Thursday, April 26, 2007

Aqui jaz o Limbo

Dante e Virgílio encontram os poetas clássicos no Limbo - Ilustração da 'Divina Comédia', de Dante Alighieri, feita por Gustave Doré

Na Divina Comédia, a obra-prima fundadora da Língua Italiana, o poeta Dante Alighieri situou pagãos virtuosos e grandes escritores e filósofos da Antiguidade, como Sócrates e Platão, no limbo - uma região do mundo de além-túmulo que em séculos de tradição religiosa era apontado como o lugar para onde eram encaminhadas as almas virtuosas que morreram ser receber o sacramento do batismo, incluindo nesse número as crianças recém-nascidas. Pois Bento XVI (Joseph Ratzinger), apontado como reacionário e radical por muitos, desde antes de sua eleição como papa, corroborou a decisão da Comissão Teológica Internacional da Igreja Católica de extirpar do imaginário católico as dúvidas que pairavam sobre a existência de tal lugar espiritual onde não havia sofrimento nem deleites para as almas não batizadas.

O catecismo católico já havia omitido as menções ao limbo desde a edição de 1992, mas o tema da salvação das crianças recém-nascidas que vinham a falecer antes de serem batizadas era ainda tema de discussão entre os teólogos. Em verdade, o limbo jamais fez parte da doutrina da Igreja, embora fosse amplamente divulgado e ensinado nos meios católicos, ao menos até as primeiras décadas do século XX. A decisão, aprovada por Bento XVI, é uma afirmação de que a Igreja Católica acredita haver indícios de que “Deus salvará as crianças que não foram batizadas”, ainda que as escrituras não tragam nenhuma referência explícita ao tema.

A morte do limbo - uma palavra latina que significa “fronteira” ou “limite” - não significa, contudo, o fim da crença no pecado original e na importância do batismo como sinal de aliança dos fiéis com Deus.

A idéia do limbo teria surgido na Idade Média. Na visão de alguns teólogos da Idade Média, seria um “estado ou lugar reservado aos bons e justos que não receberam o sagrado sacramento do batismo”, incluindo aqueles que viveram antes da vinda de Jesus à Terra. Sua existência teológica, contudo, foi sempre questionada. O próprio papa Bento XVI, antes ainda de ser escolhido líder da Igreja Católica, já havia declarado sua concepção de que o limbo seria “apenas uma hipótese teológica” e não “uma verdade definitiva no campo da fé” católica.

Um sinal dos tempos, ou mais ainda, da modernização da Igreja Católica?  As questões teológicas e a visão do Vaticano sobre os problemas contemporâneos sempre tiveram uma grande visibilidade e foram alvo de inúmeras discussões.  Muitos pensadores, boa parte deles não-católicos, discutem e criticam as posições teológicas de uma religião que permaneceu sempre no imaginário de todos os ocidentais, papistas ou não.  Sem dúvida, a Igreja é detentora de uma grande influência sobre um grande número de fiéis e mesmo de pessoas que não professam a fé católica, dado o papel do Cristianismo na cultura ocidental.  Em verdade, a Igreja Católica nunca esteve estagnada nas mesmas idéias.  Mesmo na era medieval, que os Iluministas franceses nos fizeram ver como um “Tempo de Trevas”, as questões teológicas do catolicismo sempre estiveram sob discussão; se as mudanças não foram mais rápidas que uma certa fatia da intelectualidade esperava, é porque a matéria em debate não pode, de fato, render-se à urgência dos homens.  Afinal, quem de nós pode ter certezas sobre a divindade e sua natureza? 

Melhor preocuparmo-nos com nosso deus interior, aquele que nos rege em nossas decisões morais e que reflete a nossa relação com essa divindade de tantos nomes e imagens, mas cuja essência ainda seguirá oculta aos olhos humanos por muitos e muitos séculos.  Que se ocupem com a teologia católica os próprios católicos e ninguém mais. 

Pena não podermos mais deixar nossas questões teológicas no limbo…

Posted by Frizero at 00:03:09 | Permalink | Comments (3)

Tuesday, April 24, 2007

Socorro e a paixão sem fronteiras

'Quatro Mulheres', Di Cavlacanti A mesa estava posta. Na cabeceira, Dona Amparo sorvia, com o barulho costumeiro de sua dentadura inadequada, sua xícara de café amargo de todas as manhãs. Seu rosto redondo, ornado por um permanente par de olheiras, controlava a movimentação dos hóspedes da pensão. Tratava-os como crianças de internato: havia um número certo de roscas de polvilho, fatias de queijo minas e bisnagas de pão para cada um, e uma reprimenda áspera para quem não cumpria os regramentos da casa. À direita da obesa senhora, os que pagavam com mais regularidade o valor mensal por seus quartos. Era o lado mais próximo da copa. Por ordem velada de Dona Amparo, eles recebiam os ovos de duas gemas e as fatias de fiambrada frita mais generosas.

Na primeira cadeira à esquerda, ficava a mirradinha da Abigail, uma moça sem atrativos que passava os dias reclamando sobre como a vida era parada, parada… Ela era uma espécie de neta da velha – ao menos era assim que Dona Amparo a apresentava aos estranhos. Em verdade, a menina tinha dez anos quando foi entregue à dona da pensão, apenas três meses antes da mudança do estabelecimento – de casa de tolerância para pensão – e dois dias depois da morte da mãe da jovenzinha feiosa. A existência de Abigail era uma prova do passado pouco nobre de Dona Amparo e, assim, a menina foi sobrevivendo sob a proteção temerosa de sua quase cafetina.

Socorro sentava-se na última cadeira do lado esquerdo da mesa – aquele destinado aos sem importância, aos que atrasavam o mês e aos que chegavam depois do horário sagrado do café da manhã. Lá, ela evitava as conversas do meio da mesa e os olhares insistentes da senhora. Comia como um passarinho. Jamais pedia para a Mercedes, a servente, para trazer a gema dura ou a fiambrada sem fritar: engolia o que lhe traziam, não reclamava, sofria quieta. E não falava com ninguém, pois não havia quem lhe reparasse.

