Menos índices, mais educação
Em 23 de maio de 2007, familiares de alunos e professores da rede pública de ensino do Rio de Janeiro saíram às ruas em protesto contra a nova configuração escolar a ser implementada nas escolas. Em Brasília, alguns dias antes, o Governo Federal anunciou mudanças nos programas de incentivo à manutenção das crianças em idade escolar. Ambas as medidas giram em torno de uma única e singular preocupação: a divulgação recente de que o Brasil só perde em termos de índices de repetência escolar para o Haiti.
Contudo, as medidas para solucionar o problema passam longe do investimento em educação, em melhoria da qualidade do ensino, em aumento dos professores e do número de docentes nas escolas. No Rio de Janeiro, adota-se a educação por ciclos, já que ela evita a repetência ao estabelecer que o aluno seja avaliado no decorrer de ciclos que duram três anos. Porto Alegre e mais duas capitais estaduais já adotam o modelo, que dá mostras de desgaste por aqui: muitos alunos, pela falta de estrutura que comporte a recuperação de conteúdos ao longo dos ciclos, terminam a educação secundária como analfabetos funcionais, mesmo nas melhores escolas públicas. Mas a educação por ciclos cumpre seus objetivos eleitoreiros: em uma palestra há menos de dois anos, um alto funcionário da secretaria de educação apresentou para uma platéia de educadores de todo o país uma estatística na qual Porto Alegre aparecia com índice de reprovação zero, no que foi largamente aplaudido. Claro que ele não enfatizou o fato de que o ensino por ciclos não reprova ninguém…
O Governo Federal tem um plano ainda mais mirabolante para resolver a questão: depois de descobrir, pelos números, que o Bolsa Família foi incapaz de reduzir os índices de repetência nas escolas públicas, o Ministério da Educação acena com um projeto que dará, ao final de cada ano, um bônus de R$ 240,00 (duzentos e quarenta reais) para cada aluno que não for reprovado. Em outras palavras, premia-se o aluno que cumpriu seu dever. Educadores já alertaram que a medida pode ser mais um tiro pela culatra do governo: professores serão pressionados pelas famílias para aprovar seus filhos, mesmo que eles não tenham condições de prosseguir para a próxima série, pelo mero desejo de garantir seu bônus…
Estão certos os pais e professores do Rio de Janeiro, que foram às ruas reclamar da idéia inovadora dos governantes. Enquanto continuarmos a fazer experimentos em educação, ao invés de pensar o tema em amplo debate nacional, no intuito de estabelecer um plano que tenha objetivos claros para daqui a dez, vinte anos, vamos continuar com medidas paleativas e paternalistas que servem apenas para maquear os números até a próxima eleição.
Bordão de um famoso comunicador: “Isso é uma vergonha!”
Abraços.
BLOG: Rascunhos na Net