Friday, July 20, 2007

Incompleto

Jamile e o filho de um ano e oito meses não puderam viajar com Ilderley, o esposo e pai dedicado.  Havia um overbooking no vôo e o marido decidiu dar prioridade aos dois, sendo remanejado para outro vôo, de outra companhia aérea, que por ironia do destino partiu uma hora antes.  Ilderley foi na frente e ficou aguardando a chegada da família em São Paulo.

Lin, 28 anos, aguardava ansiosa sua viagem para os Estados Unidos.  Em 2006, recebera um prêmio internacional que a qualificou como uma das vinte oncologistas do mundo que mais contribuíram para a ciência e o tratamento do câncer.  Jovem, sim, mas mestre em Oncologia e doutoranda destacada.

Maria Elizabeth voltava de uma viagem de férias no sul com as netas Maria Isabel, de quatorze anos, e Júlia Elisabete, de dez.  Muitas histórias divertidas na bagagem para contar para o pessoal de São José do Rio Preto.

Mário Gomes viajava a trabalho para São Paulo. Fotógrafo talentoso, proprietário de uma renomada empresa na área de publicidade, feliz com a vida.

Rebeca e Thais, quatorze anos, amigas do colégio, viajavam pela primeira vez sozinhas.  Uma aventura.

Carmem Luisa atendia crianças carentes em uma organização governamental sediada em Porto Alegre, Álvaro tinha apenas vinte e cinco anos e já era proprietário de seu próprio curso de idiomas, Fernando e Silvia tinham acabado de comprar uma casa, Márcio Rogério visitara Porto Alegre para tratar de negócios com representantes de Ronaldinho Gaúcho, Valdemarina era vice-diretora de um instituto de pesquisa, Peter estava casado há apenas quatro meses.  Ricardo, Nelson, Nadja, Vinicius.  Bruno, três anos de idade.  Clove, Júlia.  Levi, um ano e oito meses.  Marcelo.  Mery, que tricotava com um grupo de pensionistas.  Fabíola, que se casara em dezembro de 2006.  Júlio César Redecker.

Todos eles embarcaram no vôo JJ 3054 da TAM, na terça-feira, dia 17 de julho de 2007, e infelizmente não completaram sua viagem.  Incompletos, ficaram seus sonhos, seus familiares, seus amigos, seu lugar no mundo.

Na noite de 19 de julho de 2007, o ministro Marco Aurélio Garcia é flagrado por uma câmera de televisão comemorando a notícia do Jornal Nacional, que no momento reportava a declaração da TAM de que o avião acidentado apresentava um problema em um dos reversores.  Marco Aurélio Garcia celebrou a notícia com um gesto obsceno: uma mão em copo, a outra, aberta, dando tapas sobre ela.

Talvez o símbolo obsceno diga muito de como o governo tem tratado a questão do caos aéreo que assola o Brasil desde 2006, quando de outro trágico acidente nos céus do Mato Grosso.  Para Lula e seus asseclas, o que importa mesmo é a imagem do governo e não as vidas que se perderam nessas tragédias, ou as que se perderão se eles continuarem a agir como agora - fazendo de tudo para limpar a imagem do presidente.

No peito, fica um vazio incômodo que nos diz que nada mudará, que tudo permanecerá como está - incompleto.

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Wednesday, July 18, 2007

Milhões de vítimas

Parentes das vítimas choram no saguão do Aeroporto Salgado FilhoO controle remoto facilitou nossas vidas mas também tornou mais fácil nossa alienação. No mesmo instante em que as primeiras notícias sobre o acidente envolvendo o vôo JJ 3054 da TAM Linhas Aéreas do dia 17 de julho de 2007, no qual mais de cento e oitenta perderam suas vidas, os canais de televisão exibiam música, entrega de medalhas no PAN do Rio de Janeiro, programas de auto-ajuda, televendas, novelas. Contudo, ainda que seja fácil mudar de canal para evitar o nó na garganta ao conhecer mais e mais detalhes sobre o episódio, a repercussão de tragédias como essa nunca se estancam com nossas tentativas de ignorar os fatos para não sofrer em demasia.

