Socorro sofre um abalo
Voz seca e crua tinha a Mercedes, quando ria da desgraça alheia.
- Dona Amparo quer ver você lá na saleta. Agora.
Socorro calçou os sapatos e desceu as escadas, apressada. Dona Amparo esperava-a na sala de estar do sobrado antigo, que os pensionistas chamavam de “a saleta secreta”, já que eram proibidos de freqüentar o lugar estreito e escuro. A dona da pensão obrigava-os a entrar pelos fundos. A porta da “saleta” era aberta apenas para as suas visitas pessoais, que eram raras e vetadas aos hóspedes.
A sala, com suas paredes cobertas por camélias esmaecidas, era dominada por uma bergère de espaldar alto, como Socorro sempre sonhou ter em seu quarto, para seus longos momentos de costura. Ao lado, um sofá confortável com um antigo xale de Dona Amparo e almofadas brilhosas que Abigail usava para descansar sua fraqueza quando ali se deitava, reclamando da vida para a avó postiça. Uma cristaleira repleta de pequenas figuras de louça tomava a parede próxima ao corredor, e o tamanho exagerado do móvel impedia os olhares alheios de quem subia as escadas. A um canto, um pequeno pufe compunha o único espaço vazio da sala diminuta, dominada por vasos de plantas murchas. Ali, Dona Amparo fez sentar Socorro com um gesto descuidado da mão gorda.
- Abigail viu você mexendo nas cartas. Você sabe que não quero ninguém mexendo nas cartas. E Abigail viu você pegando uma carta que é para o Furtado. Não quero mais saber disso, ainda mais sendo carta de outro pensionista. Mesmo no caso do Furtado, que não mora mais aqui.
Socorro ergueu o rosto, incrédula. Dona Amparo continuou a falar sobre cartas, hóspedes, dinheiro, disciplina e a coitada da Abigail fez um muxoxo do outro lado da saleta, mas a costureira estava em um redemoinho que fazia a sala girar, desgovernada. O sofá virou sobre ela e o rosto pálido da Abigailzinha, coberto pelo luto do xale, veio até seu colo como uma raquítica maldição. Dona Amparo saltou no ar, a bergère cavalgava sem direção e ameaçava lançar sua amazona inesperada sobre as pernas da costureira. As plantas desfalecidas cresciam sobre as paredes escuras e enchiam de um lodo pegajoso o papel de parede, cujas camélias tornavam-se mandíbulas ferozes que ameaçavam Socorro. Na cristaleira, pequenas pastoras degolavam cisnes, gatinhos mimosos de alvura eram pisoteados por menininhas em vestidos de tule, carruagens floridas atropelavam uma bela moleira que tentava quebrar os vidros do móvel com o corpo de um peixe sorridente, roubado de um idoso pescador de porcelana chinesa.
Furtado não morava mais ali. A bergère saltava, o sofá sufocava a pequena Abigail contra o chão lamacento, a porcelana selvagem digladiava-se dentro da cristaleira, o xale atava seus pés ao caule de uma descomunal violeta, mas nada importava. Furtado. Não haveria mais quem lhe sorrisse à mesa deserta do café da manhã, ou que lhe contasse histórias do porto distante, ou encostasse o braço em seu seio ao tentar alcançar as roscas de polvilho vazias. Que as ervas daninhas devorassem suas mãos: Furtado não mais repararia em suas unhas pintadas de rosa decente. Que os cisnes grasnassem até que ela enlouquecesse: Furtado já não sussurraria seus doces comentários sobre o gosto da fiambrada, a obesidade de Dona Amparo ou as anedotas de Marinha. Que um tropel de cadeiras esnobes lhe esmagasse o corpo: Furtado jamais iria elogiar seus vestidos novamente.
- E que isso não se repita, Socorro! Ou você será a próxima que eu irei expulsar desta pensão!
Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)
“Le Modele Vivant”, de René Magritte, pareceu-me encaixar com a idéia de um ambiente que é transformado pelas mudanças interiores da personagem abalada por uma notícia inesperada.
Hummm… agora entendi a mudança da (suposta) foto assustada da Socorro…
E é muito interessante “a idéia de um ambiente que é transformado pelas mudanças interiores da personagem abalada por uma notícia inesperada”… já vivenciei isso. rs
Legal!
Beijos, meu amigo.
A imagem que coloquei anteriormente para ilustrar o texto, uma das figuras femininas de Di Cavalcanti, pareceu-me uma revelação muito direta do teor do texto… Como a mudança de Socorro é bem mais interna que externa - ao menos tentei representar isso no texto - o “modele vivant” de Magritte ilustra melhor, que achas?