Thursday, June 28, 2007

Divulgação: SOLTE O VERBO

Estarei ministrando uma das oficinas do projeto SOLTE O VERBO, do Centro Cultural CEEE Érico Veríssimo, e aproveito este espaço para divulgar um pouco da minha faceta de professor…


SOLTE O VERBO

De 16 de julho a 20 de outubro é tempo de soltar o verbo no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo.

O projeto SOLTE O VERBO prevê diversas oficinas de criação literária que envolvem:

  • Aulas;
  • Participação em saraus;
  • Participação em espetáculo de encerramento do módulo;
  • Publicação de textos na internet;
  • Mostra de trabalhos, fotos e vídeos em exposições;
  • Participação em sessões de contações de histórias.

A inscrição para as oficinas oferece a possibilidade de participação em todas as atividades. Uma vez definido o dia e horário de preferência dos interessados para cada oficina, faremos as inscrições no Caffè di Trento(mezanino do CCCEV), a partir de 3 de julho.

Cada oficina:

  • Uma vez por semana;
  • Duração de 40 horas (30 horas aula + 10 horas de participação em atividades paralelas);
  • Certificados de participação para alunos que tiverem 75% de presença;
  • Sala exclusiva (O Retrato – 4º andar do CCCEV), com todo o suporte técnico (projeção, DVD, VHS, TV, flipchart).

Valores de inscrição por oficina (total de 40 horas - com aulas de julho a setembro):

R$ 150,00 (que poderão ser parcelados em 3 vezes, com cheques)

R$ 100,00 (para estudantes e acima de 60 anos).

 

OFICINA

OPÇÃO 1

OPÇÃO 2

OPÇÃO 3

Poesia e Performance
Telma Scherer

Iniciação ao Conto
Maurício Chemello

Literatura infantil e juvenil*
Cláudia Laidens

Poesia e Canção
Diego Petrarca

Criação Poética
Lorenzo Ribas

Contação de Histórias
Grupo da UFRGS

Crônicas
Jaime Cimenti

 

Literatura em Língua Inglesa -

Robertson Frizero Barros **

SEG
(manhã)

QUI
(manhã)

SÁB
(manhã)

TER
(manhã)

SEX
(manhã)

SEG
(tarde)

SEG
(noite)

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(manhã)

SEG
(tarde)

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(tarde)

TER
(tarde)

SÁB
(manhã)

SÁB
(tarde)

SÁB
(manhã)

QUA
(noite)

QUA
(noite)

SEG
(tarde)

QUA
(tarde)

TER
(tarde)

SÁB
(manhã)

SÁB
(tarde)

SÁB
(manhã)

QUA
(noite)

SÁB
(tarde)

* A oficina de Literatura infantil e juvenil é voltada para alunos com mais de 50 anos

** A oficina de Literatura em Língua Inglesa prevê conhecimento Intermediário/Avançado no idioma, pois será ministrada inteiramente em inglês, bem como serão usados os textos originais, tanto teóricos quanto de literatura.

Posted by Frizero at 16:44:24 | Permalink | Comments (7)

Gal

Gal Costa Ela entrou em cena e a mulher do meu lado começou a cantar.  E assim ficou durante todo o espetáculo.  Cantarolando no meu ouvido!

A cena talvez fosse irritante se a cantora que dominava o palco não fosse Gal Costa.  Em um concerto minimalista, no qual foi acompanhada apenas pelo perfeito violão de Luís Meira, ela mostrou porque é ainda hoje considerada uma das mais belas vozes do Brasil.  O repertório não apresentou maiores novidades - a não ser uma interpretação magistral de “Mulher, eu sei”, de Chico César, na qual regeu o público em deliciosa interação, e a lembrança de “Meu Primeiro Amor”, de Cascatinha & Inhana.  Gal Costa relembrou seus maiores sucessos com uma precisão técnica que a coloca naquela categoria rara - a mesma de Ná Ozzetti, Teresa Salgueiro, Maria Bethânia - das cantoras às quais parece impossível desafinar.

Não é fácil segurar um público de mais de mil espectadores com um espetáculo sem pirotecnias, projeções de vídeo, dançarinos exóticos ou a alegria postiça que costuma dominar os palcos atuais do Brasil.  Era apenas Gal Costa e seus quarenta anos de carreira, e um violão que passeava sem tropeços entre os acordes flamencos de “Vapor Barato” e a tranquilidade bossanovista do melhor de João Gilberto e Tom Jobim.  Luís Meira, cabe ressaltar, é daqueles instrumentistas que sabem inventar sem descambar por experimentalismos gratuitos.  E o espetáculo Voz & Violão de Gal Costa tem espaço até para o improviso, a experimentação e o novo, fruto de sua alma jazzística e da coragem da cantora em arriscar-se em coisas novas, como o beebop e os vocalizes surpreendentes que inseriu aqui e acolá, dando um gostinho de blues a Dorival Caymmi ou um caráter mais sombrio a uma canção conhecida de Chico Buarque. 

