His own private Vietnam
No mês de junho de 2007, mais sete mil soldados norte-americanos receberão sua Purple Heart Medal ao regressarem aos Estados Unidos da América depois de uma temporada de serviços prestados à nação em território iraquiano. Mais que uma honra militar, o coração púrpura carrega em si uma mensagem funesta: é a condecoração oferecida aos militares que pereceram em combate ou foram lesionados permanentemente, com impedimentos para prosseguir nos campos de batalha. No total de sete mil soldados estadunidenses condecorados com a Purple Heart recentemente, não estão contabilizados os que perderam suas vidas na chamada Guerra do Iraque.
Para um presidente como George W. Bush, que ganhou sua primeira eleição ao sugerir uma comparação com seu mítico antecessor John Fitzgerald Kennedy, os números corroboram as associações: Kennedy teve seu momento de caos mundial com a crise da Baía dos Porcos, que quase deflagrou o mais sério conflito aberto da chamada Guerra Fria; George W. Bush enfrentou o ataque às Torres Gêmeas no fatídico 11 de setembro de 2001, que desencadearia uma invasão ao Afeganistão e, consequentemente, a ocupação ao Iraque de Saddam Hussein.
As semelhanças entre os dois presidentes norte-americanos não passa, infelizmente, pela habilidade em contornar crises. JFK entrou para a história como o presidente que deu início à retirada das tropas norte-americanas do Vietnã. Em declaração registrada por seu assessor Kennedy O’Donell, o presidente Kennedy demonstrou estar consciente das conseqüências de sua decisão, ao dizer que se tornaria “o presidente mais impopular da história” e condenado “por toda parte como um apoiador dos comunistas”, mas via na sua reeleição a única possibilidade de fazer os EUA recuar de uma guerra que saíra do controle e em nada dizia respeito ao povo norte-americano (“I’ll become one of the most unpopular Presidents in history. I’ll be damned everywhere as a communist appeaser. But I don’t care. If I tried to pull out completely now from Vietnam, we would have Joe McCarthy red scare on our hands, but I can do it after I’m re-elected. So we had better make damned sure that I am reelected.”).
George W. Bush, por sua vez, não aparenta qualquer disposição em retroceder de sua decisão de iniciar uma guerra de ocupação no Iraque. Não há como ver apenas o lado ruim de sua guerra particular no Oriente Médio - o fim da era Saddam Hussein no Iraque tem um lado positivo incontestável. Mas a maneira como o novo arranjo político da região foi alcançada lançou aquele país em uma guerra civil que estava latente, entre xiitas e sunitas. A repetição diária de atentados e mortes de civis e militares faz com que o final desse conflito pareça cada vez mais distante.
Suspeita-se que a retirada das tropas estadunidenses do Vietnã tenha sido a causa secreta do assassinato de John F. Kennedy. Mas não se pode associar a resistência de George W. Bush em retirar suas tropas do Iraque a um temor do destino que teve aquele outro presidente norte-americano. No caso atual, tudo leva a crer que o presidente ainda acredite em uma saída honrosa da crise lançada sobre o Oriente Médio em uma guerra contra o inimigo invisível que é o Terrorismo internacional. Contudo, as levas e levas de soldados mutilados e incapacitados de regresso ao território estadunidense, como aconteceu na Guerra do Vietnã, começam a perturbar a sociedade norte-americana e, em breve, será um fardo pesado demais para ser carregado pela atual gestão presidencial. George W. Bush, que queria tanto ser John F. Kennedy, está conseguindo criar sua própria Guerra do Vietnã, com todas as conseqüências funestas de suas decisões precipitadas.