Thursday, May 24, 2007

Socorro sofre um abalo

René Magrette - 'Le Modele Vivant'Voz seca e crua tinha a Mercedes, quando ria da desgraça alheia.

- Dona Amparo quer ver você lá na saleta. Agora.

Socorro calçou os sapatos e desceu as escadas, apressada. Dona Amparo esperava-a na sala de estar do sobrado antigo, que os pensionistas chamavam de “a saleta secreta”, já que eram proibidos de freqüentar o lugar estreito e escuro. A dona da pensão obrigava-os a entrar pelos fundos. A porta da “saleta” era aberta apenas para as suas visitas pessoais, que eram raras e vetadas aos hóspedes.

A sala, com suas paredes cobertas por camélias esmaecidas, era dominada por uma bergère de espaldar alto, como Socorro sempre sonhou ter em seu quarto, para seus longos momentos de costura. Ao lado, um sofá confortável com um antigo xale de Dona Amparo e almofadas brilhosas que Abigail usava para descansar sua fraqueza quando ali se deitava, reclamando da vida para a avó postiça. Uma cristaleira repleta de pequenas figuras de louça tomava a parede próxima ao corredor, e o tamanho exagerado do móvel impedia os olhares alheios de quem subia as escadas. A um canto, um pequeno pufe compunha o único espaço vazio da sala diminuta, dominada por vasos de plantas murchas. Ali, Dona Amparo fez sentar Socorro com um gesto descuidado da mão gorda.

- Abigail viu você mexendo nas cartas. Você sabe que não quero ninguém mexendo nas cartas. E Abigail viu você pegando uma carta que é para o Furtado. Não quero mais saber disso, ainda mais sendo carta de outro pensionista. Mesmo no caso do Furtado, que não mora mais aqui.

Socorro ergueu o rosto, incrédula. Dona Amparo continuou a falar sobre cartas, hóspedes, dinheiro, disciplina e a coitada da Abigail fez um muxoxo do outro lado da saleta, mas a costureira estava em um redemoinho que fazia a sala girar, desgovernada. O sofá virou sobre ela e o rosto pálido da Abigailzinha, coberto pelo luto do xale, veio até seu colo como uma raquítica maldição. Dona Amparo saltou no ar, a bergère cavalgava sem direção e ameaçava lançar sua amazona inesperada sobre as pernas da costureira. As plantas desfalecidas cresciam sobre as paredes escuras e enchiam de um lodo pegajoso o papel de parede, cujas camélias tornavam-se mandíbulas ferozes que ameaçavam Socorro. Na cristaleira, pequenas pastoras degolavam cisnes, gatinhos mimosos de alvura eram pisoteados por menininhas em vestidos de tule, carruagens floridas atropelavam uma bela moleira que tentava quebrar os vidros do móvel com o corpo de um peixe sorridente, roubado de um idoso pescador de porcelana chinesa.

Furtado não morava mais ali. A bergère saltava, o sofá sufocava a pequena Abigail contra o chão lamacento, a porcelana selvagem digladiava-se dentro da cristaleira, o xale atava seus pés ao caule de uma descomunal violeta, mas nada importava. Furtado. Não haveria mais quem lhe sorrisse à mesa deserta do café da manhã, ou que lhe contasse histórias do porto distante, ou encostasse o braço em seu seio ao tentar alcançar as roscas de polvilho vazias. Que as ervas daninhas devorassem suas mãos: Furtado não mais repararia em suas unhas pintadas de rosa decente. Que os cisnes grasnassem até que ela enlouquecesse: Furtado já não sussurraria seus doces comentários sobre o gosto da fiambrada, a obesidade de Dona Amparo ou as anedotas de Marinha. Que um tropel de cadeiras esnobes lhe esmagasse o corpo: Furtado jamais iria elogiar seus vestidos novamente.

- E que isso não se repita, Socorro! Ou você será a próxima que eu irei expulsar desta pensão!

Da novela

(2007)
(Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero at 16:37:03 | Permalink | Comments (3)

Menos índices, mais educação

 Em 23 de maio de 2007, familiares de alunos e professores da rede pública de ensino do Rio de Janeiro saíram às ruas em protesto contra a nova configuração escolar a ser implementada nas escolas.  Em Brasília, alguns dias antes, o Governo Federal anunciou mudanças nos programas de incentivo à manutenção das crianças em idade escolar.  Ambas as medidas giram em torno de uma única e singular preocupação: a divulgação recente de que o Brasil só perde em termos de índices de repetência escolar para o Haiti.

Contudo, as medidas para solucionar o problema passam longe do investimento em educação, em melhoria da qualidade do ensino, em aumento dos professores e do número de docentes nas escolas.  No Rio de Janeiro, adota-se a educação por ciclos, já que ela evita a repetência ao estabelecer que o aluno seja avaliado no decorrer de ciclos que duram três anos.  Porto Alegre e mais duas capitais estaduais já adotam o modelo, que dá mostras de desgaste por aqui: muitos alunos, pela falta de estrutura que comporte a recuperação de conteúdos ao longo dos ciclos, terminam a educação secundária como analfabetos funcionais, mesmo nas melhores escolas públicas.  Mas a educação por ciclos cumpre seus objetivos eleitoreiros: em uma palestra há menos de dois anos, um alto funcionário da secretaria de educação apresentou para uma platéia de educadores de todo o país uma estatística na qual Porto Alegre aparecia com índice de reprovação zero, no que foi largamente aplaudido.  Claro que ele não enfatizou o fato de que o ensino por ciclos não reprova ninguém… 

O Governo Federal tem um plano ainda mais mirabolante para resolver a questão: depois de descobrir, pelos números, que o Bolsa Família foi incapaz de reduzir os índices de repetência nas escolas públicas, o Ministério da Educação acena com um projeto que dará, ao final de cada ano, um bônus de R$ 240,00 (duzentos e quarenta reais) para cada aluno que não for reprovado.  Em outras palavras, premia-se o aluno que cumpriu seu dever.  Educadores já alertaram que a medida pode ser mais um tiro pela culatra do governo: professores serão pressionados pelas famílias para aprovar seus filhos, mesmo que eles não tenham condições de prosseguir para a próxima série, pelo mero desejo de garantir seu bônus…

Estão certos os pais e professores do Rio de Janeiro, que foram às ruas reclamar da idéia inovadora dos governantes.  Enquanto continuarmos a fazer experimentos em educação, ao invés de pensar o tema em amplo debate nacional, no intuito de estabelecer um plano que tenha objetivos claros para daqui a dez, vinte anos, vamos continuar com medidas paleativas e paternalistas que servem apenas para maquear os números até a próxima eleição.

Posted by Frizero at 14:20:28 | Permalink | Comments (1) »