São poucas as cantoras que conseguem sustentar um espetáculo daquela grandeza apenas com sua voz e um violão.  Menor ainda o número das que são capazes de fazer um público enorme como aquele dançar ao som do frevo apenas com sua voz, palmas e nada mais.  Gal Costa passa para o público a impressão de que é muito fácil cantar como ela.  Sua voz é sempre precisa, afinada, ainda que repleta de estranhamento.  Seu registro tão particular dá-nos a sensação de uma estridência suave, de um limite próximo ao exagero, mas é mera impossibilidade nossa de compreender tamanho talento vocal.  Ouví-la ao vivo não tem qualquer comparação com as inúmeras gravações feitas por Gal Costa, e as canções inéditas apresentadas por ela no concerto pareciam ser compostas especialmente para a sua voz. 

No dia 27 de junho de 2007, assisti, embevecido, ao espetáculo que Gal Costa ofereceu aos porto-alegrenses.  Do meu lado, uma mulher começou a cantar assim que a artista entrou no palco.  Mas, como reclamar da minha vizinha de poltrona?  A culpa é de Gal Costa e de sua incitação velada a que cantarolemos cada canção que sua bela voz torna tão sua.

Posted by Frizero at 12:07:49 | Permalink | Comments (1) »

Monday, June 25, 2007

His own private Vietnam

Purple Heart MedalNo mês de junho de 2007, mais sete mil soldados norte-americanos receberão sua Purple Heart Medal ao regressarem aos Estados Unidos da América depois de uma temporada de serviços prestados à nação em território iraquiano. Mais que uma honra militar, o coração púrpura carrega em si uma mensagem funesta: é a condecoração oferecida aos militares que pereceram em combate ou foram lesionados permanentemente, com impedimentos para prosseguir nos campos de batalha. No total de sete mil soldados estadunidenses condecorados com a Purple Heart recentemente, não estão contabilizados os que perderam suas vidas na chamada Guerra do Iraque.

Para um presidente como George W. Bush, que ganhou sua primeira eleição ao sugerir uma comparação com seu mítico antecessor John Fitzgerald Kennedy, os números corroboram as associações: Kennedy teve seu momento de caos mundial com a crise da Baía dos Porcos, que quase deflagrou o mais sério conflito aberto da chamada Guerra Fria; George W. Bush enfrentou o ataque às Torres Gêmeas no fatídico 11 de setembro de 2001, que desencadearia uma invasão ao Afeganistão e, consequentemente, a ocupação ao Iraque de Saddam Hussein.

George W. Bush, John F. Kennedy: como lidar com uma guerra sem sentido? As semelhanças entre os dois presidentes norte-americanos não passa, infelizmente, pela habilidade em contornar crises.  JFK entrou para a história como o presidente que deu início à retirada das tropas norte-americanas do Vietnã.  Em declaração registrada por seu assessor Kennedy O’Donell, o presidente Kennedy demonstrou estar consciente das conseqüências de sua decisão, ao dizer que se tornaria “o presidente mais impopular da história” e condenado “por toda parte como um apoiador dos comunistas”, mas via na sua reeleição a única possibilidade de fazer os EUA recuar de uma guerra que saíra do controle e em nada dizia respeito ao povo norte-americano (“I’ll become one of the most unpopular Presidents in history. I’ll be damned everywhere as a communist appeaser. But I don’t care. If I tried to pull out completely now from Vietnam, we would have Joe McCarthy red scare on our hands, but I can do it after I’m re-elected. So we had better make damned sure that I am reelected.”). 

George W. Bush, por sua vez, não aparenta qualquer disposição em retroceder de sua decisão de iniciar uma guerra de ocupação no Iraque.  Não há como ver apenas o lado ruim de sua guerra particular no Oriente Médio - o fim da era Saddam Hussein no Iraque tem um lado positivo incontestável.  Mas a maneira como o novo arranjo político da região foi alcançada lançou aquele país em uma guerra civil que estava latente, entre xiitas e sunitas.  A repetição diária de atentados e mortes de civis e militares faz com que o final desse conflito pareça cada vez mais distante.

Suspeita-se que a retirada das tropas estadunidenses do Vietnã tenha sido a causa secreta do assassinato de John F. Kennedy.  Mas não se pode associar a resistência de George W. Bush em retirar suas tropas do Iraque a um temor do destino que teve aquele outro presidente norte-americano.  No caso atual, tudo leva a crer que o presidente ainda acredite em uma saída honrosa da crise lançada sobre o Oriente Médio em uma guerra contra o inimigo invisível que é o Terrorismo internacional.  Contudo, as levas e levas de soldados mutilados e incapacitados de regresso ao território estadunidense, como aconteceu na Guerra do Vietnã, começam a perturbar a sociedade norte-americana e, em breve, será um fardo pesado demais para ser carregado pela atual gestão presidencial.  George W. Bush, que queria tanto ser John F. Kennedy, está conseguindo criar sua própria Guerra do Vietnã, com todas as conseqüências funestas de suas decisões precipitadas.

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Thursday, June 21, 2007

Os dias passam para Socorro

'Menina do Circo' - Di Cavalcanti O mês de maio resolveu ser inverno naquele ano. O frio era incomum e a umidade escorria pelas paredes e os hóspedes da pensão viviam em um eterno limiar da gripe. Era odioso. Não raro vinham bater na minha porta à procura de recomendações, remédios, consolo. Nada ofereciam em troca.

Tudo o que eu queria era o meu jaleco de volta, limpo e passado. Não, não me importava com ele. Sua ausência fez com que eu cabulasse algumas aulas práticas naqueles dias por ordem do próprio professor, que me abonou as faltas depois da história triste que lhe narrei para justificar a falta do uniforme de estudante. Eu carecia de Socorro. Queria que ela me devolvesse o jaleco. Precisava examinar de perto aquelas mãos pequeninas, de uma beleza insuspeitada, que me roubaram o sono nas noites todas que se sucederam depois do trivial incidente entre nós.

