Friday, May 25, 2007

I don’t want my MTV!

A MTV já foi, em um passado não muito distante, o canal da música.  A programação básica da emissora era a exibição de videoclips, pequenos filmetes que tinham a intenção de apresentar ao público seus artistas.  Para um público acostumado a conhecer seus artistas favoritos pela música, a inovação teve ares de revolução cultural.  Os videoclips tornaram-se item obrigatório no sistema de divulgação dos músicos, foram aprimorados e tornaram-se, em muitos casos, curta-metragens com histórias completas, relacionadas ou não às canções que ilustravam.  A MTV cresceu em torno do interesse renovado por esse formato diferente de o público ouvir as canções preferidas.  Sim, a MTV já foi, em um passado não muito distante, a Music Television.  Hoje, os videoclips deixaram de ser o foco da programação da emissora, que ao menos aqui no Brasil aposta em programas de variedades e entrevistas de gosto duvidoso.  Sinal dos tempos?

Talvez o problema tenha raízes mais profundas.  Em entrevista recente, o grupo de rock inglês Deep Purple, falando sobre uma das faixas de seu novo álbum, Rapture in the Deep, denunciou a existência, nos Estados Unidos da América, de uma engrenagem imensa no mercado fonográfico que impede a divulgação do trabalho dos artistas em geral.  Movidos a dólares, radialistas, DJs, diretores de televisão e jornalistas teriam construído uma muralha virtual que lança no ostracismo músicos e cantores de qualidade ao incensar aqueles que os diretores de marketing das gravadores decidem que serão os hits do momento.  Quando começou sua carreira, o Deep Purple, uma das principais bandas de classic rock, tinham sua música tocada em diversas rádios - eram outros tempos, os DJs decidiam sobre a programação das rádios, havia liberdade total do que se podia executar em um programa de rádio.  De lá para cá, as rádios tornaram-se, pouco a pouco, nichos específicos deste ou daquele gênero musical, para logo em seguida caírem na linha de produção das grandes gravadoras e perderem sua naturalidade.  Para Roger Glover, baixista do Purple, a conseqüência disso é um empobrecimento da cultura musical do público: se antes em uma única rádio o ouvinte podia ter contato com jazz, r&b, blues, pop e outros gêneros, hoje a programação das rádios forma um público que não conhece nada além dos nomes que são incluídos na lista de divulgação das gravadoras, nem mesmo as outras faixas dos álbuns de seus artistas favoritos se estas não forem escolhidas como “faixa de trabalho” pelos marketeiros.

Para os países mais periféricos, caso do Brasil, os reflexos são ainda piores.  Sofremos uma invasão de música norte-americana - eventualmente alguma música britânica ou feita por músicos de outros países, mas cantada em inglês - e aos poucos construiu-se uma idéia estapafúrdia de que a música de qualidade é produzida apenas na língua de Shakespeare.  Vejam a nossa(?) MTV: quantas vezes, nos últimos tempos, viu-se alguma canção exibida naquela emissora que não seja cantada em inglês - exceção feita a alguns artistas nacionais, em geral bandas de rock pequenas que se tornam famosas a partir da insistência da emissora em divulgá-las ad nauseam em sua programação.  Lembro-me de ter assistido Caetano Veloso, Marisa Monte e alguns outros poucos nomes da MPB na MTV - onde estão agora?  Há que se desconfiar quando o que se vê na MTV é exatamente o mesmo cardápio de videoclips que se assiste em outros canais semelhantes, como o Mix TV.  Aliás, o menu é o mesmo das rádios, também - de repente, parece que o mundo musical se resumiu a meia dúzia de bandas de rock dos EUA, aos mesmos quatro rappers de sempre e a um punhado de cantoras de R&B.  Sem esquecer - porque a MTV brasileira não nos permite esquecer! - o sem-número de bandas de axé music de qualidade musical questionável, mas de fácil apelo comercial.

 A equação é simples: as emissoras dizem programar aquilo que o público gosta; mas se os telespectadores/ouvintes não conhecem nada além do que esses mesmos canais de televisão jovens lhes apresenta, como eles irão gostar de outras coisas?  Ouvir as rádios brasileiras ou assistir à MTV, hoje, é acreditar que o Brasil é um país de bilíngües fluentes em inglês.  A realidade é bem outra - pouquíssimos são os que conseguem ouvir uma canção em inglês no rádio e entender o que se passa… Se a língua não é uma barreira para a música, por que não se ouve, então, a produção musical de outros países?  Não haverá bons rappers na França, não se produz pop music no Japão, não há cantoras italianas de qualidade?  E o jazz espanhol, e o rock romeno, e a energia das canções de Bollywood?  Como explicar que o Brasil ignore por completo a música que se produz em Portugal, país que compartilha conosco a mesma língua? 

Nada disso chega até nós por uma razão muito simples: os diretores de marketing das grandes gravadoras - quase todas, com raras exceções, sediadas nos Estados Unidos da América, não têm interesse comercial na divulgação de tantos artistas do mundo que vivem à margem da programação das rádios e canais de televisão.  Mesmo a MTV, que com sua abrangência internacional poderia promover um intercâmbio maior entre os diversos países onde atua, ignora o mundo: em cada lugar onde estabelece seu canal de televisão, a MTV exibe apenas música em inglês e os artistas locais.  Por que levar para a Índia o videoclip de uma banda brasileira, ou trazer para cá um grupo de rap ucraniano, uma banda de rock russa, um grupo vocal alemão?  Simples: não gera lucro fazer isso, não está na cartela das grandes corporações que produzem CDs, DVDs, ídolos musicais.

E os VJs da MTV enchem os pulmões para proclamar sua independência, sua liberdade de escolha.  Mas trabalham, mesmo que de forma inconsciente, para um processo de colonização cultural que tem a mais torpe das razões por trás: o dinheiro, somente o dinheiro.

Posted by Frizero at 11:53:51 | Permalink | Comments (4)