Friday, September 14, 2007

O caminho para Meca

China Zorrilla e Carolina Papaleo O Porto Alegre em Cena, tradicional festival de teatro de Porto Alegre que, em 2007, atinge sua décima-quarta edição, é sempre uma ótima oportunidade para travar contato com o que se está a produzir em termos de espetáculo por todo o mundo.  Música, dança e, sobretudo, teatro de todas as tendências e propostas - o que torna as escolhas do público sobre que espetáculos escolher um tanto complicada e, por vezes, arriscada.  O valor convidativo dos ingressos - R$ 10,00 com os descontos oferecidos pela organização - faz com que muitos espectadores invistam o que gastariam com um ingresso na temporada normal para assistir a vários espetáculos.

Há sempre, no Porto Alegre em Cena, as bizarrices de ocasião - ano passado, um ator recebia choques elétricos conforme as reações da platéia; este ano, um ator passa todo o espetáculo acorrentado em um aparelho de tortura para viver um garoto de programa que sofre nas mãos de um sádico cliente -, das quais convém fugir se a sua mente ainda não foi totalmente convencida pela tal pós-modernidade… Também há que se desconfiar de alguns espetáculos que chegam envoltos em uma aura de celebridade, incensados pela crítica modernosa, e que no palco se mostram uma daquelas tolices desconexas que algumas pessoas se sentem obrigadas a gostar ou fingir que entenderam - caso, este ano, do engodo chamado Big in Bombay, da coreógrafa argentina Constanza Macras e de sua companhia alemã de teatro-dança - o único espetáculo, em toda a minha vida, que eu abandonei pela metade, indignado, sentindo-me ludibriado; eu, os que me acompanhavam e mais um sem-número de pessoas que causaram um pequeno congestionamento na saída do Teatro do Sesi em pleno intervalo, fato inédito, é bom ressaltar.

Mas tudo isso é compensado pelas preciosidades que o Porto Alegre em Cena é capaz de trazer a Porto Alegre.  Em 2007, uma dessas maravilhas é El Camino a la Meca, peça do dramaturgo sul-africano Athol Fugard em montagem portenha. 

Fugard é considerado um dos dramaturgos de língua inglesa mais importantes dos últimos tempos.  Sua dramaturgia remete à tradição norte-americana e não raro seus textos são comparados aos de Arthur Miller, Tennessee Williams e Edward Albee, por conta de sua temática firmemente calcada no ser humano.  Em El Camino a la Meca (1984), ele parte da história real de Helen Niemand, uma mulher nascida e criada em uma pequena comunidade de africaneers na África do Sul e que se vê, depois de viúva e muito idosa, excluída e rechaçada da comunidade depois que decide viver sua liberdade particular: deixa de ir aos encontros da dominadora comunidade protestante em que vive e passa a fazer esculturas, em cimento e ladrilhos, de monstros, animais e seres mitológicos - um conjunto ao qual dá o nome sugestivo de ”Meca”.  A ação passa-se em uma noite na qual Helen é visitada por sua única amiga, a jovem professora Elsa, que vive há doze horas de carro da pequena cidade da escultora.  Ela visita Helen depois de receber uma carta na qual a senhora narra seu desespero.  O confronto entre as duas revelará a real situação de Helen - a comunidade, na figura do pastor e amigo Marius, quer forçá-la a abandonar sua casa e ir para um asilo mantido pela igreja.

China Zorrilla, a celebrada atriz uruguaia de filmes como Elsa e Fred, é uma presença magnética no palco em seus oitenta e cinco anos de idade. Sua Helen é magistralmente composta, jamais resvalando no caricatural ou no excesso, o que torna o destino de sua personagem completamente verossímil.  Carolina Papaleo, atriz argentina, é forte e convincente como Elsa, oferecendo um contraponto à altura para a grande atriz uruguaia, que está à frente da montagem há cinco anos.

O mais encantador - e que me fez recordar as tolices e os engodos teatrais que o Porto Alegre em Cena traz no mesmo festival, garantindo sua enriquecedora diversidade, é que El Camino a la Meca não necessita de malabarismos, grandes cenários ou cenas grotescas; não exige do expectador uma compreensão que fuja ao aceitável; não é hermético, nem ofensivo.  No entanto, leva o expectador às lágrimas - tarefa difícil em tempos nos quais as pessoas parecem rir de tudo - e faz pensar, causando aquela impressão permanente que só os grandes artistas conseguem imprimir em seu público. 

O “caminho para Meca” de um bom espetáculo segue sendo sua honestidade para com o público.

Posted by Frizero at 16:54:30
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