Thursday, May 31, 2007

Era uma vez

Sempre que o relógio carrilhão ressoava as oito horas da noite, os três irmãos eram levados pela avó zelosa para o quarto. Otávio, de apenas dois anos, ocupava o berço que já fora de Rodrigo e de Paulo Temístocles, os dois maiores. Rodrigo, em seus nove anos de idade, já se sentia um rapaz feito e insistia para ficar acordado um pouco mais, mas a avó era taxativa: oito horas da noite, crianças na cama!

Naquela noite, Rodrigo não reclamou. Visitando o sótão da casa, ele e o irmão Temí haviam encontrado um livro antigo e grosso, empoeirado e com cheiro de Tia Rute. Na primeira página, lia-se em letras redondas um comprido nome de homem. Os dois irmãos combinaram que, naquela noite, iam esperar a avó sair do quarto para desvendar os mistérios daquele livro esquisito.

A avó saiu, e Rodrigo mandou Temí ir até a porta. Era tarefa do irmão do meio acompanhar com os ouvidos os passos da senhora a descer as escadas. O irmão, dois anos mais novo que Rodrigo, obedecia-o cegamente. Fez sinal para o mais velho assim que ouviu a avó se escorar na cristaleira lá embaixo. Rodrigo retirou Otávio do berço e os três foram para debaixo do beliche. Lá, o mais velho ligou a lanterna e posicionou-se para iniciar a leitura:

- Era uma vez…

- Lê direito, Rodrigo. Esse livro não é de “era uma vez…”

- Tá bem. “Temístocles Mena Barreto”.

- Esse não é o meu nome!

E não era mesmo – era o nome do bisavô, e se Temí interrompesse uma vez mais ele não lia era nada: guardava o livro no baú e ainda contava para a avó que o irmão de sete anos tinha mexido nas coisas dela. Temí ficou quieto, fechou a cara, mas continuou olhando o livro com interesse. Rodrigo abriu em uma página qualquer.

- Posso ler?

Temí fez um “sim” contrariado com a cabeça. Otávio repetiu o irmão. Balançou a cabeça muitas, muitas vezes, mesmo sem entender direito o porquê.

- Dia trinta e um de maio…

- Hoje? – Temí falou de improviso.

- Não, burro! Dia trinta e um de maio lá do tempo do avô do pai…

Temí não abriu mais a boca até a hora que a porta abriu e a avó acendeu a luz, já com um chinelo na mão.

Do volume de contos

 

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

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Socorro conta uma grande aventura

'Moça de Guaratinguetá' - Di CavalcantiEu vou mover céus e terras.

Ela vai estar na saleta, contando dinheiro com Abigailzinha deitada no sofá, chorando sua vida sem dor. Vou sair do meu quarto e descer até a cozinha. Esperarei por Mercedes. Eu vou baixar as escadas sem estalar um osso sequer. Mercedes não vai me pegar, prometo, meu amor. A mulherzinha vai estar no pátio, estendendo os lençóis no varal dos fundos, cantando um desses boleros que ela tanto gosta. Ela vai esquecer a letra da música e voltar para dentro, para buscar mais inspiração e roupa úmida. Eu vou atravessar o terreiro e arriscar, e suar frio, e rezar sem palavra, mas vou entrar no quarto de Dona Amparo. Vou fazer isso por você.

Vou trancar por dentro a porta do quarto. Abigailzinha fecha-se lá quando desfruta de seu choro das tardes, e Mercedes não vai estranhar nada se não conseguir entrar. Não vou abrir fresta de janela, nem acender abajur. Vejo bem no escuro, tenho olho de cerzideira, enxergo bem o que quero muito. Vou procurar nas gavetas da penteadeira, nas caixas de chapéu, dentro das porcelanas, no fundo falso da caixinha de música de Abigailzinha. Por você. Vou encontrar o motivo. Por você, vou descobrir a razão. Furtado, por você.

Ela expulsou você, mas eu vou conseguir o recibo sem pagamento, a carta que denunciou você, o pedaço de passado que condena, Furtado. Vou resgatar você, e ficarei quieta atrás da porta até que o silêncio do pátio me deixe voltar para dentro da casa.

Vou entrar pé ante pé na cozinha. Mercedes vai me ver. Sobre os ombros, vestida de flor e decote, com seu sorriso de rameira. Cortando suas batatas, requentando feijão, com seus olhos verdes de bastarda. Eu não ligo, Furtado, eu nunca me importei. Nunca me enxergam mesmo, não me incomoda quando olham. E eu vou ter comigo a carta, o recibo, a condenação. Dona Amparo vai gritar pela Mercedes lá da saleta, talvez fale até meu nome, mas eu não vou ter medo. Já nada mais vai me interessar.

Vou encontrar você, Furtado, lá no navio. Vou falar que sou sua namorada, mas sei ainda é mentira. Os marujos vão fazer pouco caso, os sargentos vão rir, o capitão vai pedir satisfações. Vão duvidar de mim, caçoar de mim. Não, meu amor, eu não me importo. Eu vou lutar por você e enfrentar as Marinhas todas se quiser. Eu vou dizer que você me ama só para despistar os marinheiros. Vou deixar na sua mão o papel para que você volte, Furtado, na sua mão, para que você venha lá para a pensão de onde você não pode sair nunca. Nunca, Furtado. Eu não sei onde ele fica, o seu navio, eu nunca vi o mar, mas eu vou encontrar você, vou mover céus e terras até trazer um mar inteiro e nele o seu barco valente. Até aqui, na pensão, o mar e o seu barco.

E você vai voltar, Furtado, e entrar pela porta da saleta, e rasgar o recibo, e esfregar a carta maledicente, e dizer boas verdades na cara redonda dela. Quero ver Dona Amparo sem chão. Quero ver a soberba dela rolando por terra. Por você, Furtado. Para que nunca mais você me deixe. Para que olhem para mim e me vejam. Perto de você. Não quero mais a distância, a ausência, a calma inqueta. Não mais a vontade seca, a saudade sem passado. Não quero a solidão.

