levou consigo o Rufar dos Tambores. Agora, outros dois veículos também publicam. Mas nem sempre o texto é adequado a públicos tão diferentes. Nestes casos, escrevo mais de um. O leitor da internet é mais comentarista, mais reativo. Nos jornais, o retorno é pouco.


Você é também um contista de valor, e muitas de suas crônicas publicadas no seu site Rufar dos Tambores namoram com o conto. Há, para você, uma diferença essencial entre os dois gêneros?


Antes de mais nada, eu divido os cronistas em dois grandes grupos: os monocrônicos e os policrônicos (isso é o tema de uma crônica ainda inédita). Os primeiros escrevem sempre da mesma maneira. Os outros, se apropriam do maior número de estilos e formas. Daí, temos a crônica-carta, crônica-anúncio, crônica-conto, crônica-ensaio (que é quase crônica-crônica), crônica-poesia, crônica-paródia, crônica-resenha e tantas outras combinações a se imaginar. A crônica-conto é um dos mais deliciosos casamentos. A diferença entre um conto puro e um conto crônico é, justamente, o tempo (chronos): neste último, o sub-texto estará a serviço de um tema premente, pulsante, crônico. Faço uso desta combinação e de todas as outras. Se já não ficou explícito, reitero: meu objetivo é ser um escritor policrônico. Ou mais: devasso!


O cronista Rubem Penz lê outros cronistas? Como avalia a produção atual do gênero?


Leio cronistas todos os dias. Acompanho a ZH e, ali, me sirvo de todos os 3 textos do gênero – quando não são 4. Cardápio variadíssimo em estilos e opiniões. Sempre que posso, leio os cronistas de outros jornais, também. Na Veja, sempre. Na internet que diminuí bastante: lia blogs e, de um tempo para cá, o faço só de vez em quando. Citando alguns, esquecerei de outros… Em Porto Alegre estamos com uma produção farta no gênero. Mas um pouco acomodada. São poucos os textos arrebatadores. Menos ainda os surpreendentes. Parece mentira, mas o LFV ainda é quem mais me agrada. Não vejo a hora de ele voltar a infernizar o governo.


O Y da questão (Editora Literalis) é seu livro de estréia, e começa sua carreira com uma indicação ao Prêmio Açorianos de Literatura, um dos mais importantes do estado do Rio Grande do Sul. Como surgiu a idéia do livro? Qual sua linha norteadora na escolha dos textos que compõem o livro? Como você recebeu a notícia da indicação ao Açorianos?


Faz tempo que eu olhava para o dilema do ovo e da galinha: o escritor só existe depois do primeiro livro, ou o livro só existe depois de alguém, primeiro, ser escritor. Outra dúvida era se, antes do livro, eu precisava ser cronista de um jornal de grande circulação, ou só chegaria a sê-lo depois de um primeiro livro publicado. Tentei com o Y acomodar a questão. O fato de eu ser finalista do Açorianos já no primeiro título indica um bom acerto de tempo: soube esperar meu texto amadurecer para, só então, nascer como escritor. Minha formação autodidata e para lá de heterodoxa me fazia morrer de medo da academia e da crítica literária… Tenho a esperança de que o livro, agora, seja um facilitador no intento de constar nas páginas da imprensa. As crônicas não foram selecionadas por mim. Pensei que seria melhor entregar para alguém menos comprometido fazer o julgamento. E lá estão as competentes Annete Baldi e Márcia Ivana de Lima e Silva. Outro acerto, sem dúvidas. O resultado foi melhor do que eu poderia alcançar.


Que pontos você destacaria no seu livro para o futuro leitor de “O Y da questão”?


Muito bem, é a hora de tentar vender, não é? Então digamos que, com base na definição de cronista como sendo a dona de casa da literatura, o Y da questão é um convite para ir até a minha casa. À mesa, prometo o trivial bem servido. Sofás confortáveis, cerveja gelada (Suco? Vinho?), música de bom gosto e uma conversa daquelas de fazer amigos de uma vida inteira no primeiro encontro. Franqueza acima de tudo, um pouco de ironia, suavidade. A orelha de Valesca de Assis é o perfumado jardim da entrada. A apresentação de Luís Augusto Fischer faz as honras ao chegar. A arte gráfica de Alex Medeiros se encarrega do conforto aos olhos. O leitor pode escolher varar a madrugada batendo papo, ou, em crônicas espaçadas, sorver o livro como quem dá uma passadinha só para tomar um mate, prometendo voltar amanhã. No fim, pequenas revelações a cada crônica. Esta será a melhor parte da visita: o prazer em conhecer!


