O futuro e os protestos
Patrick Dixon é o que os norte-americanos chamam de business thinker, ou seja, um pensador de negócios, um estudioso das tendências de mercado. Em outras palavras, Dixon é uma espécie de visionário profissional cuja empresa de consultoria, a Global Change, presta serviços a corporações do porte de uma IBM, Tetrapack, Google, Fedex, BBC e Roche, entre as mais de quinhentas empresas de sua cartela de clientes. Formado em medicina pelo conceituado King’s College de Londres, ele é o fundador da ACET - Aids Care, Education and Training Agency - uma das principais entidades internacionais no combate à AIDS.
Em 05 de junho de 2007, Patrick Dixon veio à Porto Alegre apresentar “A Sabedoria do Futuro: as seis faces da mudança global” (Futurewise: the six faces of global change), palestra baseada no livro homônimo lançado em 1998 pela Harper Collins. Na obra, Dixon faz uma analogia da situação global com um cubo, cujas seis faces não podem ser enxergadas ao mesmo tempo - por isso, segundo o autor, é preciso que “continuemos girando o cubo”, sob o risco de perdermos para o que há de vir. “Ou tomamos as rédeas do futuro ou o futuro tomará as nossas rédeas”, diz o autor na introdução de seu livro.
A palestra, realizada no Salão de Atos da UFRGS, ocorreu no mesmo dia em que alunos daquela universidade federal ocuparam o prédio da Reitoria em um ato de protesto. O local da invasão fica em frente ao prédio onde é realizado o ciclo de palestras “Fronteiras do Pensamento”, patrocinado pela COPESUL, um fórum de altos estudos de cuja programação a palestra de Dixon fazia parte. Sob o risco de os estudantes impedirem a entrada dos participantes do evento, o próprio palestrante foi falar com os líderes do movimento, em busca de um acordo. Dixon ofereceu aos estudantes a oportunidade de usar a tribuna do “Fronteiras do Pensamento” nos minutos finais de sua palestra para explicar aos presentes os objetivos do protesto e suas reivindicações. Para tal, perguntou aos estudantes qual era a razão do protesto, o que queriam com a ocupação ao prédio da Reitoria. Nenhum dos líderes do protesto souberam responder; reuniram-se e, trinta minutos depois, comunicaram a Dixon que agradeciam a oportunidade mas declinavam o convite, pois não sabiam ao certo definir em poucas palavras a pauta de reivindicações que os levaram a iniciar o protesto que ameaçava impedir a realização da palestra do pensador britânico.
É curioso analisar o ocorrido - narrado pelo próprio palestrante - pelo prisma das “seis faces do cubo” de Dixon. O mundo atual, em sua visão, segue em direção ao futuro apresentando seis aspectos inegáveis: o rápido - uma sensação de hiper-aceleração emprestada pelos avanços tecnológicos e pelo contínuo surgimento de novos meios (e objetos) de consumo -; o urbano - as variações demográficas e sociais, cujo exemplo maior é o envelhecimento das populações urbanas -; o tribal - paradoxalmente, a globalização fez exacerbar-se o sentimento de tribo, que pode girar em torno de uma nacionalidade, de um hobby ou mesmo de um produto -; o universal - não só as corporações tornaram-se globais, mas também o consumo e as relações humanas -; o radical - com o fim da dicotomia esquerda versus direita, houve o enfraquecimento dos governos e a política passou a ser mais guiada por interesses corporativos e de grupos de pressão -; e o ético - as corporações passaram a usar os valores pessoais, a motivação e a espiritualidade para “exercer o fascínio” sobre o consumidor. No evento dos estudantes revoltados que não conseguiram expressar seus motivos para a ação radical, notam-se os sinais desse futuro que está a se construir: os mecanismos de pressão pelas vias do radicalismo, que não sabe trabalhar quando convocado à negociação e ao debate; o tribalismo da decisão de invadir o prédio da Reitoria - us estudantes declararam em entrevista a um canal de televisão local que o movimento era um ato de solidariedade aos alunos da USP -; o universalismo desenhado na decisão de reproduzir no Rio Grande do Sul, em uma universidade federal, as mesmas ações desencadeadas em São Paulo, em uma universidade estadual, as quais teriam sido motivadas por uma questão regional, de um decreto do governador daquele estado; as distorções éticas que levam estudantes universitários a invadir a reitoria de sua universidade motivados por uma pauta de reivindicações a qual sequer conseguem nominar quando solicitados.
A metáfora do cubo de Dixon mostra-se perfeita, pois ao homem atual parece-lhe impossível ver os diversos lados da realidade em uma única mirada. Ao ser tribal e pensar tão-somente em seus interesses de grupo, de categoria, de corporação, nega-se os valores éticos de universalidade de direitos. Ao assumir o radicalismo como única forma de solução dos problemas sociais, lança-se por terra as ferramentas da democracia como o único caminho viável de convivência construído pelo Ocidente ao longo de tantos séculos. Ao universalizar um problema que é local e compreensível apenas em determinado contexto, corre-se o risco de gritar no vazio, de lutar pelo ar que se respira, sem nenhuma consistência lógica entre ação e desejo. Na USP, os alunos protestam contra uma lei estadual que prevê a fiscalização do governo sobre as verbas gastas por aquela universidade; em outras palavras, os mesmos universitários que gritam contra os escândalos de corrupção e desvio de dinheiro público em nível federal, defendem que a universidade pública não tenha qualquer tipo de verificação em relação aos gastos da verba pública nela investida. No Rio Grande do Sul, os estudantes da UFRGS fazem, em conjunto com os universitários da UFPel, invasões nas reitorias, em cujos prédios armaram barracas e cozinhas improvisadas, reclamando, entre outras coisas, que a Reforma Universitária do Governo Federal condicionaria “a pesquisa aos interesses do empresariado” - ou seja, temem que as pesquisas sejam direcionadas a uma aplicação prática de mercado, que gere empregos e tecnologia para o país. Universalizam seus protestos, por um lado, e por outro tribalizam sua pauta de reivindicações; as contradições tornam-se, assim, inevitáveis.
Ou será que a impossibilidade de revelar as razões ocultas de tais protestos é o que impede os estudantes de usar um fórum privilegiado como o do “Fronteiras do Pensamento” para expor suas reivindicações? Como sói acontecer, é uma face do cubo que dificilmente se vê, mas que se percebe ao compreender a lógica perversa de nosso tempo.
O mundo é o que é. Teorizar ou criar fórmulas mirabolantes para entendê-lo é querer vender. A caixa nunca vai estar fechada. Pode-se criar processos de “ondas”, midiáticos, sociológicos, leis, listas ou que mais a mente puder que no fim das contas, uma mosquinha que seja vai derrubar.
Mesmo assim, deve ter sido muito boa a palestra, e com certeza gostaria de estar presente e captar o que há de bom nesses cubos.
Abraços.