Monday, May 21, 2007

A desumanização do sexo

No mesmo dia em que se anunciava a abertura de uma academia-museu do sexo em Londres, o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em seu caderno dedicado aos adolescentes publicava uma matéria sobre a primeira experiência sexual dos rapazes.  Na capa do caderno Kzuka do dia 18 de maio de 2007, um jovem ator que faz o papel de um garoto de programa em uma telenovela atual, Sérgio Marone, corrobora os argumentos machistas que muitos acreditavam estar desaparecendo no Brasil:

- Ao contrário do que alguns dizem, tu achas que pode ser legal perder a virgindade com uma garota de programa?

- Pode ser muito legal, sim, você pode ser bem instruído.  É óbvio que ela pegou preservativo, me ensinou e tudo o mais.  Influenciou para que eu tivesse minha sexualidade bem resolvida.

Sérgio MArone

Mais adiante, entrevista-se um grupo de amigos, quatro jovens universitários entre dezoito e vinte anos.  Eles falam da pressão que sentiam de seus colegas no Segundo Grau para que perdessem a virgindade, situação que resolveram de diversas formas: um deles relata que arrumou “uma namorada só para isso” e completa, rindo cinicamente, que “uma semana depois, o namoro acabou” e ele “não sabe por quê”; outro, relata que, com quatorze anos, ele e mais quatro amigos foram levados até uma prostituta pelas mãos do amigo do pai de um deles e que, quando contou ao seu pai, este considerou aquilo “normal”; um terceiro diz que a própria irmã “arranjou tudo” para ele viajar com uma amiga dela, a quem encarregou de iniciar sexualmente o irmão. 

Como o ator global, eles confessam, sem qualquer pudor, que freqüentam bordéis, onde vão para “tomar cerveja” e “conversar com os amigos”.  Dizem que não escondem o fato de suas amigas e namoradas por considerar que não há motivos para não contar que usam os serviços de prostitutas.  Um deles relata sem cerimônias que teve uma namorada que era virgem e que por três meses não mantiveram relações sexuais; ele então “ia em um bordel, porque homem tem suas necessidades”.  A namorada, segundo ele, “achava melhor [ele] ir lá do que se [ele] fizesse sexo com outra guria”, pois ela “não achava que aquilo era traição, porque [ele] não tava ficando com ninguém, só estava satisfazendo [suas] necessidades”.  Apoiando as palavras do colega, outro rapaz do grupo encerra a entrevista afirmando que “com homem não tem muito problema”, pois “uma prostituta não é tua namorada; é um trabalho”. 

O jornal preocupou-se em coletar outras opiniões - de psicólogos a meninas da mesma idade dos entrevistado e até mesmo rapazes que não concordam com as declarações dos rapazes acima citados.   Na suposta sutileza da entrevista e no estudado estudado tom jovial de toda a matéria, contudo, estão visíveis as falácias de sempre - a iniciação com prostitutas reafirmando a masculinidade, a necessidade sexual masculina que não aceita qualquer tipo de controle, a traição masculina vista como condição natural da espécie humana.  Mas o que mais revolta em toda a matéria é que em nenhum momento se pensa no outro lado da questão: a prostituição feminina.

A mitologia existente sobre a dita profissão mais antiga do mundo é desmentida por todos os estudos sobre o tema; as mulheres são levadas à prostituição por necessidade, por vitimação em situações de abuso sexual, vendidas pelos próprios pais, forçadas pela vida.  Ser prostituta não é uma atividade com a qual se sonhe tornar na infância; não é aceita pela sociedade, tampouco é meio de vida que se almeje.  As prostitutas não escolhem os homens a quem irão servir, não trabalham por conta própria e não entram nesse tipo de atividade por vontade própria. 