Cruzei com a costureira algumas vezes, e seu incômodo era constrangedor. Olhava-me como quem vê seu algoz morando no quarto em frente. Sua boca tinha sempre desculpas murmuradas, ditas com olhar baixo e mãos trêmulas enfiadas nos bolsos do vestido reto. Era o inverno inesperado, eu compreendia. Compreendia e não me preocupava, nenhuma pressa. Mas minhas palavras pareciam chegar nela como uma reprimenda, não sei, uma condenação, pois ela se encolhia nos ombros estreitos e descia correndo as escadas em direção ao café com roscas detestáveis.

A mancha no peito saiu por milagre. Estava alvíssimo o jaleco, como se nada houvesse acontecido. Sei que levou compressas de vinho branco, banhos de água morna e três dias de molho no alvejante, além das carícias continuadas das mãos de Socorro à beira do tanque, em plena friagem, por minha causa. Invejei-lhe a sorte. Cada vez que me via no sopé da escada, Socorro narrava-me a trajetória da mancha a meia-voz. Seu constrangimento enchia de detalhes a explicação irrelevante, mas eu pouco captava de tantas escusas. Meus olhos divertiam-se, decorando-lhe o desenho dos lábios, a miudeza dos olhos, o pouco das mãos que se podia vislumbrar no escuro dos bolsos.

Mas estava pronto o jaleco, e alvo como nunca estivera. Quando dei por mim, sentia o perfume do sabão de coco invadindo-me as narinas, a brandura do tecido visitado por aquelas mãos perfeitas, o branco de cegueira do jaleco recomposto que me permitiria regressar às tediosas aulas de anatomia. Ouvia, sem separar as palavras, a cantilena pacificadora de Socorro e suas desculpas infinitas pela demora, pelo frio, pelo tempo. Não havia o que perdoar além de sua deferência excessiva, que me colocava nessa prisão em forma de pedestal, esse nome de doutor que só me distanciava dela.

Seus lábios cessaram as desculpas e despertei assustado de meu sonho de limpeza. Socorro ouvira um homem que invadia a pensão como o tal vento encanado dos antigos: era Furtado e sua voz repleta de nauseante maresia.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 13:00:18 | Permalink | Comments (1) »

Socorro oferece-me seu lenço

'Mulher Italiana' - Henrique Bernardelli (1880) Bateram uma porta com violência no início do corredor e Socorro despertou. Era dia. Eu ouvi a moça levantando, no silêncio costumeiro, uma avezinha assustada. Uma noite inteira de sono abandonado depois da gritaria da tarde anterior, da notícia funesta, da cena toda que presenciei contra a vontade, ao chegar à pensão depois de um dia de aulas insípidas. Mas quando encontrei Socorro na porta do meu quarto, percebi que para ela sua noite havia mesmo começado uma semana antes, no momento invisível da partida de Furtado. Era não mais que uma viúva apaixonada ainda por seu cadáver.

Ia descer as escadas carregando os restos da sopa de ervilha e da garrafa de vinho ralo que Mercedes havia levado para mim na noite anterior, com o consentimento de Dona Amparo. Socorro saiu porta afora e o acidente foi inevitável: ela assustou-se em um gemido seco, meu jaleco branco tornou-se mancha pegajosa e o rosto da costureira perdeu a cor. Foi quando vi suas mãos.

A mão direita crispou-se sobre a bolsa que levava no ombro, e a tensão do momento fazia com que seus leves músculos retesassem, mostrando uma profusão de veias quase esbranquiçadas. Que fácil deve ser coletar seu sangue, pensei. Os dedos bailaram nervosos, até que a pele esticou-se levemente no esforço de unir o dedo indicador e o polegar em torno da argola que permitiria abrir o fecho éclair. A mão que tapava a boca desceu, então, para explorar os domínios do interior da bolsa. As unhas, de um rosa docemente esmaecido, emocionaram-me, não sei por que, naquele contraste com o couro gasto, com o metal das alças. Era a cor que minha irmã usava antes de se tornar uma insuportável mãe de família, o tom de doçura de sua juventude, dos tempos em que ainda não conhecia o dono da loja de ferragens com quem viria a se casar, rosa de minha infância em seu colo generoso. Pareceu-me, não sei bem, que a mão esquerda de Socorro continha todo esse carinho perdido em meu passado. Ela vasculhava o fundo da bolsa, fazia soar os poucos objetos que carregava.  Tudo era suave, silencioso. Pude ver a construção do metacarpo, a perfeita articulação com as falanges, e poderia jurar que os músculos intrínsecos exibiam seu poder para mim, em um aprendizado que me valeu por mil aulas no lúgubre anatômico da faculdade. Era o bailar delicado de uma mão que agia com rapidez e graça em busca de algo para mim ainda oculto.

