Havia um certo poder que a palavra escrita sempre exercera sobre ela. Era algo incontestável. Desde pequena, jamais gostara de ouvir sua mãe a ler os folhetins dos jornais, em voz alta, para a platéia improvisada de suas filhas e das vizinhas que não tinham sido apresentadas às letras. Aquelas mulheres, ainda que pouco guardassem das histórias que lhes eram narradas, acabavam sempre chorando pelas entonações ora melífluas, ora dramáticas, que sua mãe emprestava àqueles pastiches afrancesados de velhos romances de costumes. Leonora sempre preferiu buscar seus próprios significados naqueles símbolos desenhados nas páginas amareladas dos jornais.
Admirava os borrões em tinta negra e intensa. Como não sabia ainda ler, buscava nos desenhos e curvas das letras as imagens antes relatadas com tanta intensidade. Nos traços e formas tipográficas, imaginava os vestidos de baile, o toalete refinado das coquetes francesas, as espadas em duelos mortais. Podia até mesmo adivinhar os beijos apaixonados com que tais narrativas sempre terminavam pelo tracejado desta ou daquela palavra. Aprenderia a ler pelas mãos de sua própria mãe, também muito afeita à palavra. Os exercícios exaustivos impostos à menina, para que ganhasse destreza na escrita e na leitura, quase lhe tiraram o encantamento que construíra. Mas o fascínio pela palavra escrita jamais lhe abandonara, em verdade.
Por conta de tal relação tão singular com as letras, Leonora não conseguia desvencilhar-se daquele roto pedaço de papel que lhe haviam posto nas mãos logo após a notícia desconcertante. Ela buscava, dentro de sua dor infinita, encontrar em cada traço da minúscula mensagem o significado real de tais palavras.
Obrigado por tudo. A caligrafia inconfundível de Pacífico, apesar das letras esmaecidas pelo tempo, ainda lhe gritava aos olhos a mensagem derradeira. O pequeno pedaço de papel estava roto, tanto tempo estivera em suas mãos. Ela manipulava-o diariamente desde aquele dia infausto em que o marido falecera misteriosamente. As causas da morte eram desconhecidas, a medicina jamais pôde explicar com fidúcia científica o que acontecera, mas as três palavras soavam em seus ouvidos como se o fantasma de Pacífico ainda estivesse a rondar sua vida. Eram, para ela, como uma cobrança por algo pendente que deixara entre os vivos. Que poderia ele estar agradecendo? Seu amor, sua dedicação de anos a fio na criação de seus filhos, na condução dos negócios do esposo à frente do balcão da loja de aviamentos? Leonora passeava os olhos por sobre a frase registrada em papel tão rústico e culpava-se, sem saber a razão, por aquela morte tão inesperada.
Talvez Pacífico tivesse partido por desgosto, cansado de suas acusações de esposa que sempre suspeitara de sua lealdade. Lembrou-se de seu esposo, encontrado derribado sobre sua escrivaninha, ainda com a pena em suas mãos, o mata-borrão horrivelmente imprensado sob o rosto defunto. Dias antes, ela lançara contra ele, uma vez mais, um anátema que envolvia suas desconfianças em relação à amizade de Pacífico com uma de suas freguesas mais habituais. Leonora reprovava os sorrisos, a gentileza em excesso. Por vezes interrompia rispidamente o trabalho de Pacífico quando lhe acreditava cordial demais com uma ou outra cliente. Agora, Leonora revia cada cena em sua mente. Em seu peito, um suspiro de culpa que lhe sufocava e corroia.
Obrigado por tudo. A letra era firme, não havia tremor algum naquelas linhas. Não eram escritas por alguém que pressentisse sua própria morte. Ele escolhera com cuidado e precisão aquelas palavras. Obrigado por tudo. Aquelas letras, por ele agrupadas de modo inequívoco, eram como uma condenação. Três palavras de maldição lançadas por Pacífico, por tudo que ele estaria sofrendo ao seu lado.
Leonora tentava levar adiante a loja de aviamentos, mas com a morte do esposo os negócios começaram a claudicar. Em grande parte, isso se dava pela antipatia que ela havia despertado em tantas freguesas antigas do estabelecimento. Talvez, pensava ela, esse fosse o resultado da praga subscrita por Pacífico contra ela.
Ela examinou o papel. Obrigado por tudo. A curva perfeita da letra que abria a frase maldita sugeria a Leonora, depois de tanto reler, mais um desabafo que uma vingança premeditada. Talvez ele estivesse revelando como se sentia em seu papel de esposo. Vivia cercado das obrigações inúmeras que ela, como esposa, criava diariamente para o pobre homem. Sim, ele percebia a vida como uma eterna obrigação, que as exigências da esposa e as responsabilidades como pai apenas agravavam.
Mas foram felizes, sim. Leonora amava seu esposo, e esperava ansiosamente estar a seu lado todas as noites. Juntos faziam suas orações antes de dividirem a mesma cama. Gostava de sentir o calor do corpo robusto de Pacífico, a fortaleza de suas mãos envolvendo sua cintura, os beijos generosos que ele costumava depositar em sua face antes que o sono os vencesse de todo. Obrigado por tudo. Lembrou-se das tantas vezes em que eles trocaram juras de amor eterno. As alegrias distintas no rosto do esposo no nascimento de cada filho. A felicidade, o orgulho de seu sucesso, o trabalho árduo para manter a família. Obrigado por tudo. Leonora parecia ouvir os belos lábios de Pacífico entoando essas palavras generosas. Ela presentearia-o, então, com o carinho que ele conquistara em seu coração. De um matrimônio que nascera de um arranjo entre suas famílias, Pacífico transformara a união em um amor tranqüilo e benfazejo, cujos frutos agora ela vislumbrava com saudade e delícia.
As lágrimas de Leonora acabaram por borrar as palavras derradeiras, registradas naquele pedaço inútil de papel. Ela olhou a mancha negra que se espalhava lentamente pelo bilhete e sorriu, contente. Depois de beijar suavemente aquela última recordação de seu esposo bem amado, Leonora abriu a janela do quarto do casal e lançou o papel estéril ao vento.
Do volume de contos

(2006)
(Robertson Frizero Barros)