Monday, June 4, 2007

A vaca e o brejo

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É batata: quando o dinheiro da falcatrua é apreendido nas maletas, ou os números da lavagem de dinheiro não batem, ou a quantia que pagou a pensão da ex-amante vem à tona, a desculpa dos corruptos e corruptores brasileiros é sempre a mesma: essa dinheirama em espécie é fruto da venda de gado, por isso não está declarado no Imposto de Renda, não aparece nos extratos bancários, não é nada importante… Venda de gado, nada mais - e quem no país irá se opor ao pleno desenvolvimento de nossa pecuária?

Por isso, não é difícil imaginar o seguinte diálogo entre aquele político que facilita a aprovação de verbas no Congresso Nacional e o grande empreiteiro cujas obras do governo são seu humilde ganha-pão:

- Alô?

- Boa tarde, meu senador…

- Meu amigo, estava mesmo precisando falar contigo…

- Sou todo ouvidos, autoridade.  O que o amigo manda?

- É que estou em dificuldade, aqui… Já saiu aquele “capim gordo” que você me prometeu?

- Olha, senador, eu estou movendo mundos e fundos para conseguir…

- Beleza.  Quanto será que brota aqui na minha mão?

- Uns cem mil dá?

- Ajuda…  É que aquela vaca disse que se eu não pagar o leitinho da criança eu vou dar com os burros n’água - diz o senador, em tom de confidência. .

- Sei. - responde o empreiteiro, já acostumado com essas lamentações de bezerro desmamado.

- Se arrependimento matasse… por que fui pular a cerca, justo aqui?

- É o que sempre dizem, meu senador: onde se ganha o pão, não se come a carne…

- Mas eu não pude me controlar: uma bezerrinha daquelas, cheirando a leite…  E lá em casa, bem, aquela vaca gorda que só me dá patada…

- Sei como é: a grama é sempre mais verde do outro lado da cerca…

- Olha, o que você pediu, está quase… Só falta convencer outros quatro…

- O senhor acha que demora muito para abrir essa porteira?…

- Fique tranqüilo, são todos do meu curral eleitoral.

- Mesmo aquele touro bravo lá do Nordeste?

- Vaquinha de presépio.  O que eu disser, ele faz. 

- E o rebanho dele?

- Sem problemas.  - disse o senador, tranqüilizando o amigo empreiteiro - Estão conosco.  Aonde a vaca vai, o boi vai atrás.

- Mas tem um lá que pode empacar, aquele da oposição.

- Oposição?  No Brasil não tem isso não, amigo.

- E se ele resolver usar o chifre?

- Entre bois, não há chifradas - disse o tranqüilo senador.

- Ouvi dizer que ele estava soltando fogo pelas ventas…

- Conversa prá boi dormir, amigo!… Deixa comigo: ele tem o rabo preso…

- Ele está mamando em alguma teta por aí que eu não sei? - o empreiteiro dá uma gargalhada.

- Sei umas coisas dele e, se precisar, uso ele como boi de piranha para liberar o nosso mingau sem ninguém perceber…

- Cuidado, meu senador… Olha lá o que aconteceu com aquele outro… Perdi uma mamata federal por que ele ficou ruminando, ruminando e…

- Amigão, não vamos chorar sobre o leite derramado… - disse o senador, com a voz derretida em intimidades.

- Hum - mugiu o empreiteiro - Mas quero pedir, meu senador, que o senhor veja isso pessoalmente.  O gado só engorda sob o olhar do dono, sabe como é. 

- Beleza. Qualquer coisa, é só acenar com algum dinheirinho extra: eles vêm para o teu lado correndo, como se fosse um estouro de boiada…

- Acho melhor paramos essa conversa por aqui, meu senador.

- Tem boi na linha? - pergunta o congressista, assustadiço.

- Nunca se sabe… Vai que gravam a conversa da gente e a vaca vai pro brejo?

 

(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 12:05:37 | Permalink | Comments (6)