Thursday, May 10, 2007

Socorro e suas razões

'figura Feminina - Di CavalcantiPreciso sair daqui. Estou sufocada. Vou sair quietinha para que ninguém me veja. Nunca me vêem mesmo, não falam comigo, não se importam. Ninguém se importa. Só Furtado. Furtado fala comigo, olha-me nos olhos, passa-me a manteiga e sorri do meu jeito. Quando ele não está na mesa, esse café não tem gosto, essa rosca é mais seca, essa gente é mais distante ainda comigo, Dona Amparo é mais rude e detestável. Preciso sair daqui, agora. E em silêncio. Vou para o meu quarto e lá me tranco. O domingo não demora tanto se eu for à missa. Ninguém aqui vai à missa, por isso não gostam de gente. Por isso não gostam de mim. Acho que eles pensam que quem vai à igreja é porque tem pecados demais. Eu vou porque lá ninguém me perturba e o padre me olha nos olhos quando me dá a hóstia. Deus entra em mim, ele está em mim e não me sinto mais só. Vou para o meu quarto e me tranco até a hora da missa. Isso. Subo as escadas e me esqueço lá dentro. Assim fico quieta e ninguém se lembra de mim. Olha, chegaram as cartas e ninguém falou nada. Não falam comigo, nem para me avisar das cartas. Quem sabe a mãe escreveu, quem sabe alguém mandou alguma coisa para mim. Eu queria que Furtado me mandasse uma carta um dia. Um postal dos lugares que ele conhece, do Rio de Janeiro, do mar. Ele disse uma vez que Recife era igual que Veneza, cheio de pontes e rios cortando a cidade. Eu não sei o que é Veneza, mas o Furtado sabe, conhece essas coisas de estrangeiro. Olha, uma carta para ele. Letra bonita, grande. Nome lindo. “Arlindo Furtado”. É uma carta pesada, para ele. É carta de mulher, “Glória”. “Glória”, de Salvador. “Glória” de Salvador, com um coração no pingo do “i”. “I” de “inferno”. Inferno. Glória dos infernos!

'figura Feminina - Di Cavalcanti Quem será essa tal Glória, que escreve para ele com essa letra toda desenhada de mulher que tem tempo de sobra na vida para ficar escrevendo cartas para homem em outra cidade, deve ser alguma dessas mulheres desavergonhadas, só mulher assim desenha coração em carta para homem solteiro, e essa droga de chave que não entra, Furtado, eu preciso entrar no quarto, pelo amor de Deus, entra, chave, inferno, mulher dos infernos, essa chave que não entra, diacho, eu não quero que ninguém me veja chorando, eu não quero, Furtado, deixa eu entrar, meu Deus, ajuda, essa chave, diacho, abriu, graças a Deus, agora ninguém mais vai me ver o dia inteiro, não quero mais ver mulher nenhuma na minha frente, tenho ódio das mulheres, essa risada infernal da Dona Amparo, essa casa cheia de capetas, Glória dos infernos. Vou costurar que faço melhor, essa meia me incomoda, esse furo, esse buraco aqui dentro, não consigo, não adianta, eu vou ver minhas flores, eu preciso de ar, Furtado, por que, eu não acho o que eu quero, eu te encheria de flores, Furtado, não acho flor que te mereça, rosas, rosas vermelhas, muitas, uma folha inteira de rosas vermelhas para você, Furtado, meu coração, Arlindo, volta para mim, Furtado, lindo, Arlindo Furtado, só para mim, Furtado, só para mim, Arlindo, para mim… Vou te colocar aqui bem perto de mim, quero te ver ao acordar, quero sonhar com você coberto de rosas vermelhas, meu amor, teu sorriso, meu amor, cheio de rosas, nossa vida calma sem problemas sem vergonha sem pudores sem Dona Amparo sem Glória sem demônios, não quero chorar, sem essa casa, não quero mais chorar, sem essa vida, não quero mais chorar por você, Furtado.

– Socorro, abre aqui, menina! Anda, abre logo!