Bem, Rubem, estamos na torcida pelo Prêmio Açorianos e agradecemos pela entrevista ao Locutório.  Boa sorte e sucesso!

Muito, muitíssimo grato ao Robertson pela entrevista, e por sua companhia até o final.



O livro de Rubem Penz, O Y da questão, está à venda nas grandes livrarias - inclusive pela Internet; também no site da Editora Literalis e na Feira do Livro de Porto Alegre, na banca da própria editora.
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Monday, September 24, 2007

O silêncio eloqüente

Marcel MArceau

É uma terrível ironia ter que usar as palavras para falar de Marcel Marceau - ele foi o mestre do silêncio. O ator francês, falecido em 23 de setembro de 2007 aos oitenta e quatro anos, sempre foi um dos mais eloqüentes exemplos de que a arte precisa de muito pouco para ser grandiosa.  Sem o apoio de cenários elaborados, abstendo-se da palavra em uma forma artística - o teatro - na qual ela é, atualmente, por vezes tão mal aproveitada, Marceau encantou gerações e tornou-se um artista reconhecido em todo o mundo.  Ele elevou a mímica ao patamar de arte maior, e sua imagem tornou-se um ícone dessa forma de expressão artística. Ele mesmo um herói da Resistência francesa na Segunda Grande Guerra, seu grito de resistência soou mais alto que inúmeros discursos vazios de seus contemporâneos - não por acaso, uma de suas encenações mais conhecidas tornou-se um símbolo dos jovens que lutaram contra a ditadura de esquerda na famosa Primavera de Praga. Marceau soube, como poucos, levar seu espírito de contestação aos palcos - sem alarde ou pirotecnia, mas gritando em seus gestos e sorrisos o que mil vozes contemporâneas já não mais conseguem fazer com sua mesma verdade, com sua verve e gênio.

O resto é silêncio.

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Friday, September 14, 2007

O caminho para Meca

China Zorrilla e Carolina Papaleo O Porto Alegre em Cena, tradicional festival de teatro de Porto Alegre que, em 2007, atinge sua décima-quarta edição, é sempre uma ótima oportunidade para travar contato com o que se está a produzir em termos de espetáculo por todo o mundo.  Música, dança e, sobretudo, teatro de todas as tendências e propostas - o que torna as escolhas do público sobre que espetáculos escolher um tanto complicada e, por vezes, arriscada.  O valor convidativo dos ingressos - R$ 10,00 com os descontos oferecidos pela organização - faz com que muitos espectadores invistam o que gastariam com um ingresso na temporada normal para assistir a vários espetáculos.

Há sempre, no Porto Alegre em Cena, as bizarrices de ocasião - ano passado, um ator recebia choques elétricos conforme as reações da platéia; este ano, um ator passa todo o espetáculo acorrentado em um aparelho de tortura para viver um garoto de programa que sofre nas mãos de um sádico cliente -, das quais convém fugir se a sua mente ainda não foi totalmente convencida pela tal pós-modernidade… Também há que se desconfiar de alguns espetáculos que chegam envoltos em uma aura de celebridade, incensados pela crítica modernosa, e que no palco se mostram uma daquelas tolices desconexas que algumas pessoas se sentem obrigadas a gostar ou fingir que entenderam - caso, este ano, do engodo chamado Big in Bombay, da coreógrafa argentina Constanza Macras e de sua companhia alemã de teatro-dança - o único espetáculo, em toda a minha vida, que eu abandonei pela metade, indignado, sentindo-me ludibriado; eu, os que me acompanhavam e mais um sem-número de pessoas que causaram um pequeno congestionamento na saída do Teatro do Sesi em pleno intervalo, fato inédito, é bom ressaltar.