Somos todos vítimas. Residindo em Porto Alegre, tendo parentes aqui ou em São Paulo, sendo passageiro freqüente ou esporádico do transporte aéreo no Brasil, todos nós fomos de alguma forma afetados pelas conseqüências funestas do que, à primeira vista, parece ser mais um ato de negligência do longo carrossel de fracassos e erros ao qual se reduziu em pouco mais de dez meses o sistema aéreo brasileiro.

Uma pergunta ainda permanece no ar: quais serão as ações tomadas pelas autoridades brasileiras a partir de mais este terrível acidente aéreo?  Em 2006, uma centena e meia de pessoas perderam suas vidas em um choque de aeronaves sobre o Mato Grosso e pouco ou nada se fez desde então.  O que se viu a partir da tragédia do vôo da Gol foi uma sucessão de incidentes que mostraram o quão frágeis são nosso sistema de controle aéreo, nosso órgão regulador, nossas empresas aéreas.  Qual será a conseqüência das cento e oitenta mortes do acidente com o vôo JJ 3054 da TAM, Porto Alegre-São Paulo, funestamente terminado ao fim da pista principal do Aeroporto de Congonhas - a qual havia sido reaberta há poucos dias, sob a autorização da INFRAERO, que reafirma haver condições de uso para pousos e decolagens mesmo depois da tragédia anunciada.

Será que os nossos governantes irão esperar outras mortes, outros acidentes, outras perdas irreparáveis para, enfim, tomar atitudes concretas para solucionar o problema ao invés de se esconder por trás das desculpas ensaiadas de seus porta-vozes?

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Thursday, July 12, 2007

Socorro e a queda

Figura Feminina - Di Cavalcanti Era uma voz repleta dessa raiva estudada que antecipa o uso da força bruta, a do tal Furtado. As palavras eram dispostas em um cantochão roufenho de ameaças, em um tom forçosamente másculo que fazia com que a voz de Dona Amparo ganhasse notas mais altas que a garganta destruída pelo fumo poderia suportar. Eles gritavam mais e mais, talvez para tornar pública uma disputa que a ninguém mais interessava.

Os pensionistas eram atraídos pela gritaria como as crianças raptadas pelo flautista. Ou como os ratos. A estridente defesa de Dona Amparo e os trovões insolentes de Furtado eram uma música hipnótica para aquela gente de vida tão monótona. Como em Hamelin, um serviço que não foi pago devidamente estava prestes a motivar uma tragédia.

– Está tudo certo? – as palavras tremeram enquanto Socorro apontava para o jaleco que eu apertava contra o peito, sem perceber. Ao longo do guarda-corpo da escada, os demais hóspedes debruçavam-se para ouvir melhor sobre as roupas de Furtado que Dona Amparo trancara no antigo quarto do rapaz, os quatro meses de pensão que o marinheiro devia, as insinuações sobre o Furtado tentando fazer mal à Abigailzinha.

– Sem essa mancha, tudo volta ao normal.

Socorro olhava para os primeiros degraus da escada, onde Dona Amparo sacudia o dedo arroxeado no rosto de Furtado. Que o marinheiro não era flor que se cheire. Que não prestava era aquela pensão caindo aos pedaços. Que para quem era, bacalhau bastava. Que já tinha visto porões de navio mais limpos que aquilo. Que fosse então dormir nos porões de navio, que era lugar de rato como ele.

– Custa muito para passar? – a pergunta saiu sem qualquer maldade, mas Socorro mirou-me com olhos marejados de horror. Do terceiro degrau, Furtado agarrou a mão pesada de Dona Amparo no ar, a caminho de um sopapo.

– Eu não entendo.

– Queria que passasse… – falei despreocupadamente, estendendo-lhe o jaleco. – Não sei se a senhorita faria isso.

Dona Amparo gemeu um falsete de dor e olhou para o alto, furiosa. Os pensionistas trancaram-se em suas tocas.

– O senhor acha que eu devo? – Socorro já não olhava para mim. Furtado e Dona Amparo subiam as escadas em sinfonia de ofensas. Ele iria arrombar a porta, ela mandava prendê-lo se ele não saísse imediatamente. Ela tinha amigos importantes na polícia, ele conhecia uns estivadores que matavam por dez vinténs.

– Se a senhora puder, é claro. Não sei se a senhora faz esse tipo de serviço. Mas seria bom.

