Em defesa da honra

Não se falaram o dia inteiro. A briga tola da noite anterior, em pleno restaurante e na frente de seus melhores amigos azedara qualquer possível reconciliação, ao menos por alguns dias. Mas a geladeira estava vazia e a véspera de feriado forçou-lhes uma aproximação para que fossem juntos ao supermercado. Ainda assim, não trocaram palavra. Com a lista de compras nas mãos, o diálogo pareceu-lhes desnecessário.
Subiam as escadas, embora o dia estivesse magnífico. Em outras ocasiões como aquela, talvez aproveitassem para fazer um lanche no caminho de volta ou mesmo estenderiam a tarde de compras com uma sessão de cinema. Mas não conseguiram encontrar espaço para combinar nada além de trancar-se em casa e guardar silêncio até os ânimos se acalmarem.
Mas havia o trabalho. Ambos eram professores e tinham um pequeno negócio em conjunto. Na segunda-feira mesmo iam iniciar uma nova turma do seu curso de História da Arte e ainda não tinham sequer combinado o que fazer. Depois de guardar as compras, já que ela chegou à casa e trancou-se no banheiro, ele resolveu começar sozinho a tarefa monótona de preparar aulas e tomar as providências iniciais para a nova turma de alunos. No escritório, escolheu alguns livros na estante e começou a folheá-los distraidamente. Ao fundo, ouvia o som do chuveiro e os ruídos distantes da rua.
De um livro sobre heráldica caiu o bilhete. Era um pedaço de papel delicado, escrita com letra caprichada de homem culto. Ele leu algumas palavras carinhosas que bastaram para despertar sua raiva armazenada desde o jantar de aniversário de casamento. Ele fechou o livro e com ele golpeou a porta do banheiro. Ela abriu assustada, uma toalha nas mãos a secar os cabelos longos, um roupão a cobrir o corpo esguio. Ele olhou sua sensualidade displicente e encheu-se ainda mais de ódio. Ela continuou olhando-o, aturdida e furiosa pela interrupção. Ele mostrou para ela o livro. A mulher corou.
Aflita, ela correu para o quarto. No parapeito da janela, um vaso austríaco. Era uma peça abominável, com uns passarinhos mal desenhados, presente da sogra que odiava com sinceridade. Quando ganhou o vaso, riu-se tanto que a mãe do esposo quase quebrou a porcelana na sua cabeça. Agora era o filho, que lhe gritava palavras de morte. Ela correu até a janela e ergueu o vaso, ameaçando-o. Ele desejou sua morte e ela fez menção de arremessar o pesado objeto. Desequilibrou-se, caiu.
Da rua, os transeuntes cercaram o corpo inerte da mulher e apontaram para ele, que olhava do alto a adúltera que seu desejo assassinara em pensamento alguns minutos antes. Mas não fora ele, enfim.
Os hílares pássaros a mataram. Ninguém acreditaria em sua inocência. Em seu coração, ele não se importava e preferia, secretamente, que assim o mundo pensasse – melhor assassino que desonrado.
Sei que deve ser difícil manter uma coluna semanal em um jornal de grande circulação, sobretudo quando o material é algo tão pouco positivista quanto a literatura. Mas os cronistas brasileiros - com suas boas, mas raras, exceções - parecem ter embarcado em uma triste egotrip sem volta na qual suas crônicas exercem o papel de diário de bordo.