Aqueles que tratam com tamanha frivolidade uma atividade que se baseia na perda absoluta da dignidade fazem isso para aliviar suas próprias culpas.  Afinal, ao criar para si mesmos o mito de que a prostituta é uma prestadora de serviços - algo como uma podóloga ou um eletricista -, também costróem uma auto-imagem de alguém que não está a fazer nada demais.  Não raro o mito da prostituta feliz com o que faz é corroborado por fantasias que misturam a figura da universitária gananciosa que vende o corpo por altas quantias com a garota de programa glamourizada de Uma Linda Mulher - bela, espirituosa e a serviço de milionários charmosos e disponíveis - e a idéia de que muitas das mulheres da vida exercem o ofício por serem ninfimaníacas que unem o prazer ao sustento… Se há, entre as prostitutas, mulheres que se dizem felizes com o que fazem, essas são uma minoria, e pode-se facilmente questionar se, declarando-se satisfeitas com essa vida de miséria moral, não estarão apenas tentando salvar para si um pouco da alma que vão perdendo a cada noite de exploração vivida nas mãos de desconhecidos.

Quem duvida disso - em especial, os homens -, que se imaginem sendo obrigados a manter relações sexuais com qualquer pessoa que se disponha a pagar por seus serviços.  As prostitutas merecem o mesmo respeito que qualquer ser humano; não se trata de criminalizar as que vivem nesse submundo de crueldades.  Mas banalizar a prostituição é colaborar na perpetuação dessa forma moderna de escravidão feminina. 

Os que usam os serviços dessas mulheres merecem o mesmo tratamento dos que cuidam da questão de maneira tão frívola na imprensa, como o tal caderno adolescente de Zero Hora, em matéria infeliz publicada na mesma data estabelecida como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes:  são, esses sim, dignos de toda a reprovação do mundo.  A liberação sexual dos anos 1960, que via no sexo uma força política de libertação, deixou-nos de herança a possibilidade de se falar abertamente do assunto, de ver com outros olhos a diversidade sexual, de conversar sobre o tema dentro dos lares e em família.  Mas trouxe também efeitos deletérios, que vão da exacerbação da promiscuidade, da aceitação passiva de todo e qualquer comportamento sexual e da desumanização do sexo, força poderosa que está intimamente ligada à alma humana e que hoje passou a ser uma mera questão de performance que beira à competição, uma disputa que leva os jovens a buscar as prostitutas como se isso fosse uma situação inocente e normal.  Vê-se o sexo casual com estranhos como um avanço da modernidade e a prostituta como alguém que se contrata, e o dinheiro extrai dos usuários qualquer culpa. 

Se a prostituição fosse uma mera prestação de serviços, o mesmo pai que considerou “normal” que seu filho perdesse a virgindade com uma profissional do sexo não se importaria se a filha seguisse o mesmo exemplo, contratando os serviços de um garoto de programa ou, quem sabe, tornanddo-se ela também uma prestadora de serviços.  Há os que verão nessas palavras um forte moralismo, uma fala reacionária ou o que quer que digam para denegrir os que não vêem nas relações sexuais uma atividade humana sem maiores conseqüências.  Mas quando as coisas têm dois pesos e duas medidas, é porque um dos lados da balança ética está nitidamente descompensado.

Posted by Frizero in 02:43:24
Comments

5 Responses

  1. Sheila Telli Fabret says:

    Beto, em tempos de Mestrado e tempo curto não havia parado para ler o Kzuka. Li o seu comentário - mais com olhos de mãe do que de educadora e acredite, percebo uma ‘gurizada’ extraviada, sem qualquer ‘orientação familiar’, sem pai nem mãe. Na linguagem deles: ’sem noção!’ e com apoio de seus ídolos da TV…

  2. Renato Vasconcelos says:

    Frizero, muito legal o seu texto. No que se refere à parte “As prostitutas não escolhem os homens a quem irão servir, não trabalham por conta própria e não entram nesse tipo de atividade por vontade própria”, coloquei em destaque o trecho em q manifesto abaixo minha discordância.

    Há sim prostitutas que trabalham por conta própria e há sim as que entram neste tipo de atividade por vontade própria. Estas seriam uma minoria? Acredito que sim apesar de não possuir dados para embasar minha afirmação.

