
Era uma edícula que um dia servira para as festas do dono da casa em frente. E foram muitas ao longo de trinta e dois anos. Mas os motivos de celebração foram cessando, os três filhos do casal foram embora, os amigos dos tempos de mocidade escassearam. O marido resolveu, então, encher a casa de juventude com namoricos furtivos com a sobrinha da esposa, uma moreninha que veio do interior para tentar dar início aos estudos. Dona Sônia desfez-se em escândalo, os pais da menina não fizeram gosto. O dono da casa foi corrido para algum lugar do norte levando apenas o que a mulher reunira em uma mala velha jogada portão afora. Fugiu sem a moça, que depois de uns meses pegou com um torneiro mecânico amigo de seu pai. Sobrou a casa enorme, mas a esposa traída perdeu o gosto pela edícula e precisava de dinheiro. Juvenal aceitou de bom grado a oferta e foi morando por lá enquanto o parque não se mudava de cidade.
Ficariam naquela cidadezinha turística para sempre, apesar dos planos do dono do parque de rodar o interior em busca de riquezas. Mas o dinheiro foi sumindo nos bolsos de seus filhos, que odiavam o ofício do pai, ainda que prezassem seus resultados. O bom homem morreu e o parque foi vendido. Juvenal não tinha como prever isso e não teve outro recurso senão se mudar de vez para o quarto alugado. Tinha quinze anos e nenhum dinheiro de reserva, o parque estava parado, à espera de comprador e não tinha garantia de que iria receber seus atrasados do antigo dono do parque. Mas Dona Sônia não deu muita atenção a isso. O menino parecia direito e lembrava, quando visto de costas, seu primeiro filho perdido no mundo, coitadinho. Mulher comove-se fácil e a edícula, então, foi mobiliada com uns móveis emprestados pela dona da casa, coisas que o marido fujão adorava e ela deu, por vingança, para Juvenal. Talvez por isso jamais visitasse a pequena peça nos fundos do terreno, para evitar lembranças amargas.
Para Juvenal, que ainda tinha fantasias, tudo era admirável e com ares de palacete. Entrava-se pelo portão da frente e caminhava-se ao longo do muro até chegar no pequeno quarto, ladeado por uma área de serviço maior que o cômodo e que servia de cozinha para o rapaz. Da churrasqueira, ele fez um fogãozinho que alimentava com lenha, e do tanque, sua pia. A dona não se importava. O quarto tinha uma cama de solteiro, pequena para o corpanzil do Juvenal. Era de um dos filhos de Dona Sônia, mas do tempo em que era apenas um menino. Nas estantes, que antes ostentavam a coleção de canecos do antigo dono da casa, alguns livros que a dona da casa havia jogado no lixo e Juvenal recolhera. O rapazote gostava de ver as gravuras - mesmo sem saber ler admirava as letras alinhadas, as gravuras, a aspereza perfumada do papel nos dedos. As cores sempre foram um encantamento para ele, por isso fugira com o parque de diversões, onde trabalhava duro mas não se lembrava mais do cheiro doloroso da cinta do pai. Em uma das prateleiras, os livros dividiam espaço com um crânio de madeira pintada, meia dúzia de ursos de pelúcia embrulhados em papel celofane, um chapéu de cowboy, quatro garrafas fechadas de licor de frutas. As paredes eram adornadas com duas figuras de papelão: sobre a cabeceira da cama pequena, um vampiro desbotado, braços estendidos em pose de crucifixo, velava pelo sono de Juvenal; na parede em frente, exibindo-se para o rapaz quando ele se deitava, Conga, a mulher-gorila, insinuava-se em um biquíni de pele de onça para seu único e solitário admirador.
