Thursday, December 20, 2007

O caçador de acertos

Cena do filme 'O Caçador de Pipas'Há uma maneira de ser bom novamente. O leitmotif do bem-sucedido romance de estréia de Khaled Hosseini, O Caçador de Pipas (2003), bem poderia resumir os caminhos escolhidos pelos produtores de sua adaptação cinematográfica, que estréia nesses dias que antecedem o Natal nos cinemas dos Estados Unidos. 

O livro, que vendeu mais de oito milhões de cópias em todo o mundo, conta de maneira magistral a história de dois meninos no Afeganistão pré-invasão russa e de como um erro cometido por um deles refletirá por toda a sua vida adulta. Amir, que ainda adolescente imigrará para os Estados Unidos com o pai, fugindo da repressão instalada em seu país em 1979, é filho de uma abastada família Pashtun, sunitas que governavam o Afeganistão antes do regime Talibã.  Seu melhor amigo, filho de um serviçal de seu pai, é Hassan, um Hazara - povo xiita de origem mongol, subjugados na estrutura social afegã.  Uma traição de Amir encherá sua vida do remorso que o fará retornar ao Afeganistão, já adulto, durante o regime Talibã, na esperança de refazer os erros cometidos no passado.  A adaptação cinematográfica respeita o caráter sobejamente humanista do livro e, como Amir, reveste-se de cuidados para não repetir os erros de produções hollywoodianas anteriores, que tratam o estrangeiro com o olhar simplista e esteriotipado que tanto desagrada os povos neles retratados.

O diretor de The Kite Runner, o suíço Marc Forster, já demonstrou seu talento em produções inteligentes como De Volta à Terra do Nunca e Mais Estranho que a Ficção.  Para a aguardada versão cinematográfica de O Caçador de Pipas, ele recusou as pressões dos diretores da Paramount que pretendia transformar o filme em um grande blockbuster: escalou o escocês de origem egípcia Khalid Abdalla para viver o Amir adulto, um papel que o estúdio queria entregar para nomes famosos como Tom Cruise ou Ben Afflect; para os papéis infantis, encontrou nas escolas secundárias afegãs os dois meninos, que efetivamente pertencem às etnias das personagens e agora encantam os críticos norte-americanos como Amir e Hassan.  Impossibilitado de rodar o filme no Afeganistão destruído pelas guerras, ele optou por encontrar locações nas proximidades, no intuito de manter a mesma ambientação original - escolheu a China, em localidades que, na película, confundem os próprios afegãos que trabalharam na produção.

Outro mérito do filme é seu caráter multicultural autêntico.  Os produtores contaram com consultores diversos, que trabalharam em conjunto para tornar as referências culturais as mais fiéis possíveis.  Mais que isso: a grande vitória do diretor foi rodar o filme quase inteiramente em darsi, língua falada no Afeganistão - o próprio autor, Khaled Hosseini, escreveu os diálogos em sua língua natal -, o que é algo arriscado para um filme norte-americano, destinado a um público desacostumado a assistir filmes legendados.  O purismo dos produtores levou o ator principal, Khalid Abdalla, a aprender darsi em um mês de cursos de imersão em Kabul até que pudesse falar a língua como um nativo.  

Cena de 'O Caçador de Pipas'O filme - bem como o romance - tem como principal atrativo seu retrato de um Afeganistão que não se resume aos horrores da guerra televisionada pelos canais de notícias.  Saltam aos olhos do expectador, como do leitor do livro, o cotidiano dos afegãos, as relações interpessoais, os sonhos e os problemas que tornaram aquele povo, sobretudo aos olhos do público norte-americano, mais que a imagem distorcida de vilões da guerra contra o terrorismo.  Trata-se de uma aproximação com a cultura daquela parte do mundo que não se limita ao esperado: vê-se ali o muçulmano fiel, o fanático, o que usa a religião apenas como fachada para exercer o poder - como, via de regra, em todas as religiões e recantos do mundo costuma acontecer.  No caso de O Caçador de Pipas, mostra-se como o povo afegão foi vítima de uma sucessão perversa de lideranças políticas que lvou à destruição do país, que ora tenta se reerguer da catástrofe.  A história do filme e do romance não é omissa em relação à guerra ou à política - mostra, isso sim, como essas dimensões mais amplas da vida humana afetam o homem comum.  São problemas que estão longe de uma solução: o lançamento do filme, programado para agosto nos Estados Unidos, teve que ser adiado para dezembro para que as crianças pudessem terminar o ano letivo em Kabul e ser retiradas do Afeganistão antes de o filme chegar às telas; uma cena em particular, crucial para o filme, poderia acender a ira dos afegãos contra os meninos e a produção decidiu transferir as famílias para os Emirados Árabes Unidos, onde hoje vivem (ainda que não haja no Afeganistão uma sala de cinema sequer, o filme certamente chegará ao país pelas mãos do comércio clandestino - mesmo caminho pelo qual o livro, proibido no Irã e no Afeganistão, tornou-se um best-seller naqueles países a partir de uma tradução pirata para o farsi).

