Era uma vez
Sempre que o relógio carrilhão ressoava as oito horas da noite, os três irmãos eram levados pela avó zelosa para o quarto. Otávio, de apenas dois anos, ocupava o berço que já fora de Rodrigo e de Paulo Temístocles, os dois maiores. Rodrigo, em seus nove anos de idade, já se sentia um rapaz feito e insistia para ficar acordado um pouco mais, mas a avó era taxativa: oito horas da noite, crianças na cama!
Naquela noite, Rodrigo não reclamou. Visitando o sótão da casa, ele e o irmão Temí haviam encontrado um livro antigo e grosso, empoeirado e com cheiro de Tia Rute. Na primeira página, lia-se em letras redondas um comprido nome de homem. Os dois irmãos combinaram que, naquela noite, iam esperar a avó sair do quarto para desvendar os mistérios daquele livro esquisito.
A avó saiu, e Rodrigo mandou Temí ir até a porta. Era tarefa do irmão do meio acompanhar com os ouvidos os passos da senhora a descer as escadas. O irmão, dois anos mais novo que Rodrigo, obedecia-o cegamente. Fez sinal para o mais velho assim que ouviu a avó se escorar na cristaleira lá embaixo. Rodrigo retirou Otávio do berço e os três foram para debaixo do beliche. Lá, o mais velho ligou a lanterna e posicionou-se para iniciar a leitura:
- Era uma vez…
- Lê direito, Rodrigo. Esse livro não é de “era uma vez…”
- Tá bem. “Temístocles Mena Barreto”.
- Esse não é o meu nome!
E não era mesmo – era o nome do bisavô, e se Temí interrompesse uma vez mais ele não lia era nada: guardava o livro no baú e ainda contava para a avó que o irmão de sete anos tinha mexido nas coisas dela. Temí ficou quieto, fechou a cara, mas continuou olhando o livro com interesse. Rodrigo abriu em uma página qualquer.
- Posso ler?
Temí fez um “sim” contrariado com a cabeça. Otávio repetiu o irmão. Balançou a cabeça muitas, muitas vezes, mesmo sem entender direito o porquê.
- Dia trinta e um de maio…
- Hoje? – Temí falou de improviso.
- Não, burro! Dia trinta e um de maio lá do tempo do avô do pai…
Temí não abriu mais a boca até a hora que a porta abriu e a avó acendeu a luz, já com um chinelo na mão.
Do volume de contos
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(2007)
(Robertson Frizero Barros)
Este conto surgiu de um “mote” criado por meu amigo - e excelente escritor - Rubem Penz. Fez parte de um dos encontros de nossa Oficina de Criação Literária. Tomei a liberdade de publicar aqui o meu desenvolvimento para aquele interessante “início”.