Eu não quero mais abrir minha vida para ninguém, Furtado, volta, volta para mim, Arlindo, esquece tudo o mais, lindo, e eu me entregarei para uma vida só para você, sem Amparo nem Glória.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

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Wednesday, May 9, 2007

‘FARSA’ e o financiamento da cultura

Marcos BredaAo pensar na produção cultural e artística do Brasil, poucos idealizadores parecem preocupar-se com o que, no futuro, representa a própria garantia de manutenção dos produtos culturais que se empenham em divulgar - a formação de um público que se interesse por suas produções e de outros tantos artistas em construção que se interessem em levar adiante essa reunião imaterial de conhecimentos a que chamamos cultura. Em diversos países, esse reavivar cultural dá-se por meio de financiamentos públicos, invariavelmente mantidos por meio de isenção fiscal a empresas privadas que cooperem por meio de patrocínio a espetáculos e eventos artísticos. No Brasil, também foi esse o caminho encontrado para que o governo se eximisse dos encargos de financiar a cultura diretamente - e diversas leis surgiram com esse propósito, das quais as mais aplicadas são a Lei Rouanet e a Lei de Incentivo à Cultura (LIC).

Infelizmente, como tantas outras coisas em nosso país de descontroles, também as leis de financiamento cultural sofrem terríveis distorções. Sem definições precisas sobre o tipo de evento cultural ou artístico que interessaria ao governo incentivar, as verbas da Lei Rouanet e da LIC têm sido aplicadas para financiar produções que se pagariam facilmente por conta de seu forte apelo comercial ou por seu público cativo; mais que isso, as mesmas verbas que são tão difíceis de obter para a sustentação de projetos importantes são dirigidas a eventos e produções cujo caráter cultural é altamente questionável. Exemplos não faltam: verbas da LIC e da Lei Rouanet foram aplicadas no megaespetáculo do canadense Cirque du Soleil, nas últimas turnês da cantora Ana Carolina e da dupla Chitãozinho e Xororó e até mesmo na produção dos mais recentes filmes de Renato Aragão e Xuxa. Tristemente, os desmandos não param por aí: os esportistas, que já contam com dinheiro oriundo dos Bingos e de outras fontes de patrocínio, também conseguiram no Congresso Nacional uma fatia da isenção fiscal das leis de incentivo e, pasmemos todos, há um projeto de lei em andamento naquelas casas legislativas que prevê uma lei de incentivo fiscal para empresas que patrocinem…grupos religiosos!

'A Maldição do Vale Negro'Felizmente, há exceções. Marcos Breda, Luiz Arthur Nunes e sua Caravana Produções lançaram, em 07 de maio de 2007, seu terceiro projeto cultural com patrocínio exclusiva da Refinaria Alberto Pasqualini (REFAP), da Petrobrás, intitulado FARSA Trata-se da montagem de quatro textos curtos de autores famosos - Miguel de Cervantes, Tchékov, Moliére e o brasileiro Martins Pena - que se dedicaram ao gênero cômico nos textos dramáticos e, mais específicamente, à farsa. O projeto, contudo, não se limita à montagem das peças teatrais: em uma perfeita compreensão do espírito das leis de incentivo cultural, a Caravana Produções preocupa-se, desde suas primeiras montagens - Arlequim, Servidor de Dois Patrões (2002) e A Maldição do Vale Negro (2004) - em oferecer ao público a oportunidade de acompanhar todo o processo de montagem do espetáculo. No dia 07 de maio de 2007, o início do projeto Farsa foi feito em uma primeira leitura dramática aberta para convidados, na qual o elenco - Bianca Byngton, Marcos Breda e Luciana Braga, entre outros - apresentou os quatro textos que serão estreados na primeira semana de agosto em Porto Alegre, no Teatro São Pedro. O melhor do projeto, contudo, é a chance que os interessados em teatro terão ao participar, entre os dias 12 e 15 de junho de 2007, de uma série de mesas redondas e conferências sobre o gênero teatral farsesco e de uma oficina para atores sobre atuação cômica. Em outras palavras, Breda e Nunes estarão abrindo para o público as reuniões preparatórias e as oficinas que muitos outros espetáculos também realizam, mas a portas fechadas. O projeto Farsa, contudo, traz um importante diferencial: a qualidade de seus palestrantes. A conferência de abertura, intitulada “A Farsa no Teatro”, será ministrada por Eric Bentley, uma das maiores autoridades em textos dramáticos, responsável pela introdução e divulgação da obra de Bertold Brecht nos EUA.  O evento contará, ainda, com mesas redondas nas quais especialistas na área das artes dramáticas falraão sobre o gênero farsesco e sobre os autores; dentre os debatedores, nomes de peso como Graça Nunes (UFRGS), Beti Rabetti (UNIRIO), Vilma Arêas (UNICAMP), Elena Vassina (USP) e Bella Josef (UFRJ).  Além disso, estão programadas leituras dramáticas de outros textos dos autores estudados em “Farsa”: Cervantes e Moliére, sob direção de Adriane Mottolo, e Tchékov e Martins Pena, sob direção de Julio Conte.

