Ela entrou em cena e a mulher do meu lado começou a cantar. E assim ficou durante todo o espetáculo. Cantarolando no meu ouvido!
A cena talvez fosse irritante se a cantora que dominava o palco não fosse Gal Costa. Em um concerto minimalista, no qual foi acompanhada apenas pelo perfeito violão de Luís Meira, ela mostrou porque é ainda hoje considerada uma das mais belas vozes do Brasil. O repertório não apresentou maiores novidades - a não ser uma interpretação magistral de “Mulher, eu sei”, de Chico César, na qual regeu o público em deliciosa interação, e a lembrança de “Meu Primeiro Amor”, de Cascatinha & Inhana. Gal Costa relembrou seus maiores sucessos com uma precisão técnica que a coloca naquela categoria rara - a mesma de Ná Ozzetti, Teresa Salgueiro, Maria Bethânia - das cantoras às quais parece impossível desafinar.
Não é fácil segurar um público de mais de mil espectadores com um espetáculo sem pirotecnias, projeções de vídeo, dançarinos exóticos ou a alegria postiça que costuma dominar os palcos atuais do Brasil. Era apenas Gal Costa e seus quarenta anos de carreira, e um violão que passeava sem tropeços entre os acordes flamencos de “Vapor Barato” e a tranquilidade bossanovista do melhor de João Gilberto e Tom Jobim. Luís Meira, cabe ressaltar, é daqueles instrumentistas que sabem inventar sem descambar por experimentalismos gratuitos. E o espetáculo Voz & Violão de Gal Costa tem espaço até para o improviso, a experimentação e o novo, fruto de sua alma jazzística e da coragem da cantora em arriscar-se em coisas novas, como o beebop e os vocalizes surpreendentes que inseriu aqui e acolá, dando um gostinho de blues a Dorival Caymmi ou um caráter mais sombrio a uma canção conhecida de Chico Buarque.
São poucas as cantoras que conseguem sustentar um espetáculo daquela grandeza apenas com sua voz e um violão. Menor ainda o número das que são capazes de fazer um público enorme como aquele dançar ao som do frevo apenas com sua voz, palmas e nada mais. Gal Costa passa para o público a impressão de que é muito fácil cantar como ela. Sua voz é sempre precisa, afinada, ainda que repleta de estranhamento. Seu registro tão particular dá-nos a sensação de uma estridência suave, de um limite próximo ao exagero, mas é mera impossibilidade nossa de compreender tamanho talento vocal. Ouví-la ao vivo não tem qualquer comparação com as inúmeras gravações feitas por Gal Costa, e as canções inéditas apresentadas por ela no concerto pareciam ser compostas especialmente para a sua voz.
No dia 27 de junho de 2007, assisti, embevecido, ao espetáculo que Gal Costa ofereceu aos porto-alegrenses. Do meu lado, uma mulher começou a cantar assim que a artista entrou no palco. Mas, como reclamar da minha vizinha de poltrona? A culpa é de Gal Costa e de sua incitação velada a que cantarolemos cada canção que sua bela voz torna tão sua.