Foi quando o vi surgir, imaculado. Um clarão de alvura em meio ao negrume do couro e da transparência da pele. Os dedos puxavam-no das profundezas da bolsa, com efeito de revelação: a tessitura de algodão que há um mês ainda era flor, o monograma bordado com esmero de devota, a retidão imposta pelo ferro de passar. A mão de Socorro revelou aos poucos a perfeição, a candura, a graça secreta de seu lenço branco. Socorro. Socorro Oliveira. As duas letras do monograma estavam guardadas entre os dedos que estendiam para mim aquela ajuda que pouco poderia desfazer o mal já causado. Mal, que mal, era apenas um jaleco, e para que me serve essa vestimenta tola, afinal, se não para proteger minhas roupas de janota de qualquer mácula? Ela entregou-me seu lenço e eu sentia que a vida se renovava.

Só então ouvi o som estridente de um prato, um copo e uma garrafa vazia, uma colher e uma sopeira de louça espatifando-se aos meus pés.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

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Wednesday, June 20, 2007

A ‘Escolha de Sofia’ do jornalismo investigativo

Duas meninas vietnamitas, de oito e dez anos, encontradas em um bordel na EspanhaNa Espanha, uma das mais promissores economias da Europa, compram-se meia dúzia de meninas virgens de tribos indígenas mexicana por € 25.000. Uma moça romena sai por meros € 8.000, mas por um pouco mais, € 14.000, pode-se ter uma noite de amor com uma jovem nigeriana e seu filho de apenas quatro anos de idade, juntos. Torpezas como esta estão descritas em um livro-denúncia escrito por António Salas em 2004 e que agora é lançado no mercado brasileiro sob o título O Ano em que Trafiquei Mulheres.

António Salas é o pseudônimo de um jornalista espanhol especializado no chamado jornalismo investigativo ou neo-jornalismo, como querem alguns, o qual leva às últimas conseqüências. Seu livro mais famoso, Diário de um Skinhead, surgiu de uma longa temporada em que Salas tornou-se membro ativo de um grupo neonazista na Espanha, tomando parte de ações violentas e crimes, todos relatados em minúcias no livro que foi um sucesso editorial em seu país. Em seu novo livro-denúncia, o método investigativo não foi distinto: Salas travestiu-se de empresário interessado em comprar meninas virgens e travou, assim, contato com uma nigeriana e seu cafetão na sede da Associação Nacional de Bordéis da Espanha - ah, a capacidade de organização européia! -, os quais abriram para o jornalista disfarçado as portas do submundo da prostituição e do tráfico de mulheres naquele país.

O jornalista investigativo descobriu coisas ainda mais funestas.  Seu trabalho anterior sobre os skinheads deu-lhe o conhecimento necessário para identificar uma estreita e insuspeitada ligação entre o mercado da prostituição na Europa e os grupos ultra-direitistas.  Salas descobriu que o presidente da tal Associação Nacional de Bordéis da Espanha é, curiosamente, o líder do grupo España 2000, de orientação xenófoba e racista, que já organizou diversas manifestações públicas contrárias aos imigrantes.  Ironicamente, a entrada de ilegais no país é a principal porta de entrada para a prostituição na Espanha.  Salas revelou também a existência de diversas celebridades - de esportistas a políticos, de apresentadores de televisão a artistas conhecidos - que não só se utilizam dos serviços especializados - entenda-se como a contratação de prostitutas que fogem ao padrão das profissionais em geral, por serem famosas ou por serem menores de idade: eles também são proprietários de bordéis e empresários desse mesmo submundo da prostituição na Espanha.  E escravizam, sim, suas contratadas, por meio do velho esquema de seduzi-las com promessas de emprego e riqueza, pas depois envolucrá-las em dívidas que jamais podem ser pagas, em ameaças de morte e em situações desumanas de vida.

Capa do livroSalas, no processo de elaboração de O Ano em que Trafiquei Mulheres, não se limitou à observação experiencial, digamos assim, em que se baseiam seus trabalhos jornaliísticos - ele ofereceu à polícia informações que levaram à prisão do cafetão nigeriano que lhe vendera uma jovem e seu filho, e de mais duas dezenas de pessoas que compunham uma rede de prostituição em Murcia, Espanha.  Arriscando a própria vida e o processo de elaboração de seu livro, ele optou por não se calar diante da iminência de outros crimes semelhantes ao que, disfarçado, presenciara.

O livro de Salas mostra a dubiedade do trabalho investigativo - não só do jornalismo, mas da própria polícia.  Até que ponto a infiltração é aceitável, e qual o limite no qual o investigador ou jornalista deve recuar?  Uma vez imerso no submundo, sob disfarce, é possível recuar diante da iminência de um crime que está por acontecer?  Ou se deveria pensar no bem maior que a investigação poderá trazer caso não seja interrompida naquele momento, por conta daquele crime?  Como no romance de William Styron, em que a protagonista Sophie Zawistowski foi obrigada a escolher entre um de seus filhos que iriam soberviver ao Holocausto nazista, a tarefa do jornalista investigativo é envolta em decisões inimagináveis para os que não estamos diretamente envolvidos nessas situações-limite.  São escolhas difíceis que pessoas como Antonio Salas devem enfrentar ao longo de seu trabalho - e que, talvez, nem venham a revelar quando de seu relato em forma de livro.  Que pensar, então, da tênue linha que separa o jornalismo investigativo do mero sensacionalismo em busca do dinheiro fácil dos grandes sucessos editoriais.

Infelizmente, a desgraça alheia ainda vende mais que comove.  Oxalá um dia livros como esse motivem a sociedade a tomar ações mais positivas que meramente comprar o livro e chocar-se com seu conteúdo.