'Arlequim, servidor de dois patrões'Não faltam leis no Brasil, e nossa legislação, em algumas áreas, acompanha o que há de mais moderno no pensamento legislativo mundial. O que nos falta é parcimônia na aplicação do dinheiro público, uma certa visão de futuro e uma consciência de que em um país com tamanhas necessidades sociais, verbas como as das leis de incentivo a cultura devem ser revertidas, centavo por centavo, em iniciativas que efetivamente tenham uma preocupação em construir, como esta belíssima proposta da Caravana Produções.  Mirando no desejo de montar espetáculos teatrais de elogiada qualidade, Marcos Breda e Luiz Arthur Nunes acertaram no alvo ao multiplicar a verba obtida pelo patrocínio oriundo da renúncia fiscal do Estado brasileiro na forma de ingressos mais baratos para suas apresentações, democratizando o acesso do público às montagens, bem como levando aos homens e mulheres da área cultural o bom exemplo de compartilhar conhecimento e formar platéias para o futuro.

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Thursday, May 3, 2007

Perspectivas

'O Balcão - Edóuard ManetO Balcão de Manet - Perspectiva II', de René Magritte

Os antigos já diziam que a beleza está nos olhos de quem vê.  Arrisco-me a dizer que a visão começa bem antes do olhar.  Há uma predisposição interior - que uns situarão no âmago das células do corpo, outros, nos recônditos ambientes da alma -, um prisma metafísico qualquer, responsável por transformar o que é apenas luz refletida na matéria em significações as mais doces ou mais funestas.

Se aqui uns vislumbram uma saída, outros temerão o que acreditam ser a beira de um precipício.  Onde uns vêem uma razão para a vida, outros enxergarão não mais que a inexorável morte.

Talvez esteja nesse sentido mais oculto dentro de nós - essa indecifrável percepção do mundo que não sabemos onde reside - a chave do que alguns denominam felicidade.  Mas como regular em nós essa lente etérea, inefável, que faz o olhar enxergar trevas mesmo em meio ao mais claro alvorecer? 

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Wednesday, May 2, 2007

Socorro e seus mais recônditos pensamentos

Djanira - 'Costureira'Socorro empurra a cadeira para trás sem emitir qualquer som. As demais pessoas à mesa continuam a refeição. Ninguém olha para ela ou murmura qualquer despedida. A moça recoloca o assento no lugar e, de cabeça baixa, dirige-se para a escada. Ainda com o pé esquerdo no primeiro degrau, ela vira a cabeça e olha para a pequena mesinha onde havia um telefone e alguns envelopes. Seu corpo debruça-se no corrimão e a mão direita levanta carta por carta.

O último envelope da pequena pilha traz um sobrescrito em letras grandes. Seu dedo indicador acompanha o desenho das palavras: “Arlindo Furtado”. Ela ergue-o até a altura dos olhos, abana-o no ar, sente o peso do conteúdo oculto. No verso, há um nome de mulher, “Glória”, e um endereço distante, de uma cidade portuária. Uma das letras do nome de mulher tem um pequeno coração no lugar do ponto característico. A mão de Socorro crispa-se sobre o papel amarelado. Sem amassá-la, ela devolve aquela carta à companhia das demais e sobe os degraus da escada rapidamente.