Quero que ela morra.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

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Friday, May 25, 2007

I don’t want my MTV!

A MTV já foi, em um passado não muito distante, o canal da música.  A programação básica da emissora era a exibição de videoclips, pequenos filmetes que tinham a intenção de apresentar ao público seus artistas.  Para um público acostumado a conhecer seus artistas favoritos pela música, a inovação teve ares de revolução cultural.  Os videoclips tornaram-se item obrigatório no sistema de divulgação dos músicos, foram aprimorados e tornaram-se, em muitos casos, curta-metragens com histórias completas, relacionadas ou não às canções que ilustravam.  A MTV cresceu em torno do interesse renovado por esse formato diferente de o público ouvir as canções preferidas.  Sim, a MTV já foi, em um passado não muito distante, a Music Television.  Hoje, os videoclips deixaram de ser o foco da programação da emissora, que ao menos aqui no Brasil aposta em programas de variedades e entrevistas de gosto duvidoso.  Sinal dos tempos?

Talvez o problema tenha raízes mais profundas.  Em entrevista recente, o grupo de rock inglês Deep Purple, falando sobre uma das faixas de seu novo álbum, Rapture in the Deep, denunciou a existência, nos Estados Unidos da América, de uma engrenagem imensa no mercado fonográfico que impede a divulgação do trabalho dos artistas em geral.  Movidos a dólares, radialistas, DJs, diretores de televisão e jornalistas teriam construído uma muralha virtual que lança no ostracismo músicos e cantores de qualidade ao incensar aqueles que os diretores de marketing das gravadores decidem que serão os hits do momento.  Quando começou sua carreira, o Deep Purple, uma das principais bandas de classic rock, tinham sua música tocada em diversas rádios - eram outros tempos, os DJs decidiam sobre a programação das rádios, havia liberdade total do que se podia executar em um programa de rádio.  De lá para cá, as rádios tornaram-se, pouco a pouco, nichos específicos deste ou daquele gênero musical, para logo em seguida caírem na linha de produção das grandes gravadoras e perderem sua naturalidade.  Para Roger Glover, baixista do Purple, a conseqüência disso é um empobrecimento da cultura musical do público: se antes em uma única rádio o ouvinte podia ter contato com jazz, r&b, blues, pop e outros gêneros, hoje a programação das rádios forma um público que não conhece nada além dos nomes que são incluídos na lista de divulgação das gravadoras, nem mesmo as outras faixas dos álbuns de seus artistas favoritos se estas não forem escolhidas como “faixa de trabalho” pelos marketeiros.

Para os países mais periféricos, caso do Brasil, os reflexos são ainda piores.  Sofremos uma invasão de música norte-americana - eventualmente alguma música britânica ou feita por músicos de outros países, mas cantada em inglês - e aos poucos construiu-se uma idéia estapafúrdia de que a música de qualidade é produzida apenas na língua de Shakespeare.  Vejam a nossa(?) MTV: quantas vezes, nos últimos tempos, viu-se alguma canção exibida naquela emissora que não seja cantada em inglês - exceção feita a alguns artistas nacionais, em geral bandas de rock pequenas que se tornam famosas a partir da insistência da emissora em divulgá-las ad nauseam em sua programação.  Lembro-me de ter assistido Caetano Veloso, Marisa Monte e alguns outros poucos nomes da MPB na MTV - onde estão agora?  Há que se desconfiar quando o que se vê na MTV é exatamente o mesmo cardápio de videoclips que se assiste em outros canais semelhantes, como o Mix TV.  Aliás, o menu é o mesmo das rádios, também - de repente, parece que o mundo musical se resumiu a meia dúzia de bandas de rock dos EUA, aos mesmos quatro rappers de sempre e a um punhado de cantoras de R&B.  Sem esquecer - porque a MTV brasileira não nos permite esquecer! - o sem-número de bandas de axé music de qualidade musical questionável, mas de fácil apelo comercial.

 A equação é simples: as emissoras dizem programar aquilo que o público gosta; mas se os telespectadores/ouvintes não conhecem nada além do que esses mesmos canais de televisão jovens lhes apresenta, como eles irão gostar de outras coisas?  Ouvir as rádios brasileiras ou assistir à MTV, hoje, é acreditar que o Brasil é um país de bilíngües fluentes em inglês.  A realidade é bem outra - pouquíssimos são os que conseguem ouvir uma canção em inglês no rádio e entender o que se passa… Se a língua não é uma barreira para a música, por que não se ouve, então, a produção musical de outros países?  Não haverá bons rappers na França, não se produz pop music no Japão, não há cantoras italianas de qualidade?  E o jazz espanhol, e o rock romeno, e a energia das canções de Bollywood?  Como explicar que o Brasil ignore por completo a música que se produz em Portugal, país que compartilha conosco a mesma língua? 

Nada disso chega até nós por uma razão muito simples: os diretores de marketing das grandes gravadoras - quase todas, com raras exceções, sediadas nos Estados Unidos da América, não têm interesse comercial na divulgação de tantos artistas do mundo que vivem à margem da programação das rádios e canais de televisão.  Mesmo a MTV, que com sua abrangência internacional poderia promover um intercâmbio maior entre os diversos países onde atua, ignora o mundo: em cada lugar onde estabelece seu canal de televisão, a MTV exibe apenas música em inglês e os artistas locais.  Por que levar para a Índia o videoclip de uma banda brasileira, ou trazer para cá um grupo de rap ucraniano, uma banda de rock russa, um grupo vocal alemão?  Simples: não gera lucro fazer isso, não está na cartela das grandes corporações que produzem CDs, DVDs, ídolos musicais.