– Sim, passado, seria bom… – suas mãos de costureira habilidosa crisparam-se. – Eu faço, sim, sou capaz de fazer, para ficar passado…

Agradeci e coloquei o jaleco de volta em suas mãos. Queria sair dali, entrar no meu quarto e evitar o constrangimento de ser envolvido no desagradável espetáculo de Dona Amparo e Furtado digladiando-se com infâmias. Socorro pegou de volta a peça de roupa.

Furtado avisou que a velha imprestável ia morrer, ordinária. Todos ouviram por detrás de suas portas fechadas. Mas eu ainda olhava Socorro por uma fresta entreaberta, extasiado com sua palidez. E vi tudo o que os demais pensionistas apenas contariam à polícia de ouvirem falar: Dona Amparo despencando escada abaixo, em um grasnar horrendo, fazendo ranger os degraus e tremer as paredes. E então cumpriu-se, ao pé da escada, a ameaçadora premonição do infeliz do Furtado.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

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Tuesday, July 10, 2007

Flor Bonita

Sou uma parte de mim mesmo
Semeada e regada a esmo
Florescendo mil segredos…

(Robertson Frizero Barros)

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Monday, July 9, 2007

Virginia Rodrigues, voz dos deuses e de Deus

Virginia RodriguesQuantas vozes no atual cenário musical brasileiro são capazes de transformar um espetáculo em celebração religiosa?  Esqueçam os neo-pentecostais e suas guitarras estridentes, os carismáticos e suas viagens roqueiras de gosto duvidoso com uivos de palavras sagradas.  Falo em religião no seu sentido mais puro e pleno, o de religar os homens a uma beleza que não é deste mundo.  Quantas vozes no Brasil atual, no qual a música parece existir apenas para a alegria frenética e esvaziada, são capazes de levar seu público até a divindade?

Virginia Rodrigues faz isso com maestria e facilidade.  Sua voz tem a profundidade rara de quem se inspira nas sonoridades eruditas mas tem raízes bem populares - não populescas, é bom ressaltar - e sabe que esses dois mundos musicais não são excludentes.  A soteropolitana simples teve sua educação musical nos corais de igreja de Salvador, onde sua voz de contralto foi descoberta pela Tribo de Teatro do Olodum.  Foi em um dos ensaios finais de seu primeiro espetáculo com o grupo, no qual fazia curiosamente o papel de uma surda-muda, que a cantora teve seu talento reconhecido por um padrinho que lhe abriria as portas de uma carreira internacional: Caetano Veloso, que se viu envolto em lágrimas na cena final em que a personagem de Virginia Rodrigues descobria sua voz e cantava, belíssimamente, Veronica, peça musical geralmente cantada nas procissões da Sexta-Feira da Paixão país afora.  Veronica seca o rosto ensngüentado do Cristo enquanto lamenta sua sorte - e a canção triste, incluída no primeiro álbum da cantora, Sol Negro, motivou o grande cantor baiano a produzir seu segundo álbum.  Nós, totalmente dedicado a canções extraídas do carnaval baiano, é o melhor exemplo do poder dessa voz única: Virginia Rodrigues transforma hits dançantes dos blocos carnavalescos em canções sacras, desvelando o caráter religioso do desfile de orixás e crenças ali ocultas, emprestando-lhes novos sentidos.

Virginia Rodrigues

Semelhante sensação foi levada por Virginia Rodrigues aos poucos felizardos que assistiram seu concerto único oferecido em oito de julho de 2007 no átrio do Santander Cultural, em Porto Alegre.  Pela primeira vez na capital gaúcha, a cantora transformou a modernosa construção em uma catedral.  Sua voz passeava entre as notas graves e agudas como se fosse muito fácil cantar daquela forma, e a cada percurso melódico o público era enlevado em religiosidade mais emotiva que mística, mais sentimental que ritualística.  Virginia Rodrigues consegue despertar em nós seus deuses particulares mesmo quando está a entoar as canções menos religiosas, como Manhã de Carnaval ou os antigos sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes, repertório de seu último álbum, Mares Profundos.  Mas como negar sua espiritualidade tão africana - e tão brasileira - em canções como Deus do Fogo e da Justiça, em que louva o poder de Xangô, ou em sua evocação a Iemanjá, único momento do espetáculo em que cantou sem o acompanhamento sempre perfeito de Bernardo Bosísio ao violão?  Não é necessário acreditar nos orixás para sentir-se mais perto de Deus - ou dos deuses - ao ouvir a voz de Virginia Rodrigues. 