Posted by Frizero at 14:29:20 | Permalink | Comments (2)

Saturday, June 16, 2007

Roda gigante

Era uma edícula que um dia servira para as festas do dono da casa em frente. E foram muitas ao longo de trinta e dois anos.  Mas os motivos de celebração foram cessando, os três filhos do casal foram embora, os amigos dos tempos de mocidade escassearam.  O marido resolveu, então, encher a casa de juventude com namoricos furtivos com a sobrinha da esposa, uma moreninha que veio do interior para tentar dar início aos estudos.  Dona Sônia desfez-se em escândalo, os pais da menina não fizeram gosto.  O dono da casa foi corrido para algum lugar do norte levando apenas o que a mulher reunira em uma mala velha jogada portão afora.  Fugiu sem a moça, que depois de uns meses pegou com um torneiro mecânico amigo de seu pai.  Sobrou a casa enorme, mas a esposa traída perdeu o gosto pela edícula e precisava de dinheiro. Juvenal aceitou de bom grado a oferta e foi morando por lá enquanto o parque não se mudava de cidade.

Ficariam naquela cidadezinha turística para sempre, apesar dos planos do dono do parque de rodar o interior em busca de riquezas.  Mas o dinheiro foi sumindo nos bolsos de seus filhos, que odiavam o ofício do pai, ainda que prezassem seus resultados.  O bom homem morreu e o parque foi vendido.  Juvenal não tinha como prever isso e não teve outro recurso senão se mudar de vez para o quarto alugado.  Tinha quinze anos e nenhum dinheiro de reserva, o parque estava parado, à espera de comprador e não tinha garantia de que iria receber seus atrasados do antigo dono do parque.  Mas Dona Sônia não deu muita atenção a isso.  O menino parecia direito e lembrava, quando visto de costas, seu primeiro filho perdido no mundo, coitadinho.  Mulher comove-se fácil e a edícula, então, foi mobiliada com uns móveis emprestados pela dona da casa, coisas que o marido fujão adorava e ela deu, por vingança, para Juvenal.  Talvez por isso jamais visitasse a pequena peça nos fundos do terreno, para evitar lembranças amargas.

Para Juvenal, que ainda tinha fantasias, tudo era admirável e com ares de palacete. Entrava-se pelo portão da frente e caminhava-se ao longo do muro até chegar no pequeno quarto, ladeado por uma área de serviço maior que o cômodo e que servia de cozinha para o rapaz. Da churrasqueira, ele fez um fogãozinho que alimentava com lenha, e do tanque, sua pia. A dona não se importava.  O quarto tinha uma cama de solteiro, pequena para o corpanzil do Juvenal. Era de um dos filhos de Dona Sônia, mas do tempo em que era apenas um menino. Nas estantes, que antes ostentavam a coleção de canecos do antigo dono da casa, alguns livros que a dona da casa havia jogado no lixo e Juvenal recolhera.  O rapazote gostava de ver as gravuras - mesmo sem saber ler admirava as letras alinhadas, as gravuras, a aspereza perfumada do papel nos dedos. As cores sempre foram um encantamento para ele, por isso fugira com o parque de diversões, onde trabalhava duro mas não se lembrava mais do cheiro doloroso da cinta do pai. Em uma das prateleiras, os livros dividiam espaço com um crânio de madeira pintada, meia dúzia de ursos de pelúcia embrulhados em papel celofane, um chapéu de cowboy, quatro garrafas fechadas de licor de frutas. As paredes eram adornadas com duas figuras de papelão: sobre a cabeceira da cama pequena, um vampiro desbotado, braços estendidos em pose de crucifixo, velava pelo sono de Juvenal; na parede em frente, exibindo-se para o rapaz quando ele se deitava, Conga, a mulher-gorila, insinuava-se em um biquíni de pele de onça para seu único e solitário admirador.

Dona Sônia era de poucas palavras, mas parecia gostar do Juvenal.  Vez por outra, batia à porta do quarto aos fundos da casa com um prato cuidadosamente envolvido em um pano de prato, para repartir com o menino o pão de cada dia.  Jamais entrava, sequer conversava com o rapaz, mas Juvenal não se importava muito com o silêncio, pois às vezes o pão era feijão rico e escuro, outras uma massa com colorido de carnes ou um ensopadinho de um avermelhado cheiroso, acalentador.  Ele nunca comera tão bem na vida, nem no parque de diversões, em que tudo tinha um preço.  Ele sempre lavava o prato com cuidado e devolvia à porta da cozinha.  Com o tempo, o que era gentileza tornou-se hábito, e Juvenal já aguardava, ansioso, a hora do almoço para descobrir que novas cores Dona Sônia havia inventado naquele dia.  O moço era grato à sua maneira, e começou a retornar a louça com pequenos regalos: uma maçã-do-amor, um pé-de-moleque, uns beijinhos envoltos em caramelo da cor de seus cabelos cacheados.  Não se falavam muito, e a gentileza dos doces dixava Dona Sônia ainda mais sem palavras.