E os VJs da MTV enchem os pulmões para proclamar sua independência, sua liberdade de escolha.  Mas trabalham, mesmo que de forma inconsciente, para um processo de colonização cultural que tem a mais torpe das razões por trás: o dinheiro, somente o dinheiro.

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Thursday, May 24, 2007

Socorro sofre um abalo

René Magrette - 'Le Modele Vivant'Voz seca e crua tinha a Mercedes, quando ria da desgraça alheia.

- Dona Amparo quer ver você lá na saleta. Agora.

Socorro calçou os sapatos e desceu as escadas, apressada. Dona Amparo esperava-a na sala de estar do sobrado antigo, que os pensionistas chamavam de “a saleta secreta”, já que eram proibidos de freqüentar o lugar estreito e escuro. A dona da pensão obrigava-os a entrar pelos fundos. A porta da “saleta” era aberta apenas para as suas visitas pessoais, que eram raras e vetadas aos hóspedes.

A sala, com suas paredes cobertas por camélias esmaecidas, era dominada por uma bergère de espaldar alto, como Socorro sempre sonhou ter em seu quarto, para seus longos momentos de costura. Ao lado, um sofá confortável com um antigo xale de Dona Amparo e almofadas brilhosas que Abigail usava para descansar sua fraqueza quando ali se deitava, reclamando da vida para a avó postiça. Uma cristaleira repleta de pequenas figuras de louça tomava a parede próxima ao corredor, e o tamanho exagerado do móvel impedia os olhares alheios de quem subia as escadas. A um canto, um pequeno pufe compunha o único espaço vazio da sala diminuta, dominada por vasos de plantas murchas. Ali, Dona Amparo fez sentar Socorro com um gesto descuidado da mão gorda.

- Abigail viu você mexendo nas cartas. Você sabe que não quero ninguém mexendo nas cartas. E Abigail viu você pegando uma carta que é para o Furtado. Não quero mais saber disso, ainda mais sendo carta de outro pensionista. Mesmo no caso do Furtado, que não mora mais aqui.

Socorro ergueu o rosto, incrédula. Dona Amparo continuou a falar sobre cartas, hóspedes, dinheiro, disciplina e a coitada da Abigail fez um muxoxo do outro lado da saleta, mas a costureira estava em um redemoinho que fazia a sala girar, desgovernada. O sofá virou sobre ela e o rosto pálido da Abigailzinha, coberto pelo luto do xale, veio até seu colo como uma raquítica maldição. Dona Amparo saltou no ar, a bergère cavalgava sem direção e ameaçava lançar sua amazona inesperada sobre as pernas da costureira. As plantas desfalecidas cresciam sobre as paredes escuras e enchiam de um lodo pegajoso o papel de parede, cujas camélias tornavam-se mandíbulas ferozes que ameaçavam Socorro. Na cristaleira, pequenas pastoras degolavam cisnes, gatinhos mimosos de alvura eram pisoteados por menininhas em vestidos de tule, carruagens floridas atropelavam uma bela moleira que tentava quebrar os vidros do móvel com o corpo de um peixe sorridente, roubado de um idoso pescador de porcelana chinesa.

Furtado não morava mais ali. A bergère saltava, o sofá sufocava a pequena Abigail contra o chão lamacento, a porcelana selvagem digladiava-se dentro da cristaleira, o xale atava seus pés ao caule de uma descomunal violeta, mas nada importava. Furtado. Não haveria mais quem lhe sorrisse à mesa deserta do café da manhã, ou que lhe contasse histórias do porto distante, ou encostasse o braço em seu seio ao tentar alcançar as roscas de polvilho vazias. Que as ervas daninhas devorassem suas mãos: Furtado não mais repararia em suas unhas pintadas de rosa decente. Que os cisnes grasnassem até que ela enlouquecesse: Furtado já não sussurraria seus doces comentários sobre o gosto da fiambrada, a obesidade de Dona Amparo ou as anedotas de Marinha. Que um tropel de cadeiras esnobes lhe esmagasse o corpo: Furtado jamais iria elogiar seus vestidos novamente.

- E que isso não se repita, Socorro! Ou você será a próxima que eu irei expulsar desta pensão!

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

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Menos índices, mais educação

 Em 23 de maio de 2007, familiares de alunos e professores da rede pública de ensino do Rio de Janeiro saíram às ruas em protesto contra a nova configuração escolar a ser implementada nas escolas.  Em Brasília, alguns dias antes, o Governo Federal anunciou mudanças nos programas de incentivo à manutenção das crianças em idade escolar.  Ambas as medidas giram em torno de uma única e singular preocupação: a divulgação recente de que o Brasil só perde em termos de índices de repetência escolar para o Haiti.

Contudo, as medidas para solucionar o problema passam longe do investimento em educação, em melhoria da qualidade do ensino, em aumento dos professores e do número de docentes nas escolas.  No Rio de Janeiro, adota-se a educação por ciclos, já que ela evita a repetência ao estabelecer que o aluno seja avaliado no decorrer de ciclos que duram três anos.  Porto Alegre e mais duas capitais estaduais já adotam o modelo, que dá mostras de desgaste por aqui: muitos alunos, pela falta de estrutura que comporte a recuperação de conteúdos ao longo dos ciclos, terminam a educação secundária como analfabetos funcionais, mesmo nas melhores escolas públicas.  Mas a educação por ciclos cumpre seus objetivos eleitoreiros: em uma palestra há menos de dois anos, um alto funcionário da secretaria de educação apresentou para uma platéia de educadores de todo o país uma estatística na qual Porto Alegre aparecia com índice de reprovação zero, no que foi largamente aplaudido.  Claro que ele não enfatizou o fato de que o ensino por ciclos não reprova ninguém… 

O Governo Federal tem um plano ainda mais mirabolante para resolver a questão: depois de descobrir, pelos números, que o Bolsa Família foi incapaz de reduzir os índices de repetência nas escolas públicas, o Ministério da Educação acena com um projeto que dará, ao final de cada ano, um bônus de R$ 240,00 (duzentos e quarenta reais) para cada aluno que não for reprovado.  Em outras palavras, premia-se o aluno que cumpriu seu dever.  Educadores já alertaram que a medida pode ser mais um tiro pela culatra do governo: professores serão pressionados pelas famílias para aprovar seus filhos, mesmo que eles não tenham condições de prosseguir para a próxima série, pelo mero desejo de garantir seu bônus…

Estão certos os pais e professores do Rio de Janeiro, que foram às ruas reclamar da idéia inovadora dos governantes.  Enquanto continuarmos a fazer experimentos em educação, ao invés de pensar o tema em amplo debate nacional, no intuito de estabelecer um plano que tenha objetivos claros para daqui a dez, vinte anos, vamos continuar com medidas paleativas e paternalistas que servem apenas para maquear os números até a próxima eleição.