    O fato é que motivadas pelas péssimas opções de emprego (e salário), muitas meninas (e algumas realmente são) optam por esta forma de ganhar uma remuneração bem superior à que ganhariam trabalhando como trabalhadoras ordinárias (por favor, ordinárias no sentido de normais, regulares). É a simples mas lastimável opção de fugir de uma vida humilde para uma vida em que se faz um serviço desagrável mas se goza dos benefícios e vantagens que o dinheiro proporciona (desnecessário salientar a clara correlação positiva entre empobrecimento do país/comunidade vs. % de mulheres que se prostituem). Seria isso por ganância? Não sei se o termo seria tão forte, mas acredito que seria sim para ter uma vida financeira melhor. Estariam tendo prazer com a “atividade” ou como vc mesmo diz em seu texto “felizes com o que fazem”? Duvido.

    De qq forma, muito legal o seu texto, o qual retrata muito bem o lamentável machismo ainda presente, e permita-me acentuando-se, em nossa sociedade.

    Abraço,

    Renato Vasconcelos

  3. Algumas idéias espalhadas: há sim mulheres que escolhem os parceiros; muitas também entram por pura opção - pelo menos dizem isso abertamente; depois de Bruna Surfistinha, infelizmente o cenário mudou um bocado: veja aí também Vivi Fernandes (acho que é esse o nome), Alexandre Frota entre outros.
    Protituição infantil é sim o pior dos mundos, no nosso país Belém é uma verdadeira calamidade. Mas, não é só aqui na Rússia, Bulgária, Rep. Checa etc. é ainda pior.
    Aliás, se puder veja o filme: Lilya Forever (Para sempre Lilya). Mas, cuidado é pesado a começar pela música.
    Gostei do texto, muito bem alçado por entre os depoimentos, coisa rara até no jornalismo.

    Abraços e obrigado pela recente visita.

  4. Frizero says:

    Carlos, levantaste um ponto que em nada se contrapõe ao que digo, só reforça: o fenômeno “Bruna Surfistinha” é um claro sinal desses novos tempos em que o sexo foi banalizado e desumanizado; fico a imaginar que exemplo fica para algumas jovens essa fama repentina que a imprensa e os programas de televisão deram a uma garota de programa que nada mais fez a não ser revelar seus segredos de alcova. Em tempos nos quais as pessoas lutam para ser celebridades, não importa por que meios, “Bruna Surfistinha” é um acontecimento vergonhoso para nossos meios de comunicação, enfim…

    Questiono-me muito essa idéia de que as mulheres escolham a prostituição como forma de vida… Tenho claríssimo em minha mente que há esses casos em que as filhas da classe média ou alta vêem na venda do próprio corpo uma forma de obter dinheiro que não sairia jamais do bolos de seus pais. Mas é uma minoria. Menor ainda deve ser o número de mulheres que realmente escolhem seus parceiros e praticamente nulo o número delas que de fato nada sintam ao exercer a tal profissão.

    Em entrevista à imprensa, de cara limpa, divulgando o próprio nome, é a té uma forma de autodefesa ou autoconvencimento dizer que se entrou na vida fácil por vontade própria, e que sua ocupação é algo corriqueiro.

    A prostituição é uma chaga em todo mundo e alimenta-se da pobreza, do abuso e da violência contra a mulher. É contra esse mal que me debato. Fiz uma pesquisa há algum tempo sobre tráfico internacional de mulheres no Brasil e os números são assustadores. Por isso minha indignação com qualquer um que incentive a prostituição, porque no fim da linha há meninas raptadas, mulheres enganadas e lares destruídos.

  5. “Em entrevista à imprensa, de cara limpa, divulgando o próprio nome, é até uma forma de autodefesa ou autoconvencimento dizer que se entrou na vida fácil por vontade própria”.

    Verdade! Verdade? Freud explica. Explica?
    Tenho a mesma impressão, mas não sei se em todos casos.

    Volto para a recomendação que ficou meio perdida no comentário anterior:

    Se puder veja o filme: Lilya Forever (Para sempre Lilya).
    Chocante. Tom de realidade. Impossível ficar impassível. O ambiente criado no filme é para mim uma obra-prima.

    Abraços.

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