Thursday, December 6, 2007

Narcisismo-leninismo

Chávez e Morales - salvadores da pátria?

Talvez a primeira notável diferença entre os grandes estadistas e os ditadores de ocasião resida na transformação de suas fisionomias em ícones de um regime.  Os grandes estadistas costumam ter seus rostos transformados em camisetas, canecas, bonecos articulados e referências simbólicas depois de sua passagem pelo poder, por conta de seus méritos a frente de governos bem sucedidos ou de relevância histórica.

A mesma lógica não agrada aos ditadores.  Eles usam sua imagem como símbolo desde o início, como forma de marcar uma onipresença que, em suas mentes tortuosas, são sinônimo de permanência no poder.  Não raro, forçam o uso de sua efígie nas repartições públicas, nas representações do poder, em estátuas e painéis grandiloqüentes e, quando avançam em sua dominação, na moeda corrente e na religiosidade sem Deus que cultivam em torno de seu regime.

Invariavelmente, o que se vê é uma reedição das idéias judaicas mais elementares na releitura tacanha desses salvadores da pátria: os revolucionários são o povo eleito, o ditador é o messias aguardado e o país que se formará a partir de sua megalomania, a Canaã prometida.  Assim foi com Mao Tsé Tung, que queimou todo o saber - e pisoteou nos que o sabiam - por acreditar que suas palavras reunidas no livro vermelho condensavam tudo o que o povo precisava saber; assim enxergava Adolph Hitler, que via em uma pretensa raça ariana a salvação não só da Alemanha, mas de toda a humanidade - um conceito que no nazismo não abrangia judeus, negros, ciganos e homossexuais; assim pensam os ditadores latino-americanos que alçaram o poder nos últimos anos pelas vias do voto - que agora parecem desprezar.

A democracia, este mal necessário, é nas mãos desses tiranos apenas uma máscara sob a qual se defendem dos questionamentos do mundo.  E máscaras caem com o tempo.  A de Hugo Chávez caiu há tempos, mas ontem a Venezuela teve mais uma prova do desprezo de Chávez pela democracia: se há três dias ele havia humildemente admitido sua derrota no plebiscito em que pretendia a reeleição eterna, ontem chamou a vitória da oposição de una victória de mierda, desprezando a opinião dos que não aceitaram suas razões falaciosas e afirmando que reenviará suas propostas de mudança da constituição até o final de seu longo mandato.  A máscara de Evo Moráles caiu há alguns dias, quando se aquartelou com os parlamentares de seu partido para promover reformas constitucionais sem a interferência e a participação da oposição - uma atitude muito democrática.

Por que líderes políticos que crêem firmemente serem os messias de um novo tempo irão se importar com a opinião do povo, com o jogo político de opisições e debates, com a mensagem das urnas?  Se a ditadura do proletariado é o único caminho para o bem, que importância haverá os meios para atingí-la?  E, cabe questionar, que importância há na opinião do povo, se eles acreditam que o povo não se reconhece como oprimido?  Democracia e narcisismo-leninismo são incompatíveis.  Não há quem pense na coletividade quando está tão centrado em si mesmo e em suas manias de grandeza.  Hugo Chávez, por exemplo, disse que é soldado e pegará em armas se preciso for, para implementar na Venezuela seu socialismo bolivariano.  Dentro de tão estreita visão de mundo, a urna deve ser um objeto obsoleto e incômodo para esses pobres órfãos latino-americanos da fracassada União Soviética.

A esperança é que o “não” venezuelano seja o indício de esperanças novas no continente, que precisa de renovação, e não de caudilhismo requentado de socialismo.

Posted by Frizero at 13:58:26
Comments

3 Responses to “Narcisismo-leninismo”

  1. Frizero says:

    E hoje a notícia é que Evo Moráles colocou a própria cabeça a prêmio… disse que renuncia ao cargo se perder em um plebiscito que convocou sobre o próprio mandato. Será que ele não viu o que aconteceu com o Chávez ou está arrumando uma bela desculpa para “tirar o corpo fora”?

  2. Fábio Souza says:

    Muito bom.
    Fábio

  3. dfhglorphp says:

    very impressive way to explain things.

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