Juvenal foi crescendo com os cuidados distantes da dona da casa.  O corpo ganhou forma, os músculos apareceram e o rapaz, que era franzino e espantadiço.  Ganhou rubor na face e uma promoção inesperada: saiu do carrossel e foi colocado na montanha-russa, ofício de responsabilidade, tarefa que exige destreza e força nos braços.  Dona Sônia notou as mudanças pela fresta da janela: gostava de ver Juvenal varrendo a edícula, olhando os livros de cabeça para baixo, cochilando perto da churrasqueira, escondido do sol.  Alegrava-se com o assovio do rapaz,  preocupava-se com seus silêncios, esperava-o chegar tarde da noite para poder dormir despreocupada.  E sabia que Juvenal crescia, pois o corpo de menino já conseguia preencher as roupas do esposo canalha que ela dera, piedosa, para que o rapaz pudesse suportar a friagem das margens do rio onde ficava o parque.

No dia de seu primeiro pagamento na nova função, o rapaz comprou para Dona Sônia cinco balões em forma de coração e o maior urso de pelúcia que havia na barraca da Roleta.  Estava orgulhoso de seu progresso, sentia que a vida estava prestes a girar e queria dividir isso com aquela que era uma mãe para ele.  Quando ele chegou, as luzes estavam todas apagadas, como de costume.  Dona Sônia dormitava no calor infernal da sala de estar e acordou apenas quando Juvenal, adiando seu momento de gratidão, abriu o portão da frente  e caminhou em silêncio até a edícula sem chamá-la.  Ela viu pelo traço de luz que invadia o quarto dos fundos o rapaz depositar na mesa de churrasco os corações e o urso.  Ele estendeu no espaldar da cadeira a camisa de botões que usava, a preferida do adúltero, e colocou a cabeça sob a refrescante torneira aberta.  A visão aqueceu Dona Sônia de forma insuportável.  Cada gota gelada de água que via correr pelo torso do rapaz era um rio de lava dentro de seu peito seco de mulher abandonada.  Juvenal não se comovia com o resto do mundo, pois sua sede era bem outra.  A mulher revolvia-se internamente em vontades e pensamentos que espiralavam, aturdiam como um trem fantasma.  O rapaz entrou em seu quarto e despiu-se para dormir o sono dos contentes.  Dona Sônia não mais conseguiu fechar os olhos.  Foi até a edícula.  À porta do cômodo estreito, desceu as alças da camisola pelos ombros e deixou que sua nudez despertasse o corpo do menino.  Conga reprovava-a de seu biquíni zebrado, Drácula oferecia-lhe os braços de papelão, mas nada mais importava.  Juvenal viu nela cores e perfumes que nunca antes havia sentido, nem mesmo no Túnel do Amor.

Foi quando Sônia ouviu os passos, atrás de si, do arrastar de uma mala de viagem cuja roda sem conserto tinha o rangido irritante que conhecia tão bem há trinta e dois anos. 

Do volume de contos

 

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

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Tuesday, June 12, 2007

Fotografia

Este texto está indisponível até segunda ordem…

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Monday, June 11, 2007

O paradoxo das cotas

Condoleeza Rice e Daiane dos Santos - nos EUA, a mulher mais poderosa da política americana é indubitavelmente negra; no Brasil, exames genéticos classificaram Daiane dos Santos como 65% européiaUm dos recursos dramáticos mais usados no melodrama do século XIX, nos Estados Unidos da América, era a descoberta de que um dos apaixonados era octor una.  O termo significava que aquele personagem tinha uma gota de sangue negro em oito de sangue branco, ou seja, um de seus ancestrais mais próximos - um bisavô ou bisavó, materno ou paterno - era descendente de africanos.  Ser octor una era, então, um empecilho para o amor, sobretudo para a aceitação em sociedade.  Mas, se os amantes invariavelmente aceitavam, ao final dos espetáculos, que o amor é maior que a raça, e as platéias aplaudiam o triunfo do sentimento sobre a convenção social, na vida real os Estados Unidos da América ainda teriam décadas e décadas por vir até que os afro-descendentes conquistassem, por lá, os mesmos direitos civis que seus compatriotas de origem européia, não sem muita luta e sacrifício.  Até hoje, contudo, o substrato racista permanece na cultura estadunidense e, vez por outra, submerge nas relações sociais, por mais indesejável que tenha se tornado assumir em público a condição de país no qual as questões raciais quase sempre permeiam os acontecimentos da vida cotidiana.

O Brasil, país no qual as políticas públicas parecem ser construídas de maneira apressada e sem planejamento a longo prazo, importou o modelo norte-americano de cotas para ingresso nas universidades, mesmo sendo nossa realidade social bastante distinta daquela que fez tal sistema surgir nos Estados Unidos da América.  Ainda que o problema brasileiro em relação ao ingresso de candidatos no meio universitário esteja mais ligado a questões sociais que propriamente raciais - no Brasil, por razões históricas, a cor da pele esteja intimamente ligada à ascenção econômica -, há aqueles que defendem a existência de cotas nas universidades e no serviço público para afro-descendentes mesmo antes que a sociedade brasileira consiga definir qual o critério a ser usado para tal distinção.

 A questão das cotas é delicadamente perigosa.  Estabelecer um critério para separar negros e brancos é, praticamente, estabelecer parâmetros oficiais de distinção que vão contra os artigos basilares de nossa constituição, sob o risco de criar um regramento oficial para a própria discriminação que se quer combater.  O exemplo mais claro dessa situação contraditória ocorreu há poucos dias, quando a Universidade de Brasília negou a possibilidade de ingresso pela cota de afro-descendentes a Alex Teixeira da Cunha.  O descompasso entre a realidade brasileira e a fantasiosa solução oferecida pelas cotas raciais é que Alex é irmão gêmeo idêntico, univitelino, de Alan Teixeira da Cunha, que foi aprovado para concorrer a uma vaga da UnB pela mesma seleção.

