Thursday, May 31, 2007

Era uma vez

Sempre que o relógio carrilhão ressoava as oito horas da noite, os três irmãos eram levados pela avó zelosa para o quarto. Otávio, de apenas dois anos, ocupava o berço que já fora de Rodrigo e de Paulo Temístocles, os dois maiores. Rodrigo, em seus nove anos de idade, já se sentia um rapaz feito e insistia para ficar acordado um pouco mais, mas a avó era taxativa: oito horas da noite, crianças na cama!

Naquela noite, Rodrigo não reclamou. Visitando o sótão da casa, ele e o irmão Temí haviam encontrado um livro antigo e grosso, empoeirado e com cheiro de Tia Rute. Na primeira página, lia-se em letras redondas um comprido nome de homem. Os dois irmãos combinaram que, naquela noite, iam esperar a avó sair do quarto para desvendar os mistérios daquele livro esquisito.

A avó saiu, e Rodrigo mandou Temí ir até a porta. Era tarefa do irmão do meio acompanhar com os ouvidos os passos da senhora a descer as escadas. O irmão, dois anos mais novo que Rodrigo, obedecia-o cegamente. Fez sinal para o mais velho assim que ouviu a avó se escorar na cristaleira lá embaixo. Rodrigo retirou Otávio do berço e os três foram para debaixo do beliche. Lá, o mais velho ligou a lanterna e posicionou-se para iniciar a leitura:

- Era uma vez…

- Lê direito, Rodrigo. Esse livro não é de “era uma vez…”

- Tá bem. “Temístocles Mena Barreto”.

- Esse não é o meu nome!

E não era mesmo – era o nome do bisavô, e se Temí interrompesse uma vez mais ele não lia era nada: guardava o livro no baú e ainda contava para a avó que o irmão de sete anos tinha mexido nas coisas dela. Temí ficou quieto, fechou a cara, mas continuou olhando o livro com interesse. Rodrigo abriu em uma página qualquer.

- Posso ler?

Temí fez um “sim” contrariado com a cabeça. Otávio repetiu o irmão. Balançou a cabeça muitas, muitas vezes, mesmo sem entender direito o porquê.

- Dia trinta e um de maio…

- Hoje? – Temí falou de improviso.

- Não, burro! Dia trinta e um de maio lá do tempo do avô do pai…

Temí não abriu mais a boca até a hora que a porta abriu e a avó acendeu a luz, já com um chinelo na mão.

Do volume de contos

 

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 21:07:56 | Permalink | Comments (1) »

Socorro conta uma grande aventura

'Moça de Guaratinguetá' - Di CavalcantiEu vou mover céus e terras.

Ela vai estar na saleta, contando dinheiro com Abigailzinha deitada no sofá, chorando sua vida sem dor. Vou sair do meu quarto e descer até a cozinha. Esperarei por Mercedes. Eu vou baixar as escadas sem estalar um osso sequer. Mercedes não vai me pegar, prometo, meu amor. A mulherzinha vai estar no pátio, estendendo os lençóis no varal dos fundos, cantando um desses boleros que ela tanto gosta. Ela vai esquecer a letra da música e voltar para dentro, para buscar mais inspiração e roupa úmida. Eu vou atravessar o terreiro e arriscar, e suar frio, e rezar sem palavra, mas vou entrar no quarto de Dona Amparo. Vou fazer isso por você.

Vou trancar por dentro a porta do quarto. Abigailzinha fecha-se lá quando desfruta de seu choro das tardes, e Mercedes não vai estranhar nada se não conseguir entrar. Não vou abrir fresta de janela, nem acender abajur. Vejo bem no escuro, tenho olho de cerzideira, enxergo bem o que quero muito. Vou procurar nas gavetas da penteadeira, nas caixas de chapéu, dentro das porcelanas, no fundo falso da caixinha de música de Abigailzinha. Por você. Vou encontrar o motivo. Por você, vou descobrir a razão. Furtado, por você.

Ela expulsou você, mas eu vou conseguir o recibo sem pagamento, a carta que denunciou você, o pedaço de passado que condena, Furtado. Vou resgatar você, e ficarei quieta atrás da porta até que o silêncio do pátio me deixe voltar para dentro da casa.

Vou entrar pé ante pé na cozinha. Mercedes vai me ver. Sobre os ombros, vestida de flor e decote, com seu sorriso de rameira. Cortando suas batatas, requentando feijão, com seus olhos verdes de bastarda. Eu não ligo, Furtado, eu nunca me importei. Nunca me enxergam mesmo, não me incomoda quando olham. E eu vou ter comigo a carta, o recibo, a condenação. Dona Amparo vai gritar pela Mercedes lá da saleta, talvez fale até meu nome, mas eu não vou ter medo. Já nada mais vai me interessar.

Vou encontrar você, Furtado, lá no navio. Vou falar que sou sua namorada, mas sei ainda é mentira. Os marujos vão fazer pouco caso, os sargentos vão rir, o capitão vai pedir satisfações. Vão duvidar de mim, caçoar de mim. Não, meu amor, eu não me importo. Eu vou lutar por você e enfrentar as Marinhas todas se quiser. Eu vou dizer que você me ama só para despistar os marinheiros. Vou deixar na sua mão o papel para que você volte, Furtado, na sua mão, para que você venha lá para a pensão de onde você não pode sair nunca. Nunca, Furtado. Eu não sei onde ele fica, o seu navio, eu nunca vi o mar, mas eu vou encontrar você, vou mover céus e terras até trazer um mar inteiro e nele o seu barco valente. Até aqui, na pensão, o mar e o seu barco.

E você vai voltar, Furtado, e entrar pela porta da saleta, e rasgar o recibo, e esfregar a carta maledicente, e dizer boas verdades na cara redonda dela. Quero ver Dona Amparo sem chão. Quero ver a soberba dela rolando por terra. Por você, Furtado. Para que nunca mais você me deixe. Para que olhem para mim e me vejam. Perto de você. Não quero mais a distância, a ausência, a calma inqueta. Não mais a vontade seca, a saudade sem passado. Não quero a solidão.

Quero que ela morra.

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 16:44:06 | Permalink | Comments (1) »