Tuesday, August 28, 2007

Platéia ou claque?

Algum fenômeno aconteceu nas últimas décadas que transformou a platéia de teatro no Brasil em claque.

Por algum motivo, as pessoas - falo das poucas que ainda vão ao teatro - assistem a uma peça teatral por nossas terras sempre dispostas a rir do que quer que seja.  Para elas, teatro transformou-se em sinônimo de comédia - basta olhar a programação teatral das grandes cidades, daquelas onde ainda existe vida sobre os palcos, para ver a quantidade de textos humorísticos em cartaz.  E o termo é proposital e apropriado: falo em textos humorísticos, porque há de tudo do lado de trás da quarta parede - esqueçam Molière, Oscar Wilde, Tchekov…nada de comédias bem estruturadas, com humor refinado ou mesmo com o burlesco mais baixo, mas preciosamente bem costurado, estruturalmente perfeito, farsescamente estonteante: o que vemos no palco são atores de talento duvidoso encenando falas mal cerzidas que eles mesmo compuseram, sem nenhuma preocupação com as regras básicas da dramaturgia, mas que deleitam o público de uma tal forma que é preciso questionar onde foi parar o teatro brasileiro.

Não há problema algum na comédia, não se trata de uma questão de menosprezar um gênero por si só sempre relegado a um segundo plano dos estudos acadêmicos e das pretensões artísticas.  O problema da platéia brasileira é outro: é ver tudo como se fosse comédia.  Não raro presenciei espetáculos em que o texto carregado de drama era entendido como razão para o riso fácil da platéia, encantada pela presença no palco deste ou daquele ator televisivo.  Aliás, esta é uma segunda razão que leva, hoje, os brasileiros ao teatro: ver de perto o seu artista favorito, não se importando muito com o que se passa no palco.

Estamos muito distanciados de outros países nos quais o teatro ainda é fórum de reflexão, lugar para compartilhar com sua comunidade as questões humanas mais profundas - seja essa reflexão motivada pelo riso ou pela catarse do sofrimento. O Teatro Besteirol, que teve sua razão de ser nos anos 1970 e 1980 - sob a cegueira da censura no Brasil, restava ao teatro a crítica velada pelo absurdo risível daquele tipo de comédia -, acabou esvaziado nos subprodutos que gerou nas mãos de atores e produtores não muito interessados em pensar o teatro como arte.  Em franca competição com outras formas mais apelativas e baratas, sufocados por uma teledramaturgia cuja força não é igualada em nenhum outro país - quando o assunto é telenovela, entenda-se bem -, o teatro brasileiro tornou-se um híbrido estranhíssimo: por um lado, as comédias mais tolas e toscas, sem verve nem savoir faire; por outro, os teatrólogos de vanguarda, com espetáculos que se propõem a redescobrir a roda. 

Enquanto isso, a platéia aplaude, e ri.  Aplaude qualquer coisa, e ri de tudo.  Vê como é linda pessoalmente a bela atriz da novela e sorri.  Não gosta de ver o ator de vanguarda tremendo o corpo enquanto cospe água no colega de cena, não entende para que serve aquilo, mas aplaude.  E de pé.

Aplaude-se de pé, no Brasil, qualquer espetáculo.  Sinto saudades daquela platéia que se levantou e começou a bater boca com Maurice Ravel na primeira audição de seu hoje idolatrado Bolero.  Queria ter visto o público rindo a valer na cena final da noite de estréia de La Traviata, quando a soprano obesa que encarnava a tísica Violetta Valèry, escalada pelo compositor Giuseppe Verdi, morre debilitada pela doença avassaladora.  Não quero um país em que todos vaiem ou batam boca com os atores em cena: apenas um público que reaja de acordo com os estímulos a que são submetidos.  A mesma platéia que vaiou a tuberculosa corpulenta de Verdi, aplaudiu-o e ovacionou-o nas récitas seguintes, quando outra cantora foi escalada para o papel sofrido da cortesã.  Ou algo acontece para mudar o nosso público, ou daqui a pouco estaremos rindo a valer dos olhos vazados de Édipo, da loucura de Blanche DuBois ou das labaredas a consumir Branca Dias.