O caso foi revelado à imprensa na mesma semana que uma revista de grande circulação trazia como matéria de capa uma pesquisa científica feita com a constituição genética de grandes expoentes do esporte e da cultura nacionais, negros cuja cor da pele não oferece quaisquer dúvidas sobre sua ascendência.  Os resultados mostraram que boa parte deles é, biologicamente, mais europeus que africanos - o que não é surpresa alguma em um país como o Brasil, onde a miscigenação ocorreu de forma mais ampla e menos traumática que nos Estados Unidos da América, país de onde emana a tal política de cotas.

Alex ou Alan: qual deles é negro? - para a UnB, apenas AlanO critério da UnB para a admissão de candidatos ao vestibular pelas cotas de afro-descendentes é, acreditem, visual: olha-se a fotografia do candidato, decide-se se ele é negro ou não.  O caso de Alan e Alex é uma prova de que esse parâmetro nada científico desaba à primeira análise.  Contudo, aquela universidade federal não admitiu que o sistema é falho e racista - preferiu declarar publicamente que o sistema funciona bem, que não haverá qualquer mudança de critérios e simplesmente reviu sua análise no caso Alex-Alan, aceitando o gêmeo renegado anteriormente, revisando a primeira decisão.

O tal sistema de cotas é que ele abrange outras etnias, como os indígenas brasileiros, em uma tentativa questionável de reparar os erros do passado.  Curiosamente, o critério para admissão de indígenas candidatos a uma vaga pelas cotas é bem mais exigente: o futuro universitário precisa apresentar um documento da Fundação Nacional do Índio - FUNAI - que comprove sua origem.  Nesse caso, o critério “visual” da UnB não serve - talvez por medo da universidade de ter que admitir metade da população da Região Norte do país em seus bancos escolares…

O problema do ingresso de afro-descendentes, indígenas e outras minorias étnicas nas universidades brasileiras tem origens outras, que estão distantes da questão racial - aliás, o conceito de raças diferenciadas entre os homens é algo tão descabido cientificamente que nossos legisladores deveriam se envergonhar por ainda divulgá-lo.  No Brasil, tudo isso está imbricado com questões sociais, reflexo de um país que libertou os escravos sem ter como absorvê-los no mercado de trabalho, e que oprimiu os indígenas a quinhões cada vez menores de dignidade.  Mas o melhor caminho para solucionar as diferenças ainda é o desenvolvimento de políticas educacionais maciças na educação básica e no ensino médio, que transformem a ascenção às vagas universitárias um caminho possível para os que se formam pelas vias da educação pública.  Um planejamento sério, a longo prazo, com compromissos assumidos por grupos de trabalho pan-partidários, que buscasse repensar a educação no Brasil além das vantagens eleitoreiras imediatas seria uma solução possível, honesta e anti-racista para a questão das minorias étnicas no Brasil.  As cotas somente perpetuam o problema, pois elevam ao ensino universitário candidatos que talvez não estejam preparados para os estudos superiores - não que o vestibular seja uma garantia disso - e cujo eventual insucesso nos bancos escolares universitários podem ainda arrefecer sentimentos revanchistas que praticamente inexistem em nosso arcabouço cultural.

Os candidatos às tais cotas de minorias, cujos critérios são tão racistas quanto o preconceito que dizem combater, também prefeririam poder ingressar na universidade sem que houvesse sobre suas cabeças a dúvida cruel de que eles só ascenderam àquela vaga por conta de uma reserva baseada na cor da pele de seus antepassados.  Expandir o sistema de cotas, um modelo estadunidense fortemente calcado no racismo perceptível, explícito daquela sociedade competitiva, é retornar à idéia bizarra e tão norte-americana dos octor una - nesse caso, criando uma categoria de brasileiros que precisaria do amparo governamental para vencer uma limitação que a política torta sugere ser de cunho étnico, racial, biológico, quando tudo o que precisamos é reforçar ações na sociedade brasileira que fortaleçam a plena igualdade entre os homens. 

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Wednesday, June 6, 2007

O futuro e os protestos

Patrick DixonPatrick Dixon é o que os norte-americanos chamam de business thinker, ou seja, um pensador de negócios, um estudioso das tendências de mercado.  Em outras palavras, Dixon é uma espécie de visionário profissional cuja empresa de consultoria, a Global Change, presta serviços a corporações do porte de uma IBM, Tetrapack, Google, Fedex, BBC e Roche, entre as mais de quinhentas empresas de sua cartela de clientes.  Formado em medicina pelo conceituado King’s College de Londres, ele é o fundador da ACET - Aids Care, Education and Training Agency - uma das principais entidades internacionais no combate à AIDS.   

Em 05 de junho de 2007, Patrick Dixon veio à Porto Alegre apresentar “A Sabedoria do Futuro: as seis faces da mudança global” (Futurewise: the six faces of global change), palestra baseada no livro homônimo lançado em 1998 pela Harper Collins.  Na obra, Dixon faz uma analogia da situação global com um cubo, cujas seis faces não podem ser enxergadas ao mesmo tempo - por isso, segundo o autor, é preciso que “continuemos girando o cubo”, sob o risco de perdermos para o que há de vir.  “Ou tomamos as rédeas do futuro ou o futuro tomará as nossas rédeas”, diz o autor na introdução de seu livro.