Mas tudo isso é compensado pelas preciosidades que o Porto Alegre em Cena é capaz de trazer a Porto Alegre.  Em 2007, uma dessas maravilhas é El Camino a la Meca, peça do dramaturgo sul-africano Athol Fugard em montagem portenha. 

Fugard é considerado um dos dramaturgos de língua inglesa mais importantes dos últimos tempos.  Sua dramaturgia remete à tradição norte-americana e não raro seus textos são comparados aos de Arthur Miller, Tennessee Williams e Edward Albee, por conta de sua temática firmemente calcada no ser humano.  Em El Camino a la Meca (1984), ele parte da história real de Helen Niemand, uma mulher nascida e criada em uma pequena comunidade de africaneers na África do Sul e que se vê, depois de viúva e muito idosa, excluída e rechaçada da comunidade depois que decide viver sua liberdade particular: deixa de ir aos encontros da dominadora comunidade protestante em que vive e passa a fazer esculturas, em cimento e ladrilhos, de monstros, animais e seres mitológicos - um conjunto ao qual dá o nome sugestivo de ”Meca”.  A ação passa-se em uma noite na qual Helen é visitada por sua única amiga, a jovem professora Elsa, que vive há doze horas de carro da pequena cidade da escultora.  Ela visita Helen depois de receber uma carta na qual a senhora narra seu desespero.  O confronto entre as duas revelará a real situação de Helen - a comunidade, na figura do pastor e amigo Marius, quer forçá-la a abandonar sua casa e ir para um asilo mantido pela igreja.

China Zorrilla, a celebrada atriz uruguaia de filmes como Elsa e Fred, é uma presença magnética no palco em seus oitenta e cinco anos de idade. Sua Helen é magistralmente composta, jamais resvalando no caricatural ou no excesso, o que torna o destino de sua personagem completamente verossímil.  Carolina Papaleo, atriz argentina, é forte e convincente como Elsa, oferecendo um contraponto à altura para a grande atriz uruguaia, que está à frente da montagem há cinco anos.

O mais encantador - e que me fez recordar as tolices e os engodos teatrais que o Porto Alegre em Cena traz no mesmo festival, garantindo sua enriquecedora diversidade, é que El Camino a la Meca não necessita de malabarismos, grandes cenários ou cenas grotescas; não exige do expectador uma compreensão que fuja ao aceitável; não é hermético, nem ofensivo.  No entanto, leva o expectador às lágrimas - tarefa difícil em tempos nos quais as pessoas parecem rir de tudo - e faz pensar, causando aquela impressão permanente que só os grandes artistas conseguem imprimir em seu público. 

O “caminho para Meca” de um bom espetáculo segue sendo sua honestidade para com o público.

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Tuesday, August 28, 2007

Platéia ou claque?

Algum fenômeno aconteceu nas últimas décadas que transformou a platéia de teatro no Brasil em claque.

Por algum motivo, as pessoas - falo das poucas que ainda vão ao teatro - assistem a uma peça teatral por nossas terras sempre dispostas a rir do que quer que seja.  Para elas, teatro transformou-se em sinônimo de comédia - basta olhar a programação teatral das grandes cidades, daquelas onde ainda existe vida sobre os palcos, para ver a quantidade de textos humorísticos em cartaz.  E o termo é proposital e apropriado: falo em textos humorísticos, porque há de tudo do lado de trás da quarta parede - esqueçam Molière, Oscar Wilde, Tchekov…nada de comédias bem estruturadas, com humor refinado ou mesmo com o burlesco mais baixo, mas preciosamente bem costurado, estruturalmente perfeito, farsescamente estonteante: o que vemos no palco são atores de talento duvidoso encenando falas mal cerzidas que eles mesmo compuseram, sem nenhuma preocupação com as regras básicas da dramaturgia, mas que deleitam o público de uma tal forma que é preciso questionar onde foi parar o teatro brasileiro.

Não há problema algum na comédia, não se trata de uma questão de menosprezar um gênero por si só sempre relegado a um segundo plano dos estudos acadêmicos e das pretensões artísticas.  O problema da platéia brasileira é outro: é ver tudo como se fosse comédia.  Não raro presenciei espetáculos em que o texto carregado de drama era entendido como razão para o riso fácil da platéia, encantada pela presença no palco deste ou daquele ator televisivo.  Aliás, esta é uma segunda razão que leva, hoje, os brasileiros ao teatro: ver de perto o seu artista favorito, não se importando muito com o que se passa no palco.

