Socorro e suas razões
Preciso sair daqui. Estou sufocada. Vou sair quietinha para que ninguém me veja. Nunca me vêem mesmo, não falam comigo, não se importam. Ninguém se importa. Só Furtado. Furtado fala comigo, olha-me nos olhos, passa-me a manteiga e sorri do meu jeito. Quando ele não está na mesa, esse café não tem gosto, essa rosca é mais seca, essa gente é mais distante ainda comigo, Dona Amparo é mais rude e detestável. Preciso sair daqui, agora. E em silêncio. Vou para o meu quarto e lá me tranco. O domingo não demora tanto se eu for à missa. Ninguém aqui vai à missa, por isso não gostam de gente. Por isso não gostam de mim. Acho que eles pensam que quem vai à igreja é porque tem pecados demais. Eu vou porque lá ninguém me perturba e o padre me olha nos olhos quando me dá a hóstia. Deus entra em mim, ele está em mim e não me sinto mais só. Vou para o meu quarto e me tranco até a hora da missa. Isso. Subo as escadas e me esqueço lá dentro. Assim fico quieta e ninguém se lembra de mim. Olha, chegaram as cartas e ninguém falou nada. Não falam comigo, nem para me avisar das cartas. Quem sabe a mãe escreveu, quem sabe alguém mandou alguma coisa para mim. Eu queria que Furtado me mandasse uma carta um dia. Um postal dos lugares que ele conhece, do Rio de Janeiro, do mar. Ele disse uma vez que Recife era igual que Veneza, cheio de pontes e rios cortando a cidade. Eu não sei o que é Veneza, mas o Furtado sabe, conhece essas coisas de estrangeiro. Olha, uma carta para ele. Letra bonita, grande. Nome lindo. “Arlindo Furtado”. É uma carta pesada, para ele. É carta de mulher, “Glória”. “Glória”, de Salvador. “Glória” de Salvador, com um coração no pingo do “i”. “I” de “inferno”. Inferno. Glória dos infernos!
Quem será essa tal Glória, que escreve para ele com essa letra toda desenhada de mulher que tem tempo de sobra na vida para ficar escrevendo cartas para homem em outra cidade, deve ser alguma dessas mulheres desavergonhadas, só mulher assim desenha coração em carta para homem solteiro, e essa droga de chave que não entra, Furtado, eu preciso entrar no quarto, pelo amor de Deus, entra, chave, inferno, mulher dos infernos, essa chave que não entra, diacho, eu não quero que ninguém me veja chorando, eu não quero, Furtado, deixa eu entrar, meu Deus, ajuda, essa chave, diacho, abriu, graças a Deus, agora ninguém mais vai me ver o dia inteiro, não quero mais ver mulher nenhuma na minha frente, tenho ódio das mulheres, essa risada infernal da Dona Amparo, essa casa cheia de capetas, Glória dos infernos. Vou costurar que faço melhor, essa meia me incomoda, esse furo, esse buraco aqui dentro, não consigo, não adianta, eu vou ver minhas flores, eu preciso de ar, Furtado, por que, eu não acho o que eu quero, eu te encheria de flores, Furtado, não acho flor que te mereça, rosas, rosas vermelhas, muitas, uma folha inteira de rosas vermelhas para você, Furtado, meu coração, Arlindo, volta para mim, Furtado, lindo, Arlindo Furtado, só para mim, Furtado, só para mim, Arlindo, para mim… Vou te colocar aqui bem perto de mim, quero te ver ao acordar, quero sonhar com você coberto de rosas vermelhas, meu amor, teu sorriso, meu amor, cheio de rosas, nossa vida calma sem problemas sem vergonha sem pudores sem Dona Amparo sem Glória sem demônios, não quero chorar, sem essa casa, não quero mais chorar, sem essa vida, não quero mais chorar por você, Furtado.
– Socorro, abre aqui, menina! Anda, abre logo!
Eu não quero mais abrir minha vida para ninguém, Furtado, volta, volta para mim, Arlindo, esquece tudo o mais, lindo, e eu me entregarei para uma vida só para você, sem Amparo nem Glória.
Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)
Ao pensar na produção cultural e artística do Brasil, poucos idealizadores parecem preocupar-se com o que, no futuro, representa a própria garantia de manutenção dos produtos culturais que se empenham em divulgar - a formação de um público que se interesse por suas produções e de outros tantos artistas em construção que se interessem em levar adiante essa reunião imaterial de conhecimentos a que chamamos cultura. Em diversos países, esse reavivar cultural dá-se por meio de financiamentos públicos, invariavelmente mantidos por meio de isenção fiscal a empresas privadas que cooperem por meio de patrocínio a espetáculos e eventos artísticos. No Brasil, também foi esse o caminho encontrado para que o governo se eximisse dos encargos de financiar a cultura diretamente - e diversas leis surgiram com esse propósito, das quais as mais aplicadas são a Lei Rouanet e a Lei de Incentivo à Cultura (LIC).
