Sunday, March 23, 2008

Em defesa da honra

'Unheard expression', do pintor norte-americano Mark Stock

Não se falaram o dia inteiro. A briga tola da noite anterior, em pleno restaurante e na frente de seus melhores amigos azedara qualquer possível reconciliação, ao menos por alguns dias. Mas a geladeira estava vazia e a véspera de feriado forçou-lhes uma aproximação para que fossem juntos ao supermercado. Ainda assim, não trocaram palavra. Com a lista de compras nas mãos, o diálogo pareceu-lhes desnecessário.

Subiam as escadas, embora o dia estivesse magnífico. Em outras ocasiões como aquela, talvez aproveitassem para fazer um lanche no caminho de volta ou mesmo estenderiam a tarde de compras com uma sessão de cinema. Mas não conseguiram encontrar espaço para combinar nada além de trancar-se em casa e guardar silêncio até os ânimos se acalmarem.

Mas havia o trabalho. Ambos eram professores e tinham um pequeno negócio em conjunto. Na segunda-feira mesmo iam iniciar uma nova turma do seu curso de História da Arte e ainda não tinham sequer combinado o que fazer. Depois de guardar as compras, já que ela chegou à casa e trancou-se no banheiro, ele resolveu começar sozinho a tarefa monótona de preparar aulas e tomar as providências iniciais para a nova turma de alunos. No escritório, escolheu alguns livros na estante e começou a folheá-los distraidamente. Ao fundo, ouvia o som do chuveiro e os ruídos distantes da rua.

De um livro sobre heráldica caiu o bilhete. Era um pedaço de papel delicado, escrita com letra caprichada de homem culto. Ele leu algumas palavras carinhosas que bastaram para despertar sua raiva armazenada desde o jantar de aniversário de casamento. Ele fechou o livro e com ele golpeou a porta do banheiro. Ela abriu assustada, uma toalha nas mãos a secar os cabelos longos, um roupão a cobrir o corpo esguio. Ele olhou sua sensualidade displicente e encheu-se ainda mais de ódio. Ela continuou olhando-o, aturdida e furiosa pela interrupção. Ele mostrou para ela o livro. A mulher corou.

Aflita, ela correu para o quarto. No parapeito da janela, um vaso austríaco. Era uma peça abominável, com uns passarinhos mal desenhados, presente da sogra que odiava com sinceridade. Quando ganhou o vaso, riu-se tanto que a mãe do esposo quase quebrou a porcelana na sua cabeça. Agora era o filho, que lhe gritava palavras de morte. Ela correu até a janela e ergueu o vaso, ameaçando-o. Ele desejou sua morte e ela fez menção de arremessar o pesado objeto. Desequilibrou-se, caiu.

Da rua, os transeuntes cercaram o corpo inerte da mulher e apontaram para ele, que olhava do alto a adúltera que seu desejo assassinara em pensamento alguns minutos antes. Mas não fora ele, enfim.


Os hílares pássaros a mataram. Ninguém acreditaria em sua inocência. Em seu coração, ele não se importava e preferia, secretamente, que assim o mundo pensasse – melhor assassino que desonrado.

Robertson Frizero Barros
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Wednesday, March 19, 2008

Me, Myself & I

Escrever sobre si mesmo não é um problema - quando se é um Montaigne...Sei que deve ser difícil manter uma coluna semanal em um jornal de grande circulação, sobretudo quando o material é algo tão pouco positivista quanto a literatura.  Mas os cronistas brasileiros - com suas boas, mas raras, exceções - parecem ter embarcado em uma triste egotrip sem volta na qual suas crônicas exercem o papel de diário de bordo.

Aqui no Rio Grande do Sul, estado que ainda se ressente de não ter jornais diários com o peso jornalístico das grandes metrópoles mundiais, um grupo pequeno de cronistas mantém-se no domínio dos espaços de publicação desse tipo de texto que é tão brasileiro, tão nosso, e que desde os áureos tempos de João do Rio e Stanislau Ponte Preta serviu-nos como registro paralelo dos acontecimentos do cotidiano, uma espécie de termômetro bem-humorado do zeitgeist tupiniquim.  Infelizmente, esses cronistas parecem não conseguir mais se desconectar de sua própria realidade.  Seus textos são quase invariavelmente narrativas desinteressantes de seus problemas existenciais ou das pequenas agruras pelas quais passam entre o quarto de dormir e a cadeira da redação do jornal. 

Há poucos dias, uma das mais famosas cronistas do estado contava no jornal de domingo sobre suas dificuldades cotidianas causadas por sua mente esquecida das coisas… Outro, ainda menos inspirado, falou de como se sentiu incomodado em um engarrafamento em Porto Alegre. Tudo sem diferenças de olhar para o que qualquer um escreveria se convocado a expor sua vida em um jornal. Decerto a experiência de um ser humano pode ser de interesse universal - e o termo crônica surgiu para se referir aos relatos de viajantes europeus mundo afora, ou fora do mundo que eles conheciam e imaginavam terminar em um abismo alí nas águas do Atlântico.  Mas mesmo esses relatos pessoais eram de importância crucial para um mundo ocidental que descobria não ser o único cadinho de vida no planeta.  O esquecimento da autora - que ela levianamente chamou de Alzheimer, uma doença muito mais terrível que sua mera desatenção das coisas ao redor - não se encaixava nisso, era apenas um olhar para o próprio umbigo.  E uma mirada boba, sem nenhuma grande sacada criativa. Nem todos são Montaigne e conseguem fazer de suas percepções cotidianas algo de real valor universal.

Resta a saudade dos tempos em que o cronista era, antes de tudo, um literato, um escritor que direcionava seus esforços criativos para o cotidiano ao invés de escrever sobre atemporalidades.  E era justamente isso que o tornava atemporal.  Os cronistas da atualidade - e há exceções louváveis, por sorte, mas que ainda estão distantes de nossos jornais - parecem espelhar, no fundo, os nossos tempos cada vez mais hedonistas e ególatras.  Mas não custa nada torcer para que eles erguessem um pouco a cabeça e olhassem para o mundo ao redor.  Talvez isso fizesse com que eles descobrissem que há coisas mais interessantes para os leitores que a vida exposta do cronista em praça pública. 

Posted by Frizero at 12:40:36 | Permalink | No Comments »