Contra o filme, os críticos estadunidenses apontam o mesmo problema do romance que o originou - uma certa falta de sutileza na história, algo direta e previsível, com um fechamento final cuja conveniente coincidência de vilões lembra o Deus Ex Machina dos dramas de Eurípedes.  Mas o recurso usado pelo escritor estreante não abala em nada a riqueza da história e sua mensagem: sempre há tempo para um recomeço.  O sucesso do filme, cujas qualidades de produção nos permitem antever, pode indicar um novo caminho para os produtores de Hollywood, sempre tão ávidos por fórmulas de boa bilheteria.

Posted by Frizero at 14:45:13 | Permalink | Comments (5)

Thursday, December 6, 2007

Narcisismo-leninismo

Chávez e Morales - salvadores da pátria?

Talvez a primeira notável diferença entre os grandes estadistas e os ditadores de ocasião resida na transformação de suas fisionomias em ícones de um regime.  Os grandes estadistas costumam ter seus rostos transformados em camisetas, canecas, bonecos articulados e referências simbólicas depois de sua passagem pelo poder, por conta de seus méritos a frente de governos bem sucedidos ou de relevância histórica.

A mesma lógica não agrada aos ditadores.  Eles usam sua imagem como símbolo desde o início, como forma de marcar uma onipresença que, em suas mentes tortuosas, são sinônimo de permanência no poder.  Não raro, forçam o uso de sua efígie nas repartições públicas, nas representações do poder, em estátuas e painéis grandiloqüentes e, quando avançam em sua dominação, na moeda corrente e na religiosidade sem Deus que cultivam em torno de seu regime.

Invariavelmente, o que se vê é uma reedição das idéias judaicas mais elementares na releitura tacanha desses salvadores da pátria: os revolucionários são o povo eleito, o ditador é o messias aguardado e o país que se formará a partir de sua megalomania, a Canaã prometida.  Assim foi com Mao Tsé Tung, que queimou todo o saber - e pisoteou nos que o sabiam - por acreditar que suas palavras reunidas no livro vermelho condensavam tudo o que o povo precisava saber; assim enxergava Adolph Hitler, que via em uma pretensa raça ariana a salvação não só da Alemanha, mas de toda a humanidade - um conceito que no nazismo não abrangia judeus, negros, ciganos e homossexuais; assim pensam os ditadores latino-americanos que alçaram o poder nos últimos anos pelas vias do voto - que agora parecem desprezar.

A democracia, este mal necessário, é nas mãos desses tiranos apenas uma máscara sob a qual se defendem dos questionamentos do mundo.  E máscaras caem com o tempo.  A de Hugo Chávez caiu há tempos, mas ontem a Venezuela teve mais uma prova do desprezo de Chávez pela democracia: se há três dias ele havia humildemente admitido sua derrota no plebiscito em que pretendia a reeleição eterna, ontem chamou a vitória da oposição de una victória de mierda, desprezando a opinião dos que não aceitaram suas razões falaciosas e afirmando que reenviará suas propostas de mudança da constituição até o final de seu longo mandato.  A máscara de Evo Moráles caiu há alguns dias, quando se aquartelou com os parlamentares de seu partido para promover reformas constitucionais sem a interferência e a participação da oposição - uma atitude muito democrática.