Estamos muito distanciados de outros países nos quais o teatro ainda é fórum de reflexão, lugar para compartilhar com sua comunidade as questões humanas mais profundas - seja essa reflexão motivada pelo riso ou pela catarse do sofrimento. O Teatro Besteirol, que teve sua razão de ser nos anos 1970 e 1980 - sob a cegueira da censura no Brasil, restava ao teatro a crítica velada pelo absurdo risível daquele tipo de comédia -, acabou esvaziado nos subprodutos que gerou nas mãos de atores e produtores não muito interessados em pensar o teatro como arte.  Em franca competição com outras formas mais apelativas e baratas, sufocados por uma teledramaturgia cuja força não é igualada em nenhum outro país - quando o assunto é telenovela, entenda-se bem -, o teatro brasileiro tornou-se um híbrido estranhíssimo: por um lado, as comédias mais tolas e toscas, sem verve nem savoir faire; por outro, os teatrólogos de vanguarda, com espetáculos que se propõem a redescobrir a roda. 

Enquanto isso, a platéia aplaude, e ri.  Aplaude qualquer coisa, e ri de tudo.  Vê como é linda pessoalmente a bela atriz da novela e sorri.  Não gosta de ver o ator de vanguarda tremendo o corpo enquanto cospe água no colega de cena, não entende para que serve aquilo, mas aplaude.  E de pé.

Aplaude-se de pé, no Brasil, qualquer espetáculo.  Sinto saudades daquela platéia que se levantou e começou a bater boca com Maurice Ravel na primeira audição de seu hoje idolatrado Bolero.  Queria ter visto o público rindo a valer na cena final da noite de estréia de La Traviata, quando a soprano obesa que encarnava a tísica Violetta Valèry, escalada pelo compositor Giuseppe Verdi, morre debilitada pela doença avassaladora.  Não quero um país em que todos vaiem ou batam boca com os atores em cena: apenas um público que reaja de acordo com os estímulos a que são submetidos.  A mesma platéia que vaiou a tuberculosa corpulenta de Verdi, aplaudiu-o e ovacionou-o nas récitas seguintes, quando outra cantora foi escalada para o papel sofrido da cortesã.  Ou algo acontece para mudar o nosso público, ou daqui a pouco estaremos rindo a valer dos olhos vazados de Édipo, da loucura de Blanche DuBois ou das labaredas a consumir Branca Dias.

Precisaríamos de alguns anos de trabalho árduo no Brasil para recuperar o tempo perdido.  Falo de um trabalho sério de formação de platéia, de volta às origens, de voltar as verbas públicas destinadas ao financiamento da cultura para projetos que se propusessem a construir uma nova geração que compreendesse o exato papel do teatro em nossas vidas. 

E o teatro brasileiro têm projetos interessantíssimos de formação de platéia, sim.  Mas estamos em um país em que a música é sempre para pular, o teatro é sempre para rir e gastam-se, diariamente, mais de qunize minutos a falar-se de futebol em cada um dos noticiários televisivos, mas menos de cinco minutos semanais para falar sobre cultura e arte.  Qual foi a última vez que o Jornal Nacional noticiou o lançamento de um livro - em especial, de alguma publicação que não fosse das próprias Organizações Globo?  E isso se aplica à grande maioria da imprensa, em todos os níveis - algo de se esperar na terra do institucionalizado jabá.

Mas falávamos de teatro, e eu ainda sonho com uma platéia que não queira ir ao teatro para ver telenovela.

