A ‘Escolha de Sofia’ do jornalismo investigativo
Na Espanha, uma das mais promissores economias da Europa, compram-se meia dúzia de meninas virgens de tribos indígenas mexicana por € 25.000. Uma moça romena sai por meros € 8.000, mas por um pouco mais, € 14.000, pode-se ter uma noite de amor com uma jovem nigeriana e seu filho de apenas quatro anos de idade, juntos. Torpezas como esta estão descritas em um livro-denúncia escrito por António Salas em 2004 e que agora é lançado no mercado brasileiro sob o título O Ano em que Trafiquei Mulheres.
António Salas é o pseudônimo de um jornalista espanhol especializado no chamado jornalismo investigativo ou neo-jornalismo, como querem alguns, o qual leva às últimas conseqüências. Seu livro mais famoso, Diário de um Skinhead, surgiu de uma longa temporada em que Salas tornou-se membro ativo de um grupo neonazista na Espanha, tomando parte de ações violentas e crimes, todos relatados em minúcias no livro que foi um sucesso editorial em seu país. Em seu novo livro-denúncia, o método investigativo não foi distinto: Salas travestiu-se de empresário interessado em comprar meninas virgens e travou, assim, contato com uma nigeriana e seu cafetão na sede da Associação Nacional de Bordéis da Espanha - ah, a capacidade de organização européia! -, os quais abriram para o jornalista disfarçado as portas do submundo da prostituição e do tráfico de mulheres naquele país.
O jornalista investigativo descobriu coisas ainda mais funestas. Seu trabalho anterior sobre os skinheads deu-lhe o conhecimento necessário para identificar uma estreita e insuspeitada ligação entre o mercado da prostituição na Europa e os grupos ultra-direitistas. Salas descobriu que o presidente da tal Associação Nacional de Bordéis da Espanha é, curiosamente, o líder do grupo España 2000, de orientação xenófoba e racista, que já organizou diversas manifestações públicas contrárias aos imigrantes. Ironicamente, a entrada de ilegais no país é a principal porta de entrada para a prostituição na Espanha. Salas revelou também a existência de diversas celebridades - de esportistas a políticos, de apresentadores de televisão a artistas conhecidos - que não só se utilizam dos serviços especializados - entenda-se como a contratação de prostitutas que fogem ao padrão das profissionais em geral, por serem famosas ou por serem menores de idade: eles também são proprietários de bordéis e empresários desse mesmo submundo da prostituição na Espanha. E escravizam, sim, suas contratadas, por meio do velho esquema de seduzi-las com promessas de emprego e riqueza, pas depois envolucrá-las em dívidas que jamais podem ser pagas, em ameaças de morte e em situações desumanas de vida.
Salas, no processo de elaboração de O Ano em que Trafiquei Mulheres, não se limitou à observação experiencial, digamos assim, em que se baseiam seus trabalhos jornaliísticos - ele ofereceu à polícia informações que levaram à prisão do cafetão nigeriano que lhe vendera uma jovem e seu filho, e de mais duas dezenas de pessoas que compunham uma rede de prostituição em Murcia, Espanha. Arriscando a própria vida e o processo de elaboração de seu livro, ele optou por não se calar diante da iminência de outros crimes semelhantes ao que, disfarçado, presenciara.
O livro de Salas mostra a dubiedade do trabalho investigativo - não só do jornalismo, mas da própria polícia. Até que ponto a infiltração é aceitável, e qual o limite no qual o investigador ou jornalista deve recuar? Uma vez imerso no submundo, sob disfarce, é possível recuar diante da iminência de um crime que está por acontecer? Ou se deveria pensar no bem maior que a investigação poderá trazer caso não seja interrompida naquele momento, por conta daquele crime? Como no romance de William Styron, em que a protagonista Sophie Zawistowski foi obrigada a escolher entre um de seus filhos que iriam soberviver ao Holocausto nazista, a tarefa do jornalista investigativo é envolta em decisões inimagináveis para os que não estamos diretamente envolvidos nessas situações-limite. São escolhas difíceis que pessoas como Antonio Salas devem enfrentar ao longo de seu trabalho - e que, talvez, nem venham a revelar quando de seu relato em forma de livro. Que pensar, então, da tênue linha que separa o jornalismo investigativo do mero sensacionalismo em busca do dinheiro fácil dos grandes sucessos editoriais.
Infelizmente, a desgraça alheia ainda vende mais que comove. Oxalá um dia livros como esse motivem a sociedade a tomar ações mais positivas que meramente comprar o livro e chocar-se com seu conteúdo.