Por que líderes políticos que crêem firmemente serem os messias de um novo tempo irão se importar com a opinião do povo, com o jogo político de opisições e debates, com a mensagem das urnas?  Se a ditadura do proletariado é o único caminho para o bem, que importância haverá os meios para atingí-la?  E, cabe questionar, que importância há na opinião do povo, se eles acreditam que o povo não se reconhece como oprimido?  Democracia e narcisismo-leninismo são incompatíveis.  Não há quem pense na coletividade quando está tão centrado em si mesmo e em suas manias de grandeza.  Hugo Chávez, por exemplo, disse que é soldado e pegará em armas se preciso for, para implementar na Venezuela seu socialismo bolivariano.  Dentro de tão estreita visão de mundo, a urna deve ser um objeto obsoleto e incômodo para esses pobres órfãos latino-americanos da fracassada União Soviética.

A esperança é que o “não” venezuelano seja o indício de esperanças novas no continente, que precisa de renovação, e não de caudilhismo requentado de socialismo.

Posted by Frizero at 13:58:26 | Permalink | Comments (3)

Saturday, December 1, 2007

Noite feliz

(Uma sala de estar de uma casa de dois andares. Ao fundo, descendo do andar superior, que não é visível ao público, uma escada com largo corrimão que começa no canto superior direito do fundo do palco e termina ao pé de uma grande janela da sala de estar. Pela janela, enfeitada com cortinas brancas de renda, vê-se a amurada de uma varanda, de onde se ouve o som da chuva e do vento nas árvores. Ao lado da janela, um pequeno ‘hall’ de entrada que vai dar na porta da sala. Do lado esquerdo do palco, uma pequena lareira com um fogo aceso já baixo, à frente da qual está uma poltrona inglesa de veludo vermelho, já meio poído. Ao canto da sala, uma árvore de Natal toscamente enfeitada, com luzes vermelhas ainda piscando, está caída ao chão. Pelas paredes, enfeites natalinos em branco e vermelho, todos muito simples e gastos, enfeitam o ambiente)

LEONORA
(Desce as escadas apressadamente. Pára no último degrau, olha o ambiente ao redor e parece ter medo de pisar no chão. Depois de algum tempo, desce e começa a andar de um lado para outro da sala, aflita. Olha o chão, no qual há pegadas úmidas de um cão. Vai até a árvore de Natal caída; faz menção de erguê-la, mas desiste. Aperta a cabeça entre as mãos em desespero e volta a caminhar pela sala freneticamente. Pára, de repente, em frente à poltrona, onde está sentado PACÍFICO)

Acorde!

(faz menção de tocá-lo, mas recua.) Acorde!

 (para si) Acorde!…

PACÍFICO
(ergue a cabeça, olha em direção à platéia, ainda meio sonolento. Olha os manuscritos de um livro que estão em suas mãos, olha novamente a platéia e só então percebe que LEONORA
está à sua frente)

(calmamente) Que?

LEONORA
(apontando a árvore de Natal)(alto)A árvore!

 (aflita, mas em tom baixo) O cão…

(apontando o chão molhado) Tudo acabado!…

(irrompendo em um choro convulsivo) O Natal!… O cão!… Tudo acabado!…

PACÍFICO
(erguendo-se calmamente)Calma…

(procurando no chão os chinelos)Calma…
 
(abraçando a esposa, que treme convulsivamente enquanto chora) Ele volta…
 
(rindo) O cão.

LEONORA
(fugindo do abraço do esposo) Volta?!?!?

(tira os manuscritos das mãos de PACÍFICO e joga-os na lareira acesa) Que morra!

(lança-se no chão, chorando dramaticamente)

PACÍFICO
(olha o livro na lareira e começa a gargalhar estridentemente. Depois de algum tempo, faz uma pausa e muda a fisionomia repentinamente, mostrando descrédito)

(aponta para o livro e para a mulher) Ah, não!… Não!…
 
(com raiva, vai até o canto da sala, ergue a árvore de Natal caída)

(olhando para o livro que arde na lareira) Tudo destruído…

(vai até a escada e, antes de subir o primeiro degrau, pisa em uma das pegadas úmidas do cão e quase escorrega)
 
(com raiva contida, olhando para o chão e depois para a mulher que continua chorando desesperadamente) 
Que morra!

(sobe as escadas enquanto as luzes se apagam)
 

FIM

Posted by Frizero at 21:33:20 | Permalink | Comments (1) »