Felizmente, há exceções. Marcos Breda, Luiz Arthur Nunes e sua Caravana Produções lançaram, em 07 de maio de 2007, seu terceiro projeto cultural com patrocínio exclusiva da Refinaria Alberto Pasqualini (REFAP), da Petrobrás, intitulado FARSA Trata-se da montagem de quatro textos curtos de autores famosos - Miguel de Cervantes, Tchékov, Moliére e o brasileiro Martins Pena - que se dedicaram ao gênero cômico nos textos dramáticos e, mais específicamente, à farsa. O projeto, contudo, não se limita à montagem das peças teatrais: em uma perfeita compreensão do espírito das leis de incentivo cultural, a Caravana Produções preocupa-se, desde suas primeiras montagens - Arlequim, Servidor de Dois Patrões (2002) e A Maldição do Vale Negro (2004) - em oferecer ao público a oportunidade de acompanhar todo o processo de montagem do espetáculo. No dia 07 de maio de 2007, o início do projeto Farsa foi feito em uma primeira leitura dramática aberta para convidados, na qual o elenco - Bianca Byngton, Marcos Breda e Luciana Braga, entre outros - apresentou os quatro textos que serão estreados na primeira semana de agosto em Porto Alegre, no Teatro São Pedro. O melhor do projeto, contudo, é a chance que os interessados em teatro terão ao participar, entre os dias 12 e 15 de junho de 2007, de uma série de mesas redondas e conferências sobre o gênero teatral farsesco e de uma oficina para atores sobre atuação cômica. Em outras palavras, Breda e Nunes estarão abrindo para o público as reuniões preparatórias e as oficinas que muitos outros espetáculos também realizam, mas a portas fechadas. O projeto Farsa, contudo, traz um importante diferencial: a qualidade de seus palestrantes. A conferência de abertura, intitulada “A Farsa no Teatro”, será ministrada por Eric Bentley, uma das maiores autoridades em textos dramáticos, responsável pela introdução e divulgação da obra de Bertold Brecht nos EUA. O evento contará, ainda, com mesas redondas nas quais especialistas na área das artes dramáticas falraão sobre o gênero farsesco e sobre os autores; dentre os debatedores, nomes de peso como Graça Nunes (UFRGS), Beti Rabetti (UNIRIO), Vilma Arêas (UNICAMP), Elena Vassina (USP) e Bella Josef (UFRJ). Além disso, estão programadas leituras dramáticas de outros textos dos autores estudados em “Farsa”: Cervantes e Moliére, sob direção de Adriane Mottolo, e Tchékov e Martins Pena, sob direção de Julio Conte.
Não faltam leis no Brasil, e nossa legislação, em algumas áreas, acompanha o que há de mais moderno no pensamento legislativo mundial. O que nos falta é parcimônia na aplicação do dinheiro público, uma certa visão de futuro e uma consciência de que em um país com tamanhas necessidades sociais, verbas como as das leis de incentivo a cultura devem ser revertidas, centavo por centavo, em iniciativas que efetivamente tenham uma preocupação em construir, como esta belíssima proposta da Caravana Produções. Mirando no desejo de montar espetáculos teatrais de elogiada qualidade, Marcos Breda e Luiz Arthur Nunes acertaram no alvo ao multiplicar a verba obtida pelo patrocínio oriundo da renúncia fiscal do Estado brasileiro na forma de ingressos mais baratos para suas apresentações, democratizando o acesso do público às montagens, bem como levando aos homens e mulheres da área cultural o bom exemplo de compartilhar conhecimento e formar platéias para o futuro.
Socorro empurra a cadeira para trás sem emitir qualquer som. As demais pessoas à mesa continuam a refeição. Ninguém olha para ela ou murmura qualquer despedida. A moça recoloca o assento no lugar e, de cabeça baixa, dirige-se para a escada. Ainda com o pé esquerdo no primeiro degrau, ela vira a cabeça e olha para a pequena mesinha onde havia um telefone e alguns envelopes. Seu corpo debruça-se no corrimão e a mão direita levanta carta por carta.
Não por acaso, ele usa como adjetivação da atitude de Jabor as referências a dois outros jornalistas cujas críticas têm incomodado o governo petista desde o início de seu primeiro mandato - Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo. Este último foi quase calado por um estratagema simples e sobre o qual não podem ser levantadas acusações contra o governo - sua revista Primeira Leitura teve que ser encerrada simplesmente porque, em um mesmo mês, toda a publicidade oriunda de bancos e instituições ligadas ao governo federal foi retirada sem prévio aviso. Mainardi, por sua vez, respondeua processo por calúnia solicitado por Franklin Martins, hoje Ministro da Comunicação, ontem jornalista do jornal Hora do Povo - do MR-8; além disso, recebeu uma ameaça de morte nada velada nas páginas desse mesmo jornal, conforme relatado no