Precisaríamos de alguns anos de trabalho árduo no Brasil para recuperar o tempo perdido.  Falo de um trabalho sério de formação de platéia, de volta às origens, de voltar as verbas públicas destinadas ao financiamento da cultura para projetos que se propusessem a construir uma nova geração que compreendesse o exato papel do teatro em nossas vidas. 

E o teatro brasileiro têm projetos interessantíssimos de formação de platéia, sim.  Mas estamos em um país em que a música é sempre para pular, o teatro é sempre para rir e gastam-se, diariamente, mais de qunize minutos a falar-se de futebol em cada um dos noticiários televisivos, mas menos de cinco minutos semanais para falar sobre cultura e arte.  Qual foi a última vez que o Jornal Nacional noticiou o lançamento de um livro - em especial, de alguma publicação que não fosse das próprias Organizações Globo?  E isso se aplica à grande maioria da imprensa, em todos os níveis - algo de se esperar na terra do institucionalizado jabá.

Mas falávamos de teatro, e eu ainda sonho com uma platéia que não queira ir ao teatro para ver telenovela.

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Tuesday, August 21, 2007

Videopoema: ‘Quadrilha’, de Carlos Drummond de Andrade

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Monday, August 20, 2007

Nesta data querida

Hoje faço dezoito anos. Esta noite vou comemorar sozinha meus dezoito anos. Vou pingar lirismo para realizar aquele feitiço que eterniza o momento. Às vezes parece que Deus deu um tapa no meu destino e o mudou. Ou será que tinha sido eu que tinha tomado um rumo muito contrário? Ora, não importa. Importa que hoje faço dezoito anos e o meu aniversário do ano passado foi muito triste … nossa, como foi triste. Mas não quero mais lamentar o que passou, porque, como no versinho que li, lamentar uma dor passada é sofrer tudo novamente, e eu já sofri tanto das tristezas do sentir que agora só quero é saber das alegrias do sentir, por que é a alegria e, não me diga que é a tristeza, quem melhor cuida da vida. O meu aniversário do ano passado foi um dos dias mais angustiantes da minha vida. Foi o meu pior aniversário. Graças a Deus que passou. No ano passado meu mundo era outro, se era….

Não, não quero pensar no passado. Quero que esse ano meu aniversário seja muito alegre, e vai ser, sim, porque eu vou ficar alegre. Vou ficar alegre aqui dentro. E para ficar bem, eu não posso lembrar de nada, nada. É só pingar lirismo nas alegrias do sentir. É isso. Um pouco de poesia e essas paredes ganham cor, essa janela se abre e eu consigo até ver uma paisagem bonita, diferente desse pátio sem graça. Hoje eu faço dezoito anos e não vão poder me deixar aqui por muito mais tempo. Mas eu posso sair hoje mesmo, é só usar a imaginação e me alegrar, porque hoje eu faço dezoito anos.

Eu queria que a Rô estivesse aqui comigo. Só ela, pelo menos. Sei lá, a mãe talvez venha. A mãe vem, sim, e deve trazer um bolo. Mas a Rô era a única amiga que eu queria ver hoje. O resto nem deve lembrar que eu existo, não entenderam nada do que aconteceu, não sabem que eu não tive culpa de nada. Sabem, mas não querem ver. O pior cego é o que não quer ver. Alegria, droga, alegria… A Rô bem que podia vir hoje com a mãe. Assim eu esquecia que um dia fiz dezessete anos e começava tudo de novo, aos dezoito. Hoje é meu aniversário e eu não quero mais ter dezessete anos.

