A vaca e o brejo
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É batata: quando o dinheiro da falcatrua é apreendido nas maletas, ou os números da lavagem de dinheiro não batem, ou a quantia que pagou a pensão da ex-amante vem à tona, a desculpa dos corruptos e corruptores brasileiros é sempre a mesma: essa dinheirama em espécie é fruto da venda de gado, por isso não está declarado no Imposto de Renda, não aparece nos extratos bancários, não é nada importante… Venda de gado, nada mais - e quem no país irá se opor ao pleno desenvolvimento de nossa pecuária? Por isso, não é difícil imaginar o seguinte diálogo entre aquele político que facilita a aprovação de verbas no Congresso Nacional e o grande empreiteiro cujas obras do governo são seu humilde ganha-pão: - Alô? - Boa tarde, meu senador… - Meu amigo, estava mesmo precisando falar contigo… - Sou todo ouvidos, autoridade. O que o amigo manda? - É que estou em dificuldade, aqui… Já saiu aquele “capim gordo” que você me prometeu? - Olha, senador, eu estou movendo mundos e fundos para conseguir… - Beleza. Quanto será que brota aqui na minha mão? - Uns cem mil dá? - Ajuda… É que aquela vaca disse que se eu não pagar o leitinho da criança eu vou dar com os burros n’água - diz o senador, em tom de confidência. . - Sei. - responde o empreiteiro, já acostumado com essas lamentações de bezerro desmamado. - Se arrependimento matasse… por que fui pular a cerca, justo aqui? - É o que sempre dizem, meu senador: onde se ganha o pão, não se come a carne… - Mas eu não pude me controlar: uma bezerrinha daquelas, cheirando a leite… E lá em casa, bem, aquela vaca gorda que só me dá patada… - Sei como é: a grama é sempre mais verde do outro lado da cerca… - Olha, o que você pediu, está quase… Só falta convencer outros quatro… - O senhor acha que demora muito para abrir essa porteira?… - Fique tranqüilo, são todos do meu curral eleitoral. - Mesmo aquele touro bravo lá do Nordeste? - Vaquinha de presépio. O que eu disser, ele faz. - E o rebanho dele? - Sem problemas. - disse o senador, tranqüilizando o amigo empreiteiro - Estão conosco. Aonde a vaca vai, o boi vai atrás. - Mas tem um lá que pode empacar, aquele da oposição. - Oposição? No Brasil não tem isso não, amigo. - E se ele resolver usar o chifre? - Entre bois, não há chifradas - disse o tranqüilo senador. - Ouvi dizer que ele estava soltando fogo pelas ventas… - Conversa prá boi dormir, amigo!… Deixa comigo: ele tem o rabo preso… - Ele está mamando em alguma teta por aí que eu não sei? - o empreiteiro dá uma gargalhada. - Sei umas coisas dele e, se precisar, uso ele como boi de piranha para liberar o nosso mingau sem ninguém perceber… - Cuidado, meu senador… Olha lá o que aconteceu com aquele outro… Perdi uma mamata federal por que ele ficou ruminando, ruminando e… - Amigão, não vamos chorar sobre o leite derramado… - disse o senador, com a voz derretida em intimidades. - Hum - mugiu o empreiteiro - Mas quero pedir, meu senador, que o senhor veja isso pessoalmente. O gado só engorda sob o olhar do dono, sabe como é. - Beleza. Qualquer coisa, é só acenar com algum dinheirinho extra: eles vêm para o teu lado correndo, como se fosse um estouro de boiada… - Acho melhor paramos essa conversa por aqui, meu senador. - Tem boi na linha? - pergunta o congressista, assustadiço. - Nunca se sabe… Vai que gravam a conversa da gente e a vaca vai pro brejo?
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(Robertson Frizero Barros)