Socorro oferece-me seu lenço
Bateram uma porta com violência no início do corredor e Socorro despertou. Era dia. Eu ouvi a moça levantando, no silêncio costumeiro, uma avezinha assustada. Uma noite inteira de sono abandonado depois da gritaria da tarde anterior, da notícia funesta, da cena toda que presenciei contra a vontade, ao chegar à pensão depois de um dia de aulas insípidas. Mas quando encontrei Socorro na porta do meu quarto, percebi que para ela sua noite havia mesmo começado uma semana antes, no momento invisível da partida de Furtado. Era não mais que uma viúva apaixonada ainda por seu cadáver.
Ia descer as escadas carregando os restos da sopa de ervilha e da garrafa de vinho ralo que Mercedes havia levado para mim na noite anterior, com o consentimento de Dona Amparo. Socorro saiu porta afora e o acidente foi inevitável: ela assustou-se em um gemido seco, meu jaleco branco tornou-se mancha pegajosa e o rosto da costureira perdeu a cor. Foi quando vi suas mãos.
A mão direita crispou-se sobre a bolsa que levava no ombro, e a tensão do momento fazia com que seus leves músculos retesassem, mostrando uma profusão de veias quase esbranquiçadas. Que fácil deve ser coletar seu sangue, pensei. Os dedos bailaram nervosos, até que a pele esticou-se levemente no esforço de unir o dedo indicador e o polegar em torno da argola que permitiria abrir o fecho éclair. A mão que tapava a boca desceu, então, para explorar os domínios do interior da bolsa. As unhas, de um rosa docemente esmaecido, emocionaram-me, não sei por que, naquele contraste com o couro gasto, com o metal das alças. Era a cor que minha irmã usava antes de se tornar uma insuportável mãe de família, o tom de doçura de sua juventude, dos tempos em que ainda não conhecia o dono da loja de ferragens com quem viria a se casar, rosa de minha infância em seu colo generoso. Pareceu-me, não sei bem, que a mão esquerda de Socorro continha todo esse carinho perdido em meu passado. Ela vasculhava o fundo da bolsa, fazia soar os poucos objetos que carregava. Tudo era suave, silencioso. Pude ver a construção do metacarpo, a perfeita articulação com as falanges, e poderia jurar que os músculos intrínsecos exibiam seu poder para mim, em um aprendizado que me valeu por mil aulas no lúgubre anatômico da faculdade. Era o bailar delicado de uma mão que agia com rapidez e graça em busca de algo para mim ainda oculto.
Foi quando o vi surgir, imaculado. Um clarão de alvura em meio ao negrume do couro e da transparência da pele. Os dedos puxavam-no das profundezas da bolsa, com efeito de revelação: a tessitura de algodão que há um mês ainda era flor, o monograma bordado com esmero de devota, a retidão imposta pelo ferro de passar. A mão de Socorro revelou aos poucos a perfeição, a candura, a graça secreta de seu lenço branco. Socorro. Socorro Oliveira. As duas letras do monograma estavam guardadas entre os dedos que estendiam para mim aquela ajuda que pouco poderia desfazer o mal já causado. Mal, que mal, era apenas um jaleco, e para que me serve essa vestimenta tola, afinal, se não para proteger minhas roupas de janota de qualquer mácula? Ela entregou-me seu lenço e eu sentia que a vida se renovava.
Só então ouvi o som estridente de um prato, um copo e uma garrafa vazia, uma colher e uma sopeira de louça espatifando-se aos meus pés.
Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)
A gravura de Henrique Berardinelli, pertencente ao acervo do MNBA, pareceu-me retratar o constrangimento, por parte de Socorro, nesta cena de encontro conturbada. Mas para o narrador o sentimento é bem outro e, enfim, parece-me que finalmente ele irá entrar nessa história da qual é mais que mera testemunha…
Lindas estas histórias de Socorro, narradas em 1ª pessoa então, quase impossível para um homem não se apaixonar…
Grande Abraço
Paulo DAuria