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Friday, August 10, 2007

Não muito distante

MyleneO Brasil do século XX virou as costas para a cultura portuguesa. Era, talvez, a forma naturalmente encontrada pelos intelectuais de reafirmar a independência de uma nação brasileira que então dava seus primeiros passos. A década de 1930 talvez seja aquela na qual a ruptura tenha sido mais fortemente sentida - é a época na qual a literatura brasileira, por exemplo, passou a influenciar os escritores lusitanos, em uma inesperada reação da ex-colônia americana que depois se expandiria à música e, mais recentemente, à produção audiovisual. Infelizmente, tal movimento de ignorância crescente à produção cultural portuguesa é fruto tão-somente de uma espécie de revanchismo colonial - que fez os intelectuais latino-americanos afastarem-se, por algum tempo, do que se fazia na Espanha, por iguais razões - somado a um preconceito irracional dos brasileiros com relação ao léxico e à prosódia do português falado na antiga metrópole. Uma pena, pois Portugal é hoje um dos países europeus de produção cultural mais rica e instigante, voltado para o futuro sem o abandono do rico passado - um erro histórico cujas más conseqüências outros países europeus já começam a sentir.

A literatura portuguesa ainda freqüenta as prateleiras de nossas livrarias - graças às proezas de um Saramago, primeiro prêmio Nobel em literatura de língua portuguesa -, mas a música produzida em terras lusitanas ainda é solenemente ignoradas por nossas rádios e emissoras de televisão.  Nas últimas décadas, apenas um grupo musical português parece ter alcançado relativo sucesso no Brasil - a ponto de motivar a edição de uma antologia composta exclusivamente para o mercado brasileiro -, ainda assim um sucesso que é mais mensurável por sua inevitável lotação esgotada nos concertos que aqui fizeram que, propriamente, pela presença na mídia.  O Madredeus - com sua música atemporal, fincada na tradição mas moderníssima em sua concepção - ganhou fãs ardorosos de sua música no Brasil e algumas releituras interessantes de suas canções, de artistas como Rebeca Mata e Zizi Possi.  Não seria exagero dizer também que o sucesso do Madredeus no Brasil, a partir dos primeiros anos da década de 1990, motivou a vinda de outros grandes músicos portugueses - gente da qualidade de uma Dulce Pontes, de uma Mariza, de uma Né Ladeiras - e o interesse de músicos brasileiros pela nova música que surgia naquele país que até há pouco era apenas uma metrópole distante, cujo traço cultural mais forte para os brasileiros residia em seu folclore e sua ruralidade pitoresca.

MyleneSe o Brasil devia à música de Portugal algum tributo, este foi bem pago pelo surgimento de Não Muito Distante, álbum da cantora e compositora Mylene Pires.  Ela usa sua voz suave, encorpada e tão brasileira à serviço de dezesseis temas do Madredeus, abrangendo todas as fazes desses vinte anos de carreira da banda portuguesa mais conhecida em todo o mundo.  Apesar de ser um álbum de regravações, o trabalho de Mylene é surpreendente: a cantora não se limita a reproduzir os arranjos primorosos do Madredeus, tampouco se prende às influências dos vocais de Teresa Salgueiro, ou tenta imitar alguma alma portuguesa que se encontra com facilidade nessas canções.  O trabalho de Mylene é, deliberadamente, de recriação: ela encontrou, em cada canção do Madredeus, suas raízes brasileiras - já presente na música ou sugerida pelo espírito das letras ou pelos temas.  Assim, a Oxalá bossanovista de Pedro Ayres Magalhães transforma-se em um candomblé suave, a emblemática O Pastor torna-se um forró melodioso e a belíssima Haja o que Houver ganha sonoridades de folia de reis.  Nada, em suas recriações da obra do Madredeus, é óbvio ou gratuito.  As canções tão conhecidas dos fãs do Madredeus ganham um frescor novo nessas sonoridades tão brasileiras, e a sensação que se tem é a de que A Andorinha da Primavera sempre fora uma marchinha carnavalesca à anos 1920, ou que A cantiga do Campo era um ijexá trazido às nossas fazendas de café pelos antigos escravos… Tudo é surpreendente - e belo. 

Se para o fã do Madredeus uma primeira audição desses temas é um misto de estranhamento e excitação, a sensação que resta depois de algumas audições é de puro encantamento.  Afinal, como explicar que soem tão bem O Pomar das Laranjeiras em ritmo de samba-canção ou O Menino - talvez uma das mais intrigantes faixas do álbum - cantado por um coral guarani acrescido das vozes rascantes de rezadeiras nordestinas?  Não muito distante é um álbum de redescobertas - das letras bem construídas e das ricas melodias dos portugueses do Madredeus, da sonoridade da música brasileira, das raízes comuns entre os dois países que tanto tem em comum.