A Rô sabe que eu não tive culpa, que eu não queria. Ela sabe, e me dá apoio. Era meu aniversário e, mesmo assim, todos contra mim. Claro, eles só viram o que eu fiz com o Gabriel, ninguém viu o que ele fez comigo, em minha própria casa, ninguém. Ele era o valente da escola, ele era o mais esperto, eu era só a namorada, a da vez, aquelazinha que as outras todas invejavam. A culpa foi toda minha, só a Rô sabe que não. Eles só repararam no sangue dele nas minhas mãos, ninguém parou para olhar o sangue que eu perdia no meio das pernas, nem no disparo que ele deu na minha alma. Só tinham olhos para o coitadinho, o canalha. Canalhas. Eu não quero lembrar disso, não quero, quero lirismo e quero dezoito anos hoje, só isso. Vou sentir alegria, vou sim. O ano passado passou e o Gabriel também vai passar. Eles todos, menos a Rô. Tomara que ela venha.

Hoje faço dezoito anos e vou comemorar sozinha. Já é quase noite e a mãe não veio. Acho que não deixaram ela entrar. Nem ela, nem a Rô, minha melhor amiga. Será que eu vou ter que esperar muito tempo ainda aqui, ou tem uma lei que manda eles abrirem o portão assim que der meia-noite? A mãe diz que eu nasci às nove da noite, bem no meio da novela. A mãe diz que eu sou meio dramática por causa disso. Mas eles não devem saber do horário, ou então já tinham me liberado. Acho que já tenho dezoito anos agora. Se abrirem o portão, saio para o mundo e levo só a minha alegria. Deus deu um tapa no meu destino, sim, mas foi para me mostrar que a minha vida estava toda errada. A Rô me avisou que o Gabriel mexia com coisa pesada, que ele era um cara bonito mas não era nada legal. Mas eu queria chocar a minha mãe, então eu fiquei com ele. Mas não queria fazer nada, só ficar. Ele não era só de ficar, sempre conseguia o que queria das mulheres e deu no que deu. Ele rasgou minha vontade sem lirismo nenhum, disparou bem no meio da minha alma sem perguntar se eu queria ou não, daí eu tive que disparar também. No dia do meu aniversário, o dia mais angustiante da minha vida. Mas passou.

Apagaram as luzes, silêncio geral. Será que a Rô e a mãe vão me fazer uma surpresa, entrar aqui no dormitório com um bolo legal e dezoito velinhas acesas? Aniversário é uma coisa meio triste. Lembra morte, polícia, choro de mãe, os amigos olhando com cara de condenação. Mas eu não quero mais o passado, só quero alegria, lirismo e presente. Parabéns para mim, nesta data querida.

Do volume de contos

 

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

(Este conto foi escrito a partir de um mote[todo o primeiro parágrafo] oferecido por Fernanda Garcia)

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Wednesday, August 15, 2007

Instante

Este texto está indisponível até segunda ordem…

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Monday, August 13, 2007

Videopoesia: ‘Retrato’, de Cecília Meireles

Steve Jobs, dono e idealizador da Apple, disse certa vez que o homem deve dominar os meios de expressão de seu tempo. Se até as últimas décadas do século XX o meio maior de expressão era o papel, no século XXI o vídeo começa a despontar como a nova ferramenta. Dou aqui minha contribuição para que essa transição não represente o desaparecimento dos livros, das palavras, da sabedoria e sensibilidade de todos esses séculos por nós já vividos:

alt : http://www.youtube.com/v/hYEMQ0Gbe38

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Friday, August 10, 2007

Não muito distante

MyleneO Brasil do século XX virou as costas para a cultura portuguesa. Era, talvez, a forma naturalmente encontrada pelos intelectuais de reafirmar a independência de uma nação brasileira que então dava seus primeiros passos. A década de 1930 talvez seja aquela na qual a ruptura tenha sido mais fortemente sentida - é a época na qual a literatura brasileira, por exemplo, passou a influenciar os escritores lusitanos, em uma inesperada reação da ex-colônia americana que depois se expandiria à música e, mais recentemente, à produção audiovisual. Infelizmente, tal movimento de ignorância crescente à produção cultural portuguesa é fruto tão-somente de uma espécie de revanchismo colonial - que fez os intelectuais latino-americanos afastarem-se, por algum tempo, do que se fazia na Espanha, por iguais razões - somado a um preconceito irracional dos brasileiros com relação ao léxico e à prosódia do português falado na antiga metrópole. Uma pena, pois Portugal é hoje um dos países europeus de produção cultural mais rica e instigante, voltado para o futuro sem o abandono do rico passado - um erro histórico cujas más conseqüências outros países europeus já começam a sentir.

A literatura portuguesa ainda freqüenta as prateleiras de nossas livrarias - graças às proezas de um Saramago, primeiro prêmio Nobel em literatura de língua portuguesa -, mas a música produzida em terras lusitanas ainda é solenemente ignoradas por nossas rádios e emissoras de televisão.  Nas últimas décadas, apenas um grupo musical português parece ter alcançado relativo sucesso no Brasil - a ponto de motivar a edição de uma antologia composta exclusivamente para o mercado brasileiro -, ainda assim um sucesso que é mais mensurável por sua inevitável lotação esgotada nos concertos que aqui fizeram que, propriamente, pela presença na mídia.  O Madredeus - com sua música atemporal, fincada na tradição mas moderníssima em sua concepção - ganhou fãs ardorosos de sua música no Brasil e algumas releituras interessantes de suas canções, de artistas como Rebeca Mata e Zizi Possi.  Não seria exagero dizer também que o sucesso do Madredeus no Brasil, a partir dos primeiros anos da década de 1990, motivou a vinda de outros grandes músicos portugueses - gente da qualidade de uma Dulce Pontes, de uma Mariza, de uma Né Ladeiras - e o interesse de músicos brasileiros pela nova música que surgia naquele país que até há pouco era apenas uma metrópole distante, cujo traço cultural mais forte para os brasileiros residia em seu folclore e sua ruralidade pitoresca.

MyleneSe o Brasil devia à música de Portugal algum tributo, este foi bem pago pelo surgimento de Não Muito Distante, álbum da cantora e compositora Mylene Pires.  Ela usa sua voz suave, encorpada e tão brasileira à serviço de dezesseis temas do Madredeus, abrangendo todas as fazes desses vinte anos de carreira da banda portuguesa mais conhecida em todo o mundo.  Apesar de ser um álbum de regravações, o trabalho de Mylene é surpreendente: a cantora não se limita a reproduzir os arranjos primorosos do Madredeus, tampouco se prende às influências dos vocais de Teresa Salgueiro, ou tenta imitar alguma alma portuguesa que se encontra com facilidade nessas canções.  O trabalho de Mylene é, deliberadamente, de recriação: ela encontrou, em cada canção do Madredeus, suas raízes brasileiras - já presente na música ou sugerida pelo espírito das letras ou pelos temas.  Assim, a Oxalá bossanovista de Pedro Ayres Magalhães transforma-se em um candomblé suave, a emblemática O Pastor torna-se um forró melodioso e a belíssima Haja o que Houver ganha sonoridades de folia de reis.  Nada, em suas recriações da obra do Madredeus, é óbvio ou gratuito.  As canções tão conhecidas dos fãs do Madredeus ganham um frescor novo nessas sonoridades tão brasileiras, e a sensação que se tem é a de que A Andorinha da Primavera sempre fora uma marchinha carnavalesca à anos 1920, ou que A cantiga do Campo era um ijexá trazido às nossas fazendas de café pelos antigos escravos… Tudo é surpreendente - e belo. 