Mas quando vinha o Furtado, tudo era diferente. Marinheiro, sotaque estranho e indefinido, moreno mesmo em dias de chuva, o Furtado puxava assunto, insistia, elogiava, provocava. Uma vez, deu para ela seu ovo frito; na Páscoa, dividiu com ela uma barra de geléia de mocotó que sua mãe lhe mandara de Minas. O Furtado falava com todo mundo da mesa. Mas era o único que arrancava alguma ação de Socorro. Ela suspirava, arregalava os olhos, quase sorria. Ele era farto de dentes brancos, sempre mostrava para Socorro – e para as damas da mesa, como dizia – o sorriso que combinava com o uniforme que vestia em dias de partida.

Mercedes ria muito com os gracejos do Furtado, e ele ganhava dela o branco mais alvo das fardas todas do navio em que servia. Abigail ruminava por ele um amor adolescente, e Furtado sempre atrasava o mês sem receber qualquer reprimenda. Mas ele só existia para elas quando entrava na sala de jantar com seus sapatos brilhosos e o rosto de galanteador. Socorro amava-o ainda mais na ausência, esperava-o chegar de suas longas viagens com olhar de viúva. Sentava-se à mesa do café da manhã e comia distraída, absorta no prato vazio ao lado do seu, na xícara emborcada que não teria naquele dia os lábios carnudos do marinheiro, na rosca de polvilho que iria sobrar na cesta de pão. Por vezes, esquecia a presença dos demais e debruçava-se na mesa, a cabeça mergulhada nas mãos pálidas, murmurando palavras silenciosas…

– Tira o cotovelo da mesa, menina!

Sem as palavras e o riso de Furtado por perto, as palavras de Dona Amparo ressoavam como trovões. Ele ganhava os mares longínqüos e Socorro recolhia-se em sua cadeira, puxava para mais perto a xícara de café bem doce e brincava com a pequena colher, sem vontade alguma de bebê-lo. Quando estava ali o marinheiro, vinha sobre ela uma onda de calor indecente que lhe subia pelo corpo até deixar seu rosto em lava. O lugar vago ao lado era um mar gélido de distância que somente a esperança de revê-lo era capaz de aquecer.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 19:53:49 | Permalink | Comments (2)

Friday, April 20, 2007

‘What good will it do?’

Oito anos do massacre na Columbine High SchoolÀs vésperas do aniversário de oito anos da tragédia ocorrida na Columbine High School, em Jefferson, Colorado, ocorrido em um 20 de abril - em que dois alunos armados causaram a morte de dez estudantes -, e apenas dois dias depois das mortes ocorridas na universidade Virginia Tech, a rede de televisão norte-americana NBC divulgou as imagens de um vídeo e de fotografias enviadas para aquela emissora de televisão por Cho Seung-Hui, o desequilibrado estudante de Letras que protagonizou o massacre de seus colegas de universidade e de dois professores. 

As imagens chocaram o país e, mais ainda, os parentes e amigos das vítimas.  Seung-Hui declara, na gravação enviada para a televisão poucos minutos depois dos dois primeiros assassinatos cometidos por ele naquele dia, que iria “morrer como um mártir, como Jesus Cristo” e outros dois mártires, Eric Harris e Dylan Klebold - os dois jovens do massacre de Columbine.  Contudo, mais que as imagens de Seung-Hui portando as armas do massacre ou as palavras desconexas que pronuncia em sua “carta suicida” gravada em vídeo, a divulgação revoltou a sociedade americana e os policiais que investigam o caso.  Eles temem que a divulgação do material produzido pelo assassino possa motivar outras pessoas com semelhante desequilíbrio a cometerem crimes inspirados pela ação doentia de Cho.

Um dia apenas depois de divulgadas as imagens, cinco escolas secundárias e universidades estadunidenses receberam ameaças.  Em uma delas, o suposto agressor afirmava que iria promover “um massacre maior que o de Virginia Tech”, dando a entender que seu objetivo era superar o odioso recorde de mortes de Cho Seung-Hui.  Como o jovem sul-coreano, que aparentemente promoveu a matança incentivado pelas histórias de Columbine - cujos assassinos também produziam vídeos em que falavam de seus instintos violentos e de seus planos de cometer um massacre em sua escola -, outros tantos jovens alimentados por uma cultura de violência cada vez mais forte em nossos dias receberam, via satélite, mais material para a construção de suas sociopatias.

“O que de bom pode vir disso?”, foi a pergunta do policial que chefia as investigações dos assassinatos em Virginia Tech.  A sede da NBC em gerar um furo de reportagem - que certamente rendeu um lucro imenso para a empresa, a partir de sua divulgação em nível mundial - lançou nas emissoras de televisão e na rede mundial de computadores as palavras repletas de fúria e insanidade de um jovem cuja motivação maior pode ter sido justamente a idéia torta de se tornar uma celebridade póstuma.  Colocar no ar as frases ditas por um louco, cuja última ação no mundo foi a de matar inocentes em nome de uma dita “vingança contra a sociedade”, é não só inconseqüente, mas temerária.  E não é sem razão que os norte-americanos vivem em neurastenia perpétua: a violência tornou-se um negócio muito rentável para aquele país tão invejado e competitivo.  Oxalá a irresponsabilidade dos jornalistas da NBC não seja o ponto de partida de mais uma competição: a de quem mata mais estudantes em uma terra onde munição e armamento são comprados no mercado mais próximo de sua casa.

Homenagem aos mortos na tragédia da universidade Virginia Tech
Posted by Frizero at 17:49:49 | Permalink | Comments (1) »

Wednesday, April 18, 2007

Amparo encontra Socorro

'Figura Feminina #3', de Mário Zanini

O barulho do basculante de Socorro, que a menina conseguira abrir depois de tamanho esforço, parecia ter despertado em Dona Amparo o pior dos seus humores. Eu prosseguia na cama, na preguiça dos primeiros raios de sol que rompiam a barreira das cortinas, mas sabia que era a dona da pensão que vinha pelas escadas do sobrado apenas pelo som pesado das chinelas em procissão, calcando ruidosamente cada degrau.  Não tardava muito entre o ranger do corrimão no topo da escada e a invasão, pelas frestas da porta, do perfume enjoativo de alfazema que Dona Amparo usava para tentar disfarçar seus maus odores. Virando-me para a parede, era como se aquele cheiro de velhice descontente fizesse meus olhos enxergarem além dos tijolos a cena que se repetia na peça ao lado.