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Monday, May 21, 2007

A desumanização do sexo

No mesmo dia em que se anunciava a abertura de uma academia-museu do sexo em Londres, o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em seu caderno dedicado aos adolescentes publicava uma matéria sobre a primeira experiência sexual dos rapazes.  Na capa do caderno Kzuka do dia 18 de maio de 2007, um jovem ator que faz o papel de um garoto de programa em uma telenovela atual, Sérgio Marone, corrobora os argumentos machistas que muitos acreditavam estar desaparecendo no Brasil:

- Ao contrário do que alguns dizem, tu achas que pode ser legal perder a virgindade com uma garota de programa?

- Pode ser muito legal, sim, você pode ser bem instruído.  É óbvio que ela pegou preservativo, me ensinou e tudo o mais.  Influenciou para que eu tivesse minha sexualidade bem resolvida.

Sérgio MArone

Mais adiante, entrevista-se um grupo de amigos, quatro jovens universitários entre dezoito e vinte anos.  Eles falam da pressão que sentiam de seus colegas no Segundo Grau para que perdessem a virgindade, situação que resolveram de diversas formas: um deles relata que arrumou “uma namorada só para isso” e completa, rindo cinicamente, que “uma semana depois, o namoro acabou” e ele “não sabe por quê”; outro, relata que, com quatorze anos, ele e mais quatro amigos foram levados até uma prostituta pelas mãos do amigo do pai de um deles e que, quando contou ao seu pai, este considerou aquilo “normal”; um terceiro diz que a própria irmã “arranjou tudo” para ele viajar com uma amiga dela, a quem encarregou de iniciar sexualmente o irmão. 

Como o ator global, eles confessam, sem qualquer pudor, que freqüentam bordéis, onde vão para “tomar cerveja” e “conversar com os amigos”.  Dizem que não escondem o fato de suas amigas e namoradas por considerar que não há motivos para não contar que usam os serviços de prostitutas.  Um deles relata sem cerimônias que teve uma namorada que era virgem e que por três meses não mantiveram relações sexuais; ele então “ia em um bordel, porque homem tem suas necessidades”.  A namorada, segundo ele, “achava melhor [ele] ir lá do que se [ele] fizesse sexo com outra guria”, pois ela “não achava que aquilo era traição, porque [ele] não tava ficando com ninguém, só estava satisfazendo [suas] necessidades”.  Apoiando as palavras do colega, outro rapaz do grupo encerra a entrevista afirmando que “com homem não tem muito problema”, pois “uma prostituta não é tua namorada; é um trabalho”. 

O jornal preocupou-se em coletar outras opiniões - de psicólogos a meninas da mesma idade dos entrevistado e até mesmo rapazes que não concordam com as declarações dos rapazes acima citados.   Na suposta sutileza da entrevista e no estudado estudado tom jovial de toda a matéria, contudo, estão visíveis as falácias de sempre - a iniciação com prostitutas reafirmando a masculinidade, a necessidade sexual masculina que não aceita qualquer tipo de controle, a traição masculina vista como condição natural da espécie humana.  Mas o que mais revolta em toda a matéria é que em nenhum momento se pensa no outro lado da questão: a prostituição feminina.

A mitologia existente sobre a dita profissão mais antiga do mundo é desmentida por todos os estudos sobre o tema; as mulheres são levadas à prostituição por necessidade, por vitimação em situações de abuso sexual, vendidas pelos próprios pais, forçadas pela vida.  Ser prostituta não é uma atividade com a qual se sonhe tornar na infância; não é aceita pela sociedade, tampouco é meio de vida que se almeje.  As prostitutas não escolhem os homens a quem irão servir, não trabalham por conta própria e não entram nesse tipo de atividade por vontade própria. 

Aqueles que tratam com tamanha frivolidade uma atividade que se baseia na perda absoluta da dignidade fazem isso para aliviar suas próprias culpas.  Afinal, ao criar para si mesmos o mito de que a prostituta é uma prestadora de serviços - algo como uma podóloga ou um eletricista -, também costróem uma auto-imagem de alguém que não está a fazer nada demais.  Não raro o mito da prostituta feliz com o que faz é corroborado por fantasias que misturam a figura da universitária gananciosa que vende o corpo por altas quantias com a garota de programa glamourizada de Uma Linda Mulher - bela, espirituosa e a serviço de milionários charmosos e disponíveis - e a idéia de que muitas das mulheres da vida exercem o ofício por serem ninfimaníacas que unem o prazer ao sustento… Se há, entre as prostitutas, mulheres que se dizem felizes com o que fazem, essas são uma minoria, e pode-se facilmente questionar se, declarando-se satisfeitas com essa vida de miséria moral, não estarão apenas tentando salvar para si um pouco da alma que vão perdendo a cada noite de exploração vivida nas mãos de desconhecidos.

Quem duvida disso - em especial, os homens -, que se imaginem sendo obrigados a manter relações sexuais com qualquer pessoa que se disponha a pagar por seus serviços.  As prostitutas merecem o mesmo respeito que qualquer ser humano; não se trata de criminalizar as que vivem nesse submundo de crueldades.  Mas banalizar a prostituição é colaborar na perpetuação dessa forma moderna de escravidão feminina. 