A chave da porta do quarto não entra na fechadura. Socorro tenta três vezes acertar o pequeno orifício, sem sucesso. A mão direita, a mesma que há instantes repetia as palavras de Glória sobre o amarelo do pequeno envelope, agora treme. A chave cai ao chão, junto dela uma lágrima escapa pela face esquerda da moça. Ela pega no assoalho a chave caída. Com a mesma mão, seca o olho marejado e tenta novamente entrar no quarto. O som da porta que abre e de seus pés adentrando o quarto é menor que o barulho da risada rouca de Dona Amparo no andar de baixo.

Senta-se para costurar e até faz alguns pequenos reparos em um par de meias brancas que trazia calçadas. Mas, em poucos minutos, abandona a agulha e pega sobre a mesa umas flores de papel recortadas. Separa-as por tamanhos e cores. Por fim, coloca de lado as três pilhas de retalhos de revistas e tira de uma pequena gaveta quatro folhas inteiras de papel de presente. Com o dedo, passa um pouco de cola no verso de uma enorme figura com rosas vermelhas estilizadas; a mão desenha demoradamente no retalho um nome. Sobre uma das letras de “Arlindo”, Socorro faz um coração e, em volta de todo o nome, ela fecha um círculo no qual seus dedos se demoram, rodeando e rodeando sem qualquer pressa.

Quando a voz de Mercedes chama seu nome do lado de fora do quarto, Socorro ainda mantém as mãos espalmadas sobre o papel já devidamente colado na parede sobre a cabeceira da cama. Seus olhos miram entorpecidos o vermelho das flores pintadas. A mão que acaricia o papel, evitando as bolhas de ar que surgiam nas bordas da folha, é a mesma que vez por outra conserta o olho úmido. Mas Socorro nada diz, mesmo quando a criada da pensão esmurra por três vezes a porta do quarto e faz estremecer por dentro o pequeno cômodo onde a moça guarda seus pedaços de vida privada longe dos olhos do mundo.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

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Os jornalistas e os canalhas

Arnaldo Jabor

Todos sabemos que os nosso queridos deputados têm direito de receber de volta o dinheiro gasto com gasolina, seja indo para seus redutos eleitorais ou indo para o hotel com suas amantes ou seus amantes. A Câmara, ou melhor, você e eu, pagamos o custo, desde que eles levem notas fiscais para comprovar os gastos da gasosa. Será que o senhor Arlindo Chinaglia não vê isso ou só continua pensando no bem do PT? Quando é que vão prender esses canalhas? Ah, esqueci, eles têm imunidade, têm foro privilegiado, é isso aí amigos otários, otários como eu.

Arnaldo Jabor, em comentário à rádio CBN

A Câmara dos Deputados, na figura de seu presidente Arlindo Chinaglia (PT), deu início a um processo judicial contra Arnaldo Jabor, comentarista do Sistema Globo de Rádio e Televisão, por conta de comentários feitos pelo cineasta a respeito da imunidade parlamentar.  Segundo nota oficial daquela casa parlamentar, a medida partiu do uso do termo canalhas por Jabor para referir-se a parlamentares.

Curiosamente, os comentários de Arnaldo Jabor que deram origem à sua indignação - que o levou a usar a palavra pouco elogiosa em referência aos deputados - não se referiam aos parlamentares em geral, mas àqueles que estariam se locupletando das verbas destinadas aos gastos com combustíveis liberados para os deputados e senadores como forma de aumento indireto de salário.  Dados recentemente divulgados na imprensa dão conta que o valor gasto nos primeiros meses da atual legislatura com tal regalia seriam suficientes para financiar o combustível necessário para quarenta e quatro voltas em torno do globo terrestre.  Até onde se sabe, não há qualquer fiscalização sobre essa benesse, sendo o parlamentar obrigado, apenas, a apresentar notas fiscais dos gastos com combustível; tampouco se ouviu falar de qualquer medida do presidente do Congresso Nacional para coibir tal prática escandalosa.  Mas nada disso é importante quando um jornalista se dispõe a chamar de canalhas os senhores deputados.

