Wednesday, June 20, 2007

A ‘Escolha de Sofia’ do jornalismo investigativo

Duas meninas vietnamitas, de oito e dez anos, encontradas em um bordel na EspanhaNa Espanha, uma das mais promissores economias da Europa, compram-se meia dúzia de meninas virgens de tribos indígenas mexicana por € 25.000. Uma moça romena sai por meros € 8.000, mas por um pouco mais, € 14.000, pode-se ter uma noite de amor com uma jovem nigeriana e seu filho de apenas quatro anos de idade, juntos. Torpezas como esta estão descritas em um livro-denúncia escrito por António Salas em 2004 e que agora é lançado no mercado brasileiro sob o título O Ano em que Trafiquei Mulheres.

António Salas é o pseudônimo de um jornalista espanhol especializado no chamado jornalismo investigativo ou neo-jornalismo, como querem alguns, o qual leva às últimas conseqüências. Seu livro mais famoso, Diário de um Skinhead, surgiu de uma longa temporada em que Salas tornou-se membro ativo de um grupo neonazista na Espanha, tomando parte de ações violentas e crimes, todos relatados em minúcias no livro que foi um sucesso editorial em seu país. Em seu novo livro-denúncia, o método investigativo não foi distinto: Salas travestiu-se de empresário interessado em comprar meninas virgens e travou, assim, contato com uma nigeriana e seu cafetão na sede da Associação Nacional de Bordéis da Espanha - ah, a capacidade de organização européia! -, os quais abriram para o jornalista disfarçado as portas do submundo da prostituição e do tráfico de mulheres naquele país.

O jornalista investigativo descobriu coisas ainda mais funestas.  Seu trabalho anterior sobre os skinheads deu-lhe o conhecimento necessário para identificar uma estreita e insuspeitada ligação entre o mercado da prostituição na Europa e os grupos ultra-direitistas.  Salas descobriu que o presidente da tal Associação Nacional de Bordéis da Espanha é, curiosamente, o líder do grupo España 2000, de orientação xenófoba e racista, que já organizou diversas manifestações públicas contrárias aos imigrantes.  Ironicamente, a entrada de ilegais no país é a principal porta de entrada para a prostituição na Espanha.  Salas revelou também a existência de diversas celebridades - de esportistas a políticos, de apresentadores de televisão a artistas conhecidos - que não só se utilizam dos serviços especializados - entenda-se como a contratação de prostitutas que fogem ao padrão das profissionais em geral, por serem famosas ou por serem menores de idade: eles também são proprietários de bordéis e empresários desse mesmo submundo da prostituição na Espanha.  E escravizam, sim, suas contratadas, por meio do velho esquema de seduzi-las com promessas de emprego e riqueza, pas depois envolucrá-las em dívidas que jamais podem ser pagas, em ameaças de morte e em situações desumanas de vida.

Capa do livroSalas, no processo de elaboração de O Ano em que Trafiquei Mulheres, não se limitou à observação experiencial, digamos assim, em que se baseiam seus trabalhos jornaliísticos - ele ofereceu à polícia informações que levaram à prisão do cafetão nigeriano que lhe vendera uma jovem e seu filho, e de mais duas dezenas de pessoas que compunham uma rede de prostituição em Murcia, Espanha.  Arriscando a própria vida e o processo de elaboração de seu livro, ele optou por não se calar diante da iminência de outros crimes semelhantes ao que, disfarçado, presenciara.

O livro de Salas mostra a dubiedade do trabalho investigativo - não só do jornalismo, mas da própria polícia.  Até que ponto a infiltração é aceitável, e qual o limite no qual o investigador ou jornalista deve recuar?  Uma vez imerso no submundo, sob disfarce, é possível recuar diante da iminência de um crime que está por acontecer?  Ou se deveria pensar no bem maior que a investigação poderá trazer caso não seja interrompida naquele momento, por conta daquele crime?  Como no romance de William Styron, em que a protagonista Sophie Zawistowski foi obrigada a escolher entre um de seus filhos que iriam soberviver ao Holocausto nazista, a tarefa do jornalista investigativo é envolta em decisões inimagináveis para os que não estamos diretamente envolvidos nessas situações-limite.  São escolhas difíceis que pessoas como Antonio Salas devem enfrentar ao longo de seu trabalho - e que, talvez, nem venham a revelar quando de seu relato em forma de livro.  Que pensar, então, da tênue linha que separa o jornalismo investigativo do mero sensacionalismo em busca do dinheiro fácil dos grandes sucessos editoriais.

Infelizmente, a desgraça alheia ainda vende mais que comove.  Oxalá um dia livros como esse motivem a sociedade a tomar ações mais positivas que meramente comprar o livro e chocar-se com seu conteúdo.

Posted by Frizero at 14:29:20
Comments

2 Responses to “A ‘Escolha de Sofia’ do jornalismo investigativo”

  1. Oi Amigo,

    estava com saudades de você, pois ficaste um longo tempo sem escrever a cá.
    Separo um trecho para discussão:

    “Até que ponto a infiltração é aceitável, e qual o limite no qual o investigador ou jornalista deve recuar? Uma vez imerso no submundo, sob disfarce, é possível recuar diante da iminência de um crime que está por acontecer? Ou se deveria pensar no bem maior que a investigação poderá trazer caso não seja interrompida naquele momento, por conta daquele crime?”

    Na minha opinião a investigação total trará muito mais benefícios do que o evitar um crime isolado(embora seja muito ruim para quem quer que seja presenciar qualquer fato relacionado a temática).
    Por isso acho sim que deve-se ir até o final.

    Abraços.

  2. Patrícia says:

    Beto,

    Caminhamos não para parar esse fenômeno mas para torná-lo socialmente aceitável. A volta da moralidade greco-romana pende para o fim desses “tabus”, que, na visão de muita gente, atrapalham o prazer das pessoas. Afinal, é a tão vilipendiada moral judaico-cristã que critica essa exploração - mesmo que pessoas que dizem pregá-la e defendê-la sejam, na verdade, apenas hipócritas, como o diretor da associação dos bordéis espanhóis.

    Não se preocupe, a solução que a sociedade vai dar é a mesma das drogas: liberar geral e glamourizar. E ai de quem se opor. Lembra do partido político holandês pela legalização da pedofilia?

    O fato do diretor da associação de bordéis ser um ultra-direitista só torna a coisa toda mais irônica. Além dele ser auto-contraditório (fazia o contrário do que dizia pregar) os seus clientes ditos “progressistas” (artistas, jogadores…) também o são. A ideologia política é realmente irrelevante quando se trata da canalhice humana.

    Aliás, a semelhança com o mundo retratado na série da HBO “Roma” é especialmente esclarecedora. O que se prega por aí é que essas taras voltem a ser aceitas e deixem o submundo para entrar no mundo dito “normal”.

    O tempora, o mores. O mais triste é que o próprio Cícero (que disse essa frase contra Catilina) não veria problema nenhum nesses escravos sexuais. O que o chocava era o fim da ética republicana, a única forma de moral ainda aceita hoje em dia.

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