Os que usam os serviços dessas mulheres merecem o mesmo tratamento dos que cuidam da questão de maneira tão frívola na imprensa, como o tal caderno adolescente de Zero Hora, em matéria infeliz publicada na mesma data estabelecida como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes:  são, esses sim, dignos de toda a reprovação do mundo.  A liberação sexual dos anos 1960, que via no sexo uma força política de libertação, deixou-nos de herança a possibilidade de se falar abertamente do assunto, de ver com outros olhos a diversidade sexual, de conversar sobre o tema dentro dos lares e em família.  Mas trouxe também efeitos deletérios, que vão da exacerbação da promiscuidade, da aceitação passiva de todo e qualquer comportamento sexual e da desumanização do sexo, força poderosa que está intimamente ligada à alma humana e que hoje passou a ser uma mera questão de performance que beira à competição, uma disputa que leva os jovens a buscar as prostitutas como se isso fosse uma situação inocente e normal.  Vê-se o sexo casual com estranhos como um avanço da modernidade e a prostituta como alguém que se contrata, e o dinheiro extrai dos usuários qualquer culpa. 

Se a prostituição fosse uma mera prestação de serviços, o mesmo pai que considerou “normal” que seu filho perdesse a virgindade com uma profissional do sexo não se importaria se a filha seguisse o mesmo exemplo, contratando os serviços de um garoto de programa ou, quem sabe, tornanddo-se ela também uma prestadora de serviços.  Há os que verão nessas palavras um forte moralismo, uma fala reacionária ou o que quer que digam para denegrir os que não vêem nas relações sexuais uma atividade humana sem maiores conseqüências.  Mas quando as coisas têm dois pesos e duas medidas, é porque um dos lados da balança ética está nitidamente descompensado.

Posted by Frizero at 02:43:24 | Permalink | Comments (5)

Wednesday, May 16, 2007

O quarto de Socorro conta histórias

'Pessoa à janela' - Salvador Dali Quando voltou ao andar de cima do sobrado, Mercedes não precisou mais ameaçar: a porta de Socorro estava aberta. Pude ouvir a mulata raivosa entrando no quarto ao lado, em silêncio de acusação.

Dona Amparo assentou Socorro no menor dos quartos da pensão. Papel de parede desbotado, sinteco gasto e opaco, um fio grosso que descia do teto e sustentava uma única lâmpada fraca e amarelada. Seria fácil culpar a moça pelo cenário miserável, mas o aposento fora destruído pelo próprio uso anterior do sobrado. Um tapete ornado de camélias vermelhas descoradas disfarçava os estragos do assoalho, mas eram ainda visíveis os arranhões. Os moradores antigos arranjavam o mobiliário ao seu gosto, riscando sem medo o chão da peça. Socorro respeitava as ordens de Dona Amparo. Desde que ali chegou, jamais saiu do lugar qualquer um dos móveis maiores sem o consentimento da amarga senhora. E mantinha o quarto limpo, imaculado.

Só mesmo um torso de manequim deixado em um canto do quarto pertencia à moça. Improvisado sobre um abajur alto, ele suportava um inacabado vestido de noiva que Socorro conservara consigo, sem desassossego. Soube disso pela própria Mercedes: a freguesa, ali da rua mesmo, repudiou a encomenda por conta de uma traição do quase esposo, e a costureira não conseguiu cobrar os gastos. Ficou com o vestido, e o brilho emprestado pelo bordado em pedraria enfeitava o cômodo, alegrava o coração. O resto da mobília era de Dona Amparo, do tempo em que apenas as moças habitavam a casa.

Na parede ao fundo, uma cama de casal, sempre enfeitada com colchas delicadamente bordadas com anagramas alheios – outros pedidos que clientes suas desistiram de buscar. Sob o móvel robusto, um par de chinelas acolchoadas contrastava com a vassoura mal escondida pelas franjas da coberta. Junto à parede, um sóbrio armário de madeira escura dificultava a entrada. Socorro guardava nele as roupas simples que cosia para si, os três pares de sapatos, os moldes, o travesseiro, a caixinha trançada em forma de coração.

Quase oculta pelo guarda-roupa, uma mesa pequena tomada pelo tumulto dos pequenos objetos: a caixa de sapatos que servia de cesta de costura, retalhos de tecido, tesouras, flores de papel recortadas de papéis de embrulho e de revistas que Socorro recolhia na confecção em que trabalhava. A um canto do móvel, uma pastorinha de porcelana, com seu cestinho de azaléias coloridas e seu cão alvíssimo, enchia de graça falseada a desordem da costureira.

Havia algum encanto naquele quarto escuro e úmido. O pequeno basculante nada iluminava – dava para o corredor, ficava bem no alto, escondido na parede da porta de entrada. Mas tudo ali tinha um brilho postiço qualquer, um inverídico ar primaveril. Socorro colara flores de papel pelas paredes, encobrindo as partes que o mofo e o tempo iam destruindo. A peça encheu-se de cores incertas, um estranho emaranhado de recortes. Sobre a cabeceira da cama, chamava a atenção um grande borrão vermelho: a costureira grudara uma folha inteira de papel de presente, rosas encarnadas de um brilho chamativo, onde antes havia apenas uma singela imagem da Imaculada Conceição.

O que mais me intrigava, contudo, era a parede ao lado da cama, na qual Socorro não encostara nenhum móvel. Quando abri uma fresta de minha porta, vi que não era apenas a mim que aquilo impressionava. Mercedes estava atônita, com um rosto de desdém que não se esforçava em esconder. Ela olhava aquela figura: uma grande janela, com um céu azul e cortinas vermelhas a emoldurar uma paisagem incompleta. Não havia sol, nem árvore, nem terra firme. O mar. Sobre a linha do horizonte, um pequeno desfile de barcos em absurda perspectiva. Socorro fizera aquele mosaico tosco com as pequenas rebarbas de papel colorido que fora juntando. De longe, a abertura inventada parecia encher de luz o quarto mal ventilado e o rosto da costureira. Uma brisa marinha quase saia da parede em busca do mundo. Em direção a Furtado, pensei.

