Thursday, June 28, 2007

Gal

Gal Costa Ela entrou em cena e a mulher do meu lado começou a cantar.  E assim ficou durante todo o espetáculo.  Cantarolando no meu ouvido!

A cena talvez fosse irritante se a cantora que dominava o palco não fosse Gal Costa.  Em um concerto minimalista, no qual foi acompanhada apenas pelo perfeito violão de Luís Meira, ela mostrou porque é ainda hoje considerada uma das mais belas vozes do Brasil.  O repertório não apresentou maiores novidades - a não ser uma interpretação magistral de “Mulher, eu sei”, de Chico César, na qual regeu o público em deliciosa interação, e a lembrança de “Meu Primeiro Amor”, de Cascatinha & Inhana.  Gal Costa relembrou seus maiores sucessos com uma precisão técnica que a coloca naquela categoria rara - a mesma de Ná Ozzetti, Teresa Salgueiro, Maria Bethânia - das cantoras às quais parece impossível desafinar.

Não é fácil segurar um público de mais de mil espectadores com um espetáculo sem pirotecnias, projeções de vídeo, dançarinos exóticos ou a alegria postiça que costuma dominar os palcos atuais do Brasil.  Era apenas Gal Costa e seus quarenta anos de carreira, e um violão que passeava sem tropeços entre os acordes flamencos de “Vapor Barato” e a tranquilidade bossanovista do melhor de João Gilberto e Tom Jobim.  Luís Meira, cabe ressaltar, é daqueles instrumentistas que sabem inventar sem descambar por experimentalismos gratuitos.  E o espetáculo Voz & Violão de Gal Costa tem espaço até para o improviso, a experimentação e o novo, fruto de sua alma jazzística e da coragem da cantora em arriscar-se em coisas novas, como o beebop e os vocalizes surpreendentes que inseriu aqui e acolá, dando um gostinho de blues a Dorival Caymmi ou um caráter mais sombrio a uma canção conhecida de Chico Buarque. 

São poucas as cantoras que conseguem sustentar um espetáculo daquela grandeza apenas com sua voz e um violão.  Menor ainda o número das que são capazes de fazer um público enorme como aquele dançar ao som do frevo apenas com sua voz, palmas e nada mais.  Gal Costa passa para o público a impressão de que é muito fácil cantar como ela.  Sua voz é sempre precisa, afinada, ainda que repleta de estranhamento.  Seu registro tão particular dá-nos a sensação de uma estridência suave, de um limite próximo ao exagero, mas é mera impossibilidade nossa de compreender tamanho talento vocal.  Ouví-la ao vivo não tem qualquer comparação com as inúmeras gravações feitas por Gal Costa, e as canções inéditas apresentadas por ela no concerto pareciam ser compostas especialmente para a sua voz. 

No dia 27 de junho de 2007, assisti, embevecido, ao espetáculo que Gal Costa ofereceu aos porto-alegrenses.  Do meu lado, uma mulher começou a cantar assim que a artista entrou no palco.  Mas, como reclamar da minha vizinha de poltrona?  A culpa é de Gal Costa e de sua incitação velada a que cantarolemos cada canção que sua bela voz torna tão sua.

Posted by Frizero at 12:07:49
Comments

One Response to “Gal”

  1. Lúcia Dórea says:

    Que artigo bonito você escreveu elogiando a Gal Costa!
    É muito bom escrever algo elogiando alguém, e melhor ainda pra quem o lê. Inclusive, adorei a maneira delicada com a qual você criticou a mulher que “cantarolou aos seus ouvidos” o show inteiro… você é lindo, sua gentileza me emociona.
    Beijo.

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