Dona Sônia era de poucas palavras, mas parecia gostar do Juvenal. Vez por outra, batia à porta do quarto aos fundos da casa com um prato cuidadosamente envolvido em um pano de prato, para repartir com o menino o pão de cada dia. Jamais entrava, sequer conversava com o rapaz, mas Juvenal não se importava muito com o silêncio, pois às vezes o pão era feijão rico e escuro, outras uma massa com colorido de carnes ou um ensopadinho de um avermelhado cheiroso, acalentador. Ele nunca comera tão bem na vida, nem no parque de diversões, em que tudo tinha um preço. Ele sempre lavava o prato com cuidado e devolvia à porta da cozinha. Com o tempo, o que era gentileza tornou-se hábito, e Juvenal já aguardava, ansioso, a hora do almoço para descobrir que novas cores Dona Sônia havia inventado naquele dia. O moço era grato à sua maneira, e começou a retornar a louça com pequenos regalos: uma maçã-do-amor, um pé-de-moleque, uns beijinhos envoltos em caramelo da cor de seus cabelos cacheados. Não se falavam muito, e a gentileza dos doces dixava Dona Sônia ainda mais sem palavras.
Juvenal foi crescendo com os cuidados distantes da dona da casa. O corpo ganhou forma, os músculos apareceram e o rapaz, que era franzino e espantadiço. Ganhou rubor na face e uma promoção inesperada: saiu do carrossel e foi colocado na montanha-russa, ofício de responsabilidade, tarefa que exige destreza e força nos braços. Dona Sônia notou as mudanças pela fresta da janela: gostava de ver Juvenal varrendo a edícula, olhando os livros de cabeça para baixo, cochilando perto da churrasqueira, escondido do sol. Alegrava-se com o assovio do rapaz, preocupava-se com seus silêncios, esperava-o chegar tarde da noite para poder dormir despreocupada. E sabia que Juvenal crescia, pois o corpo de menino já conseguia preencher as roupas do esposo canalha que ela dera, piedosa, para que o rapaz pudesse suportar a friagem das margens do rio onde ficava o parque.
No dia de seu primeiro pagamento na nova função, o rapaz comprou para Dona Sônia cinco balões em forma de coração e o maior urso de pelúcia que havia na barraca da Roleta. Estava orgulhoso de seu progresso, sentia que a vida estava prestes a girar e queria dividir isso com aquela que era uma mãe para ele. Quando ele chegou, as luzes estavam todas apagadas, como de costume. Dona Sônia dormitava no calor infernal da sala de estar e acordou apenas quando Juvenal, adiando seu momento de gratidão, abriu o portão da frente e caminhou em silêncio até a edícula sem chamá-la. Ela viu pelo traço de luz que invadia o quarto dos fundos o rapaz depositar na mesa de churrasco os corações e o urso. Ele estendeu no espaldar da cadeira a camisa de botões que usava, a preferida do adúltero, e colocou a cabeça sob a refrescante torneira aberta. A visão aqueceu Dona Sônia de forma insuportável. Cada gota gelada de água que via correr pelo torso do rapaz era um rio de lava dentro de seu peito seco de mulher abandonada. Juvenal não se comovia com o resto do mundo, pois sua sede era bem outra. A mulher revolvia-se internamente em vontades e pensamentos que espiralavam, aturdiam como um trem fantasma. O rapaz entrou em seu quarto e despiu-se para dormir o sono dos contentes. Dona Sônia não mais conseguiu fechar os olhos. Foi até a edícula. À porta do cômodo estreito, desceu as alças da camisola pelos ombros e deixou que sua nudez despertasse o corpo do menino. Conga reprovava-a de seu biquíni zebrado, Drácula oferecia-lhe os braços de papelão, mas nada mais importava. Juvenal viu nela cores e perfumes que nunca antes havia sentido, nem mesmo no Túnel do Amor.
Foi quando Sônia ouviu os passos, atrás de si, do arrastar de uma mala de viagem cuja roda sem conserto tinha o rangido irritante que conhecia tão bem há trinta e dois anos.
Do volume de contos

(2007)
(Robertson Frizero Barros)