Mas Mercedes tinha outros planos e não ficaria ali a ver navios.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

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Tuesday, May 15, 2007

Não quero saber de Socorro!

'Três Mulatas' - Di CavalcantiVoz estridente tinha a Mercedes. Penetrava em meus ouvidos como uma ofensa. Era forte, esganiçada, e a mulher falava como se tivesse em seus gritos a única arma de defesa. Não era verdade. O longo tempo de serviços prestados à sisudez de Dona Amparo eram um trunfo que costumava anunciar sem cerimônia cada vez que se sentia ameaçada pela dona da pensão.

– A senhora já esqueceu de tudo o que eu fiz pela senhora?

A frase costumava calar a mesa do café da manhã. Dona Amparo respondia com um depois-conversamos entre dentes e engolia mais uma xícara de café amargo. Mercedes então ia cumprir o que a patroa havia determinado, mas com um sorriso indecifrável no rosto de mulata brejeira, ornado por inverídicos olhos verdes. Os poucos que sabiam do passado daquela casa compartilhavam um olhar cúmplice com a mulherzinha; os demais encolhiam-se em seus temores ou indiferenças.

– Eu sempre faço tudo que mandam, a senhora sabe.

Mas Mercedes era trabalhadeira. Não parava nunca. Lavava toda a roupa de Dona Amparo e da Abigailzinha com capricho. Mas não servia apenas à velha e sua descarnada neta. Por uns trocados, era capaz de engomar à moda antiga a camisa de um pensionista, de passar cera no chão de seu quarto ou mesmo de preparar uma média com pão e manteiga para confortar seu fim da tarde. Com astúcia de guerrilheira, era capaz de executar todas essas tarefas perigosas na clandestinidade, fugindo ao regimento rígido da pensão escrito na mente da patroa ranzinza. Para evitar enfrentamentos desnecessários, era capaz de cumprir as ordens mais absurdas de Dona Amparo, não sem antes recordá-la de sua fidelidade.

– Eu sou capaz de fazer de um tudo pela senhora.

E agora Mercedes berrava bem ao lado de meu quarto. Era impossível ignorá-la, até porque ela gritava e esmurrava a porta de Socorro com vontade. A mulata não gostava das mulheres que se hospedavam na pensão, sabe-se lá o porquê. Ao contrário do que fazia pelos homens, a quem servia revirando os olhos úmidos, pelas pensionistas não movia um dedo sequer, mesmo diante da promessa de alguns tostões. Trabalhar para outra mulher nas lidas domésticas era um desaforo e qualquer pedido desse tipo, uma ofensa grave para Mercedes. Dona Amparo era a patroa, era diferente; Abigail era doentinha, coitada.

– Tudo o que a senhora manda, eu faço.

Por isso os murros fortes e o nome de Socorro gritado com impaciência. Eu estava subindo as escadas quando Dona Amparo começou a reclamar. Alguém havia bulido em suas cartas, ela mugia. Eu não recebia cartas, jamais. Subi mais rápido e encolhi-me em meu quarto, mesmo sem ter culpa alguma. Mas os berros continuaram. A velha estava ofendida, via naquilo um desrespeito sem fim. Chamou Mercedes, e a mulata, única que deu pela falta de Socorro no final do café da manhã, apontou a moça como a responsável por aquele e outros males do mundo.

– Eu só faço o que a senhora manda, a senhora sabe, deve lembrar muito bem.

E agora Mercedes girava com força a maçaneta, fazia tremer a porta, batia os tamancos no chão. Mas Socorro não abria. A cozinheira bateu, pediu, fez que era querida, ameaçou de morte, fingiu que chorava, chutou. Nada.

– Dona Amparo, cansei. Deixa isso para lá. A senhora sabe que eu sempre faço o que a senhora manda. Mas o diacho da menina não quer sair.

Abigail deve ter dado um suspiro, dos longos. A patroa gritou para a Mercedes lá do sofá da sala. A mulher retrucou. Abigailzinha deve ter feito um muxoxo. A patroa levantou e veio até o pé da escada. Mercedes veio descendo e contorcendo os lábios de desdém. Dona Amparo xingou. A cozinheiro parou, colocando as mãos na cintura. Abigailzinha, coitada, deve ter reclamado da vida infeliz, quase morrendo a cada palavra.  A velha então falou para Mercedes que não queria saber de nada e que se ela achasse uma carta da neta dela no quarto daquela moça lá que ela então daria três tostões para a Mercedes e ainda um dia de folga inteirinho só para ela e que ela só não quebrasse a porta que isso não era preciso e que ela também não queria ter prejuízo com pensionista muito menos com a imbecil da tal de Socorro.  

Mercedes deu aquele meio sorriso enfeitado de esperteza.

– Mas só vou fazer isso porque eu faço tudo o que a senhora manda.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

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Monday, May 14, 2007

Bento

Fiés aguardam o papa Bento XVI em frente ao Mosteiro de São Bento, em São Paulo

Depois de uma viagem de cinco dias ao Brasil, primeiro país latino-americano visitado por ele em seu pontificiado, o papa Bento XVI regressou a Roma em 13 de maio de 2007. Sua passagem pelo país relegou-nos o primeiro santo brasileiro, Santo Antônio de Sant’anna Galvão - que, rompendo a tradição da Igreja, foi canonizado fora do Vaticano, em cerimônia realizada em missa campal na cidade de São Paulo. Mais que isso, a visita papal gerou um sem-número de debates e pequenas controvérsias multilicados e alimentados por nossa imprensa.