Em pouco mais de uma hora de concerto, Virginia Rodrigues mostrou porque é uma das vozes brasileiras mais celebradas nos circuitos de jazz e world music mundo afora - e porque no Brasil poucos a conhecem.  Estamos entregues a tempos de imediatismo que invadem também o terreno da música, dominados que somos pelas vontades tortas das grandes gravadoras.  Música de sucesso, no Brasil, é sinônimo de baticum dançante e sem profundidade.  E Virginia Rodrigues é toda encantamento em melodias simples, é toda reflexão em palavras descomplicadas.  Mesmo sem o reconhecimento merecido em seu país, contudo, Virginia Rodrigues é uma voz necessária em um cenário de tanta superficialidade.  Ela conduz-nos à religião sem os exageros e sentimentalismos dos cultos contemporâneos e das igrejas desgovernadas em tempos de pouca exegese e muita liturgia - e em todos os campos da vida humana. É a voz de um país mestiço que parece cada vez mais esquecido dos valores universais e de suas origens inegavelmente religiosas.

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Thursday, July 5, 2007

O lado obscuro do multiculturalismo

“Pedófilos podem bravamente, corajosamente dizer que eles escolhem… Sou também um teólogo e como teólogo, creio que é vontade de Deus que haja proximidade e intimidade, unidade da carne, entre as pessoas… Pedófilos podem declarar que adquirir intimidade e amor é o que eles escolhem.  Com coragem, eles podem dizer, ‘Eu acredito que isto é, em verdade, parte da vontade divina.” (Ralph Underwager, defensor comumente convocado em casos de pedofilia na Europa, em entrevista a uma publicação pro-pedofilia) 

O tema era palpitante e de grande importância: tratar, dentro da sala de aula de língua inglesa, da reeducação do olhar do aluno perante o mundo por meio do que se denominou critical literacy (algo como “letramento crítico”).  A idéia é extender sobre o livro-didático e outros tantos textos autênticos trabalhados no ensino de idiomas questionamentos que possam ir além do mero conteúdo gramatical ou semântico dos textos - indagar as intenções, a autoria, as implicações e a forma como o texto é recebido pelos alunos.  Em outras palavras, usar a aula de língua estrangeira para criar leitores críticos do mundo.

A primeira palestra propunha um questionamento sobre as diferenças entre uma visão de mundo a partir de totalidades ou de múltiplas perspectivas.  As totalidades a que se referia o palestrante, um doutor em ensino de língua inglesa como língua estrangeira por uma conceituada universidade britânica, professor da Universidade de São Paulo, dizem respeito às concepções de Cultura, Gramática, Linguagem, Identidade e Conhecimento como entidades singulares.  Vistos como homogeneidades, eles pressuporiam representações de uma realidade pré-existente e externa e, na visão do palestrante, excluem per se todas as diferenças.  No caso das línguas, as concepções homogêneas reduziriam o texto a um processo de decodificação no qual caberiam, como respostas, apenas o certo e o errado.

Tais conceitos são inegáveis em um mundo no qual as mais distintas culturas e visões de mundo afloram com força, em que a capacidade de comunicação e expressão humanas parecem multiplicadas a cada dia.  Não cabe mais no homem contemporâneo a ingenuidade que antes lhe permitia ignorar a autoria, a agenda política, a intenção e a ideologia por trás dos textos orais ou escritos aos quais somos expostos diariamente.  E é nesse sentido que a critical literacy surge como uma importante contribuição à formação de cidadãos conscientes e autônomos em suas escolhas.

Contudo, o discurso entorta ao propor que o caminho do letramento crítico é a relativização dos conceitos.  A proposta do palestrante, ao final de sua fala, foi a de que aquela abordagem focada na heterogeneidade visava ao convencimento de que não há valores absolutos, já que tudo o que rege a vida humana seria, em verdade, um construto social, vinculado a uma certa ideologia, momento histórico e sociedade.  Em outras palavras, o letramento crítico seria a negação da existência de universais.

