Platéia ou claque?

Algum fenômeno aconteceu nas últimas décadas que transformou a platéia de teatro no Brasil em claque.
Por algum motivo, as pessoas - falo das poucas que ainda vão ao teatro - assistem a uma peça teatral por nossas terras sempre dispostas a rir do que quer que seja. Para elas, teatro transformou-se em sinônimo de comédia - basta olhar a programação teatral das grandes cidades, daquelas onde ainda existe vida sobre os palcos, para ver a quantidade de textos humorísticos em cartaz. E o termo é proposital e apropriado: falo em textos humorísticos, porque há de tudo do lado de trás da quarta parede - esqueçam Molière, Oscar Wilde, Tchekov…nada de comédias bem estruturadas, com humor refinado ou mesmo com o burlesco mais baixo, mas preciosamente bem costurado, estruturalmente perfeito, farsescamente estonteante: o que vemos no palco são atores de talento duvidoso encenando falas mal cerzidas que eles mesmo compuseram, sem nenhuma preocupação com as regras básicas da dramaturgia, mas que deleitam o público de uma tal forma que é preciso questionar onde foi parar o teatro brasileiro.
Não há problema algum na comédia, não se trata de uma questão de menosprezar um gênero por si só sempre relegado a um segundo plano dos estudos acadêmicos e das pretensões artísticas. O problema da platéia brasileira é outro: é ver tudo como se fosse comédia. Não raro presenciei espetáculos em que o texto carregado de drama era entendido como razão para o riso fácil da platéia, encantada pela presença no palco deste ou daquele ator televisivo. Aliás, esta é uma segunda razão que leva, hoje, os brasileiros ao teatro: ver de perto o seu artista favorito, não se importando muito com o que se passa no palco.
Estamos muito distanciados de outros países nos quais o teatro ainda é fórum de reflexão, lugar para compartilhar com sua comunidade as questões humanas mais profundas - seja essa reflexão motivada pelo riso ou pela catarse do sofrimento. O Teatro Besteirol, que teve sua razão de ser nos anos 1970 e 1980 - sob a cegueira da censura no Brasil, restava ao teatro a crítica velada pelo absurdo risível daquele tipo de comédia -, acabou esvaziado nos subprodutos que gerou nas mãos de atores e produtores não muito interessados em pensar o teatro como arte. Em franca competição com outras formas mais apelativas e baratas, sufocados por uma teledramaturgia cuja força não é igualada em nenhum outro país - quando o assunto é telenovela, entenda-se bem -, o teatro brasileiro tornou-se um híbrido estranhíssimo: por um lado, as comédias mais tolas e toscas, sem verve nem savoir faire; por outro, os teatrólogos de vanguarda, com espetáculos que se propõem a redescobrir a roda.
Enquanto isso, a platéia aplaude, e ri. Aplaude qualquer coisa, e ri de tudo. Vê como é linda pessoalmente a bela atriz da novela e sorri. Não gosta de ver o ator de vanguarda tremendo o corpo enquanto cospe água no colega de cena, não entende para que serve aquilo, mas aplaude. E de pé.
Aplaude-se de pé, no Brasil, qualquer espetáculo. Sinto saudades daquela platéia que se levantou e começou a bater boca com Maurice Ravel na primeira audição de seu hoje idolatrado Bolero. Queria ter visto o público rindo a valer na cena final da noite de estréia de La Traviata, quando a soprano obesa que encarnava a tísica Violetta Valèry, escalada pelo compositor Giuseppe Verdi, morre debilitada pela doença avassaladora. Não quero um país em que todos vaiem ou batam boca com os atores em cena: apenas um público que reaja de acordo com os estímulos a que são submetidos. A mesma platéia que vaiou a tuberculosa corpulenta de Verdi, aplaudiu-o e ovacionou-o nas récitas seguintes, quando outra cantora foi escalada para o papel sofrido da cortesã. Ou algo acontece para mudar o nosso público, ou daqui a pouco estaremos rindo a valer dos olhos vazados de Édipo, da loucura de Blanche DuBois ou das labaredas a consumir Branca Dias.
Precisaríamos de alguns anos de trabalho árduo no Brasil para recuperar o tempo perdido. Falo de um trabalho sério de formação de platéia, de volta às origens, de voltar as verbas públicas destinadas ao financiamento da cultura para projetos que se propusessem a construir uma nova geração que compreendesse o exato papel do teatro em nossas vidas.
E o teatro brasileiro têm projetos interessantíssimos de formação de platéia, sim. Mas estamos em um país em que a música é sempre para pular, o teatro é sempre para rir e gastam-se, diariamente, mais de qunize minutos a falar-se de futebol em cada um dos noticiários televisivos, mas menos de cinco minutos semanais para falar sobre cultura e arte. Qual foi a última vez que o Jornal Nacional noticiou o lançamento de um livro - em especial, de alguma publicação que não fosse das próprias Organizações Globo? E isso se aplica à grande maioria da imprensa, em todos os níveis - algo de se esperar na terra do institucionalizado jabá.
Mas falávamos de teatro, e eu ainda sonho com uma platéia que não queira ir ao teatro para ver telenovela.


Se o Brasil devia à música de Portugal algum tributo, este foi bem pago pelo surgimento de
Concordo com o presidente Lula: estamos nos acostumando com qualquer coisa. É o país do jeitinho, do relaxa e goza, do ajeitar hoje para solucionar apenas hoje. Somos governados por um bando de Scarlet O’Haras - na hora do aperto, viramos as costas para o problema e declaramos: “Amanhã eu penso nisso”, “Amanhã será um outro dia”. A pista de Congonhas está com problemas? Façamos uma operação tapa-buraco e liberemos logo, pois o caos aéreo está pegando mal para a imagem do governo. Um acidente em Congonhas? Transfiramos os vôos para Guarulhos. A pista de Guarulhos está com os dias contados, repleta de rachaduras? Operação tapa-buraco nela. Mas, e se isso não for solução? Basta prometer a construção de um novo aeroporto em São Paulo, cidade pequena e pacata, repleta de amplos terrenos para uma obra como essa, como todos sabem. E nem precisa dizer onde será o aeroporto, com que verbas será construído, quando ficará pronto. A promessa é o suficiente quando o efeito desejado é apenas diminuir a fervura dos acontecimentos que podem macular a imagem do governo.