Como ex-católico, considero-me algo alheio a tais debates, por considerar que eles devem ser de interesse para os seguidores da Igreja, e mais para estes que para o público em geral. Contudo, o que se viu na visita de Bento XVI ao Brasil foi a prática exacerbada de uma das mais cultivadas atividades dos brasileiros - o achismo.

Poucos minutos depois de o papa Bento XVI descer do avião da Alitalia que o trouxe de Roma, todos os brasileiros, como por milagre, passaram a ser teólogos honorários: todos passaram a ter uma opinião formada sobre os rumos da Igreja Católica, sobre o conservadorismo de Joseph Ratzinger e sobre a história das religiões. Não raro, apelou-se para o passado da Igreja, condenando-a pelo massacre dos índios brasileiros, pela escravidão, pelos males da sociedade, por não aplicar o dinheiro gasto na visita papal no socorro dos miseráveis brasileiros… Criticou-se a postura do papa em relação ao pleno exercício da sexualidade, ao envolvimento de sacerdotes católicos em atividades religiosas, à defesa de dogmas católicos como o sacerdócio exclusivo para os homens e a liturgia tradicional. Tudo isso por muitos comentaristas e opinadores que pouca ou nenhuma relação têm com a religião católica ou seus seguidores.

Questiono-me o que era esperado por essa gente do líder máximo de uma religião. Instituições como a Igreja Católica são construídas sobre um corpo doutrinário definido, estabelecido ao longo de séculos de história e milhares de páginas de estudo de seus doutores da lei. Como tal, devem defender seus princípios, sob o risco de sucumbir se tal alicerce é profundamente afetado. Não vejo porque esperar de um papa uma postura distinta àquela de Bento XVI, um conhecido defensor da tradição. E não vejo mal nisso. Certamente que gostaria de ver uma igreja que aceitasse a homossexualidade como uma possibilidade, por exemplo, ao menos que acolhesse seus fiéis que seguem tal orientação sexual sem preconceito ou reprimenda; faria parte, com gosto, de uma comunidade que não visse o divórcio como um mal absoluto; adoraria estar em um grupo religioso que entendesse os métodos contraceptivos como uma possibilidade contemporânea não só para evitar males maiores, como o aborto e o crescimento desordenado da população; mas por isso, e por tantas outras razões, optei há tempos não ser católico. E minha opção não me dá o direito de criticar os que se sentem bem no seio da religião católica - onde, aliás, fui criado e recebi minhas primeiras noções de religiosidade, no que sou eternamente grato aos sacerdotes que me deixaram tal legado.

E estava errado Bento XVI? Que palavras suas podem ser condenadas? Certamente que sua defesa da castidade não estaria entre elas, mas é importante compreender o que prega o papa, que defende a castidade “dentro e fora do casamento” - em um tempo no qual a liberdade sexual é facilmente confundida com libertinagem e descontrole, em que jovens cada vez mais novos entregam-se à vida sexual como se estivessem em uma competição por quantidade e não por qualidade, sua defesa de uma postura mais casta diante do exercício da sexualidade não me parece em nada radical. Não será mais fácil compreender “castidade”, neste caso, como responsabilidade e menos como “abstinência total”, como vi certo jornalista dizer, com um meio sorriso nos lábios?

Que condenação podemos fazer às palavras de Bento XVI sobre o fracasso do capitalismo e do comunismo na solução dos problemas humanos? As viúvas ideológicas de Lênin e Fidel Castro devem sentir formigamentos diante dessas palavras tão francas de Ratzinger, assim como devem se incomodar os donos do capital no mundo. Mas está ele errado? Socialistas e liberais, cada um com suas convicções, são apenas dois lados da mesma moeda: a busca do poder sem se importar com os meios para atingir tal fim. Que o digam George W. Bush e Hugo Chávez, Fidel Castro e Le Pen.

Contrários à visita papal usaram as falácias de sempre. Uns insistiam nos gastos da recepção do papa no Brasil, dizendo que tal dinheiro seria melhor aplicado nos programas sociais do governo. Outros encheram-se de uma autoridade teológica que não detém para falar das idéias e posições que Ratzinger deveria ter, e não tem. Queixaram-se até mesmo da breve crítica que Bento XVI fez às “seitas” que praticam um “proselitismo” violento. Curiosamente, os mesmos críticos não vêem mal nos gastos do governo, por exemplo, na recepção da equipe de futebol que porventura ganhe uma competição internacional, ou na compra de um avião moderníssimo para uso exclusivo do Presidente da República; nada falam dos absurdos das seitas, sim, seitas neopentecostais que invadem os canais de televisão aberta para fazer um proselitismo absurdo que beira as raias do charlatanismo; não se pronunciam sobre as posturas igualmente dogmáticas de outros líderes religiosos em visita ao país - ou será que crêem ser o Dalai Lama a favor do aborto, da liberdade sexual inconseqüente ou da descriminalização das drogas?

De minha parte, sigo em minha postura de ex-católico que se abstém de comentar as escolhas de uma religião que não mais professa. Com todas as idéias tidas como conservadoras pelos não-católicos - ou deveria dizer, anti-católicos? -, preferia viver em um mundo no qual os valores cristãos falassem mais alto que a pseudo-liberdade pregada nas últimas décadas e que tantos males nos têm causado.  Oxalá a visita de Bento XVI tenha feito o país, ao menos por quinze dias, repensar alguns desses falsos valores.

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Friday, May 11, 2007

Obrigado por tudo

Veermer - 'Mulher de azul lendo uma carta' Havia um certo poder que a palavra escrita sempre exercera sobre ela.  Era algo incontestável. Desde pequena, jamais gostara de ouvir sua mãe a ler os folhetins dos jornais, em voz alta, para a platéia improvisada de suas filhas e das vizinhas que não tinham sido apresentadas às letras.  Aquelas mulheres, ainda que pouco guardassem das histórias que lhes eram narradas, acabavam sempre chorando pelas entonações ora melífluas, ora dramáticas, que sua mãe emprestava àqueles pastiches afrancesados de velhos romances de costumes. Leonora sempre preferiu buscar seus próprios significados naqueles símbolos desenhados nas páginas amareladas dos jornais. 