Três pancadas autoritárias.  Os passos diminutos vinham abrir a porta para que a voz corroída por anos de nicotina começasse a ladainha de todas as manhãs de domingo. Um zumbido de bom dia vinha lá de dentro, e a senhora entrava sem cerimônia no quarto que era, afinal, sua propriedade. Dona Amparo visitava a moça de cima a baixo com seus impropérios – era pela indiscrição da senhora que eu sabia estar Socorro coberta de poeira, cabelos desgrenhados, roupas amarrotadas demais e chinelas de pano que eram um serrote sobre a cabeça da velha logo cedo no dia do Senhor. Seus lábios de moça deviam usar algum vermelho, sua pele precisava de um bom banho de sabão e água, suas unhas não demonstravam capricho algum, sua face pálida espantava os homens: Dona Amparo era rica em reprimendas à vida alheia. Os braços gordos da senhora regiam cada uma dessas frases de desdém e não raro suas mãos se chocavam com algum móvel ou mesmo com as coxas de velha obesa - estranhos sons que enchiam a cena de bizarra percussão. Depois vinham as flores a estragar o imóvel, recortadas de revistas e coladas nas paredes, a cama que rangia demais e o assoalho que parecia jamais ter sido varrido como se deve. As chinelas de Dona Amparo arrastavam-se e vinham perturbar-me à porta de entrada. Antes dos últimos minutos daquele sermão, seu pé inchado ressoava no assoalho por seguidas vezes, irritantemente. Por fim, a dona da pensão encerrava sua homilia.  A matrona sem filhos adotava um tom maternal, que soava ameaçador naquela garganta áspera de licores caseiros e banha de porco.  Aconselhava a moça a tomar cuidado com o barulho: ao lado “estava um rapaz de boa origem, trabalhador sério, desses que usam muito a cabeça a semana inteira e precisam descansar”. Havia então um silêncio de padre-nosso em Socorro, um murmurar tão recolhido que eu jamais conseguia distinguir, mas tudo compreendia, pois logo a voz rascante de Dona Amparo soltava seu que-isso-não-se-repita de sempre e a porta era fechada pelo gesto teatral de seu grosso braço esquerdo a puxar a maçaneta que lamentava mais alto que as desculpas esvaziadas da costureira.

Do meu quarto, eu pagaria três meses de aluguel para ouvir, um dia que fosse, a voz de Socorro clamando sua liberdade com a força descomunal de trinta revoluções, expulsando os vendilhões do templo, ordenando o ataque das tropas, proclamando a independência ou mesmo anunciando a morte com padecimentos de soprano. Mas o que se seguia era sempre o arrastar enjoativo, infindo, das chinelas de Dona Amparo em direção ao café amargo, às intragáveis roscas de polvilho. No quarto ao lado, um sossego soturno de igreja abandonada.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 14:56:34 | Permalink | Comments (2)

Tuesday, April 17, 2007

A lição de Virgínia

Quase oito anos depois do terrível incidente ocorrido na escola secundária de Columbine, em Littleton, no estado norte-americano do Colorado, no qual dois alunos assassinaram a tiros doze colegas e um professor, além de ferir vinte e quatro outros estudantes, outra tragédia, de proporções ainda piores, deixa alarmados os pais, professores e alunos das escolas dos Estados Unidos da América.  Na universidade Virginia Tech, uma das mais conceituadas universidades tecnológicas do país, um atirador matou mais de trinta pessoas, entre alunos e professores da instituição, e feriu outros tantos estudantes naquela que já é considerada a maior tragédia desse tipo na história dos Estados Unidos.

Apenas na manhã seguinte ao crime, ocorrido em 17 de abril de 2007, a polícia do estado da Virgínia conseguiu identificar o assassino serial que, após o crime cometido em dois ataques ocorridos em diferentes períodos do dia, suicidou-se em uma das salas de aula: Cho Seung-Hui era estudante de Língua Inglesa na Virginia Tech e estava às vésperas de se graduar na universidade; de cidadania sul-coreana, vivia legalmente nos Estados Unidos da América e é descrito pelos colegas como um “solitário”.  Ao que indicam as investigações preliminares sobre o caso, o jovem estudante de vinte e três anos foi o responsável pelas duas ocorrências - pela manhã, assassinou dois estudantes em um dormitório e, na parte da tarde, enquanto a polícia ainda investigava o primeiro incidente, invadiu diversas salas de aula e matou a esmo outros vinte e oito estudantes e dois professores.

Como ocorreu à época do chamado massacre de Columbine, especialistas e pensadores buscam as causas de tamanha fúria.  No caso de Seung-Hui, as suspeitas recaem em uma possível reação à recusa de sua ex-namorada, que pode estar entre as vítimas fatais, em reatar o namoro.  Em momentos de dor e de espanto como este, é sempre algo questionável buscar as razões ou, mais que isso, as lições que podemos tirar de um episódio que, neste exato momento, é fonte de tristeza e agonia para tantas famílias que nãos serão consoladas por essas respostas.  Mas a pergunta é inevitável: que força será essa que impele jovens como Cho Seung-Hui,  Eric Harris e Dylan Klebold - os dois últimos, de dezoito e dezessete anos, respectivamente, os autores da tragédia de Columbine - a atacar seus pares de forma tão violenta e covarde?