Infelizmente, como estamos em um Brasil que ainda se volta de costas às suas origens - tanto lusitanas quanto latino-americanas -, o álbum de Mylene, inteiramente gravado no Brasil, ganhou edição apenas em Portugal, que está a recebê-lo como uma das grandes novidades do ano.  Oxalá a voz de Mylene consiga atravessar o oceano de volta ao lar e que aqui encontre a acolhida que merece.  Pois, além de fazer um excepcional trabalho de recriação da obra de um dos mais instigantes grupos musicais de Portugal, a voz de Mylene é afinada, doce e deliciosa de se ouvir.

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Monday, July 9, 2007

Virginia Rodrigues, voz dos deuses e de Deus

Virginia RodriguesQuantas vozes no atual cenário musical brasileiro são capazes de transformar um espetáculo em celebração religiosa?  Esqueçam os neo-pentecostais e suas guitarras estridentes, os carismáticos e suas viagens roqueiras de gosto duvidoso com uivos de palavras sagradas.  Falo em religião no seu sentido mais puro e pleno, o de religar os homens a uma beleza que não é deste mundo.  Quantas vozes no Brasil atual, no qual a música parece existir apenas para a alegria frenética e esvaziada, são capazes de levar seu público até a divindade?

Virginia Rodrigues faz isso com maestria e facilidade.  Sua voz tem a profundidade rara de quem se inspira nas sonoridades eruditas mas tem raízes bem populares - não populescas, é bom ressaltar - e sabe que esses dois mundos musicais não são excludentes.  A soteropolitana simples teve sua educação musical nos corais de igreja de Salvador, onde sua voz de contralto foi descoberta pela Tribo de Teatro do Olodum.  Foi em um dos ensaios finais de seu primeiro espetáculo com o grupo, no qual fazia curiosamente o papel de uma surda-muda, que a cantora teve seu talento reconhecido por um padrinho que lhe abriria as portas de uma carreira internacional: Caetano Veloso, que se viu envolto em lágrimas na cena final em que a personagem de Virginia Rodrigues descobria sua voz e cantava, belíssimamente, Veronica, peça musical geralmente cantada nas procissões da Sexta-Feira da Paixão país afora.  Veronica seca o rosto ensngüentado do Cristo enquanto lamenta sua sorte - e a canção triste, incluída no primeiro álbum da cantora, Sol Negro, motivou o grande cantor baiano a produzir seu segundo álbum.  Nós, totalmente dedicado a canções extraídas do carnaval baiano, é o melhor exemplo do poder dessa voz única: Virginia Rodrigues transforma hits dançantes dos blocos carnavalescos em canções sacras, desvelando o caráter religioso do desfile de orixás e crenças ali ocultas, emprestando-lhes novos sentidos.

Virginia Rodrigues

Semelhante sensação foi levada por Virginia Rodrigues aos poucos felizardos que assistiram seu concerto único oferecido em oito de julho de 2007 no átrio do Santander Cultural, em Porto Alegre.  Pela primeira vez na capital gaúcha, a cantora transformou a modernosa construção em uma catedral.  Sua voz passeava entre as notas graves e agudas como se fosse muito fácil cantar daquela forma, e a cada percurso melódico o público era enlevado em religiosidade mais emotiva que mística, mais sentimental que ritualística.  Virginia Rodrigues consegue despertar em nós seus deuses particulares mesmo quando está a entoar as canções menos religiosas, como Manhã de Carnaval ou os antigos sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes, repertório de seu último álbum, Mares Profundos.  Mas como negar sua espiritualidade tão africana - e tão brasileira - em canções como Deus do Fogo e da Justiça, em que louva o poder de Xangô, ou em sua evocação a Iemanjá, único momento do espetáculo em que cantou sem o acompanhamento sempre perfeito de Bernardo Bosísio ao violão?  Não é necessário acreditar nos orixás para sentir-se mais perto de Deus - ou dos deuses - ao ouvir a voz de Virginia Rodrigues. 