Se para o fã do Madredeus uma primeira audição desses temas é um misto de estranhamento e excitação, a sensação que resta depois de algumas audições é de puro encantamento.  Afinal, como explicar que soem tão bem O Pomar das Laranjeiras em ritmo de samba-canção ou O Menino - talvez uma das mais intrigantes faixas do álbum - cantado por um coral guarani acrescido das vozes rascantes de rezadeiras nordestinas?  Não muito distante é um álbum de redescobertas - das letras bem construídas e das ricas melodias dos portugueses do Madredeus, da sonoridade da música brasileira, das raízes comuns entre os dois países que tanto tem em comum.

Infelizmente, como estamos em um Brasil que ainda se volta de costas às suas origens - tanto lusitanas quanto latino-americanas -, o álbum de Mylene, inteiramente gravado no Brasil, ganhou edição apenas em Portugal, que está a recebê-lo como uma das grandes novidades do ano.  Oxalá a voz de Mylene consiga atravessar o oceano de volta ao lar e que aqui encontre a acolhida que merece.  Pois, além de fazer um excepcional trabalho de recriação da obra de um dos mais instigantes grupos musicais de Portugal, a voz de Mylene é afinada, doce e deliciosa de se ouvir.

Posted by Frizero at 11:45:55 | Permalink | Comments (3)

Wednesday, August 1, 2007

Divulgação: Canção do Exílio

alt : http://www.youtube.com/v/Cgs_GtB8yrw

Exilar-se pode ser uma fuga, mas também um encontro consigo mesmo. Estar distante de sua pátria já foi punição severa aplicada pelo Estado, em tempos distantes, como foi também o caminho encontrado por muitos, em época mais recente, para sobreviver à opressão imposta pelos que acreditavam ser o Estado, mesmo não tendo alcançado o poder pelas mãos de uma escolha livre de seus iguais. O exílio – seja ele forçado ou escolhido, motivado por um instinto de sobrevivência ou pela vontade do não-viver – traz, em si, sempre a sensação do vazio, da saudade, do não-pertencer, do ser estrangeiro ainda que em sua pátria, ou do querer ser de uma nova pátria a qual não se pertence. E o que é uma pátria? Vale mais um sonho de país que um ideal de mundo? A que nação pertencer quando nenhuma terra parece nos querer do jeito como somos?

Canção do Exílio, peça teatral escrita por P. R. Berton, suscita estas questões através do olhar de dez jovens reunidos em um apartamento no qual compartilham seus dramas tão individuais em meio ao furor dos últimos anos da Guerra Fria, suas histórias particulares de amor e desamor em meio ao sentimento de estarem participando da História a se escrever com a queda do muro de Berlim.

Há algo de cada um de nós espalhado pelos sentimentos de cada um daqueles dez brasileiros – de nascimento ou de coração – à deriva em meio ao mar dos grandes acontecimentos sociais em ebulição. Pois não há grande ideologia ou momento de ebulição social que não nos afete, ainda que das mais insuspeitadas formas. Que dizer, então, de vidas que se constroem em torno de um ideal que parece desmoronar sob o peso da História?

Canção do Exílio é um espetáculo que ganha importância ainda maior em tempos nos quais os ideais e os sonhos parecem enfraquecidos diante da exacerbação de um individualismo que despreza os valores mais basilares da vida humana. Um texto repleto de sutilezas que a nenhum expectador – não importa de que ideais ele se tenha exilado ao longo da vida – deixará indiferente.

Robertson Frizero Barros

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Concordâncias

Lula continua preocupado demais com o próprio umbigoConcordo com o presidente Lula: todos nós temos dois ouvidos. Os dele têm distintas funções: um para ouvir aplausos, outro para as vaias. Infelizmente, o das vaias parece ser um ouvido de mercador. Prefiro a sabedoria popular, que diz termos dois ouvidos e apenas uma boca para escutar mais e falar menos. Ou aquele outro provérbio, em boca fechada, não entra mosca.