Tenho pouco conhecimento de psicologia e nenhuma intenção de sobrepor minhas idéias às tantas análises de especialistas sobre ambos os episódios.  Mas me permito levantar certas suspeitas.  Estamos em uma época na qual os jovens são, desde a mais tenra idade, criados em um ambiente de absoluta proteção: todas as suas vontades são cumpridas pelos pais e adultos que os cercam, já que as negativas passaram a representar a construção de traumas futuros para as crianças… Em um mundo que só lhes diz sim, as crianças simplesmente não conseguem construir estratégias para lidar com a frustração, com a pressão de seus pares e com os revezes da vida.  Em uma sociedade que impõe valores e exigências cada vez maiores e mais inumanas - seja de aparência exterior, de comportamento, de inclusão neste ou naquele grupo, de competição extrema e permanente -, não é difícil imaginar as razões pelas quais os jovens possam desenvolver o sentimento de inadequação, de exclusão, de ausência absoluta. 

Diante da frustração - seja da perda de uma namorada ou da popularidade - e sem as ferramentas morais para suportá-la, como reagir em um mundo que parece louvar a violência de seus heróis e entender como valorosas as reações mais extremadas?  Nunca os versos de Fernando Pessoa pareceram mais atuais: em seu Poema em Linha Reta, ele dizia que nunca conhecera “quem tivesse levado porrada”, e que todos os seus conhecidos tinham sido “campeões em tudo”.  Em tempos nos quais os argumentos valem menos que os murros, que as armas sobrepõem a honra ou o valor pessoal, temo que massacres como os de Columbine e de Virginia Tech se repitam mais e mais.

Não há como negar a existência de uma situação de sociopatia ou psicopatia dentro de um jovem que meticulosamente prepara um ataque como esses a gente inocente.  Quem atira a esmo em gente desconhecida, dizem alguns estudiosos, pode estar, em sua mente, perpetrando uma vingança contra a sociedade, essa entidade abstrata que o oprime e impede de experimentar todas as suas vontades.  Mas ouso afirmar que nunca fez tanta falta na educação dos jovens a arte de levar desaforos para casa… Estar em sociedade é ter que engolir sapos.  Ensinar aos nossos filhos a suportar a dor ao invés de esmurrar a parede é, ao longo da vida, prepará-lo para a vida.

Posted by Frizero at 13:46:55 | Permalink | Comments (8)

Wednesday, April 11, 2007

Socorro

'Retrato' - tela do pintor brasileiro Alberto GuignardA coitada não tinha mais forças. Socorro. Todo domingo era a mesma agonia. Meu sono leve me fazia despertar a qualquer pequeno ruído.  Os domingos de manhã tornaram-se um sofrimento anunciado. Socorro. Ela devia acordar muito cedo, ou talvez nem dormisse, esperando pela manhã de domingo. Era o dia em que ela gozava de algum descanso, eu imagino, ou talvez o único momento da semana em que contava com algumas horas somente suas, sem a desagradável cobrança de patrões e clientes. Só isso podia explicar aquele rito dominical, que invariavelmente me despertava e destruía minha manhã de ócio absoluto. Socorro. Era sempre a mesma coisa, coitada. Eu ouvia a cama dela ranger, as chinelas arrastando no chão e o irritante som da vassoura com que ela parecia acariciar o piso do pequeno quarto. De tão leve que ela passava aquela áspera piaçava pelo cimento pintado, talvez na ilusão de que assim não incomodasse ninguém, ela conseguia me irritar de um modo absoluto. Mas, coitada, de tão pobre e sem atrativos, ela me enchia de pena e eu aturava a tortura de todos os domingos sem reclamar com a dona da pensão. No fundo eu sabia que Dona Amparo iria despejar Socorro assim que eu fizesse caso por conta do sono perdido. E a menina não teria para onde ir, eu sabia disso, se Dona Amparo resolvesse expulsá-la por conta de minhas manhãs de domingo mal dormidas. Eu era o melhor pagador, por isso tinha a melhor habitação do sobrado, que era em verdade o antigo quarto de Dona Amparo, como eu vim a descobrir. A velha avarenta cedeu-me seu quarto e foi viver nos fundos da casa diante da possibilidade de me cobrar o equivalente ao valor de três meses do aluguel que pagavam os outros moradores da pensão, como Socorro. Ah, Socorro. Um rosto sem grande apelo, mas uns olhinhos miúdos que me faziam imaginar o quanto de sofrimento aquela criatura já havia passado. Não tinha mais que uns vinte anos, talvez dois ou três mais que isso, mas tinha uns olhos sempre marejados, como se estivessem na iminência de desatar-se em lágrimas. E aquelas mãos pequenas, que eram tão hábeis para a costura – eu mesmo já havia usado seus serviços para cerzir um paletó –, eram quase sempre incapazes de abrir a única janela de seu quarto, que nem janela era. E todos os domingos era a mesma coisa: a cama que rangia, as chinelas arrastadas e a vassoura circulando pelo chão de cimento avermelhado e então, a mais agoniante parte do ritual de Socorro, suas mãos pequenas tentando abrir o basculante que dava para o corredor escuro do segundo pavimento. Ela subia em uma cadeira – eu conseguia ouvir o pequeno móvel sendo arrastado e o tamborilar da madeira no chão enquanto Socorro esticava-se, imagino, sobre a cadeira para alcançar o basculante, estranhamente posicionado quase junto ao teto. A cadeira rangia, a mãozinha de Socorro quase alcançava a alça da tal abertura, mas não devia ter forças para abri-la, ou talvez sequer alcançasse… Por tantas vezes pensei em levantar da cama, bater à porta e oferecer-lhe ajuda para abrir aquela infernal janelinha, mas alguma coisa me impedia de perturbar aquele momento de solidão da mocinha madrugadora. Eu ficava apenas escutando, ainda debaixo das cobertas, sua luta em busca de um pouco de ar que refrescasse aquela vida sufocada, ao menos, meu Deus, aos domingos pela manhã, no dia do Senhor… E eu torcia. Quase podia ouvir o ar que os braços de Socorro deslocavam a cada tentativa de alcançar o basculante, os suspiros de cansaço, o dedo que tocava a alça, sem forças para abri-la. E minha maior felicidade nas manhãs de domingo passou a ser o som da janela de Socorro abrindo-se ruidosamente para mim.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 20:46:04 | Permalink | Comments (1) »

I wanna be MADE!

