Milhões de vítimas
O controle remoto facilitou nossas vidas mas também tornou mais fácil nossa alienação. No mesmo instante em que as primeiras notícias sobre o acidente envolvendo o vôo JJ 3054 da TAM Linhas Aéreas do dia 17 de julho de 2007, no qual mais de cento e oitenta perderam suas vidas, os canais de televisão exibiam música, entrega de medalhas no PAN do Rio de Janeiro, programas de auto-ajuda, televendas, novelas. Contudo, ainda que seja fácil mudar de canal para evitar o nó na garganta ao conhecer mais e mais detalhes sobre o episódio, a repercussão de tragédias como essa nunca se estancam com nossas tentativas de ignorar os fatos para não sofrer em demasia.
Somos todos vítimas. Residindo em Porto Alegre, tendo parentes aqui ou em São Paulo, sendo passageiro freqüente ou esporádico do transporte aéreo no Brasil, todos nós fomos de alguma forma afetados pelas conseqüências funestas do que, à primeira vista, parece ser mais um ato de negligência do longo carrossel de fracassos e erros ao qual se reduziu em pouco mais de dez meses o sistema aéreo brasileiro.
Uma pergunta ainda permanece no ar: quais serão as ações tomadas pelas autoridades brasileiras a partir de mais este terrível acidente aéreo? Em 2006, uma centena e meia de pessoas perderam suas vidas em um choque de aeronaves sobre o Mato Grosso e pouco ou nada se fez desde então. O que se viu a partir da tragédia do vôo da Gol foi uma sucessão de incidentes que mostraram o quão frágeis são nosso sistema de controle aéreo, nosso órgão regulador, nossas empresas aéreas. Qual será a conseqüência das cento e oitenta mortes do acidente com o vôo JJ 3054 da TAM, Porto Alegre-São Paulo, funestamente terminado ao fim da pista principal do Aeroporto de Congonhas - a qual havia sido reaberta há poucos dias, sob a autorização da INFRAERO, que reafirma haver condições de uso para pousos e decolagens mesmo depois da tragédia anunciada.
Será que os nossos governantes irão esperar outras mortes, outros acidentes, outras perdas irreparáveis para, enfim, tomar atitudes concretas para solucionar o problema ao invés de se esconder por trás das desculpas ensaiadas de seus porta-vozes?
Quero deixar minha homenagem ao meu amigo e grande profissional Mário Gomes, falecido nessa tragédia. Um grande fotógrafo capaz de mágicas no Photoshop, o Mariozinho era talentoso, gentil, de bem com a vida, uma grande pessoa e um grande profissional. Nunca mais, quando cruzar com meu pai, ele vai perguntar em tom de galhofa: “E a Pati?”
Não consigo sequer imaginar o que estão sentindo os parentes ou os amigos íntimos. Mas os colegas e os amigos ocasionais eu sei - essa dor está comigo nesse momento.
É duro, dizer isso, mas, incidentes como esses ainda irão ocorrer. O desrespeito pela vida é enorme. Basta relembrar, como bem o fez o amigo Frizero, o episódio do avião da Gol. Enquanto “eles” não forem diretamente atingidos por catástrofes como essa, sinceramente não acredito que atitudes e ações sérias serão tomadas. Ou no máximo que as mesmas caminharão a passado de cágado. Assim acontece em tudo que afeta o povo brasileiro. É só ver os processos na justiça, a reforma da saúde, o PAC, o ensino no Brasil. Minhas esperanças estão capengas num governo como esse. Estou mais com os pés no chão e agora tratarei te tê-los mais ainda, pois quem agora em sã consciência confia em pegar um avião?
Abraços, Carlos.
P.S.: desculpe pelo post, acredito que o mais pesado de todos que já deixei, mas estou indignado. Não tinha nenhum parente lá, mas me dói muito pensar que poderia haver uma pessoa querida próxima envolvida. Solidarizo-me com todas as vítimas diretas ou indiretas dessa e de outras tragédias que ocorrem por aqui.
Frizero, depois desse acidente on Congonhas, atrevo-me a antecipar que ninguém será efetivamente preso. Provavelmente colocaremos a culpa no piloto morto, mesmo por que ele nao pode se defender.
No máximo alguns incompetentes que têm “costas-quentes” perderão o cargo que ocupam.
Tomara que eu esteja errado na minhas previsões, mas continuo achando que por sermos um “pais de amadores”, infelizmente não restrito ao jeitinho brasileiro ao qual vc se referiu no seu artigo [http://locutorio.blog.com/1812700/], nada acontecerá. Lamentável…
Hoje declaro a minha morte…
morri para o Brasil.
Hoje declaro o meu nascimento…
nasci para a realidade.
Hoje declaro o meu crescimento…
cresci para a vida.
Hoje declaro a minha independência…
independencia para pensar.
Srs. responsáveis pelo meu destino
Morram.
Assim pelo menos terei a certeza que
nasceräo mais responsáveis,mais maduros
e mais conscientes.
Sou solidario com a familias dos mortos do JJ3054
mas näo com os responsáveis pelo destino do Brasil, hoje mortos.
Meses depois, as famílias das vítimas ainda procuram respostas…