Concordo com o presidente Lula: os que mais ganharam dinheiro em sua gestão, duplicada pela decisão majoritária do voto popular, foram os banqueiros e os empresários, beneficiados pela política de juros praticada por sua equipe e pela falta de pulso o bastante para solucionar problemas que parecem eternos no Brasil, como a taxação abusiva do governo sobre o povo. Infelizmente, o que vemos por parte do governo são as manobras para tornar impostos como a CPMF - que ironicamente é sigla para Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira -, cuja função primeira era beneficiar a Saúde no Brasil, em algo permanente e já de há muito desvinculado de sua intenção primeira.

Concordo com o presidente Lula: as vaias que ele recebeu no Maracanã lotado para a abertura dos Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro, bem como as vaias que recebeu posteriormente em manifestações dos servidores públicos federais em outros estados da federação, não são vaias da camada mais pobre da população - que não trabalha no serviço público, nem tem dinheiro para comprar um ingresso para ver a festa do esporte panamericano em noite de gala. Tampouco é a vaia dos empresários e banqueiros, pois estes certamente não foram ao Maracanã. Considerar que cinqüenta mil pessoas a vaiar espontaneamente a mera menção ao nome de um governante seja uma orquestração da oposição é mesmo idéia de quem acredita mais nos institutos de pesquisa que na voz do povo que o elegeu. Chegaram a dizer que a reação era de uma minoria de simpatizantes do prefeito do Rio de Janeiro, César Maia. Mas, então, porque este foi também vaiado na cerimônia de encerramento?

Concordo com o presidente Lula: o povo, a camada mais pobre da população é que deveria estar vaiando o seu governo. Infelizmente, temo que essa parte mais sofrida de nossa gente, que não tem acesso à educação nem às condições mais básicas do que consideraríamos uma vida digna, não tenha força para mudar o modo de pensar de nosso presidente, mesmo que vaiassem, em uníssono, dos quatro cantos do país. O governante que se recusou a abrir os Jogos Panamericanos, com medo da vaia, e que fugiu do compromisso de comparecer à cerimônia de encerramento do mesmo evento, com medo da vaia, parece raciocinar da mesma forma que sua equipe de governo: fazer tudo o que for possível para não sujar a imagem, não se importando com a qualidade do trabalho apresentado, ou com o resultado das omissões e escolhas infelizes feitas em sua gestão.

Lula - apuro na imagemConcordo com o presidente Lula: estamos nos acostumando com qualquer coisa. É o país do jeitinho, do relaxa e goza, do ajeitar hoje para solucionar apenas hoje. Somos governados por um bando de Scarlet O’Haras - na hora do aperto, viramos as costas para o problema e declaramos: “Amanhã eu penso nisso”, “Amanhã será um outro dia”. A pista de Congonhas está com problemas? Façamos uma operação tapa-buraco e liberemos logo, pois o caos aéreo está pegando mal para a imagem do governo. Um acidente em Congonhas? Transfiramos os vôos para Guarulhos. A pista de Guarulhos está com os dias contados, repleta de rachaduras? Operação tapa-buraco nela. Mas, e se isso não for solução? Basta prometer a construção de um novo aeroporto em São Paulo, cidade pequena e pacata, repleta de amplos terrenos para uma obra como essa, como todos sabem. E nem precisa dizer onde será o aeroporto, com que verbas será construído, quando ficará pronto. A promessa é o suficiente quando o efeito desejado é apenas diminuir a fervura dos acontecimentos que podem macular a imagem do governo.

Mas que esperar de um governante que está mais preocupado com o próprio umbigo que com os destinos da Nação?

Infelizmente, o povo brasileiro está mais próximo ao passageiro que leva um colchonete para o aeroporto, prevendo a possibilidade de atrasos sem fim nos vôos, que àquele outro passageiro que vai ao balcão da companhia e exige satisfações. Enquanto não mudarmos nossa postura de eleitores, o melhor é reservar um colchonete macio e esperar, deitados, que o Brasil chegue a alguma solução.

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