Em pouco mais de uma hora de concerto, Virginia Rodrigues mostrou porque é uma das vozes brasileiras mais celebradas nos circuitos de jazz e world music mundo afora - e porque no Brasil poucos a conhecem.  Estamos entregues a tempos de imediatismo que invadem também o terreno da música, dominados que somos pelas vontades tortas das grandes gravadoras.  Música de sucesso, no Brasil, é sinônimo de baticum dançante e sem profundidade.  E Virginia Rodrigues é toda encantamento em melodias simples, é toda reflexão em palavras descomplicadas.  Mesmo sem o reconhecimento merecido em seu país, contudo, Virginia Rodrigues é uma voz necessária em um cenário de tanta superficialidade.  Ela conduz-nos à religião sem os exageros e sentimentalismos dos cultos contemporâneos e das igrejas desgovernadas em tempos de pouca exegese e muita liturgia - e em todos os campos da vida humana. É a voz de um país mestiço que parece cada vez mais esquecido dos valores universais e de suas origens inegavelmente religiosas.

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Thursday, June 28, 2007

Gal

Gal Costa Ela entrou em cena e a mulher do meu lado começou a cantar.  E assim ficou durante todo o espetáculo.  Cantarolando no meu ouvido!

A cena talvez fosse irritante se a cantora que dominava o palco não fosse Gal Costa.  Em um concerto minimalista, no qual foi acompanhada apenas pelo perfeito violão de Luís Meira, ela mostrou porque é ainda hoje considerada uma das mais belas vozes do Brasil.  O repertório não apresentou maiores novidades - a não ser uma interpretação magistral de “Mulher, eu sei”, de Chico César, na qual regeu o público em deliciosa interação, e a lembrança de “Meu Primeiro Amor”, de Cascatinha & Inhana.  Gal Costa relembrou seus maiores sucessos com uma precisão técnica que a coloca naquela categoria rara - a mesma de Ná Ozzetti, Teresa Salgueiro, Maria Bethânia - das cantoras às quais parece impossível desafinar.

Não é fácil segurar um público de mais de mil espectadores com um espetáculo sem pirotecnias, projeções de vídeo, dançarinos exóticos ou a alegria postiça que costuma dominar os palcos atuais do Brasil.  Era apenas Gal Costa e seus quarenta anos de carreira, e um violão que passeava sem tropeços entre os acordes flamencos de “Vapor Barato” e a tranquilidade bossanovista do melhor de João Gilberto e Tom Jobim.  Luís Meira, cabe ressaltar, é daqueles instrumentistas que sabem inventar sem descambar por experimentalismos gratuitos.  E o espetáculo Voz & Violão de Gal Costa tem espaço até para o improviso, a experimentação e o novo, fruto de sua alma jazzística e da coragem da cantora em arriscar-se em coisas novas, como o beebop e os vocalizes surpreendentes que inseriu aqui e acolá, dando um gostinho de blues a Dorival Caymmi ou um caráter mais sombrio a uma canção conhecida de Chico Buarque. 

São poucas as cantoras que conseguem sustentar um espetáculo daquela grandeza apenas com sua voz e um violão.  Menor ainda o número das que são capazes de fazer um público enorme como aquele dançar ao som do frevo apenas com sua voz, palmas e nada mais.  Gal Costa passa para o público a impressão de que é muito fácil cantar como ela.  Sua voz é sempre precisa, afinada, ainda que repleta de estranhamento.  Seu registro tão particular dá-nos a sensação de uma estridência suave, de um limite próximo ao exagero, mas é mera impossibilidade nossa de compreender tamanho talento vocal.  Ouví-la ao vivo não tem qualquer comparação com as inúmeras gravações feitas por Gal Costa, e as canções inéditas apresentadas por ela no concerto pareciam ser compostas especialmente para a sua voz. 

No dia 27 de junho de 2007, assisti, embevecido, ao espetáculo que Gal Costa ofereceu aos porto-alegrenses.  Do meu lado, uma mulher começou a cantar assim que a artista entrou no palco.  Mas, como reclamar da minha vizinha de poltrona?  A culpa é de Gal Costa e de sua incitação velada a que cantarolemos cada canção que sua bela voz torna tão sua.

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