I wanna be MADE! A televisão aberta, com seu caráter eminentemente comercial, visa ao lucro e, para elas, isso é impulsionado pelo aumento da audiência, que valoriza sua programação e, por consegüinte, faz crescer o valor de seus intervalos comerciais, vendidos a peso de ouro para os anunciantes que já estão mais que convencidos do poder de penetração dessa mídia. Essa busca pelo interesse dos telespectadores faz com que as emissoras de televisão - e isso estende-se para os canais por assinatura - espelhem, muitas vezes, as tendências do pensamento da atualidade.

Não falo daquele pensar que povoa o meio acadêmico que, por vezes, tem sido lento para perceber os fenômenos de massa, mas o pensamento que permeia as relações humanas e o comportamento da atualidade. É certo, também, que muitas vezes os hábitos e atitudes são fortemente influenciados pela mídia, mas colocar em suas mãos virtuais toda a responsabilidade pelas mudanças no pensamento do homem contemporâneo seria uma forma simplista de eximir-nos da responsabilidade por nossos próprios atos e lançar na sarjeta séculos de crença na liberdade e no livre-arbítrio humanos.

Um exemplo curioso de como a televisão consegue captar as alterações do pensamento das massas é o programa MADE, exibido pela MTV brasileira. Importado da sede estadunidense da emissora, MADE (em inglês, “feito”) atende aos pedidos de telespectadores que desejam realizar algum sonho - de tornar-se uma lutadora de boxe, desejo de uma adolescente supreprotegida pela mãe e que sempre desistira de todas as atividades nas quais se engajara; de ganhar o título de “rei do baile de formatura”, desafio proposto por um obeso mórbido -, dando-lhes a assistência de um expert por seis semanas para que eles possam atingir seus - algo absurdos - objetivos. O programa é curiosíssimo e prende a atenção justamente por apostar nas situações mais bizarras - um jogador de futebol americano que quer se tornar bailarino clássico, uma menina masculinizada que quer se tornar miss, uma tímida incorrigível que quer se tornar atriz dramática, uma típica patricinha que quer se tornar jogadora de rúgbi… Olhando-se além das agruras naturais de sonhos tão difíceis - acompanhados minuto a minuto pelas câmeras de televisão, ao melhor estilo dos reality shows -, porém, o que se vê é um retrato triste do que se torna cada vez mais comum no comportamento dos jovens de hoje.

MADE, programa da MTVVivemos já uma época na qual boa parte dos adolescentes cresceram em um ambiente no qual todas as suas frustrações eram minimizadas, todas as suas vontades cumpridas sem questionamento por parte de seus pais e familiares adultos; o medo de traumatizar os filhos ou a necessidade de compensá-los pela ausência - não raro esses pais e mães passaram a empregar mais e mais tempo no trabalho para prover o lar com mais conforto e a família com mais status - fizeram com que os adolescentes não precisassem mais lutar para conquistar o que querem: eles vêm, na maioria das vezes, prontos e customizados. Essas mesmas pessoas, que acreditam ser a vida um jardim de delícias e o mundo uma paisagem humana que deve se adequar aos seus caprichos e direitos sem fim, cada vez menos se esforçam para conseguir seus objetivos. Quer-se muito; faz-se pouco. Não raro se observam hoje pessoas que, por exemplo, se matriculam em cursos, engajam-se em atividades diversas com os sonhos mais elevados e, por vezes, quase impossíveis – ser uma modelo de sucesso, conquistar a fama como músico, transformar-se em um escritor de renome, emagrecer e ter um corpo perfeito –, mas em nada se esforçam para construí-los. É como se o mero ato de matricular-se em um curso, em comprometer-se em uma atividade qualquer, fosse gerar neles a transformação necessária. Há uma espécie de preguiça intelectual que descambou em uma total desvalorização do estudo e da aplicação, do esforço e do aperfeiçoamento. As pessoas desejam ser descobertas, como em um passe de mágica, e sem que isso envolva maiores esforços pessoais - não por acaso a frase-símbolo do programa da MTV é “I wanna be MADE!” - em portugês, algo como “eu quero que alguém me faça me tornar” isso ou aquilo. Não se quer mais construir nada; o desejo maior é habitar um sonho que tenha sido construído para nós, sem esforço de nossa parte.

Cena de 'MADE' Essa sensação de virada do destino, obtida meramente pelo acaso, é alimentada pela mídia, a quem interessa vender esse tipo de sonho. Há uma pletora de exemplos nos jornais, nas revistas e na televisão de pessoas que “surgiram do nada” e hoje são “ricas e famosas”, alimentando a idéia errônea de que esse fenômeno seja o mais natural da vida humana e de que histórias como essas ocorrem diariamente. As falsas esperanças que essa idéia cria nas pessoas em geral é muito útil para os que tiram seus lucros da cultura de massa: quantos são os cursos de modelo e manequim, os programas de televisão, as igrejas neo-pentecostais, as editoras de fundo de quintal e as revistas eróticas que se alimentam dessa falsa sensação de que o sucesso, a riqueza, a satisfação amorosa e a fama estão à espera, na próxima esquina, para saltar sobre nós de surpresa? Isso sem falar em todos os falsos ídolos e os famosos de quinze minutos dos quais se alimentam os programas de auditório na televisão e as revistas de fofoca…

Olha-se para os verdadeiramente famosos e bem-sucedidos e, em muitos casos, sua história de superação, seus reais esforços para obter aquela posição de destaque, são simplesmente ignorados. Parece ser mais fácil esperar que um expert - alguém que certamente não chegou àquela posição em um passe de mágica - bata à nossa porta e faça com que nos tornemos o que não conseguimos ser por nossa pouca vontade de enfrentar as frustrações, o cansaço e o sofrimento de aprender com os próprios erros. Afinal, quem de nós não prefere ser “feito” a efetivamente “fazer acontecer”?