A palestra, realizada no Salão de Atos da UFRGS, ocorreu no mesmo dia em que alunos daquela universidade federal ocuparam o prédio da Reitoria em um ato de protesto.  O local da invasão fica em frente ao prédio onde é realizado o ciclo de palestras “Fronteiras do Pensamento”, patrocinado pela COPESUL, um fórum de altos estudos de cuja programação a palestra de Dixon fazia parte.  Sob o risco de os estudantes impedirem a entrada dos participantes do evento, o próprio palestrante foi falar com os líderes do movimento, em busca de um acordo.  Dixon ofereceu aos estudantes a oportunidade de usar a tribuna do “Fronteiras do Pensamento” nos minutos finais de sua palestra para explicar aos presentes os objetivos do protesto e suas reivindicações.  Para tal, perguntou aos estudantes qual era a razão do protesto, o que queriam com a ocupação ao prédio da Reitoria.  Nenhum dos líderes do protesto souberam responder; reuniram-se e, trinta minutos depois, comunicaram a Dixon que agradeciam a oportunidade mas declinavam o convite, pois não sabiam ao certo definir em poucas palavras a pauta de reivindicações que os levaram a iniciar o protesto que ameaçava impedir a realização da palestra do pensador britânico.

É curioso analisar o ocorrido - narrado pelo próprio palestrante - pelo prisma das “seis faces do cubo” de Dixon.  O mundo atual, em sua visão, segue em direção ao futuro apresentando seis aspectos inegáveis: o rápido - uma sensação de hiper-aceleração emprestada pelos avanços tecnológicos e pelo contínuo surgimento de novos meios (e objetos) de consumo -; o urbano - as variações demográficas e sociais, cujo exemplo maior é o envelhecimento das populações urbanas -; o tribal - paradoxalmente, a globalização fez exacerbar-se o sentimento de tribo, que pode girar em torno de uma nacionalidade, de um hobby ou mesmo de um produto -; o universal - não só as corporações tornaram-se globais, mas também o consumo e as relações humanas -; o radical - com o fim da dicotomia esquerda versus direita, houve o enfraquecimento dos governos e a política passou a ser mais guiada por interesses corporativos e de grupos de pressão -; e o ético -  as corporações passaram a usar os valores pessoais, a motivação e a espiritualidade para “exercer o fascínio” sobre o consumidor.  No evento dos estudantes revoltados que não conseguiram expressar seus motivos para a ação radical, notam-se os sinais desse futuro que está a se construir: os mecanismos de pressão pelas vias do radicalismo, que não sabe trabalhar quando convocado à negociação e ao debate; o tribalismo da decisão de invadir o prédio da Reitoria - us estudantes declararam em entrevista a um canal de televisão local que o movimento era um ato de solidariedade aos alunos da USP -; o universalismo desenhado na decisão de reproduzir no Rio Grande do Sul, em uma universidade federal, as mesmas ações desencadeadas em São Paulo, em uma universidade estadual, as quais teriam sido motivadas por uma questão regional, de um decreto do governador daquele estado; as distorções éticas que levam estudantes universitários a invadir a reitoria de sua universidade motivados por uma pauta de reivindicações a qual sequer conseguem nominar quando solicitados.

Universitários improvisaram acampamento e cozinharam na reitoria - em repúdio a quê? A metáfora do cubo de Dixon mostra-se perfeita, pois ao homem atual parece-lhe impossível ver os diversos lados da realidade em uma única mirada.  Ao ser tribal e pensar tão-somente em seus interesses de grupo, de categoria, de corporação, nega-se os valores éticos de universalidade de direitos.  Ao assumir o radicalismo como única forma de solução dos problemas sociais, lança-se por terra as ferramentas da democracia como o único caminho viável de convivência construído pelo Ocidente ao longo de tantos séculos.  Ao universalizar um problema que é local e compreensível apenas em determinado contexto, corre-se o risco de gritar no vazio, de lutar pelo ar que se respira, sem nenhuma consistência lógica entre ação e desejo.  Na USP, os alunos protestam contra uma lei estadual que prevê a fiscalização do governo sobre as verbas gastas por aquela universidade; em outras palavras, os mesmos universitários que gritam contra os escândalos de corrupção e desvio de dinheiro público em nível federal, defendem que a universidade pública não tenha qualquer tipo de verificação em relação aos gastos da verba pública nela investida.  No Rio Grande do Sul, os estudantes da UFRGS fazem, em conjunto com os universitários da UFPel, invasões nas reitorias, em cujos prédios armaram barracas e cozinhas improvisadas, reclamando, entre outras coisas, que a Reforma Universitária do Governo Federal condicionaria “a pesquisa aos interesses do empresariado” - ou seja, temem que as pesquisas sejam direcionadas a uma aplicação prática de mercado, que gere empregos e tecnologia para o país.  Universalizam seus protestos, por um lado, e por outro tribalizam sua pauta de reivindicações; as contradições tornam-se, assim, inevitáveis. 

Ou será que a impossibilidade de revelar as razões ocultas de tais protestos é o que impede os estudantes de usar um fórum privilegiado como o do “Fronteiras do Pensamento” para expor suas reivindicações?  Como sói acontecer, é uma face do cubo que dificilmente se vê, mas que se percebe ao compreender a lógica perversa de nosso tempo.

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