Thursday, July 12, 2007

Socorro e a queda

Figura Feminina - Di Cavalcanti Era uma voz repleta dessa raiva estudada que antecipa o uso da força bruta, a do tal Furtado. As palavras eram dispostas em um cantochão roufenho de ameaças, em um tom forçosamente másculo que fazia com que a voz de Dona Amparo ganhasse notas mais altas que a garganta destruída pelo fumo poderia suportar. Eles gritavam mais e mais, talvez para tornar pública uma disputa que a ninguém mais interessava.

Os pensionistas eram atraídos pela gritaria como as crianças raptadas pelo flautista. Ou como os ratos. A estridente defesa de Dona Amparo e os trovões insolentes de Furtado eram uma música hipnótica para aquela gente de vida tão monótona. Como em Hamelin, um serviço que não foi pago devidamente estava prestes a motivar uma tragédia.

– Está tudo certo? – as palavras tremeram enquanto Socorro apontava para o jaleco que eu apertava contra o peito, sem perceber. Ao longo do guarda-corpo da escada, os demais hóspedes debruçavam-se para ouvir melhor sobre as roupas de Furtado que Dona Amparo trancara no antigo quarto do rapaz, os quatro meses de pensão que o marinheiro devia, as insinuações sobre o Furtado tentando fazer mal à Abigailzinha.

– Sem essa mancha, tudo volta ao normal.

Socorro olhava para os primeiros degraus da escada, onde Dona Amparo sacudia o dedo arroxeado no rosto de Furtado. Que o marinheiro não era flor que se cheire. Que não prestava era aquela pensão caindo aos pedaços. Que para quem era, bacalhau bastava. Que já tinha visto porões de navio mais limpos que aquilo. Que fosse então dormir nos porões de navio, que era lugar de rato como ele.

– Custa muito para passar? – a pergunta saiu sem qualquer maldade, mas Socorro mirou-me com olhos marejados de horror. Do terceiro degrau, Furtado agarrou a mão pesada de Dona Amparo no ar, a caminho de um sopapo.

– Eu não entendo.

– Queria que passasse… – falei despreocupadamente, estendendo-lhe o jaleco. – Não sei se a senhorita faria isso.

Dona Amparo gemeu um falsete de dor e olhou para o alto, furiosa. Os pensionistas trancaram-se em suas tocas.

– O senhor acha que eu devo? – Socorro já não olhava para mim. Furtado e Dona Amparo subiam as escadas em sinfonia de ofensas. Ele iria arrombar a porta, ela mandava prendê-lo se ele não saísse imediatamente. Ela tinha amigos importantes na polícia, ele conhecia uns estivadores que matavam por dez vinténs.

– Se a senhora puder, é claro. Não sei se a senhora faz esse tipo de serviço. Mas seria bom.

– Sim, passado, seria bom… – suas mãos de costureira habilidosa crisparam-se. – Eu faço, sim, sou capaz de fazer, para ficar passado…

Agradeci e coloquei o jaleco de volta em suas mãos. Queria sair dali, entrar no meu quarto e evitar o constrangimento de ser envolvido no desagradável espetáculo de Dona Amparo e Furtado digladiando-se com infâmias. Socorro pegou de volta a peça de roupa.

Furtado avisou que a velha imprestável ia morrer, ordinária. Todos ouviram por detrás de suas portas fechadas. Mas eu ainda olhava Socorro por uma fresta entreaberta, extasiado com sua palidez. E vi tudo o que os demais pensionistas apenas contariam à polícia de ouvirem falar: Dona Amparo despencando escada abaixo, em um grasnar horrendo, fazendo ranger os degraus e tremer as paredes. E então cumpriu-se, ao pé da escada, a ameaçadora premonição do infeliz do Furtado.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 17:26:45 | Permalink | No Comments »