Posted by Frizero at 16:11:01 | Permalink | Comments (3)

Monday, April 9, 2007

A paixão

Pierre-Auguste Renoir - 'Dança na Cidade'

A paixão é um palácio
de infinitos espelhos
onde se dá o eterno
baile da insana cobiça.

Quando lá se chega,
já a orquestra anima
os casais que rodam
- felizes, sofridos -
nos salões da mente:
ali estamos, desejo
ou objeto desejado,
a girar na contradança
que dentro em nós jamais cansa.

A rapidez dessa valsa,

o rubor dessa vontade,

o calor da fantasia,

as ilusões da saudade…

tonteiam nossa visão.

Mas os espelhos nos dão

- ainda que seja a esmo -

a indissoluta verdade:

no sonho de ter o outro,

valsamos nossa vontade

de encontrarmos a nós mesmos.

  

Da obra

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 04:43:52 | Permalink | Comments (6)

Saturday, April 7, 2007

Estocolmo

Quadro do pintor contemporâneo Claude MarquisQuadro do pintor contemporâneo Claude Marquis

(Vê-se a sala de uma casa abandonada. Ao fundo, uma porta ao centro. Ladeando-a, janelas fechadas e com venezianas de madeira em mau estado de conservação. Pelas venezianas quebradas, vê-se um matagal. Na esquerda alta do palco, há dois colchões, um sobre o outro. No centro do palco, uma velha cadeira com manchas de tinta. Na direita central, uma caixa de papelão e, ao lado, um fogareiro de acampamento com uma panela velha sobre ele. Na lateral direita, há uma porta que dá para um pequeno banheiro, que não fica visível para a platéia.)


(MÃE e FILHA estão sentadas sobre os colchões, imóveis, uma ao lado da outra; a MÃE tem quarenta e cinco anos, cabelos loiros um pouco desgrenhados, um vestido de festa amarrotado e roto, sapatos de salto alto; a FILHA tem não mais que vinte anos, cabelos loiros longos presos atrás da cabeça, uma calça jeans suja de poeira e uma blusa colorida, tamancos de salto alto sujos de barro. Elas olham atentas para o HOMEM sentado na cadeira, o qual está com os cotovelos apoiados nas coxas e o rosto afundado nas mãos, entediado – ele tem vinte e cinco anos, barba por fazer, vestindo uma bermuda, chinelos de borracha e uma camiseta branca promocional de alguma loja ou evento popular bem antigo.)

HOMEM
(erguendo o dorso e olhando para as duas)(secamente) ‘Tão com fome?


(A MÃE balança a cabeça negativamente. O HOMEM olha a FILHA; ela abaixa a cabeça ao cruzar o olhar com o dele. Ele dá de ombros, levanta-se e vai até a caixa de papelão, de onde retira um pacote de bolachas. O HOMEM vai até as duas mulheres)

(A MÃE instintivamente puxa a filha para mais próximo de si, assustada)

HOMEM
(olhando fixamente para a FILHA)(oferecendo o pacote de biscoitos) Vai, pega. (A FILHA olha para a MÃE, que abraça a jovem ainda mais forte. O HOMEM sorri para a FILHA) Vai, pega, na boa.


(A FILHA pega uma bolacha e morde-a, sem tirar os olhos do HOMEM)

(O HOMEM que retorna para a cadeira.)

MÃE
Moço, eu preciso ir ao banheiro…


(O HOMEM levanta-se da cadeira e faz um sinal com a cabeça.)

(A MÃE olha para a filha, vacila por um instante e permanece sentada.)

HOMEM
(rude) Como é, dona? Vai ou não vai?


(A MÃE olha para a FILHA)

(A FILHA faz um sinal afirmativo e acaricia a mão da MÃE.)

(A MÃE levanta-se e caminha até a porta do banheiro, acompanhada pelo HOMEM. Ela olha para a FILHA, entra no banheiro e fecha a porta.)

(O HOMEM abre a porta com um violento chute.)

(A FILHA assusta-se.)


HOMEM
(ríspido) Deixa essa merda aberta! (Ele encosta-se no portal e olha fixamente para a MÃE)

MÃE
(em off)(apreensiva, mas em tom dissimuladamente calmo) Moço, o senhor pode, pelo menos, olhar para o outro lado enquanto eu…?


(O HOMEM vira-se de costas para a MÃE, contrariado. Seu olhar encontra o olhar da FILHA, que não tirara os olhos dele. Eles observam-se. Ouve-se a descarga da privada.)

MÃE
(saindo do banheiro)(secamente) Obrigada.


(A MÃE percebe que a troca de olhares entre a FILHA e o HOMEM. Atemorizada, a MÃE caminha rapidamente para os colchões e senta-se ao lado da FILHA, abraçando-a de modo protetor)

FILHA
(para o HOMEM) Escuta, você não vai libertar a gente não?


MÃE
(assustada) Filha!


HOMEM
Não recebi ordem pra isso.


FILHA
Cara, faz pelo menos cinco dias que a gente está na mesma… Teus comparsas te deixaram aqui e levaram a grana, será que você não percebe?


HOMEM
(seco) Cala a boca.


FILHA
(com raiva) Meu, é óbvio que meu pai já pagou o resgate que vocês pediram e teus companheiros fugiram com o dinheiro. E deixaram você pra trás, otário!


HOMEM
(caminhando em direção à FILHA, com raiva) Cala a porra da tua boca!


MÃE
(desesperada, agarrando o braço da FILHA) Filha, pelo amor de Deus!


(Ele agarra a FILHA pelo queixo e ergue-a. Eles ficam cara a cara, olhando-se por alguns segundos, mas ele fica incomodado com a situação e solta-a.)

FILHA
(firme, mas menos agressivamente) Cara, no fundo você sabe que eu tenho razão… Deixa a gente ir embora e você se livra da cadeia também…


HOMEM
(caminhando em direção à cadeira) Não recebi a ordem ainda pra


FILHA
(interrompendo-o) Meu, que ordem? Eles te deixaram para trás, fugiram com a grana!… Será que tu não enxerga isso? Se bobear, eles ainda vão ligar pra polícia e te denunciar… Daqui a pouco a polícia chega aqui, liberta a gente e tu fica sem o dinheiro e cumprindo uns anos de cadeia.


