Noite feliz
(Uma sala de estar de uma casa de dois andares. Ao fundo, descendo do andar superior, que não é visível ao público, uma escada com largo corrimão que começa no canto superior direito do fundo do palco e termina ao pé de uma grande janela da sala de estar. Pela janela, enfeitada com cortinas brancas de renda, vê-se a amurada de uma varanda, de onde se ouve o som da chuva e do vento nas árvores. Ao lado da janela, um pequeno ‘hall’ de entrada que vai dar na porta da sala. Do lado esquerdo do palco, uma pequena lareira com um fogo aceso já baixo, à frente da qual está uma poltrona inglesa de veludo vermelho, já meio poído. Ao canto da sala, uma árvore de Natal toscamente enfeitada, com luzes vermelhas ainda piscando, está caída ao chão. Pelas paredes, enfeites natalinos em branco e vermelho, todos muito simples e gastos, enfeitam o ambiente)
LEONORA
(Desce as escadas apressadamente. Pára no último degrau, olha o ambiente ao redor e parece ter medo de pisar no chão. Depois de algum tempo, desce e começa a andar de um lado para outro da sala, aflita. Olha o chão, no qual há pegadas úmidas de um cão. Vai até a árvore de Natal caída; faz menção de erguê-la, mas desiste. Aperta a cabeça entre as mãos em desespero e volta a caminhar pela sala freneticamente. Pára, de repente, em frente à poltrona, onde está sentado PACÍFICO)
Acorde!
(faz menção de tocá-lo, mas recua.) Acorde!
(para si) Acorde!…
PACÍFICO
(ergue a cabeça, olha em direção à platéia, ainda meio sonolento. Olha os manuscritos de um livro que estão em suas mãos, olha novamente a platéia e só então percebe que LEONORA está à sua frente)
(calmamente) Que?
LEONORA
(apontando a árvore de Natal)(alto)A árvore!
(aflita, mas em tom baixo) O cão…
(apontando o chão molhado) Tudo acabado!…
(irrompendo em um choro convulsivo) O Natal!… O cão!… Tudo acabado!…
PACÍFICO
(erguendo-se calmamente)Calma…
(procurando no chão os chinelos)Calma…
(abraçando a esposa, que treme convulsivamente enquanto chora) Ele volta…
(rindo) O cão.
LEONORA
(fugindo do abraço do esposo) Volta?!?!?
(tira os manuscritos das mãos de PACÍFICO e joga-os na lareira acesa) Que morra!
(lança-se no chão, chorando dramaticamente)
PACÍFICO
(olha o livro na lareira e começa a gargalhar estridentemente. Depois de algum tempo, faz uma pausa e muda a fisionomia repentinamente, mostrando descrédito)
(aponta para o livro e para a mulher) Ah, não!… Não!…
(com raiva, vai até o canto da sala, ergue a árvore de Natal caída)
(olhando para o livro que arde na lareira) Tudo destruído…
(vai até a escada e, antes de subir o primeiro degrau, pisa em uma das pegadas úmidas do cão e quase escorrega)
(com raiva contida, olhando para o chão e depois para a mulher que continua chorando desesperadamente) Que morra!
(sobe as escadas enquanto as luzes se apagam)
FIM