Wednesday, August 1, 2007

Divulgação: Canção do Exílio

alt : http://www.youtube.com/v/Cgs_GtB8yrw

Exilar-se pode ser uma fuga, mas também um encontro consigo mesmo. Estar distante de sua pátria já foi punição severa aplicada pelo Estado, em tempos distantes, como foi também o caminho encontrado por muitos, em época mais recente, para sobreviver à opressão imposta pelos que acreditavam ser o Estado, mesmo não tendo alcançado o poder pelas mãos de uma escolha livre de seus iguais. O exílio – seja ele forçado ou escolhido, motivado por um instinto de sobrevivência ou pela vontade do não-viver – traz, em si, sempre a sensação do vazio, da saudade, do não-pertencer, do ser estrangeiro ainda que em sua pátria, ou do querer ser de uma nova pátria a qual não se pertence. E o que é uma pátria? Vale mais um sonho de país que um ideal de mundo? A que nação pertencer quando nenhuma terra parece nos querer do jeito como somos?

Canção do Exílio, peça teatral escrita por P. R. Berton, suscita estas questões através do olhar de dez jovens reunidos em um apartamento no qual compartilham seus dramas tão individuais em meio ao furor dos últimos anos da Guerra Fria, suas histórias particulares de amor e desamor em meio ao sentimento de estarem participando da História a se escrever com a queda do muro de Berlim.

Há algo de cada um de nós espalhado pelos sentimentos de cada um daqueles dez brasileiros – de nascimento ou de coração – à deriva em meio ao mar dos grandes acontecimentos sociais em ebulição. Pois não há grande ideologia ou momento de ebulição social que não nos afete, ainda que das mais insuspeitadas formas. Que dizer, então, de vidas que se constroem em torno de um ideal que parece desmoronar sob o peso da História?

Canção do Exílio é um espetáculo que ganha importância ainda maior em tempos nos quais os ideais e os sonhos parecem enfraquecidos diante da exacerbação de um individualismo que despreza os valores mais basilares da vida humana. Um texto repleto de sutilezas que a nenhum expectador – não importa de que ideais ele se tenha exilado ao longo da vida – deixará indiferente.

Robertson Frizero Barros

Posted by Frizero at 21:08:47 | Permalink | Comments (1) »

Concordâncias

Lula continua preocupado demais com o próprio umbigoConcordo com o presidente Lula: todos nós temos dois ouvidos. Os dele têm distintas funções: um para ouvir aplausos, outro para as vaias. Infelizmente, o das vaias parece ser um ouvido de mercador. Prefiro a sabedoria popular, que diz termos dois ouvidos e apenas uma boca para escutar mais e falar menos. Ou aquele outro provérbio, em boca fechada, não entra mosca.

Concordo com o presidente Lula: os que mais ganharam dinheiro em sua gestão, duplicada pela decisão majoritária do voto popular, foram os banqueiros e os empresários, beneficiados pela política de juros praticada por sua equipe e pela falta de pulso o bastante para solucionar problemas que parecem eternos no Brasil, como a taxação abusiva do governo sobre o povo. Infelizmente, o que vemos por parte do governo são as manobras para tornar impostos como a CPMF - que ironicamente é sigla para Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira -, cuja função primeira era beneficiar a Saúde no Brasil, em algo permanente e já de há muito desvinculado de sua intenção primeira.

Concordo com o presidente Lula: as vaias que ele recebeu no Maracanã lotado para a abertura dos Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro, bem como as vaias que recebeu posteriormente em manifestações dos servidores públicos federais em outros estados da federação, não são vaias da camada mais pobre da população - que não trabalha no serviço público, nem tem dinheiro para comprar um ingresso para ver a festa do esporte panamericano em noite de gala. Tampouco é a vaia dos empresários e banqueiros, pois estes certamente não foram ao Maracanã. Considerar que cinqüenta mil pessoas a vaiar espontaneamente a mera menção ao nome de um governante seja uma orquestração da oposição é mesmo idéia de quem acredita mais nos institutos de pesquisa que na voz do povo que o elegeu. Chegaram a dizer que a reação era de uma minoria de simpatizantes do prefeito do Rio de Janeiro, César Maia. Mas, então, porque este foi também vaiado na cerimônia de encerramento?

Concordo com o presidente Lula: o povo, a camada mais pobre da população é que deveria estar vaiando o seu governo. Infelizmente, temo que essa parte mais sofrida de nossa gente, que não tem acesso à educação nem às condições mais básicas do que consideraríamos uma vida digna, não tenha força para mudar o modo de pensar de nosso presidente, mesmo que vaiassem, em uníssono, dos quatro cantos do país. O governante que se recusou a abrir os Jogos Panamericanos, com medo da vaia, e que fugiu do compromisso de comparecer à cerimônia de encerramento do mesmo evento, com medo da vaia, parece raciocinar da mesma forma que sua equipe de governo: fazer tudo o que for possível para não sujar a imagem, não se importando com a qualidade do trabalho apresentado, ou com o resultado das omissões e escolhas infelizes feitas em sua gestão.

Lula - apuro na imagemConcordo com o presidente Lula: estamos nos acostumando com qualquer coisa. É o país do jeitinho, do relaxa e goza, do ajeitar hoje para solucionar apenas hoje. Somos governados por um bando de Scarlet O’Haras - na hora do aperto, viramos as costas para o problema e declaramos: “Amanhã eu penso nisso”, “Amanhã será um outro dia”. A pista de Congonhas está com problemas? Façamos uma operação tapa-buraco e liberemos logo, pois o caos aéreo está pegando mal para a imagem do governo. Um acidente em Congonhas? Transfiramos os vôos para Guarulhos. A pista de Guarulhos está com os dias contados, repleta de rachaduras? Operação tapa-buraco nela. Mas, e se isso não for solução? Basta prometer a construção de um novo aeroporto em São Paulo, cidade pequena e pacata, repleta de amplos terrenos para uma obra como essa, como todos sabem. E nem precisa dizer onde será o aeroporto, com que verbas será construído, quando ficará pronto. A promessa é o suficiente quando o efeito desejado é apenas diminuir a fervura dos acontecimentos que podem macular a imagem do governo.

Mas que esperar de um governante que está mais preocupado com o próprio umbigo que com os destinos da Nação?

Infelizmente, o povo brasileiro está mais próximo ao passageiro que leva um colchonete para o aeroporto, prevendo a possibilidade de atrasos sem fim nos vôos, que àquele outro passageiro que vai ao balcão da companhia e exige satisfações. Enquanto não mudarmos nossa postura de eleitores, o melhor é reservar um colchonete macio e esperar, deitados, que o Brasil chegue a alguma solução.

Posted by Frizero at 13:20:13 | Permalink | Comments (1) »