HOMEM
(furioso, virando-se para ela) Cala a boca!


MÃE
Moço, desculpa a minha filha… (para a FILHA) Filha, fica calma, senta aqui do meu lado.


FILHA
(para a MÃE, em tom mais baixo) Me deixa, mãe… (para o HOMEM) Vamos entrar num acordo… (ela caminha até o HOMEM, que está em frente a cadeira, imóvel, tenso) Então, o que você acha da minha proposta? Você liberta a gente e eu prometo que a gente não vai te entregar para a polícia. Você sai dessa limpo, a gente sai daqui numa boa e esquece tudo isso…

(O HOMEM olha para ela com desconfiança.)

(A MÃE mergulha o rosto nas mãos e começa a chorar baixinho.)

FILHA
Pensa bem… (A FILHA repousa a mão no ombro do HOMEM; ele fica incomodado com o gesto.) A gente está aqui já faz cinco dias… Cinco dias comendo essa porcaria de comida, sem dormir direito, bebendo essa água com gosto de barro… E eu sei que você também está sofrendo, que aqui também não é legal pra você… (Ela acaricia o braço do HOMEM, que acompanha a mão dela com os olhos) E eu sinto que você não nasceu pra essa vida, cara…


HOMEM
(sacode a cabeça, despertando) Ah, você fala demais, mulher!… (agarra a mão da FILHA com força e puxa-a de encontro ao seu corpo. Eles ficam cara a cara, quase com os lábios colados)

(A FILHA encara-o francamente.)

(A MÃE ergue-se dos colchões e faz menção de ir até eles.)

FILHA
(sensual) As coisas podiam ser tão diferentes entre nós… (Ela acaricia o rosto do HOMEM e ele lentamente solta o braço dela. Eles continuam próximos, na iminência de um beijo.) Pensa nisso… Você solta a gente e daí… cara, uma vida nova… lá fora, tudo pode ser bem diferente…

(O HOMEM coloca a mão na cintura dela, puxando-a para mais perto.)

HOMEM
(sorrindo maliciosamente) Você não tem macho, lôra, é isso?…

(ela sorri, nervosa e excitada)

HOMEM
Ou nunca teve um macho de verdade… assim(O HOMEM pega a mão da FILHA e coloca-a sobre a calça, na região genital)…assim tipo eu?…

(A FILHA fecha os olhos e suspira.)

HOMEM
Você é muito gostosa… Comigo ‘cê ia curtir cada minuto, lôra

(A FILHA beija o HOMEM.)

(A MÃE, chocada, vai até eles e tira a FILHA dos braços do HOMEM.)


MÃE
Filha, meu Deus, você enlouqueceu!…


(A FILHA sorri para ele, insinuante.)

(O HOMEM sorri e olha para a FILHA com olhos de desejo. Pausa. Pelas venezianas, dois clarões de faróis de automóvel se aproximando; ouve-se o som distante dos dois carros. O HOMEM percebe o clarão dos faróis e vai até a janela. Assustado, saca de trás das calças um revólver. )

HOMEM
(exasperado) SUJOU! (apontando a arma para as duas) Nem um pio ou eu queimo as duas no ato!

(A MÃE abraça a FILHA, desesperada.)

(A FILHA desfaz-se do abraço da MÃE e caminha até o HOMEM.)

HOMEM
Senta lá! Acabou a palhaçada! Eu já disse que queimo as duas se fizerem qualquer coisa!

(A FILHA vai até ele, que aponta o revólver para ela.)

HOMEM
Senta lá ou eu atiro! Falo sério!

(A FILHA segura o revólver)

(O HOMEM assusta-se com o gesto.)

(A FILHA aproxima-se dele e beija-o na boca, demoradamente.)

(O HOMEM abaixa a arma e corresponde ao beijo, abraçando-a.)


VOZ MASCULINA
(em off) A casa caiu! Vocês estão cercados! Saiam pela porta da frente com as mãos para o alto!



(O HOMEM assusta-se e vai até a cadeira. Usando a cadeira como defesa, aponta a arma para a porta, desesperado.)

FILHA
(caminhando até ele, calmamente) Calma, não tenha medo… (ergue o HOMEM pelo braço) Liberte a minha mãe e eu prometo que te ajudo a fugir…


MÃE
Filha, não faça isso! (desesperada) Moço, eu fico de refém, deixa a minha filha ir embora, por favor!… É só uma menina, moço, pelo amor de Deus!… (agarrando o HOMEM pelo braço) Meu marido paga o que o senhor quiser!…


HOMEM
(para a MÃE, agressivamente)(em tom baixo de voz) Cala a boca, mulher! (segura a MÃE pelo braço e joga-a sobre os colchões) Fica aí e só levanta se eu mandar ou então, leva chumbo!

(A MÃE cai na cama improvisada e começa a chorar.)


VOZ MASCULINA
(em off) É a polícia! Não tem mais saída! Vocês estão cercados!

(O HOMEM olha para a FILHA.)(A FILHA observa seu gesto, apreensiva.)

HOMEM
(para a FILHA)
Tá, qual é o teu plano?

FILHA
(vai até o HOMEM e acaricia o rosto dele) A gente liberta a minha mãe pela porta da frente… A polícia vai toda se mobilizar para isso… daí a gente foge, eu e você, pelos fundos…


HOMEM
Eu e você?!?


FILHA
Isso, eu e você, uma outra vida longe daqui… (ela oferece os lábios e o HOMEM sorri.)

(O HOMEM beija-a novamente, os dois envolvem-se em um longo e libidinoso abraço.)

(A MÃE observa a tudo, chocada.)

FILHA
(A FILHA consegue roubar o revólver da mão do HOMEM e, desfazendo-se do abraço, aponta a arma para ele) Fica calmo senão eu disparo…


HOMEM
(furioso) Sua puta!


FILHA
Mãe, levanta daí. (A MÃE levanta-se, assustada)


HOMEM
(nervoso) Vai me matar agora, sua vaca?


