Um país de amadores
Já ouvi, de alguns estrangeiros que conheci no Brasil, elogios sobre o país que, não raro, passam por uma certa maleabilidade que os brasileiros têm de resolver as situações sem maiores complicações. O mítico jeitinho brasileiro, no entanto, transformou-nos no que um querido professor de mestrado chamou, há alguns dias, de um país de amadores.
Não questiono o fato de que outros países deveriam ter um pouco mais de “jeitinho” para resolver suas questiúnculas do dia-a-dia: lembro-me sempre de um evento corriqueiro que aconteceu quando eu chegava a Estocolmo de trem, depois de uma gélida viagem no último mês do verão europeu; um casal de suecos que ocupava o banco do outro lado do corredor, felizes com o vinho que tomavam e com o trajeto que chegava ao fim, animou-se demais e o rapaz acabou por derrubar um pouco de vinho em minha jaqueta impermeável; para mim, não havia sido nada, pois limpei rapidamente a mancha com um lenço que umedeci em minha garrafa de água mineral; o rapaz, contudo, ficou totalmente nervoso e constrangido, e por mais que eu dissesse que tudo estava bem, ele seguia dizendo mil perdões - em inglês e em sueco! - e por fim me pediu para que eu não levasse o caso às autoridades! Certamente os suecos precisavam de um pouco do “jeitinho” brasileiro para solucionar coisas pequenas como esta.
Mas o jeitinho fez do Brasil um país de amadores. Não temos planos para quase nada, não conseguimos criar políticas para além de um mandato político, não sabemos seguir as normas sem adaptá-las às nossas idiossincrasias. Leis, temos de sobra - mas como resistir à tentação de contorná-la pela interferência do amigo de nosso amigo, da cervejinha inocente oferecida ao guarda? O jeitinho faz com que os ricos não sejam presos, e se presos, não fiquem lá por muito tempo, e se ficarem por muito tempo, que sejam libertados por bom comportamento, e se tiverem mal comportamento, que escapem na primeira oportunidade de progressão da pena. Também os presos sem recursos aproveitam-se dos mesmos expedientes, mas sem a mesma liberdade de ir-e-vir pelos meandros legais. O jeitinho faz com que tudo no Brasil seja feito no improviso - do restaurante que todas as noites escora aquela mesa bamba com um guardanapo de papel dobrado ao discurso da autoridade máxima que abandona as palavras repensadas no papel para engendrar uma qualquer coisa inventada na hora, com resultados desastrosos. Boa parte dos músicos que aqui fazem sucesso não conhecem os estudos musicais, há gente de sobra a se lançar no mercado editorial que talvez não tenha lido mais que dez livros na vida, temos dezenas de atores que não sabem o que é um curso de interpretação de verdade. Improvisa-se, e vamos adiante com essa qualquer coisa que nos apresentam, e ainda aplaudimos de pé. No Brasil, até a corrupção é improvisada: os ministros recebem maletas com dinheiro vivo no próprio gabinete, os donos de empreiteira roubam dinheiro de obras que sequer concluíram, os presidentes do Senado pedem a lobistas que paguem a pensão improvisada à ex-amante em dinheiro vivo e não contabilizado por suas contas bancárias e declarações de renda.
Irá mudar isso um dia? Tenho cá minhas dúvidas. Já acreditei que sim, até que a Justiça Eleitoral convidou-me para ser mesário nas últimas duas eleições - o que, aliás, fiz de bom grado e com a melhor das intenções de cidadania. Mas a desilusão é inevitável quando você presencia situações como a do eleitor que chega para você, mesário, na hora de digitar os números na moderníssima urna eletrônica, e grita para você da cabine perguntando em quem deve votar; ou a da eleitora que faz um “uni-duni-tê” básico sobre a lista de candidatos a deputado federal para escolher seu candidato; ou a do eleitor que recolhe uns santinhos jogados no chão do lado de fora da seção eleitoral e decide votar naqueles candidatos para governarem seu destino pelos próximos quatro anos. Quando se trata de maneira tão leviana o futuro político do país em que se vive, que esperar do resto? O Brasil é um país de amadores.
Somos o reino do improviso, e atrevo-me a dizer que o jeitinho nasceu conosco: por décadas e décadas fomos ensinados que Pedro Álvares Cabral chegou aqui sem querer, que D. Pedro I declarou nossa independência de modo impulsivo às margens de um riachinho, que a Princesa Isabel libertou os escravos aproveitando que o pai imperador viajava pela Europa… Decerto todos esses são erros que a História está a consertar nos últimos anos - mas como funciona a cabeça de uma nação que cresceu acreditando que a história de um povo é construída apenas por força do acaso?