Longo prazo
Uma votação no Senado Federal derrubou, esta semana, a intenção do governo Lula de criar mais um ministério, mal escondido sob o nome questionável de Secretaria Especial de Ações de Longo Prazo - ou algo que o valha. Por trás do veto, que representou a extirpação de um ministro ligado ao partido do vice-presidente José Alencar. Roberto Mangabeira Unger, que teve cerimônia de posse no cargo antes mesmo da aprovação do novo ministério no Congresso Nacional, precisaria, segundo a estrutura planejada pelo governo Lula, da assombrosa quantia de oitenta e três servidores em cargos de comissão, devidamente criados na mesma leva do decreto de junho de 2007 que estabeleceu um total de seiscentos e vinte e seis novos cargos comissionados na administração pública.
O mais curioso, contudo, é que a recusa dos senadores em aprovar a criação de tal grandiosa estrutura não tem nenhuma relação com questões éticas, com um desejo sincero de enxugar a máquina pública ou de impedir o governo de estabelecer um ente no Governo Federal cuja função poderia ser muito bem exercida pelo já existente Ministério do Planejamento. Ao que tudo indica, o veto dos senadores foi uma manobra do partido político do presidente do Senado Federal em represália pela recusa do governo Lula em conceder àquele grupo certos cargos de importância em empresas estatais como Eletrobrás, Petrobrás e outras de igual relevância.
Nossos políticos funcionam assim, à base de trocas as mais escabrosas. Em todas as democracias do mundo o governo é construído por meio de negociações, isso é fato. Mas onde em outros países há o interesse comum, e os debates permanecem no campo das idéias, aqui o fisiologismo impera e sufoca. Os mesmos parlamentares que vetam o novo ministério estão encaminhando a aprovação da CPMF - o imposto sobre movimentações financeiras com apelido de “contribuição provisória”. O governo Lula, que reclama constantemente dos custos de manutenção da máquina estatal - justificativa maior para a manutenção do imposto sobre o cheque -, gerou um acréscimo mensal de R$23.200.000,00 por ano com a criação dos tais novos seiscentos e vinte e seis cargos em comissão.
Tudo é tão descarado que os partidos políticos não escondem suas pretensões nem mesmo quando reclamam para si posições na diretoria ou na presidência de empresas públicas. Grandes corporações como a Petrobrás e Eletrobrás, construídas com o dinheiro do contribuinte, merecem diretores e presidentes de profundo conhecimento técnico, mas estão sendo loteadas pelos políticos com o claro interesse de obtenção de vantagens pessoais. Que outro interesse teria um político em indicar o diretor de uma Petrobrás, ou o presidente de uma Eletronorte? Afinal, assim funcionava o Valerioduto, que se aproveitava de verbas de publicidade das empresas estatais - as quais dificilmente são questionadas, por serem de difícil mensuração em comparação aos serviços prestados - para encher os cofres dos partidos e de seus representantes do povo. Curiosamente, um dos primeiros ministérios extras criados por Lula, ainda em seu primeiro mandato, foi uma secretaria especial cuja função era a de gerenciar as verbas federais de publicidade, a cargo de Luís Gushiken…
Em entrevista a uma emissora de televisão, Lula afirmou que a tal Secretaria Especial de Ações de Longo Prazo é essencial para o governo, pois é através dela que o presidente pretende preparar o Brasil para o bicentenário da independência em 2022. Em um país como este, no qual ninguém consegue trabalhar com planejamentos futuros, é até plausível que sejam necessários oitenta e quatro servidores públicos pagos a peso de ouro para construir algum projeto de país que ainda funcione daqui a quinze anos. Infelizmente, a descrença que se instala no país, em relação às instituições políticas, faz-nos crer que as ações de longo prazo às quais Lula se refere sejam outras, bem mais pragmáticas, repletas desse fisiologismo que o Partido dos Trabalhadores dizia tanto desprezar.

As democracias parecem se governar cada uma à sua maneira local. As ditaduras, ao contrário, são todas iguais.
Como outras ditaduras, sejam elas de esquerda ou de direita, Hugo Chávez trabalha com a idéia de formação de seguidores a partir da juventude. Assim funcionava no Uzbequistão, na Alemanha hitlerista, no Brasil dos governos militares, na China maoísta. As reformas educacionais sempre fizeram parte do pacote de medidas dos ditadores, junto com a perseguição aos opositores, ao fechamento da imprensa livre, à sustentação de uma rede de apoio internacional com o uso do dinheiro público - generosamente cedido aos países aliados, mas distribuído à população de forma minguada e recheada de discursos solidários que, no fim das contas, eram materializados em cupons de racionamento e em muita privação. Na Educação, contudo, os efeitos dessa dominação dos ditadores é difícil de mensurar. No Brasil, por exemplo, o uso pelos militares de disciplinas como Educação Moral e Cívica (EMC), Estudos dos Problemas Brasileiros (EPB) ou Organização Social e Política do Brasil (OSPB) para o controle da juventude teve um efeito devastador: hoje, em nosso país, patriotismo virou motivo de galhofa, e só existe durante as competições desportivas de maior expressão, ou quando uma brasileira fica em segundo lugar no Miss Universo…
Fala-se sempre, e muito, desse desconhecimento dos norte-americanos em relação aos demais países do mundo. Na década de 1980, Ronald Reagan, em visita ao Brasil, propôs um “brinde ao povo da Bolívia”. Alguns dias depois, uma distribuidora de petróleo lançava uma propaganda de revista na qual, ironicamente, “o povo da Bolívia agradecia a visita do presidente do Canadá”. Mas será que apenas os norte-americanos desconhecem os demais povos e países?