(A FILHA aproxima-se dele.)

FILHA
Mãe, você vai abrir a porta e sair calmamente com as mãos para o alto… Vai…


(A MÃE obedece a FILHA. Pela porta aberta, vê-se um clarão de faróis direcionados à entrada da casa; a MÃE sai pela porta com as mãos para o alto.)

HOMEM
(agressivo) Se vai me matar, sua puta, me mata logo!


(A FILHA aponta para o HOMEM a porta de entrada.)

(O HOMEM vai até a porta com as mãos para o alto.)

(A FILHA pega o HOMEM por trás, pelo pescoço, e encosta a arma na têmpora direita do rapaz. Depois, dá um beijo em sua nuca. Ela sai com ele porta afora.)

FILHA
(para o rapaz, carinhosa) Não se preocupe, cara, vai dar tudo certo, eu vou te livrar dessa… (firme) Ninguém atira, senão eu mato ele!… Ninguém atira!… (As luzes apagam-se lentamente)

(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 17:16:44 | Permalink | Comments (2)

Friday, April 6, 2007

Teresa, você e eu

Teresa Salgueiro Mesmo depois de travar contato com as diversas participações de Teresa Salgueiro em trabalhos de outros artistas mundo afora, reunidas no álbum Obrigado (2005), ouvir sua voz, que se tornou um símbolo da sonoridade do Madredeus ao longo dos vinte anos, a cantar um repertório que não seja o dessa banda portuguesa, a mais bem sucedida da história daquele país, causa estranhamento nos fãs mais fervorosos. Mas essa sensação é dissipada pela beleza das interpretações registradas em Você e Eu (2007), o primeiro álbum solo da cantora.

Apaixonada pela música brasileira desde a infância - sim, os portugueses conhecem e apreciam nossa música popular, talvez mais até que muitos brasileiros -, Teresa Salgueiro não resistiu ao desafio proposto pelo produtor musical brasileiro Roberto Bruzadin: o de gravar um álbum apenas com grandes composições da MPB. Foi ele quem apresentou Teresa Salgueiro ao pianista e compositor João Cristal e seus músicos - com quem a cantora divide, humilde e generosamente, a autoria do álbum -, e já na primeira reunião a voz do Madredeus trazia sugestões de canções que sabia de cor de compositores nossos como Pixinguinha, Tom Jobim, Chico Buarque, Dorival Caymmi e tantos outros.

Teresa Salgueiro em show ao vivo realizado em São Paulo, em janeiro de 2007, com o repertório de 'Você e Eu' O resultado do trabalho feito por Teresa Salgueiro e o Septeto de João Cristal foi lançado, em Portugal, em março de 2007. Alguns críticos brasileiros falam da previsibilidade do repertório, que não trouxe nenhuma canção inédita e tem alguns standards da MPB gravados anteriormente por inúmeras cantoras nacionais e internacionais. Mas todos eles são unânimes em falar da qualidade das gravações: Teresa Salgueiro, com sua apuradíssima técnica vocal, mostra em Você e Eu que é capaz de dar nova graça a temas tão conhecidos como Modinha ou Chovendo na Roseira. Falou-se do sotaque brasileiro de Teresa, compararam-na a Carmem Miranda - reproduzindo o estigma aplicado a qualquer cantora portuguesa que se propôs, até hoje, a gravar MPB - e até mesmo disseram que ela estaria pensando apenas no lado comercial envolvido na gravação de um álbum solo, como se a MPB fosse uma garantia absoluta de sucesso de vendas… Em verdade, Teresa Salgueiro arriscou-se, e muito, ao fazer Você e Eu, justamente por se lançar às críticas que certamente viriam, à possibilidade de soar estranho uma cantora lusitana entoando sambas e bossa nova e, sendo bastante honesto, a MPB não seria a mais rentável opção para uma cantora que construiu seu nome dentro de um grupo como o Madredeus e que poderia, isso sim, ter seguido pelo caminho fácil da new age music ou mesmo de gravar um álbum com temas lusitanos - fados, imaginem, com sua bela voz de aveludada melancolia - compostos especialmente para sua voz. Mas preferiu seguir a intuição e preferiu cantar o que lhe agrada, o que fala mais alto em sua memória musical - e, para a sorte dos brasileiros, é a nossa música aquela que embalou Teresa Salgueiro em sua juventude.

Capa de 'você e Eu' (2007)Infelizmente o caminho inverso raramente é feito. A cultura portuguesa ficou, no Brasil, reduzida ao folclore dos imigrantes e a temporãs apresentações de artistas portugueses no país que, via de regra, recebem pouquíssima divulgação da mídia e são absolutamente esquecidos pelas rádios e gravadoras. Nenhum artista brasileiro, com raríssimas exceções, vai a Portugal buscar os novos talentos e as ricas composições que a moderna música portuguesa tem a oferecer e as grandes emissoras de televisão, gravadoras e estações radiofônicas tratam o que vem de lá com o mesmo exotismo com que tratam qualquer outro artista que cante em outro idioma que não seja o português - exceto, é claro, a avalanche de música importada dos EUA e da Inglaterra, que são divulgadas com uma força impressionante ao ponto de imaginarmos que a maioria da população brasileira fala inglês fluentemente… Você e Eu seria uma ótima oportunidade de tentar, uma vez mais, fortalecer os laços culturais entre Brasil e Portugal e apresentar para os brasileiros a beleza de uma das mais sensíveis intérpretes da atualidade. Mas, enfim, os brasileiros viraram, há muito, às costas para o que vem das terras lusitanas. Enquanto isso, o álbum de Teresa Salgueiro, totalmente dedicado à música popular brasileira, apenas recebeu críticas positivas em Portugal e estreou na lista dos mais vendidos em oitavo lugar, mesmo competindo com os tantos álbuns de artistas norte-americanos cujas campanhas de marketing pagariam a produção de vários álbuns como essa pequena preciosidade com que nos presenteou Teresa Salgueiro.

Posted by Frizero at 01:15:10 | Permalink | No Comments »