Thursday, June 21, 2007

Os dias passam para Socorro

'Menina do Circo' - Di Cavalcanti O mês de maio resolveu ser inverno naquele ano. O frio era incomum e a umidade escorria pelas paredes e os hóspedes da pensão viviam em um eterno limiar da gripe. Era odioso. Não raro vinham bater na minha porta à procura de recomendações, remédios, consolo. Nada ofereciam em troca.

Tudo o que eu queria era o meu jaleco de volta, limpo e passado. Não, não me importava com ele. Sua ausência fez com que eu cabulasse algumas aulas práticas naqueles dias por ordem do próprio professor, que me abonou as faltas depois da história triste que lhe narrei para justificar a falta do uniforme de estudante. Eu carecia de Socorro. Queria que ela me devolvesse o jaleco. Precisava examinar de perto aquelas mãos pequeninas, de uma beleza insuspeitada, que me roubaram o sono nas noites todas que se sucederam depois do trivial incidente entre nós.

Cruzei com a costureira algumas vezes, e seu incômodo era constrangedor. Olhava-me como quem vê seu algoz morando no quarto em frente. Sua boca tinha sempre desculpas murmuradas, ditas com olhar baixo e mãos trêmulas enfiadas nos bolsos do vestido reto. Era o inverno inesperado, eu compreendia. Compreendia e não me preocupava, nenhuma pressa. Mas minhas palavras pareciam chegar nela como uma reprimenda, não sei, uma condenação, pois ela se encolhia nos ombros estreitos e descia correndo as escadas em direção ao café com roscas detestáveis.

A mancha no peito saiu por milagre. Estava alvíssimo o jaleco, como se nada houvesse acontecido. Sei que levou compressas de vinho branco, banhos de água morna e três dias de molho no alvejante, além das carícias continuadas das mãos de Socorro à beira do tanque, em plena friagem, por minha causa. Invejei-lhe a sorte. Cada vez que me via no sopé da escada, Socorro narrava-me a trajetória da mancha a meia-voz. Seu constrangimento enchia de detalhes a explicação irrelevante, mas eu pouco captava de tantas escusas. Meus olhos divertiam-se, decorando-lhe o desenho dos lábios, a miudeza dos olhos, o pouco das mãos que se podia vislumbrar no escuro dos bolsos.

Mas estava pronto o jaleco, e alvo como nunca estivera. Quando dei por mim, sentia o perfume do sabão de coco invadindo-me as narinas, a brandura do tecido visitado por aquelas mãos perfeitas, o branco de cegueira do jaleco recomposto que me permitiria regressar às tediosas aulas de anatomia. Ouvia, sem separar as palavras, a cantilena pacificadora de Socorro e suas desculpas infinitas pela demora, pelo frio, pelo tempo. Não havia o que perdoar além de sua deferência excessiva, que me colocava nessa prisão em forma de pedestal, esse nome de doutor que só me distanciava dela.

Seus lábios cessaram as desculpas e despertei assustado de meu sonho de limpeza. Socorro ouvira um homem que invadia a pensão como o tal vento encanado dos antigos: era Furtado e sua voz repleta de nauseante maresia.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 13:00:18 | Permalink | Comments (1) »

Socorro oferece-me seu lenço

'Mulher Italiana' - Henrique Bernardelli (1880) Bateram uma porta com violência no início do corredor e Socorro despertou. Era dia. Eu ouvi a moça levantando, no silêncio costumeiro, uma avezinha assustada. Uma noite inteira de sono abandonado depois da gritaria da tarde anterior, da notícia funesta, da cena toda que presenciei contra a vontade, ao chegar à pensão depois de um dia de aulas insípidas. Mas quando encontrei Socorro na porta do meu quarto, percebi que para ela sua noite havia mesmo começado uma semana antes, no momento invisível da partida de Furtado. Era não mais que uma viúva apaixonada ainda por seu cadáver.

Ia descer as escadas carregando os restos da sopa de ervilha e da garrafa de vinho ralo que Mercedes havia levado para mim na noite anterior, com o consentimento de Dona Amparo. Socorro saiu porta afora e o acidente foi inevitável: ela assustou-se em um gemido seco, meu jaleco branco tornou-se mancha pegajosa e o rosto da costureira perdeu a cor. Foi quando vi suas mãos.

A mão direita crispou-se sobre a bolsa que levava no ombro, e a tensão do momento fazia com que seus leves músculos retesassem, mostrando uma profusão de veias quase esbranquiçadas. Que fácil deve ser coletar seu sangue, pensei. Os dedos bailaram nervosos, até que a pele esticou-se levemente no esforço de unir o dedo indicador e o polegar em torno da argola que permitiria abrir o fecho éclair. A mão que tapava a boca desceu, então, para explorar os domínios do interior da bolsa. As unhas, de um rosa docemente esmaecido, emocionaram-me, não sei por que, naquele contraste com o couro gasto, com o metal das alças. Era a cor que minha irmã usava antes de se tornar uma insuportável mãe de família, o tom de doçura de sua juventude, dos tempos em que ainda não conhecia o dono da loja de ferragens com quem viria a se casar, rosa de minha infância em seu colo generoso. Pareceu-me, não sei bem, que a mão esquerda de Socorro continha todo esse carinho perdido em meu passado. Ela vasculhava o fundo da bolsa, fazia soar os poucos objetos que carregava.  Tudo era suave, silencioso. Pude ver a construção do metacarpo, a perfeita articulação com as falanges, e poderia jurar que os músculos intrínsecos exibiam seu poder para mim, em um aprendizado que me valeu por mil aulas no lúgubre anatômico da faculdade. Era o bailar delicado de uma mão que agia com rapidez e graça em busca de algo para mim ainda oculto.

Foi quando o vi surgir, imaculado. Um clarão de alvura em meio ao negrume do couro e da transparência da pele. Os dedos puxavam-no das profundezas da bolsa, com efeito de revelação: a tessitura de algodão que há um mês ainda era flor, o monograma bordado com esmero de devota, a retidão imposta pelo ferro de passar. A mão de Socorro revelou aos poucos a perfeição, a candura, a graça secreta de seu lenço branco. Socorro. Socorro Oliveira. As duas letras do monograma estavam guardadas entre os dedos que estendiam para mim aquela ajuda que pouco poderia desfazer o mal já causado. Mal, que mal, era apenas um jaleco, e para que me serve essa vestimenta tola, afinal, se não para proteger minhas roupas de janota de qualquer mácula? Ela entregou-me seu lenço e eu sentia que a vida se renovava.

Só então ouvi o som estridente de um prato, um copo e uma garrafa vazia, uma colher e uma sopeira de louça espatifando-se aos meus pés.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 12:48:46 | Permalink | Comments (2)