Os dias passam para Socorro
O mês de maio resolveu ser inverno naquele ano. O frio era incomum e a umidade escorria pelas paredes e os hóspedes da pensão viviam em um eterno limiar da gripe. Era odioso. Não raro vinham bater na minha porta à procura de recomendações, remédios, consolo. Nada ofereciam em troca.
Tudo o que eu queria era o meu jaleco de volta, limpo e passado. Não, não me importava com ele. Sua ausência fez com que eu cabulasse algumas aulas práticas naqueles dias por ordem do próprio professor, que me abonou as faltas depois da história triste que lhe narrei para justificar a falta do uniforme de estudante. Eu carecia de Socorro. Queria que ela me devolvesse o jaleco. Precisava examinar de perto aquelas mãos pequeninas, de uma beleza insuspeitada, que me roubaram o sono nas noites todas que se sucederam depois do trivial incidente entre nós.
Cruzei com a costureira algumas vezes, e seu incômodo era constrangedor. Olhava-me como quem vê seu algoz morando no quarto em frente. Sua boca tinha sempre desculpas murmuradas, ditas com olhar baixo e mãos trêmulas enfiadas nos bolsos do vestido reto. Era o inverno inesperado, eu compreendia. Compreendia e não me preocupava, nenhuma pressa. Mas minhas palavras pareciam chegar nela como uma reprimenda, não sei, uma condenação, pois ela se encolhia nos ombros estreitos e descia correndo as escadas em direção ao café com roscas detestáveis.
A mancha no peito saiu por milagre. Estava alvíssimo o jaleco, como se nada houvesse acontecido. Sei que levou compressas de vinho branco, banhos de água morna e três dias de molho no alvejante, além das carícias continuadas das mãos de Socorro à beira do tanque, em plena friagem, por minha causa. Invejei-lhe a sorte. Cada vez que me via no sopé da escada, Socorro narrava-me a trajetória da mancha a meia-voz. Seu constrangimento enchia de detalhes a explicação irrelevante, mas eu pouco captava de tantas escusas. Meus olhos divertiam-se, decorando-lhe o desenho dos lábios, a miudeza dos olhos, o pouco das mãos que se podia vislumbrar no escuro dos bolsos.
Mas estava pronto o jaleco, e alvo como nunca estivera. Quando dei por mim, sentia o perfume do sabão de coco invadindo-me as narinas, a brandura do tecido visitado por aquelas mãos perfeitas, o branco de cegueira do jaleco recomposto que me permitiria regressar às tediosas aulas de anatomia. Ouvia, sem separar as palavras, a cantilena pacificadora de Socorro e suas desculpas infinitas pela demora, pelo frio, pelo tempo. Não havia o que perdoar além de sua deferência excessiva, que me colocava nessa prisão em forma de pedestal, esse nome de doutor que só me distanciava dela.
Seus lábios cessaram as desculpas e despertei assustado de meu sonho de limpeza. Socorro ouvira um homem que invadia a pensão como o tal vento encanado dos antigos: era Furtado e sua voz repleta de nauseante maresia.
Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)
“Menina de Circo” é um quadro de Di Cavalcanti.