Monday, July 9, 2007

Virginia Rodrigues, voz dos deuses e de Deus

Virginia RodriguesQuantas vozes no atual cenário musical brasileiro são capazes de transformar um espetáculo em celebração religiosa?  Esqueçam os neo-pentecostais e suas guitarras estridentes, os carismáticos e suas viagens roqueiras de gosto duvidoso com uivos de palavras sagradas.  Falo em religião no seu sentido mais puro e pleno, o de religar os homens a uma beleza que não é deste mundo.  Quantas vozes no Brasil atual, no qual a música parece existir apenas para a alegria frenética e esvaziada, são capazes de levar seu público até a divindade?

Virginia Rodrigues faz isso com maestria e facilidade.  Sua voz tem a profundidade rara de quem se inspira nas sonoridades eruditas mas tem raízes bem populares - não populescas, é bom ressaltar - e sabe que esses dois mundos musicais não são excludentes.  A soteropolitana simples teve sua educação musical nos corais de igreja de Salvador, onde sua voz de contralto foi descoberta pela Tribo de Teatro do Olodum.  Foi em um dos ensaios finais de seu primeiro espetáculo com o grupo, no qual fazia curiosamente o papel de uma surda-muda, que a cantora teve seu talento reconhecido por um padrinho que lhe abriria as portas de uma carreira internacional: Caetano Veloso, que se viu envolto em lágrimas na cena final em que a personagem de Virginia Rodrigues descobria sua voz e cantava, belíssimamente, Veronica, peça musical geralmente cantada nas procissões da Sexta-Feira da Paixão país afora.  Veronica seca o rosto ensngüentado do Cristo enquanto lamenta sua sorte - e a canção triste, incluída no primeiro álbum da cantora, Sol Negro, motivou o grande cantor baiano a produzir seu segundo álbum.  Nós, totalmente dedicado a canções extraídas do carnaval baiano, é o melhor exemplo do poder dessa voz única: Virginia Rodrigues transforma hits dançantes dos blocos carnavalescos em canções sacras, desvelando o caráter religioso do desfile de orixás e crenças ali ocultas, emprestando-lhes novos sentidos.

Virginia Rodrigues

Semelhante sensação foi levada por Virginia Rodrigues aos poucos felizardos que assistiram seu concerto único oferecido em oito de julho de 2007 no átrio do Santander Cultural, em Porto Alegre.  Pela primeira vez na capital gaúcha, a cantora transformou a modernosa construção em uma catedral.  Sua voz passeava entre as notas graves e agudas como se fosse muito fácil cantar daquela forma, e a cada percurso melódico o público era enlevado em religiosidade mais emotiva que mística, mais sentimental que ritualística.  Virginia Rodrigues consegue despertar em nós seus deuses particulares mesmo quando está a entoar as canções menos religiosas, como Manhã de Carnaval ou os antigos sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes, repertório de seu último álbum, Mares Profundos.  Mas como negar sua espiritualidade tão africana - e tão brasileira - em canções como Deus do Fogo e da Justiça, em que louva o poder de Xangô, ou em sua evocação a Iemanjá, único momento do espetáculo em que cantou sem o acompanhamento sempre perfeito de Bernardo Bosísio ao violão?  Não é necessário acreditar nos orixás para sentir-se mais perto de Deus - ou dos deuses - ao ouvir a voz de Virginia Rodrigues. 

Em pouco mais de uma hora de concerto, Virginia Rodrigues mostrou porque é uma das vozes brasileiras mais celebradas nos circuitos de jazz e world music mundo afora - e porque no Brasil poucos a conhecem.  Estamos entregues a tempos de imediatismo que invadem também o terreno da música, dominados que somos pelas vontades tortas das grandes gravadoras.  Música de sucesso, no Brasil, é sinônimo de baticum dançante e sem profundidade.  E Virginia Rodrigues é toda encantamento em melodias simples, é toda reflexão em palavras descomplicadas.  Mesmo sem o reconhecimento merecido em seu país, contudo, Virginia Rodrigues é uma voz necessária em um cenário de tanta superficialidade.  Ela conduz-nos à religião sem os exageros e sentimentalismos dos cultos contemporâneos e das igrejas desgovernadas em tempos de pouca exegese e muita liturgia - e em todos os campos da vida humana. É a voz de um país mestiço que parece cada vez mais esquecido dos valores universais e de suas origens inegavelmente religiosas.

Posted by Frizero at 11:36:28
Comments

2 Responses to “Virginia Rodrigues, voz dos deuses e de Deus”

  1. Frizero says:

    Virginia Rodrigues cantava “a capella” sua evocação a Iemanjá, em iorubá, língua de meus ancestrais, e comecei a chorar. Talvez seja isso o que os antigos chamavam de “epifania”, de revelação. Foi um momento religioso, sem rituais nem fórmulas, sem vestimentas especiais nem pirotecnias neo-pentecostais. Não é qualquer artista que consegue arrancar lágrimas apenas com sua voz, sem esquemas fáceis de sentimentalismo, sem apelação. Foi uma das mais belas vozes que já pude ouvir ao vivo.

  2. Luh says:

    Obrigada por ressaltar Virginia Rodrigues!
    Já tive oportunidades em sentir seu canto. A sua voz e a sua pessoa são divinas.
    Beijo!

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