Monday, August 20, 2007

Nesta data querida

Hoje faço dezoito anos. Esta noite vou comemorar sozinha meus dezoito anos. Vou pingar lirismo para realizar aquele feitiço que eterniza o momento. Às vezes parece que Deus deu um tapa no meu destino e o mudou. Ou será que tinha sido eu que tinha tomado um rumo muito contrário? Ora, não importa. Importa que hoje faço dezoito anos e o meu aniversário do ano passado foi muito triste … nossa, como foi triste. Mas não quero mais lamentar o que passou, porque, como no versinho que li, lamentar uma dor passada é sofrer tudo novamente, e eu já sofri tanto das tristezas do sentir que agora só quero é saber das alegrias do sentir, por que é a alegria e, não me diga que é a tristeza, quem melhor cuida da vida. O meu aniversário do ano passado foi um dos dias mais angustiantes da minha vida. Foi o meu pior aniversário. Graças a Deus que passou. No ano passado meu mundo era outro, se era….

Não, não quero pensar no passado. Quero que esse ano meu aniversário seja muito alegre, e vai ser, sim, porque eu vou ficar alegre. Vou ficar alegre aqui dentro. E para ficar bem, eu não posso lembrar de nada, nada. É só pingar lirismo nas alegrias do sentir. É isso. Um pouco de poesia e essas paredes ganham cor, essa janela se abre e eu consigo até ver uma paisagem bonita, diferente desse pátio sem graça. Hoje eu faço dezoito anos e não vão poder me deixar aqui por muito mais tempo. Mas eu posso sair hoje mesmo, é só usar a imaginação e me alegrar, porque hoje eu faço dezoito anos.

Eu queria que a Rô estivesse aqui comigo. Só ela, pelo menos. Sei lá, a mãe talvez venha. A mãe vem, sim, e deve trazer um bolo. Mas a Rô era a única amiga que eu queria ver hoje. O resto nem deve lembrar que eu existo, não entenderam nada do que aconteceu, não sabem que eu não tive culpa de nada. Sabem, mas não querem ver. O pior cego é o que não quer ver. Alegria, droga, alegria… A Rô bem que podia vir hoje com a mãe. Assim eu esquecia que um dia fiz dezessete anos e começava tudo de novo, aos dezoito. Hoje é meu aniversário e eu não quero mais ter dezessete anos.

A Rô sabe que eu não tive culpa, que eu não queria. Ela sabe, e me dá apoio. Era meu aniversário e, mesmo assim, todos contra mim. Claro, eles só viram o que eu fiz com o Gabriel, ninguém viu o que ele fez comigo, em minha própria casa, ninguém. Ele era o valente da escola, ele era o mais esperto, eu era só a namorada, a da vez, aquelazinha que as outras todas invejavam. A culpa foi toda minha, só a Rô sabe que não. Eles só repararam no sangue dele nas minhas mãos, ninguém parou para olhar o sangue que eu perdia no meio das pernas, nem no disparo que ele deu na minha alma. Só tinham olhos para o coitadinho, o canalha. Canalhas. Eu não quero lembrar disso, não quero, quero lirismo e quero dezoito anos hoje, só isso. Vou sentir alegria, vou sim. O ano passado passou e o Gabriel também vai passar. Eles todos, menos a Rô. Tomara que ela venha.

Hoje faço dezoito anos e vou comemorar sozinha. Já é quase noite e a mãe não veio. Acho que não deixaram ela entrar. Nem ela, nem a Rô, minha melhor amiga. Será que eu vou ter que esperar muito tempo ainda aqui, ou tem uma lei que manda eles abrirem o portão assim que der meia-noite? A mãe diz que eu nasci às nove da noite, bem no meio da novela. A mãe diz que eu sou meio dramática por causa disso. Mas eles não devem saber do horário, ou então já tinham me liberado. Acho que já tenho dezoito anos agora. Se abrirem o portão, saio para o mundo e levo só a minha alegria. Deus deu um tapa no meu destino, sim, mas foi para me mostrar que a minha vida estava toda errada. A Rô me avisou que o Gabriel mexia com coisa pesada, que ele era um cara bonito mas não era nada legal. Mas eu queria chocar a minha mãe, então eu fiquei com ele. Mas não queria fazer nada, só ficar. Ele não era só de ficar, sempre conseguia o que queria das mulheres e deu no que deu. Ele rasgou minha vontade sem lirismo nenhum, disparou bem no meio da minha alma sem perguntar se eu queria ou não, daí eu tive que disparar também. No dia do meu aniversário, o dia mais angustiante da minha vida. Mas passou.

Apagaram as luzes, silêncio geral. Será que a Rô e a mãe vão me fazer uma surpresa, entrar aqui no dormitório com um bolo legal e dezoito velinhas acesas? Aniversário é uma coisa meio triste. Lembra morte, polícia, choro de mãe, os amigos olhando com cara de condenação. Mas eu não quero mais o passado, só quero alegria, lirismo e presente. Parabéns para mim, nesta data querida.

Do volume de contos

 

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

(Este conto foi escrito a partir de um mote[todo o primeiro parágrafo] oferecido por Fernanda Garcia)

Posted by Frizero at 13:42:44 | Permalink | Comments (3)