Admirava os borrões em tinta negra e intensa.   Como não sabia ainda ler, buscava nos desenhos e curvas das letras as imagens antes relatadas com tanta intensidade. Nos traços e formas tipográficas, imaginava os vestidos de baile, o toalete refinado das coquetes francesas, as espadas em duelos mortais.  Podia até mesmo adivinhar os beijos apaixonados com que tais narrativas sempre terminavam pelo tracejado desta ou daquela palavra.  Aprenderia a ler pelas mãos de sua própria mãe, também muito afeita à palavra. Os exercícios exaustivos impostos à menina, para que ganhasse destreza na escrita e na leitura, quase lhe tiraram o encantamento que construíra. Mas o fascínio pela palavra escrita jamais lhe abandonara, em verdade.

Por conta de tal relação tão singular com as letras, Leonora não conseguia desvencilhar-se daquele roto pedaço de papel que lhe haviam posto nas mãos logo após a notícia desconcertante. Ela buscava, dentro de sua dor infinita, encontrar em cada traço da minúscula mensagem o significado real de tais palavras.

Obrigado por tudo. A caligrafia inconfundível de Pacífico, apesar das letras esmaecidas pelo tempo, ainda lhe gritava aos olhos a mensagem derradeira.  O pequeno pedaço de papel estava roto, tanto tempo estivera em suas mãos.  Ela manipulava-o diariamente desde aquele dia infausto em que o marido falecera misteriosamente.  As causas da morte eram desconhecidas, a medicina jamais pôde explicar com fidúcia científica o que acontecera, mas as três palavras soavam em seus ouvidos como se o fantasma de Pacífico ainda estivesse a rondar sua vida.  Eram, para ela, como uma cobrança por algo pendente que deixara entre os vivos. Que poderia ele estar agradecendo? Seu amor, sua dedicação de anos a fio na criação de seus filhos, na condução dos negócios do esposo à frente do balcão da loja de aviamentos? Leonora passeava os olhos por sobre a frase registrada em papel tão rústico e culpava-se, sem saber a razão, por aquela morte tão inesperada.

Talvez Pacífico tivesse partido por desgosto, cansado de suas acusações de esposa que sempre suspeitara de sua lealdade. Lembrou-se de seu esposo, encontrado derribado sobre sua escrivaninha, ainda com a pena em suas mãos, o mata-borrão horrivelmente imprensado sob o rosto defunto.  Dias antes, ela lançara contra ele, uma vez mais, um anátema que envolvia suas desconfianças em relação à amizade de Pacífico com uma de suas freguesas mais habituais. Leonora reprovava os sorrisos, a gentileza em excesso.  Por vezes interrompia rispidamente o trabalho de Pacífico quando lhe acreditava cordial demais com uma ou outra cliente. Agora, Leonora revia cada cena em sua mente.  Em seu peito, um suspiro de culpa que lhe sufocava e corroia.

Obrigado por tudo. A letra era firme, não havia tremor algum naquelas linhas.  Não eram escritas por alguém que pressentisse sua própria morte. Ele escolhera com cuidado e precisão aquelas palavras. Obrigado por tudo. Aquelas letras, por ele agrupadas de modo inequívoco, eram como uma condenação.  Três palavras de maldição lançadas por Pacífico, por tudo que ele estaria sofrendo ao seu lado.

Leonora tentava levar adiante a loja de aviamentos, mas com a morte do esposo os negócios começaram a claudicar.  Em grande parte, isso se dava pela antipatia que ela havia despertado em tantas freguesas antigas do estabelecimento. Talvez, pensava ela, esse fosse o resultado da praga subscrita por Pacífico contra ela.

Ela examinou o papel. Obrigado por tudo. A curva perfeita da letra que abria a frase maldita sugeria a Leonora, depois de tanto reler, mais um desabafo que uma vingança premeditada. Talvez ele estivesse revelando como se sentia em seu papel de esposo.  Vivia cercado das obrigações inúmeras que ela, como esposa, criava diariamente para o pobre homem. Sim, ele percebia a vida como uma eterna obrigação, que as exigências da esposa e as responsabilidades como pai apenas agravavam.

Mas foram felizes, sim. Leonora amava seu esposo, e esperava ansiosamente estar a seu lado todas as noites.  Juntos faziam suas orações antes de dividirem a mesma cama.  Gostava de sentir o calor do corpo robusto de Pacífico, a fortaleza de suas mãos envolvendo sua cintura, os beijos generosos que ele costumava depositar em sua face antes que o sono os vencesse de todo. Obrigado por tudo. Lembrou-se das tantas vezes em que eles trocaram juras de amor eterno.  As alegrias distintas no rosto do esposo no nascimento de cada filho.  A felicidade, o orgulho de seu sucesso, o trabalho árduo para manter a família. Obrigado por tudo. Leonora parecia ouvir os belos lábios de Pacífico entoando essas palavras generosas.  Ela presentearia-o, então, com o carinho que ele conquistara em seu coração.  De um matrimônio que nascera de um arranjo entre suas famílias, Pacífico transformara a união em um amor tranqüilo e benfazejo, cujos frutos agora ela vislumbrava com saudade e delícia.

As lágrimas de Leonora acabaram por borrar as palavras derradeiras, registradas naquele pedaço inútil de papel. Ela olhou a mancha negra que se espalhava lentamente pelo bilhete e sorriu, contente. Depois de beijar suavemente aquela última recordação de seu esposo bem amado, Leonora abriu a janela do quarto do casal e lançou o papel estéril ao vento.

Do volume de contos

(2006)
(Robertson Frizero Barros)

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