Incompleto
Jamile e o filho de um ano e oito meses não puderam viajar com Ilderley, o esposo e pai dedicado. Havia um overbooking no vôo e o marido decidiu dar prioridade aos dois, sendo remanejado para outro vôo, de outra companhia aérea, que por ironia do destino partiu uma hora antes. Ilderley foi na frente e ficou aguardando a chegada da família em São Paulo.
Lin, 28 anos, aguardava ansiosa sua viagem para os Estados Unidos. Em 2006, recebera um prêmio internacional que a qualificou como uma das vinte oncologistas do mundo que mais contribuíram para a ciência e o tratamento do câncer. Jovem, sim, mas mestre em Oncologia e doutoranda destacada.
Maria Elizabeth voltava de uma viagem de férias no sul com as netas Maria Isabel, de quatorze anos, e Júlia Elisabete, de dez. Muitas histórias divertidas na bagagem para contar para o pessoal de São José do Rio Preto.
Mário Gomes viajava a trabalho para São Paulo. Fotógrafo talentoso, proprietário de uma renomada empresa na área de publicidade, feliz com a vida.
Rebeca e Thais, quatorze anos, amigas do colégio, viajavam pela primeira vez sozinhas. Uma aventura.
Carmem Luisa atendia crianças carentes em uma organização governamental sediada em Porto Alegre, Álvaro tinha apenas vinte e cinco anos e já era proprietário de seu próprio curso de idiomas, Fernando e Silvia tinham acabado de comprar uma casa, Márcio Rogério visitara Porto Alegre para tratar de negócios com representantes de Ronaldinho Gaúcho, Valdemarina era vice-diretora de um instituto de pesquisa, Peter estava casado há apenas quatro meses. Ricardo, Nelson, Nadja, Vinicius. Bruno, três anos de idade. Clove, Júlia. Levi, um ano e oito meses. Marcelo. Mery, que tricotava com um grupo de pensionistas. Fabíola, que se casara em dezembro de 2006. Júlio César Redecker.
Todos eles embarcaram no vôo JJ 3054 da TAM, na terça-feira, dia 17 de julho de 2007, e infelizmente não completaram sua viagem. Incompletos, ficaram seus sonhos, seus familiares, seus amigos, seu lugar no mundo.
Na noite de 19 de julho de 2007, o ministro Marco Aurélio Garcia é flagrado por uma câmera de televisão comemorando a notícia do Jornal Nacional, que no momento reportava a declaração da TAM de que o avião acidentado apresentava um problema em um dos reversores. Marco Aurélio Garcia celebrou a notícia com um gesto obsceno: uma mão em copo, a outra, aberta, dando tapas sobre ela.
Talvez o símbolo obsceno diga muito de como o governo tem tratado a questão do caos aéreo que assola o Brasil desde 2006, quando de outro trágico acidente nos céus do Mato Grosso. Para Lula e seus asseclas, o que importa mesmo é a imagem do governo e não as vidas que se perderam nessas tragédias, ou as que se perderão se eles continuarem a agir como agora - fazendo de tudo para limpar a imagem do presidente.
No peito, fica um vazio incômodo que nos diz que nada mudará, que tudo permanecerá como está - incompleto.
Olá,leio sempre seus ótimos textos. Só uma criatura,sutilmente, falou algo em que acredito sobre a tragédia.Um geólogo que chegava não sei de onde..Entre outras palavras:”…Ganância…”Ninguem põe culpa na TAM. “o avião pode voar sem os …” Certo. Mas fica mais fácil cair. Mas, entre perder dinheiro e arriscar,em um mundo capitalista,materialista,tecnocrata,oco,fútil,….ARRISCAR,claro. E aquele gesto eu não faria,mas pensei:Tá na hora de ver a “danação pelo lucro” Também é desgoverno,e isso vem de longe. Com admiração,Rubeneide Araujo.
Sim, é com este vazio, é com esta certeza de insegurança que nós, brasileiros, estamos sobrevivendo ante tanto desrespeito, tanto descaso às coisas que estão acontecendo em nosso país…
Sinto-me totalmente desprotegida com tanta violência e desrespeito aos nossos direitos como cidadãos… com esse governo desgovernado, corrupto e vergonhoso… estou começando a envergonhar-me por ser brasileira… estou muito triste…
Beijo, Robertson.
é triste, é revoltante. quando acontece uma coisa assim, uma mistura de sensações se acumula e fica pulsando dentro da gente…. um beijo