Esta foi justamente a minha pergunta ao palestrante, depois de outras tantas que vangloriavam a panacéia da compreensão da diversidade como o único caminho possível para a paz.  Tendo minhas crenças muito sólidas de que o entendimento mútuo é, de fato, uma seara interessante e possível para um mundo menos belicoso, indaguei do professor da USP se o que ele entendia como “compreensão” não levaria à completa negação dos valores universais do ser humano.  Para meu espanto, ele disse que não há valores universais.  Lancei-lhe então uma réplica, questionando se aquele não seria um caminho perigoso, se não seria temerário transformar a compreensão das razões do outro como uma mera aceitação passiva de que tudo é possível e aceitável.  E acrescentei um pequeno desafio - como funcionaria essa mecânica da “compreensão da diversidade” em situações como a recente tentativa, ocorrida na Holanda, de criação de um Partido em Defesa do Sexo Transgeracional - em outras palavras, a faceta política dos pedófilos daquele país europeu.

A princípio, o palestrante queixou-se de que o tópico que eu escolhi era “passional” demais.  Depois, reforçando as idéias de sua cartilha de acolhimento incondicional da diversidade, afirmou que o conceito de infância era uma criação social!  Confesso que fiquei confuso e perguntei se tal fato - o de a infância ser um conceito construído socialmente - fazia com que devêssemos então desconsiderar tal barreira, a da infância, como impedimento legal para as práticas delituosas de que eu falava.  Com um estranho sorriso nos lábios, ele repetiu que a infância é um construto social, que varia de país para país e de povo para povo - seja lá o que ele queria defender ao retomar a tal idéia. 

Talvez nisso resida a grande diferença entre os que defendem o multiculturalismo e os que se debatem contra o seu discurso - a crença em que há valores que são universais, comuns a todos os seres humanos.  Este, aliás, foi um outro ponto em que o palestrante me assombrou em nosso pequeno debate, no qual, aliás, toda a platéia aderiu ao seu ponto de vista: negando a existência dos universais, ele afirmou que a Declaração dos Direitos do Homem era um  construto social que defendia os interesses de certo grupo dominante e que por isso deviam ser questionados.  O próprio conceito de ser humano, na visão do professor da USP, é fruto de uma concepção social - disse ele, sem citar dados, que o conceito de ser humano pode ser extendido a animais ou mesmo a seres imaginários em determinadas culturas, e disso derivava sua desconfiança em relação à existência de direitos humanos universais.

Não creio ser exagerado imaginar os caminhos que tal defesa incondicional da eqüidade de valores pode nos levar.  Ao aceitarmos qualquer postura como fruto de determinada sociedade, de seu modo de pensar e se constituir como grupo, descartando qualquer limite do que seria aceitável ou não em comparação a valores universais de toda a humanidade, estamos a um passo de considerar apropriadas as mais abjetas práticas, desde a pedofilia crescente na Europa à mutilação genital de mulheres africanas, da opressão feminina nos países do Oriente Médio ao trabalho infantil nas fazendas brasileiras.  Basta acomodar os conceitos, ou melhor, questioná-los: a escravidão é relativa, a opressão é relativa, o que é humilhante para um povo pode ser orgulho para outro, e por esse caminho tudo se torna válido e insuportavelmente aceitável, porque somos contemporâneos e nossas culpas ancestrais - em relação ao que os países mais ricos fizeram com povos e países subjulgados por séculos de exploração e barbarismos - lançam-nos para o multiculturalismo.

No fundo, é a velha disputa entre a crença de que todos os homens são iguais - tão afeita à esquerda em seu desprezo pelo caráter individual e único de cada ser humano em favor de um pretenso bem comum - e aquela de que todos os homens são diferentes - mais próxima às idéias de justiça, propriedade e competitividade da direita em favor de um dito bem de todos.  Acreditando-se em um ou outro lado da contenda, há que se questionar quais valores se está abrindo mão ao fazer tal escolha.  Do contrário, o louvável discurso dos multiculturalistas em favor de um mundo no qual “todos tenham voz e vez” pode ser manipulado de modo a que essa voz permitida a todos seja manipulada de modo a aprovar as maiores abjeções, lançando-nos aos tempos nada saudosos anteriores ao perdão como um valor da humanidade.

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