Socorro conta uma grande aventura
Eu vou mover céus e terras.
Ela vai estar na saleta, contando dinheiro com Abigailzinha deitada no sofá, chorando sua vida sem dor. Vou sair do meu quarto e descer até a cozinha. Esperarei por Mercedes. Eu vou baixar as escadas sem estalar um osso sequer. Mercedes não vai me pegar, prometo, meu amor. A mulherzinha vai estar no pátio, estendendo os lençóis no varal dos fundos, cantando um desses boleros que ela tanto gosta. Ela vai esquecer a letra da música e voltar para dentro, para buscar mais inspiração e roupa úmida. Eu vou atravessar o terreiro e arriscar, e suar frio, e rezar sem palavra, mas vou entrar no quarto de Dona Amparo. Vou fazer isso por você.
Vou trancar por dentro a porta do quarto. Abigailzinha fecha-se lá quando desfruta de seu choro das tardes, e Mercedes não vai estranhar nada se não conseguir entrar. Não vou abrir fresta de janela, nem acender abajur. Vejo bem no escuro, tenho olho de cerzideira, enxergo bem o que quero muito. Vou procurar nas gavetas da penteadeira, nas caixas de chapéu, dentro das porcelanas, no fundo falso da caixinha de música de Abigailzinha. Por você. Vou encontrar o motivo. Por você, vou descobrir a razão. Furtado, por você.
Ela expulsou você, mas eu vou conseguir o recibo sem pagamento, a carta que denunciou você, o pedaço de passado que condena, Furtado. Vou resgatar você, e ficarei quieta atrás da porta até que o silêncio do pátio me deixe voltar para dentro da casa.
Vou entrar pé ante pé na cozinha. Mercedes vai me ver. Sobre os ombros, vestida de flor e decote, com seu sorriso de rameira. Cortando suas batatas, requentando feijão, com seus olhos verdes de bastarda. Eu não ligo, Furtado, eu nunca me importei. Nunca me enxergam mesmo, não me incomoda quando olham. E eu vou ter comigo a carta, o recibo, a condenação. Dona Amparo vai gritar pela Mercedes lá da saleta, talvez fale até meu nome, mas eu não vou ter medo. Já nada mais vai me interessar.
Vou encontrar você, Furtado, lá no navio. Vou falar que sou sua namorada, mas sei ainda é mentira. Os marujos vão fazer pouco caso, os sargentos vão rir, o capitão vai pedir satisfações. Vão duvidar de mim, caçoar de mim. Não, meu amor, eu não me importo. Eu vou lutar por você e enfrentar as Marinhas todas se quiser. Eu vou dizer que você me ama só para despistar os marinheiros. Vou deixar na sua mão o papel para que você volte, Furtado, na sua mão, para que você venha lá para a pensão de onde você não pode sair nunca. Nunca, Furtado. Eu não sei onde ele fica, o seu navio, eu nunca vi o mar, mas eu vou encontrar você, vou mover céus e terras até trazer um mar inteiro e nele o seu barco valente. Até aqui, na pensão, o mar e o seu barco.
E você vai voltar, Furtado, e entrar pela porta da saleta, e rasgar o recibo, e esfregar a carta maledicente, e dizer boas verdades na cara redonda dela. Quero ver Dona Amparo sem chão. Quero ver a soberba dela rolando por terra. Por você, Furtado. Para que nunca mais você me deixe. Para que olhem para mim e me vejam. Perto de você. Não quero mais a distância, a ausência, a calma inqueta. Não mais a vontade seca, a saudade sem passado. Não quero a solidão.
Quero que ela morra.
Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)
“Moça de Guaratinguetá” sempre foi um de meus quadros preferidos de Di Cavalcanti.