Neste nosso país às avessas - cada vez mais nos aproximamos do que criava a imaginação da Idade Moderna, em que alguns criam que no hemisfério sul as pessoas andavam de cabeça para baixo… -, há até mesmo jornalistas que aplaudem e consideram acertada a medida do Congresso Nacional contra Arnaldo Jabor.  Para eles, “o que está em jogo, no caso do processo contra Jabor, não é o mérito de suas críticas ao mais do que reprovável comportamento dos deputados, a lambança que eles fazem com o meu, o seu, o nosso dinheiro. É a brutalidade mainardiana, ou reinaldo-azevediana, do protesto”.  As palavras são de Luiz Weis, um jornalista de vasta experiência profissional mas simpático ao atual governo, em artigo publicado no Observatório da Imprensa e reproduzido, curiosamente, no site do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).  Weis considera que chamar de canalhas os deputados que estão a ganhar milhares de reais com recibos fraudados de gastos com combustível - ou mesmo com comprovações verídicas de gastos que não foram feitos efetivamente em serviço - é uma “transgressão dos padrões elementares de civilidade”.

Reinaldo Azevedo Não por acaso, ele usa como adjetivação da atitude de Jabor as referências a dois outros jornalistas cujas críticas têm incomodado o governo petista desde o início de seu primeiro mandato - Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo.  Este último foi quase calado por um estratagema simples e sobre o qual não podem ser levantadas acusações contra o governo - sua revista Primeira Leitura teve que ser encerrada simplesmente porque, em um mesmo mês, toda a publicidade oriunda de bancos e instituições ligadas ao governo federal foi retirada sem prévio aviso.  Mainardi, por sua vez, respondeua processo por calúnia solicitado por Franklin Martins, hoje Ministro da Comunicação, ontem jornalista do jornal Hora do Povo - do MR-8;  além disso, recebeu uma ameaça de morte nada velada nas páginas desse mesmo jornal, conforme relatado no blog do Reinaldo Azevedo em 02 de maio de 2007.  Para Weis, o jeito Mainardi ou Reinaldo Azevedo de criticar o governo Lula é pouco civilizado - ainda que o mesmo Weis refira-se, em outros artigos, ao jornal Valor Econômico dizendo que “faz tempo que o jornal baba ovo diante de qualquer coisa que FHC diga”, termos não muito civilizados, a bem da verdade. 

Talvez a questão toda da ética e da civilidade no jornalismo brasileiro resida, enfim, nos alvos e não nos “atiradores”.  Não me recordo do Partido dos Trabalhadores em seus longos tempos de oposição como um partido muito preocupado com medir palavras.  Contudo, dentro da enorme culpa que trespassa o imaginário político e social brasileiro em relação aos desmandos dos anos de ditadura militar, o que vêm das esquerdas é perdoável e sempre feito dentro de um “bem comum”, em nome de uma “causa” cujos efeitos só podem ser benéficos.  Por isso a lei de imprensa que o governo Lula tentou implementar ao final de seu primeiro mandato foi defendida pelos mesmos políticos que lutaram contra a censura nos anos de governo militar.  Pela mesma razão é que os ativistas políticos que gritavam no Brasil por uma imprensa livre aplaudem a ameaça de Hugo Chávez de abandonar a Organização dos Estados Americanos caso sua atitude de fechamento da maior rede de televisão da Venezuela - cuja postura de oposição ao governo incomoda o caudilho venezuelano - siga sendo criticada nas reuniões daquela organização.  Em nome disso, relevam-se o mensalão, as denúncias de superfaturamento nas obras da Infraero, as provas do envolvimento do filho do presidente em tráfico de influências no setor de telecomunicações e até mesmo a farra dos gastos de combustível dos parlamentares sob o comando do presidente petista da Câmara dos Deputados. 

Será que é porque no Brasil ser canalha é ser contra a esquerda - seja lá o que ela pregue ou faça?

Posted by Frizero at 14:19:59 | Permalink | Comments (6)